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Visões da revisão de textos acadêmicos

Visão da revisão de teses e dissertações

Revisão tradicional, em desuso

Existem muitos mitos sobre o ato e os processos de revisar textos, algumas visões equivocadas sobre a prática e concepções arcaicas que permanecem enraizadas nas percepções que os autores têm sobre a atividade do linguista. Por exemplo, em muitos casos, os revisores ainda são considerados como tendo (ou devendo simplesmente ter) compreensão profunda dos padrões e normas e aplicarem esse conhecimento indiscriminadamente a pessoas e escritos de qualquer gênero ou em qualquer situação de comunicação ou igualmente a todos os escritos que se lhes apresentem. Tratar revisores como verificadores de linguagem é uma atitude reduzida por parte do público (escritores e leitores) e linguisticamente impensada (por parte de profissionais das letras ou de estudantes. A prática arcaizante de seguir essas linhas de pensamento, para não as modificar, pode ser um dos motivos pelos quais ela ainda está disseminada em nossa sociedade, agora civilizada e informatizada, como linguagem cultural do grafite histórico. A cultura literária, textual, livresca, é entendida nessa visão ultrapassada como uma espécie de erudição sacralizada, quase sempre baseada na forma escrita, mas também na fala e nas estruturas canônicas da retórica e da persuasão.
Três visões sobre a revisão de teses e dissertações
Seria muito útil para quem escreve sua tese ter algumas noções sobre o processo de revisão delas.
Se a gramática tradicional (normativa e sedimentária) surgiu para sistematizar a fala de alguma elite, reforçando-lhe e estabilizando-lhe a hegemonia, uma estranha reversão ela causou: antes que a linguagem falada se tornasse norma por meio da escrita, ela passou a impor suas regras sobre como devemos falar e, decorrente e paradoxalmente, agir e ser. No momento, ainda somos gramática normativa, como pessoas e como sociedade; as palavras sempre são sugestivas: a norma não é apenas o que a sociedade impõe à língua, mas torna-se o que a língua impõe à sociedade – tal reflexibilidade parece fazer parte do status do revisor, em visão perversa, mas constitui seu carma, se a visão for apenas pessimista. Vamos nos lembrar de que nossa vida social é toda regida por textos aos quais as determinações dos gramáticos se impuseram. Não vamos aqui discutir a abolição das normas-padrão e do sentido cultural dos escritos, até porque eles desempenham múltiplos papéis complexamente relacionados em diferentes ambientes sociais – por exemplo: o presidente da república deveria adotar normas-padrão no enunciado, deveria pautar suas falas segundo a retórica sacramentada por certas elites, entretanto, pelo menos dois deles, bem recentes e de polos opostos, violam ou abandonam o gênero prescrito para suas manifestações públicas formais ou informais e, ao fazê-lo, alcançam segmentos populacionais de seu interesse eleitoral; não importa se o fazem conscientemente ou por ignorância, impulso, índole, a eficácia é a mesma. Portanto, o padrão de prestígio é multilíngue, socialmente segmentado, tem significado social e político variável e, se a escrita castiça goza de alto prestígio para alguns, sendo importante em meios bem específicos – a opção por ela ou pela fala decorrente de suas normas e gêneros não têm a mesma aceitação em todos os casos!
Ao se analisar o papel dos revisores, teremos que focar em o que é a revisão de texto e como proceder nela. Ultrapassando a densa nata do senso comum que atribui ao revisor o papel de fiscal da norma gramatical, percebemos que o próprio termo “revisão” tem muitos significados – em nossas publicações nos desdobramos em coletar definições e conceitos para o termo, até mesmo propusemos várias, não vamos voltar a isso agora. Se o revisor é volitivamente responsável por aperfeiçoar o texto alheio sem lhe afetar o conteúdo, ao comparar a revisão com o texto original, a primeira constatação é a de que a pretensão não se alcança. A contrassenso, pretender aperfeiçoar o documento sem afetar o conteúdo dele é inexequível; portanto, o revisor deveria estar limitado a erros tipográficos – eis a falsa segurança em que muitos linguista se ancoram e o porto seguro buscado por autores para quem os textos são a procela.
A modificação do original feita durante a escrita é referida como “reescrita” (atividade eminentemente autoral), mesmo que consista simplesmente em detectar uma letra ou vírgula que faltou, podemos dizer que a escrita e a reescrita fazem parte do “artesanato” do texto; a revisão propriamente é feita na etapa “industrial”, ela é processada após a redação do documento e antes da impressão final. O revisor segue as palavras da obra em todas suas estruturas: frases, parágrafos, capítulos, ele está atento à redação: o gênero, o discurso e a retórica, tanto ou mais quanto aos erros do autor, cabe-lhe evitar elementos alienígenas (dados soltos, informações desconexas, estrangeirismos, anacolutos) que possam se infiltrar no escrito e observa qualquer conteúdo que possa prejudicar a boa reputação da casa (a editora) ou do autor. Revisão é também atividade relacionada à organização, padronização e adequação do original. Esses pontos são chamados de preparação no ambiente editorial, como desdobramento da revisão. No que toca aos textos acadêmicos, a imposição de padronização extratextual é mais conhecida como formatação (aplicar os formatos – ABNT, APA, Vancouver – preconizados para as teses, dissertações, artigos). Já demonstramos a amplitude da revisão, aqui só indicamos mais uns pontos em que ela se distancia do patrulhamento linguístico pressuposto.
Cada etapa de revisão está relacionada a um tipo específico de evidência (linguística, social ou comunicacional). Em princípio, para eliminar completamente os problemas, seria necessário coletar o máximo de evidências possível, todavia, a rotina da revisão é basicamente a seguinte: a) confrontar o original com a evidência regulatória: norma, gênero, retórica, discurso – conforme mencionado acima, por dois revisores (idealmente); esse trabalho seria feito no início; concluído o primeiro exame (revisão primária), seria razoável comparar o serviço à obra original, pois, nessa fase primária, já é feita inserção e amputação de elementos do original; b) confrontar o texto revisado com a mensagem pretendida – depois de comparar o original às evidências, um terceiro revisor vai fazer nova “passagem pelo texto”, checando todas as interferências e usar o original apenas para verificação da manutenção do sentido pretendido pelo autor; aqui já estamos apresentando uma proposta de revisão cara, demorada e não condizente em custos e prazos de muitos projetos; sim, seria um processo de revisão ideal, mas é bem pouco real; nesse sentido, infelizmente, ainda estamos mais perto do revisor solitário, o antigo fiscal da língua, que agora se desdobra em múltiplas tarefas – e que será cobrado por suas falhas, como se o exercício da revisão absolvesse a pessoas, por sua erudição, da condição humana; c) revisar as provas recém-impressas (boneca ou boneco – sem conflitos de gênero), pois a diagramação e a programação visual podem inserir problemas, erros, e desvios de leitura intersemiótica no supertexto; formalmente, essa etapa é múltipla no ambiente editorial (ou deveria ser), pois os defeitos insistem em se imiscuir a cada transformação do documento, aproveitando-se da permeabilidade que a atividade coletiva cria; em outros tipos de revisão, a de textos científicos, por exemplo, as impressões nem mesmo alcançam o revisor, até por razões orçamentárias, ficando claro que os limites financeiros nenhuma visão moderna da revisão ultrapassa.

Revisão moderna, o discurso

O revisor deve ter visão crítica do tipo de texto a ser trabalhado, não apenas considerar os aspectos linguístico-normativos da escrita e monitorá-los, também lhe cabe apreender todos os recursos semióticos (não verbais) que são responsáveis por construir efeitos de sentido no discurso, em contexto, e assegurar seu emprego coerente e afinado com a retórica autoral. O fio condutor dessa visão é a análise do discurso, trata-se da proposição interdisciplinar que se desenvolve pela triangulação de três conceitos: discurso, gênero e retórica, sendo a ideologia o elemento que perpassa essa trilogia.
O discurso surge primeiro como parte da ação, ele antecede a fala e o texto, ela precede e sucede à reflexão. De acordo com o discurso, podemos distinguir diferentes tipos de elocução como formas de interação discursiva. Em segundo lugar, o discurso aparece nas representações que sempre fazem parte da interação social, agora já como sucedâneo da reflexão – as representações do mundo material, as representações de práticas e as representações reflexivas de práticas linguísticas relevantes. O conceito de discurso é usado pelos linguistas, e pelos revisores – em particular, de três maneiras. Primeiro, como substantivo abstrato, tem significado linguístico ou semiótico; trata-se da língua em ação, tal como é realizada pelo falante, inclusive como sinônimo de “fala” ou figurando em igualdade de sentido na dicotomia língua-discurso (ou língua-fala, na oposição saussuriana), ou como segmento contínuo de fala maior que a sentença, no âmbito da análise do discurso. Em segundo lugar, o discurso surge como elemento da vida social, mais especificamente, como narrativa, tem o sentido de forma específica de representar parte do mundo (real ou imaginada) e como raciocínio que se realiza por meio de movimento sequencial que vai de uma formulação conceitual a outra, segundo encadeamento lógico e ordenado, aqui o sentido é filosófico e se opõe à intuição. Terceiro, a combinação de elocução e expressão corporal e imagética que constitui o modo específico de ser, a identidade social ou pessoal específica; trata-se também da série de enunciados significativos que expressam formalmente a maneira de pensar e de agir ou as circunstâncias identificadas com certo assunto, meio ou grupo. Os conceitos de discurso e gênero são amplamente usados em várias disciplinas e em teorias que não nos afetam em nossa espécie.
A abordagem de gênero é usada em estudos culturais, estudos de mídia, fotografia, cinema, teatro, dança, ela é instrumento analítico para o estudo do discurso. Estamos sempre usando a expressão “gênero” em seu sentido textual, no qual, diferentemente do âmbito de gênero literário, ele se refere às diferentes linguagens empregadas nos textos, que podem ser mais formais ou menos, e até se mesclarem (como subgênero, ou mais “promiscuamente”) no mesmo documento; porém, o documento será descrito e categorizado pelo gênero prevalecente ou por aquele definido pelo emprego (finalidade) que terá; assim, as falas de pessoas entrevistadas para uma tese serão transcritas em segmentos que representem como possível a elocução original, todavia, não constituem subgênero acadêmico, contudo, o resumo ou os agradecimentos que aparecem nas dissertações universitárias são caracteristicamente subgêneros (ou gêneros derivados) e são, inclusive objeto de estudo separado por linguistas. Esses conceitos, discurso e gênero, existem em diferentes disciplinas e teorias, podendo serem usados como pontes entre si, pois o diálogo entre eles abre caminho para o desenvolvimento de outros entendimentos sociolinguísticos e, portanto, podem ser aplicados como o foco do diálogo entre autores, revisores, editores ou como instrumento metarreflexivo, inclusive em artigos científicos de linguistas. Já o conceito de retórica, no sentido que apontamos, é advindo do clássico trivium, em que ele conjugava com a gramática e a lógica – dois elementos que consideramos, em nossa estrutura, parcialmente amalgamados ao terceiro.
Outro ponto teórico importante para explicar a relação do triângulo do discurso é que a fala aparece nele como parte da prática social – modo de comportamento, de representação, de existência; a escrita é outra prática social, decorrente da fala e influente sobre ela, entretanto, distinta dela. Há correspondência ideal entre discurso e ação, gênero e representação, identidade e estilo, retórica e elocução – e assim por diante. Gênero, discurso e retórica correspondem a comportamentos, representações e métodos de reconhecimento duradouros e relativamente estáveis, estabelecem os registros, as memórias, apresentam as proposições e as imposições, os três explicam, suplicam e implicam. O gênero não pode ser visto apenas como comportamento socialmente imposto ou evento pessoal em situação específica. Ele é importante para a manutenção da estrutura institucional da sociedade, a qualquer tempo, concomitantemente, decorrente dela assim como concorrente em sua transformação. Ademais, o gênero, e aqui se inclui sua eventual desconstrução e reconstrução, é importante para a ereção do status do indivíduo e de sua manutenção, mas pode dar causa a sua derrocada.
O gênero do texto não deve ser analisado isoladamente dos componentes não verbais do discurso – são aspectos imbrincados. É necessário considerar como identificar apropriadamente elementos verbais e não verbais ao estabelecer o significado, para se inferir a retórica do discurso.
A análise e a revisão de texto não podem consistir simplesmente em descrever o produto isoladamente ou interferir nele impunemente. O escrito deve ser analisado a partir de dois patamares: um é tentar compreender todos os aspectos dele como elementos da prática discursiva, especialmente como traços do processo de produção textual e continente das pistas do processo de interpretação; o outro patamar tenta apreender o sentido que é construído na interpretação da produção, na revisão e na interpretação do produto. Aspectos e explicações estão embutidos na prática social mais ampla e são interdependentes. O foco da interpretação é o papel do discurso, do gênero e da retórica, ele está na construção, duplicação (reprodução, espelhamento), passando pelo desafio e pela reorganização do sistema de conhecimento e crenças inerentes à representação social e textual da realidade.
A análise do discurso orientada para o texto nos mostra dois campos analíticos: conjunções e argumentação. Transmissibilidade e temas. Comunicabilidade e substância. Em primeiro lugar, os tipos de textos diferem na forma de relações estabelecidas entre suas orações e nas formas de coesão sustentadas por essas relações, constatando-se que essas diferenças podem ter significado cultural ou ideológico. Ao analisar esses dois tópicos, a coesão lida com a conexão (conjunção) de ideias em sentenças e a ligação (conjunções) entre sentenças e parágrafos e, assim, sucessivamente. Isso se dá por meio de semantemas do domínio comum, invocação e repetição de palavras, emprego de sinônimos, apelo a citações e substituições catafóricas ou anafóricas (pronomes, artigos definidos, palavras demonstrativas, reticências) e conectivos cujas significâncias sejam eficazes por serem partilhadas.
Por meio da análise da coesão textual, podemos conhecer o argumento utilizado, bem como o modelo racional e retórico que ele assume. Por sua vez, pode-se perceber a identidade social construída no texto e o espírito expresso pelo sujeito – o autor ou ele mesmo, travestido de personagem. A análise de coesão enfoca a relação funcional entre as orações, ela pode ser usada para estudar os esquemas retóricos ou as arquiteturas (roteiros) em vários textos distintos. O processamento de transitividade é codificado em sentenças e entre os participantes envolvidos. Os dois principais processos são relacionais, nos quais os verbos marcam a relação entre os participantes (ser, possuir, tornar-se) e o processo de ação – o agente atua em direção ao objetivo.
Estuda-se a transitividade no processo de apassivação da linguagem (o agente pode não estar presente) e da nominalização (verbo, agente ou objeto omitido). É muito comum, em teses ou dissertações, por exemplo, o uso de construções passivas (por opção do autor, ou por imposição de orientador) no sentido de se tentar transmitir a ideia de impessoalidade, distanciamento, isonomia e cientificidade; no entanto, o que se consegue, em boa parte dos intentos, é mascarar a ideologia subjacente – como se fosse possível. Como se a persona do autor pudesse desaparecer ex ante a obra. A finalidade dessa análise de transitividade, para o revisor, é verificar se ação, causalidade e atribuição de responsabilidade estão claramente especificadas no texto, o que é também indício de que a escolha do tipo de processo revisional pode ter significado político e ideológico. A persona do revisor não desaparece ex post escrito e revisado. Em relação ao tema, os revisores verificam os elementos da linguagem que aparecem no início (tema) e no final da frase, pois sua interpretação em uma ou outra posição está relacionada à ideologia – priorização e ênfase são altamente significantes. Portanto, o tópico é o ponto de partida do autor do texto na frase e, geralmente, corresponde ao que pode ser considerado fático ou fictício (não se requer que o tópico seja verdadeiro, pois os textos ficcionais também requerem tópicas, parte do enunciado identificado gramaticalmente ou por elementos contextuais, sobre a qual se faz a declaração).
A ambiguidade no texto literário pode servir como recurso estilístico, mas, em outros casos, existe a obsessão pela linguagem precisa; claro que tal fixação não passa de veleidade: a pretensão se dissolva na fluidez das palavras e na evanescência das ideias. Por sua vez, a publicidade usa a ambiguidade geralmente como recurso (literário) eficaz para causar impacto, inclusive histriônico. Do ponto de vista do discurso, a ambiguidade é problema semântico, ou virtude, mas pode ser vista como questão ideológica. A imprecisão, ambiguidade, anfibologia é fenômeno relacionado à multiplicidade de sentidos dos enunciados. Esse fenômeno ocorre desde que a frase tenha múltiplos significados, por isso, é fácil explicá-la ou entendê-la de diferentes maneiras, pode-se inclusive desejar todos os significados extraíveis da construção, o que é muito da poesia. Além de tudo, a ambiguidade pode ser lexical. Quando a estrutura da frase não revela a ideia correspondente em sua superfície, pode ser de natureza sintática.
Do ponto de vista do discurso, quando a ambiguidade não está no sentido das palavras nem na construção das frases, mas no sentido implícito, pode-se dizer que é ambiguidade retórica. Segundo a inferência do intérprete, a mesma frase pode ter sentido diverso, dependendo de sua posição, de sua compreensão do mundo, de seus interesses e intenções. A ambiguidade do discurso é parte integrante de todo fato de comunicação, pois não há atos discursivos implícitos sem um ou mais interlocutores que serão sujeitos personalíssimos em suas interpretações.
Continuemos a explorar outro fenômeno do discurso, a coerência, que se define como o uso sistemático dos mesmos critérios para casos similares. A consistência, com que muitas vezes a coerência se confunde – para o bem, ou para o mal – é essencial para a unidade e organicidade das obras coletivas e de referência, bem como para as obras individuais longas que pretendam organicidade (do conto à dissertação, do romance à tese). A continuidade que muitos chamam de coerência ou coesão está mais próxima do que chamamos de uniformidade: manter os padrões do gênero revisado constantes e constatáveis. Portanto, é necessário distinguir coerência no sentido que o autor entende a partir da perspectiva do discurso implícito e em função do leitor – eis o papel do revisor moderno.
Nesse método e abordagem revisional, a coerência está relacionada à estratégia de processamento de texto, que é consistente com o conceito de linguagem como atividade interindividual produzida em contexto social e dirigida ao público-alvo. Do ponto de vista da geração e da compreensão, o processamento de texto também deve ser considerado continente de características sociolinguísticas e sociocognitivas inerentes à atividade linguageira dos intercessores. Nesse mesmo método de revisão, destaca-se que o texto é considerado um conjunto de pistas, representadas por elementos da linguagem em várias sequências, selecionadas e dispostas de acordo com a virtualidade que cada língua proporciona ao falante ou ao escritor durante o processo da elocução, a fim não apenas de proporcionar a geração de sentido comunicacional, mas para sustentar a própria interação como prática sociocultural.
Nas atividades de produção de textos, os intercessores mobilizam diversos sistemas de conhecimento com representamem da memória, bem como um conjunto de cognição social e estratégias de processamento de texto. Conhecimento enciclopédico ou conhecimento de mundo é o conjunto de dados armazenado na memória de todos, seja ele conhecimento declarativo (proposições sobre fatos mundiais) ou conhecimento situacional (modelos cognitivos e conhecimentos adquiridos, determinados pela sociedade, pela cultura e pela experiência). Com base nesse modelo, por exemplo, as hipóteses de uma tese são propostas a partir do título – ou deveriam ser. Há expectativa de que o campo do vocabulário seja explorado no texto, mas hipercondensado na chamada original (título e subtítulos – inclusive dos segmentos do documento, capítulos e tópicos), produzindo inferências e abrindo lacunas ou incompletudes que se possam preencher na superfície do texto.
Conhecimento de interação é o conhecimento sobre atos de fala, sobre a forma de interação por meio da linguagem. Contém conhecimento do tipo não verbal, comunicativo, implicando metacomunicação e superestrutura. É o conhecimento não verbal que nos permite reconhecer o propósito que o falante ou escritor deseja alcançar em determinada interação. É o conhecimento sobre o tipo de alvo (ou tipo de ato comunicacional), que geralmente se expressa por meio de enunciados característicos, embora esses alvos sejam muitas vezes executados de forma indireta, o que exige do revisor e interlocutor o domínio dos conhecimentos necessários para a interpretação do código.
O conhecimento da superestrutura ou modelo de texto global permite que o texto seja reconhecido como exemplar de um gênero específico; também envolve conhecimento sobre categorias macro ou unidades globais que distinguem vários subgêneros, sua ordem ou sequência e objetivos; cada proposição tem conexão entre os pressupostos e a estrutura global do escrito. Esse conhecimento também inclui práticas específicas do ambiente social e cultural dos sujeitos, bem como o domínio de estratégias de interação, como proteção facial (poker face), representação ativa de si mesmo, polidez, negociação e reconhecimento prévio de insuficiências ou mal-entendidos na comunicação. Isso é obtido por meio de estratégias de processamento retórico conhecidas como prolepses.
A consistência está diretamente relacionada ao uso do texto (finalidade, público-alvo) e tem o atributo de interpretação. Escrito coerente é aquele cujos componentes (frases, parágrafos…) estão relacionados a significado, a despeito de ter muitas significâncias. Deve-se acrescentar que o texto é coerente com a pessoa que nele vê o significado, ela pode inferir a relação desses significados mesmo sem elementos claros de coesão. Quando a explicação é aceita, as condições da proposição são acolhidas, o que é fator importante no trabalho de pensamento textual e no discurso intersubjetivo. Mas, ao contrário, pode haver conflitos com o que foi postulado.
Os textos são utilizados em diferentes ambientes sociais e variam de acordo com sua natureza, origem, finalidade e miscigenação: receitas de bolo não podem ser consideradas textos científicos, mas teses e dissertações podem incluir receitas culinárias. O consumo da carta de amor pode ser individual ou ela tornar-se documento público compartilhado em crônica ou na dissertação de literatura ou psicanálise. Alguns textos são transcritos, lidos e eternizados, outros são esquecidos imediatamente: existe permanência ou provisoriedade em textos. Alguns escritos mudam primeiro de natureza e depois se transformam em outros textos: a receita médica pode se transformar em dados estatísticos, cartas de amor podem provocar a guerra, tratados celebram paz, algumas escrituras têm poder transformador de atitudes, crenças ou práticas pessoais, algumas se torna sagradas – mesmo sem terem tido revisores, ou por terem tido incontáveis intercessores (copistas, revisores, tradutores) ao longo dos séculos, de São Gerônimo a Lutero.

Perspectivas da revisão de teses

A pesquisa sobre o gênero acadêmico há muito se dissocia daquela do campo da literatura ficcional, orientada a partir da perspectiva da arte literária. Teses são vistas como textos pragmáticos, pouco criativos e perfeitamente aderidos a modelos canônicos. Nesse campo, das teses e dissertações, os estudos sempre se concentraram na análise das diferenças entre as gerações e na segregação da vida social, ou na constatação da aderência das estruturas aos modelos preconizados. Entretanto, esse gênero não é considerado forma de discurso que se diferencie no campo da ideologia, mas considera-se que ele mantém o terreno comum na natureza da linguagem. Da mesma forma, embora no campo da retórica científica as pessoas prestem mais atenção à natureza verbal dos gêneros, como a atitude do autor em relação ao leitor e sua influência na estrutura do discurso, as pesquisas nessas áreas ainda abrangem o comum do cânone, na análise crítica do discurso, ou a variância na linguística computacional. No contexto da linguística estrutural, essa natureza comum das teses não é afetada porque a pesquisa se limita aos gêneros do cotidiano nas universidades, ou ao subgêneros do trabalho longo. Ao contrário desse tipo de visão reducionista dos escritos científicos, outros métodos foram desenvolvidos, incluindo semiótica, retórica e análise do discurso. Resumir a teoria da análise do gênero tese implica quase simplesmente determinar os aspectos comuns e contabilizá-los.
Portanto, o interesse pela teoria do gênero acadêmico e suas aplicações não está mais limitado a um grupo específico de pesquisadores em um campo ou departamento específico. A questão das teses e dissertações como produto desenvolveu-se e assumiu relevância mais ampla do que se imaginava e levantou várias questões, discutindo categorizações, críticas literárias, retóricas, sociológicas, análises cognitivas, e invocando especialistas em tradução – inclusive automática, linguistas da computação e especialistas em análise da fala, especialistas em revisão e tradução de artigos, dissertações e teses – o que configurou não só um campo do conhecimento mas um mercado de serviços altamente especializado, portanto, objeto de interesse como campo de conhecimento.
A natureza da revisão para textos universitários é multidisciplinar. A teoria de gênero leva a análise do discurso à descrição e à interpretação da linguagem, geralmente tentando responder à seguinte pergunta: por que os membros daquela comunidade discursiva específica usam a linguagem a sua maneira? A resposta considera não apenas fatores sociais e culturais, mas também cognitivos, portanto, não apenas tenta esclarecer a finalidade comunicativa do grupo discursivo em questão, mas também tenta esclarecer as estratégias cognitivas e retóricas adotadas por seus membros para atingir esses objetivos. O aspecto estratégico e finalístico da estrutura do gênero tese, sua interpretação e uso, pode ser um dos fatores mais importantes que contribuem para seu estudo no campo da pesquisa do discurso, da comunicação e da revisão.
De tal modo, o gênero acadêmico deve ser analisado para mostrar as semelhanças de suas várias manifestações, para identificar algumas questões importantes já levantadas ou que ainda permanecem omissas na literatura recente e para discutir o impacto dessas questões no desenvolvimento posterior de uma teoria para a revisão de textos no universo da produção de conhecimento.
A análise de gênero é o estudo do comportamento da linguagem em contexto acadêmico ou profissional. Independentemente de ser tipo retórico de ação metacognitiva no contexto das teses, de haver regularidade nos processos sociais de tais construções orientadas por objetivos, ou da consistência no propósito da comunicação, não importa como se olhe para a questão, a teoria do gênero acadêmico tem fundamento comum considerável, embora as orientações sejam diversificadíssimas. O gênero que inclui as teses e dissertações possui as seguintes características: a) enfatiza o conhecimento tradicional e dá completude a cada subgênero; b) propões universalidade na descrição do tipo; c) embora pareça um tanto contraditório ao primeiro ponto, existe a busca de inovação, a própria noção de tese implica novidade, de algum modo. A ideia seria a permanência na forma e a inovação no conteúdo – a própria rigidez retórica visando privilegiar o objeto material, o conhecimento; paradoxalmente, alguns autores atentam ao primeiro aspecto, que lhes causa espécie, em prejuízo do segundo – com que teriam mais afinidade.
Em relação ao conhecimento convencional, o gênero acadêmico define-se basicamente em termos de uso da linguagem no contexto da comunicação científica, que desperta o propósito comunicativo específico de grupos sociais e disciplinares especializados (a comunidade universitária, pelo menos como um dos polos), e se estabelece pela forma estrutural relativamente estável e, em certa medida, eivada de restrições ao uso de recursos lexicais e gramaticais. Em síntese, na literatura sobre gênero científico, há pelo menos três aspectos convencionais inter-relacionados que se destacam, essenciais para a discussão: a) o propósito comum da comunicação; b) a regularidade da estrutura e da organização; c) a pretensão de objetividade.
O propósito comum de comunicação está entrelaçado no contexto retórico, relevante para o grupo de sujeitos vinculados. Avançando para a forma da linguagem, é possível determinar as leis típicas que geralmente delineiam as formas estruturais e organizacionais da estrutura geral, na verdade, a tese é o arquétipo disso. Portanto, para alguns fins de aplicação, especialmente o ensino de produção acadêmica, o conceito de contexto retórico poderia mais geral, sendo responsável por subsidiar estrutura necessária onde o objetivo da comunicação pode ser localizado, e o objetivo da comunicação é iminentemente considerado como um propósito. Gramática, lógica e retórica como forma de discurso e de produção escrita.
O conceito de propósito comunicativo parece ser o mais importante na teoria dos gêneros quando aplicada à produção ou à revisão de teses e dissertações. Por um lado, ele é usado para inserir o produto no contexto retórico específico e, por outro, é usado para determinar a escolha específica da estrutura e da forma léxico-gramatical. A teoria de gênero toma o propósito comunicativo relacionado à situação retórica específica como padrão de privilégio, combinando as vantagens da visão mais geral do uso da linguagem, por um lado, e sua realização muito específica, por outro.
Não importa qual método seja adotado, o denominador comum é sempre a institucionalização e os aspectos admissíveis da estrutura do gênero (inclusive se sobrepondo aos aspectos estéticos e de criatividade, de inovação e de disponibilidade). Os gêneros textuais na universidade não foram criados da noite para o dia. Eles se desenvolverão ao longo séculos e são reconhecidos por se tornem totalmente padronizados. Nessa perspectiva, a teoria de gênero atribui grande importância aos aspectos institucionais, formais, canônicos da construção, revisão e interpretação de escritos acadêmicos.
Um dos aspectos mais importantes da teoria de gênero é sua versatilidade, que funciona em vários níveis. Ela é um modelo teórico usado para descrever em sentido estrito a relação entre: a) texto e contexto; b) o uso da língua pelas pessoas e o que o torna possível, especialmente no contexto de cultura específica de assunto, de grupo ou de interesses; c) língua e cultura em sentido amplo de arte. Pode-se ver a versatilidade das descrições de linguagem com base em gêneros em diferentes tipos de escrituras científicas. Destacando-se, o próprio conceito de propósito comunicativo é muito geral, embora devesse ser aplicado com mais propriedade e frequência no âmbito dos textos científicos.
Por um lado, o conceito de gênero pode ser identificado em espectro amplo da produção literária e, por outro lado, pode ser restrito a um foco muito específico. Pode haver um propósito único ou um grupo de propósitos de comunicação muito detalhados em cada formulação de gênero. De acordo com a generalidade e o grau de detalhamento do propósito de comunicação designado, as pessoas podem alcançar as condições para identificar mensagens específicas e usar convenções gerais. O propósito da alternância é ponto polêmico na teoria de gênero. Por exemplo, o propósito da comunicação científica pode ser fator importante na identificação de gênero, mas não é o único, porque o conceito de propósito é disperso e até mesmo o gênero tese pode ter múltiplos propósitos.
Outra questão sobre esse tema é que estamos nos referindo ao gênero do discurso científico e ao gênero do texto acadêmico em particular. A escolha não é apenas terminologia, mas também importantes implicações teóricas e metodológicas. Ambas as linhas estão enraizadas em diferentes releituras do legado de Bakhtin.
A pesquisa e a revisão que usam a teoria dos gêneros textuais tendem a recorrer ao plano descritivo equivalente à estrutura ou forma – o plano se aplica a conceitos herdados da linguística textual (tipos, protótipos, sequências típicas) e os compõe Por outro lado, o gênero textual tende a limitar o aspecto da importância da linguagem, ao determinar os parâmetros do ambiente de pronúncia – não para esgotar a descrição da linguagem do texto, mas apenas para enfatizar a marca da linguagem causada pelo significado relevante e pelo assunto do discurso.

Perspectiva discursiva da revisão de teses

A discussão dessa visão recomeça com a questão dos conceitos de gênero. A proposta é, em primeiro lugar, rejeitar a suposição formalista de que gênero é o conjunto de dispositivos específicos e constantes com formas dominantes definidas por sequências de texto: gênero não é o cânone. Definido dessa forma simplista que buscamos afastar, o gênero é entendido mecanicamente como dispositivo. Ao analisar o desenvolvimento conceitual do gênero, acreditamos que se trate de enunciado típico, não de sequência regular de texto. Em outras palavras, gênero é a representação socializada de enunciados com características comuns específicas (regularidades), geralmente construídas historicamente nas atividades humanas, em interação relativamente estável e reconhecível pelo público-alvo.
Os vários campos da atividade humana estão sempre relacionados ao uso da linguagem, porém, os métodos de uso são tão diversos quanto os próprios campos da atividade humana, e são realizados na forma de declarações orais e escritas, as quais são específicas e únicas, derivadas do desenvolvimento da linguagem de cada grupo. Desse modo, é impossível compreender o enunciado sem considerar a situação e os sujeitos, pois o discurso, como fenômeno de interação social, é determinado pelas relações que o originaram. Existe ligação efetiva entre o enunciado e a situação social, ou a fusão da situação dela com o enunciado, ela mesma faz parte de si e é essencial para a compreensão do próprio significado.
Essa afirmação reflete as condições e finalidades específicas de cada campo cognitivo, não apenas por seu conteúdo (tema) e por seu estilo de linguagem: a escolha com base nos recursos da linguagem (vocabulário, frase e recursos gramaticais) e, talvez o mais importante, na estrutura composicional. Em relação ao campo social, o reflexo das condições de produção pode ser observado nos tipos de julgamentos, dentre elas, observam-se as regras específicas diretamente relacionadas ao campo normativo da vida social. A geração e a revisão do texto acadêmico seguem muita ritualização, portanto, o gênero tese apresenta estrutura esquemática mais rígida.
Quanto à estabilidade da composição do gênero acadêmico, qualquer discurso ou evento discursivo considerado isoladamente é individual, mas cada campo de uso da linguagem explica seu tipo de discurso relativamente estável, o que chamamos de gênero do discurso. Visto que a diversidade virtual das atividades humanas é infinita, cada campo dessa atividade inclui vários repertórios que se adaptam e se expandem com o desenvolvimento do próprio campo social. Historicamente, os gêneros foram formados e estabilizados a partir de novas situações de interação oral ou outras novas situações de elementos simbólicos na vida social que se estabilizariam nesses campos. Assim o é com o gênero tese: nascido no medievo, mantém em nossos dias as peias do trivium.
É preciso compreender a relação entre gênero e história. Cada gênero é constituído dialeticamente e desempenha certo papel normativo na comunicação verbal (a norma é a coerção social). O mesmo tipo ocorre de maneiras diferentes em diferentes períodos históricos. Por exemplo, um ingresso de cinema e um e-mail pessoal têm a mesma função social: a interação entre pessoas. Mas, considerando a diferença de suporte (“telas” de papel e telas de computador), o gênero evoluiu historicamente, as funções desempenhadas por um gênero passaram a ser desempenhadas por outro gênero. O gênero tese mantém sua função ao longo dos séculos, em qualquer suporte: é muito estável (ou estagnado!). As teses são as mesmas, impressas e encadernadas ou em um arquivo de Word ou Adobe (PDF). Entretanto, a revisão de textos desse gênero evoluiu, se ampliou, tem a dinâmica de nossos tempos.

Perspectiva retórica da revisão de teses

Na pesquisa retórica, o gênero é definido por alguns autores estando relacionado a discursos, públicos, modos de pensar e estratégias ou formas de situações. O estudo do gênero tese é valioso porque contribui para criar uma taxonomia e enfatizar os aspectos históricos da retórica que permanecem, a despeito dos século desde que desse gênero está estabelecido. A definição efetiva de gênero tese, atualmente, não deve ser centrada na essência ou forma do registro, mas deve estar centrada na ação para atingir seu propósito. Portanto, acreditamos que é importante examinar o gênero acadêmico e as condições recorrentes de sua produção e de sua revisão, bem como a representação de tal gênero, como atos retóricos típicos. Desse modo, um modelo hierárquico de comunicação, como a tese, pode ajudar a esclarecer a natureza e a estrutura desse ato retórico e propor um princípio de seleção de semelhanças que pode nos dizer muito sobre a classificação, sobre o que se espera do produto, adotando a revisão como um recurso finalístico eficaz. Se essa proposição ajuda a compreender os princípios de funcionamento do discurso e colabora nele finalisticamente, ela é eficaz retoricamente – ela reflete amplamente a experiência da pessoa que cria, que revisa e que interpreta o discurso. As convenções são princípios de classificação úteis, assim para a maneira pela qual os leitores e ouvintes devem compreender a fala que usam e a que os usa.
Nesse método retórico de revisão, o gênero se torna elo entre a intenção e o efeito, o que é um aspecto do comportamento social. O gênero é parte da explicação retórica, do caminho do percurso social do texto: o estado de motivação (ideologia) do autor, autoafirmação e reiteração, purificação ou sua subversão. Falar de racionalidade é aplicar princípios pragmáticos de classificação em ação. Retórica é racionalidade, revisão é aplicar racionalidade.
Na retórica textual, a palavra gênero se limita a um tipo específico de classificação do discurso, a classificação baseada na prática, portanto, é mais aberta que o cânone e organizada em torno do comportamento situacional, mais pragmático que sintático ou semântico. Mais finalista que ritualista. A classificação de gênero acadêmico é metodológica: tenta explicar o conhecimento criado pela prática. Para tratá-lo como gênero potencial, o discurso comum não torna trivial a pesquisa sobre esse gênero, mas leva as palavras e situações a sério. Revisão de teses leva as palavras e situações a sério.
Há três questões centrais para a compreensão a revisão do gênero tese em relação à retórica:
  • é necessário (re)estabelecer a relação entre retórica textual e seu contexto de situação, é fulcral a compreensão do gênero tese como ação retórica;
  • cabe compreender a maneira pela qual o gênero tese funde elementos situacionais a elementos formais e substantivos;
  • é preciso localizar o gênero acadêmico na escala hierárquica de operação intelectual que reúne um conjunto de elocuções semelhantes quanto ao uso linguístico.
Na mesma perspectiva, a noção de gênero é forma e recurso para coordenar melhor nosso comportamento de escrita e de revisão, pois é reconhecer-se a forma típica de comportamento comunicacional. De acordo com esse recurso cognitivo, cada vez que escrevemos ou revisamos, criamos um enunciado para a nova situação, o que pressupõe a interação que devemos imaginar ou constatar. Como revisamos no reino do discurso cognoscível e reconhecível, mobilizamos algumas ferramentas conhecidas ao implementar nossas atividades revisionais, permitindo-nos perceber possibilidades, expressar intenções e tornar nossas intervenções úteis aos leitores. Portanto, a teoria e a pesquisa de gênero nos ajudam a identificar o espaço social que medeia a comunicação científica.
A análise de gênero deve se concentrar na forma e no discurso. Sugerimos que os revisores realizem microanálises da linguagem e do discurso como forma de examinar suas áreas de atuação, acreditamos que possam, assim, construir a consciência retórica do gênero em pauta.
Partindo de diferentes campos de pesquisa, como literatura ficcional, literatura acadêmica, retórica e linguística, quatro perspectivas teóricas sobre gêneros textuais são consideradas para nortear os conceitos de gênero aplicáveis à revisão. Em suma, na literatura ficcional, o gênero terá valor social e cultural no atendimento às necessidades recreativas e emocionais dos grupos a que se destine. Nesse caso, é importante que os revisores entendam como a comunidade entende o gênero, para atender à demanda do texto. Do ponto de vista da literatura acadêmica, o princípio da estabilidade do gênero está relacionado a identificar como o autor mantém as convenções, cabendo ao revisor, em perspectiva maquiavélica, não só o papel de fiscal da gramática, mas da instituição e do setor hegemônico que a controla. Na retórica, o interesse do revisor se situa na classificação dos diferentes tipos de discurso, tomando como exemplos as categorias de expressão, persuasão, literatura e referência. Do ponto de vista linguístico, a tendência é conduzir a microanálise das sentenças, não a macrossíntese do gênero ou da retórica. Essa é a razão pela qual pouca atenção tem sido dada aos gêneros no campo da revisão, exceto para os linguistas que se opõem a vincular o termo “linguística” a estudos literários. Esse tipo de resistência também foi encontrado em muitos casos de profissionais de revisão.

Perspectiva semiótica da revisão de teses

A perspectiva semiótica dessa revisão que propomos se vê como amalgamada à teoria do gênero textual que não mais se limita ao estudo de seus recursos verbais e não ignora o estudo dos diferentes sistemas de símbolos usados na construção do significado. Em primeiro lugar, o quadro de referência que propomos vai contra teorias relacionadas a fragmentação do conhecimento. Nossa ênfase teórica enfatiza o conceito de hibridização e a forma pela qual o conceito de gênero apresenta elementos que vêm de múltiplos contextos discursivos e de várias categorias textuais. Fator igualmente importante para nós é ser, na perspectiva de nossa proposta, impossível revisar mesmo o texto do gênero tese sem se considerarem os elementos não verbais – estejam eles presentes ou subjacentes ao escrito. Isso nos põe a refletir sobre a validade das atividades de revisão que ignoram os aspectos multimodais do gênero, que desconhecem as hibridizações das teorias analíticas e que professam qualquer alinhamento linguístico com visão monista.
Nossa visão é diferente da semiótica tradicional, que abstrai o ambiente social em que o sistema é usado, enquanto ignora o estudo da relação complexa entre o sistema semiótico e a prática social. O gênero acadêmico implica texto que codifique as características e a estrutura dos eventos científicos com a finalidade de estabelecer o discurso dos participantes desses eventos. Portanto, o tipo de texto acadêmico (oral ou escrito), por expressar vários graus de ritualização, por expressar os aspectos convencionais dos costumes universitários, constituído pela relação de ritos próprios.
Tudo isso envolve o quadro de referências que lida com gênero como teoria da prática social, por isso, é inevitável abordar as questões relacionadas às condições de produção e aceitação do gênero textual em tela; questões relacionadas ao suporte de gênero e à circulação; o problema central desse tipo de revisão está relacionado aos diferentes sistemas de significados que interagem com o texto verbal na composição do gênero acadêmico.
A análise do discurso é baseada na dialética que afirma que os enunciados são integrantes da prática social. O discurso combina várias formas de semiótica – linguagem escrita e falada, comunicação não verbal (expressões faciais, movimentos corporais), imagens registradas (filmes, fotos) da prática social combinada a imagens obtidas de outros processos criativos (gráficos, esquemas, tabelas). Apesar da importância do conceito de gênero, o estudo do gênero tese não tem sido tratado de forma sistemática, como se observa em trabalhos de pesquisadores que adotam explicitamente a tradição da análise de gênero.
A influência da análise do discurso nos estudos de gênero está se expandindo tanto doméstica quanto internacionalmente. No entanto, sua principal preocupação não é estudar especificamente os tipos de texto em função deles mesmos, mas estudar o papel geral da linguagem na geração, manutenção e mudança das relações de poder. Portanto, a importância dos conceitos de texto e discurso para a pesquisa de gênero. Texto é entidade física, produto da linguagem de um ou mais indivíduos, discurso é o conjunto de princípios, valores e significados por trás do texto. Todo discurso está investido de ideologia, forma específica de conceber a realidade – e de procurar transformá-la ou preservar-lhe determinados aspectos. Outro conceito discutido é o discurso como prática social. Na análise crítica, o discurso é considerado forma de prática social, realizada, no todo ou em parte, por meio de textos específicos.
O revisão do discurso acadêmico, entendido como conceito e objeto de prática social, entendida como intercessão qualificada, possui três sentidos, que se resumem a seguir:
  • mediar segundo o princípio pelo qual os indivíduos agem pela linguagem;
  • interferir com base no princípio de que há sempre relação bidirecional entre o discurso e as estruturas sociais;
  • interceder considerando os recursos cognitivos dos indivíduos que produzem, editoram, avaliam, distribuem e interpretam textos.
Para ampliar o conceito do primeiro item, tanto a fala quanto o gênero estabelecem a posição do sujeito, ou localizam de alguma forma a posição dos atores sociais. No âmbito dos eventos sociais dos quais os participantes participam, e na perspectiva do valor mais amplo da organização, o local do tema é onde os participantes sociais podem dizer o papel que podem desempenhar para representar o local do evento social. Quanto ao poder constituinte do discurso, a razão pela qual ele tem tal função é que o indivíduo estabelece ou cria a realidade social por meio da capacidade discursiva. Com isso em mente, observa-se que o discurso goza dos privilégios de três aspectos da criatividade na seguinte composição: a) formas de conhecimento; b) relações sociais; c) identidades.
Ao discutir essa abordagem, apresentamos os traços e as pistas das convenções sociais sobre documentos acadêmicos. Portanto, surge uma pergunta: por que a relação entre linguagem e estrutura social é frequentemente opaca, e a agenda natural, quase invisível e oculta, é ignorada? A resposta pode estar na chamada domesticação da realidade criada pelo discurso. Considerando que o conceito de naturalização está associado ao conceito de opacidade, recomendamos descobrirem-se os significados não óbvios ou as agendas ocultas. Trata-se de tentar identificar no texto traços e pistas que reflitam os discursos da estrutura social, que são benéficos para certos grupos de indivíduos ao invés de outros. A maior parte desse tipo de análise estuda métodos institucionalizados para manter o poder (hegemonia) de grupos dominantes no contexto contemporâneo, visualizando ou avaliando estratégias mundiais (ideológicas). É frequente a revisão ser subserviente a tais propósitos; fica a pergunta: isso é parte de nossa missão?
O gênero não pode ser visto apenas como comportamento ou evento pessoal em situação específica. Ele é importante para a manutenção da estrutura institucional da sociedade contemporânea, a relação estrutural entre Estado, empresas, universidades e mídia. Portanto, segundo ele, as pessoas podem considerar tais instituições como parte da governança das instituições sociais, o que tem significado muito amplo para qualquer atividade dentro da sociedade, visando regular ou gerir outras redes de prática social, inclusive as editoriais e, em nosso caso, a revisão como práxis e mediação.

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