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Teses, dissertações, artigos: linguística da revisão

Gramática, lógica e retórica na revisão de teses

O trivium e os textos científicos modernos

O mundo extremamente complexo e está em constante mudança, nele o conhecimento é pedra angular e os cientistas, autores de textos acadêmicos como teses e dissertações, precisam estar preparados para dominar esse ambiente de múltiplas facetas. Além do conhecimento técnico e científico, esses pesquisadores também devem possuir instrumentos cognitivos para atingir determinadas de habilidades de comunicação, incluindo a percepção, compreensão e assimilação plena de vários campos da realidade; capacidade de análise e síntese de conhecimentos, bem como instrumentalização linguística para a interpretação e comunicação eficazes. Os autores de textos acadêmicos dotados desse aparato transformam os resultados de suas pesquisas em valiosos modelos de transmissão do conhecimento construído, revisado ou criticado. Diante disso, a premissa básica de nosso argumento será a utilidade das ferramentas da retórica clássica para a produção e na revisão de textos técnico-científicos – assim como para a produção e comunicação acadêmicas.
A revisão da tese compreende gramática, lógica e retórica.
As teses têm origem medieval e sua base era a gramática, a lógica e a retórica.
As diversas técnicas e os conhecimentos adquiridos nas práticas científicas e transmitidos pelos registros escritos (a produção de textos, da comunicação à tese), são prejudicados pela insatisfatória experiência escolar regular da atualidade, que não permite obter instrumental de linguagem satisfatório, o que seria essencial para a compreensão adequada da realidade e para a transmissão do conhecimento. A gramática, a lógica e a retórica (o trivium medieval) deveriam ser matéria de todos os graus de ensino, porque constituem a necessária arte da comunicação: ler, escrever, falar, ouvir, entender, interpretar. A proficiência nessas artes da linguagem leva à reflexão e à compreensão mais eficazes, promovendo assim o autodesenvolvimento em paralelo à aprendizagem e às habilidades de ensino – transmissão do conhecimento, permitindo que os autores acadêmicos se tornem disseminadores de ideias e conhecimento mais competentes.
O estudo das artes do trivium – gramática, lógica e retórica, compreendendo as artes da linguagem – foi a base do ensino desde a antiguidade. Na verdade, o trivium desempenha papel seminal em toda a formação intelectual na Idade média, ensinando a arte das palavras nos preparatórios para as universidades, por meio desse conhecimento é possível lidar com ideias relacionadas a elementos fáticos e abstrações superiores. A gramática integra o conjunto de símbolos e regras que formalizam a linguagem para nos comunicarmos por meio de diversos processos cognitivos, pensando, falando, ouvindo, lendo, compreendendo e interpretando. A lógica, que é a análise, avaliação e prova racional dos argumentos, fornece mais racionalidade ao conhecimento sobre a realidade, para que possamos agir e nos comunicar corretamente. Por fim, a retórica é a arte da comunicação estruturada, da argumentação e da persuasão. As artes da linguagem, também referidas como artes liberais, são associadas a características importantes da prática acadêmica. Mais à frente, trataremos da relação entre essas artes liberais e a revisão de textos científicos, apontando alguns aspectos da contribuição que o linguista profissional aporta aos escritos e como nossa contribuição, advinda das artes da linguagem, participa da construção e transmissão de conhecimento.
A língua é imprescindível em qualquer atividade humana porque ela é meio de comunicação e de interação social por excelência, entretanto, a linguagem não é só comunicação, ela também permite aos indivíduos compreender melhor a realidade antes de a explicar, possibilitando julgamentos mais corretos, debates mais interativos, conduzindo o pensamento crítico e a análise de informações complexas, consolidando tudo na forma conhecimento a ser partilhado. Na academia, os autores devem ter habilidades específicas para os diferentes processos ligados ao conhecimento, porém, entre elas, a linguagem é a mais importante por ser instrumental em todas as situações de aprendizado e ensino.
As artes liberais incluem as ferramentas básicas da linguagem – gramática, lógica e retórica – de forma completa e interconectada. São ferramentas a serem usadas em ampla gama de aspectos práticos da vida universitária, depois de serem bem dominadas. Além disso, o trivium afeta traços de personalidade dos cientistas, promove a interação social e prepara o pesquisador para enfrentar as variáveis ambientais, permitindo-lhe obter melhores resultados intelectuais e profissionais.
Para o autor que deseje sucesso na vida acadêmica, o domínio das artes liberais é essencial, pois elas ensinam o pensamento em si, ou seja, a lei a ser seguida ao pensar e ao expressar o pensamento. Na verdade, esse é o objetivo da gramática, da retórica e da lógica: operacionalizar de forma geral o raciocínio, extrair a abstração das ideias para a aplicação nas coisas.
O pensamento está intrinsecamente ligado à comunicação, que se conecta à linguagem, todos estão relacionados à ciência e à transmissão do conhecimento. Qualquer “ruído” nessas conexões causa interferência nas funções cognitiva, e, por conseguinte, na transmissão de conhecimento; é competência do autor de um texto científico, em primeiro lugar e, depois, do revisor do texto, filtrar e melhorar todo o processo comunicativo no artigo, na dissertação ou na tese, por meio do uso adequado das artes da linguagem. O uso de gramática, lógica e retórica faz com que a produção acadêmica, além da ciência, inclua também a arte, onde houver algum conhecimento (ciência) haverá coisas para fazer (arte); A excelência consiste em alcançar a interação máxima entre o conhecimento e as artes. O estabelecimento da linguagem acadêmica canônica (produção e consumo de textos do gênero acadêmico, com fixação de seus modelos formais) ajuda a criar um ambiente comunicacional mais eficiente, pois os interlocutores terão reduzidas as barreiras comunicacionais.

Teses, dissertações e as artes da linguagem

As artes liberais (da linguagem) são disciplinas acadêmicas ensinada nas escolas desde a Idade Média e seus conceitos oriundos da Antiguidade Clássica. Seu nome deriva do latim liber, que significa liberdade, porque elas visam o ensino de homens livres, em oposição às atividades (artes) para fins econômicos; a finalidade das artes da linguagem não é formar pessoas para ganhar a vida, mas para a busca e transmissão da ciência – esse é o significado estrito do termo.
As artes liberais têm significado muito especial, porque seu desenvolvimento tem história de mais de três mil anos e nunca se interrompeu. Elas são divididas em dois grupos: o trivium e o quadrivium. O primeiro está relacionado aos estudos da linguagem: gramática, lógica (dialética) e retórica. O segundo envolve pesquisas físicas e matemáticas: aritmética, geometria, astronomia e música.
O trivium constitui a arte de pensar e nos guia para reconhecer e compreender corretamente a realidade, bem como para interagir com ela e com os demais sujeitos sociais por meio da linguagem. Quando nos comunicamos, essas três artes atuam juntas, como bases para o desenvolvimento geral da consciência, do pensamento, da expressão. A gramática, que inicia a sequência de aprendizagem, é a arte de inventar símbolos e combiná-los para expressar ideias e coisas, vale dizer, aprender a utilizar os vários mecanismos da linguagem para descrever os produtos da percepção física (os cinco sentidos). No entanto, o conceito de gramática está muito além de seu escopo inicial, pois ela é a essência da linguagem e do pensamento, sendo a principal ferramenta para classificar dados reais por meio do conjunto de símbolos permanentes e comandos coerentes. A gramática estabelece a coerência do patrimônio de conhecimentos que todos adquirem, possuem e transmitem. Em suma, a gramática é o conhecimento experimental de técnicas de escrita, que aparece de forma comum entre poetas e prosadores de uma língua.
Nas artes liberais, ou no universo pragmático, o objetivo principal da gramática é propiciar o uso prático da língua como forma segura de adquirir e transmitir conhecimentos. O domínio da gramática levará ao domínio da linguagem e da boa comunicação, mas não só isso, a gramática não é apenas ferramenta de representação para expressar pensamentos, ele constitui, acima de tudo, instrumento para a formação de pensamento abstrato e procedimental. O mundo é um fluxo de impressões sensoriais sempre mutáveis que devem ser organizadas por nossos pensamentos – o que, em grande parte, significa que o universo exterior ao indivíduo deva ser estruturado e apreendido pelo sistema de linguagem. Por sermos parte contratante de uma convenção imposta, constituída pela língua, devemos isolar, analisar e sintetizar a natureza dos elementos que a compõem, atribuindo significados a ela e ao universo cognoscível; para tanto, usamos a convenção existente em nossa comunidade linguística, o idioma. Claro, esse acordo é implícito e tem registro apenas nas obras dos gramáticos, mas sua terminologia é absolutamente compulsória como nomenclatura ou como arcabouço semântico. Sem subscrever tacitamente a organização e a classificação dos termos estipuladas pela convenção, não podemos sequer falar, muito menos ler ou escrever. Portanto, apresentamos aqui o princípio da relatividade segundo o qual, a menos que os sujeitos tenham origens semelhantes e dominem o código partilhado, ou possam ser introduzidos a ele, não serão movidos pela mesma evidência física e pelo mesmo universo perceptível. É possível definir eventos, coisas, objetos e relações de acordo com a natureza, mas defini-los sempre envolve retornar à categoria gramatical da linguagem definidora. A gramática expressa todos os estados da mente e da alma – cognição, vontade e emoção – em termos de afirmação, pergunta, desejo, oração, comando e exclamação – nesse sentido, o escopo da gramática é mais amplo que a lógica. Portanto, em teoria, a gramática é a organizadora das ideias individuais, palavras e símbolos, e da relação entre o pensamento e a realidade, por meio de interação entre essas ideias, relações e sujeitos.
O estudo da gramática leva à melhor compreensão da realidade, pelos conhecimentos que podem ser obtidos de forma sistemática, categorizados e metodicamente processados, sejam eles reais ou ilusórios, racionais ou irracionais, concretos ou abstratos, deduzidos ou inferidos. Portanto, nesse processo cognitivo, cada sujeito perscruta a realidade, mas as pessoas precisam de lógica para apreender significados; portanto, é necessário descrever o universo logicamente. Sob esse entendimento, a lógica ensina a perceber e falar corretamente, a se envolver em debates acalorados, distinguindo entre o verdadeiro e o falso nos argumentos e nos dados. A lógica tem dois sentidos racionais principais: o da pesquisa filosófica e o da eficácia operacional. No primeiro sentido, a lógica é principalmente objeto das disciplinas de filosofia, matemática, ciência da computação – lógica da ciência “pura”. No segundo, ela se aplica a todas as artes pragmáticas e às técnicas – ciências aplicadas. Ambos os sentimentos são baseados no foco comum: a harmonia de raciocínio, a proporcionalidade formal entre os argumentos e, portanto, a relação correta e equilibrada entre todos os termos e a consistência geral de cada proposição.
Quanto à lógica e sua integração com a dialética, embora o conceito medieval também esteja ligado à doutrina cristã com sua visão espiritual, a integração da duas também é algo bem antigo. A origem da dialética está relacionada à arte do diálogo (διαλέγεσθαα) na tradição filosófica grega. A arte do diálogo se baseia nos padrões logicamente consistentes do interlocutor e os confrontar metodicamente por meio das afirmações do próprio sujeito (maiêutica). A lógica-dialética foi inserida nas artes da linguagem da educação geral, passando a significar a arte do debate em todos os aspectos. Posteriormente, o termo dialética tornou-se sinônimo (em sentido lato) de lógica formal na tradição escolar.
A lógica é a ciência do raciocínio. É o melhor desenvolvimento da razão para estabelecer a relação efetiva entre os fatos do pensamento e a realidade, produzindo conhecimento das coisas. Usamos as principais operações do espírito – concepção, julgamento, raciocínio e comando – como formas de explicar e compreender o mundo que nos rodeia sem ser um lógico para usá-las, porque nossa própria razão nos fornece os meios. Entretanto, para saber se usamos a razão corretamente, se há erros ou defeitos nas operações cognitivas, para identificar razões para esses problemas e para nos ajudar a entender melhor a natureza da razão, recorremos à lógica.
A lógica é a arte das artes, o conhecimento dos conhecimentos, a ciência das ciências, a lógica é a metacognição pura, porque a lógica orienta diretamente o ato de raciocinar, assim como orienta todos os outros comportamentos humanos para seu propósito adequado, estabelecendo os meios que determinam os fins. O pensamento lógico orienta o raciocínio perfeito; na expressão da linguagem, ele requer o bom uso da gramática e o uso efetivo da retórica. De todas as artes da linguagem, a lógica é a primeira e mais comum, a segunda é a gramática e a última é a retórica, porque a razão pode ser usada sem se falar e as palavras podem ser usadas sem razão. Colocamos a gramática em segundo lugar, porque a palavra pode ser usada corretamente sem as figuras de retórica, mas é impossível haver retórica sem lógica.
A realidade é formada por inúmeros fatos e suas explicações. Para interagir adequadamente nesse ambiente é preciso entendê-lo. É preciso ter habilidades cognitivas reais. Quando um indivíduo compreende mal, ou quando ele aceita a interpretação errada da realidade por outros, sem usar a razão e a lógica, o erro pode aparecer no indivíduo: ninguém se furta às críticas ad hominem. Portanto, é fácil tirar a conclusão de que a lógica é essencial para que nossos pensamentos reflitam adequadamente a percepção e interpretação da realidade, ou o entendimento dela que tenham outras pessoas. Ela pode nos guiar com mais segurança, reduzir erros relacionados à verdade e colabora para nos manter longe de falsidades.
A capacidade de discernir a verdade das mentiras é respeitada. A precisão do pensamento é crucial para todos os aspectos e processos da vida, notadamente no ambiente acadêmico. Distinguir a verdade do erro não é apenas necessário na ciência, mesmo podendo ser difícil, mas também é questão diária que afetas as pessoas quem produzem conhecimento, que debatem e pensam sobre a natureza e acerca das ideias. Os cientistas estão, por toda parte, enfrentando caminhos alternativos – alguns são verdadeiros, outros estão errados – então, a razão deve escolher dentre deles. Cientistas devem escolher constantemente e aqueles que fazem más escolhas fracassam. A habilidade de discernir a verdade é a habilidade mais importante da mente do pesquisador e do autor de textos acadêmicos – segue-se a habilidade de registrar (escrever) as observações.
É impossível encontrar a verdade sem usar a lógica corretamente, talvez seja possível ter um vislumbre dela por meio de algum método que não está no escopo desta discussão, mas levará mais tempo e não se estará no campo do conhecimento científico.
Depois da gramática e da lógica, a retórica é a última das três disciplinas relacionadas às artes da linguagem. A retórica é o método de escolha de recursos apropriados para expressar de forma convincente o raciocínio e as conclusões por escrito ou verbalmente, por meio da gramática e da lógica. A retórica é a arte de comunicar ideias entre os sujeitos, ou de adaptar a linguagem ao ambiente, o que é uma virtude quase equivalente à sabedoria.
A lógica é a arte das artes linguísticas, a retórica é a arte mestra das artes. Esse jogo de palavras é retórica pura. Nesse sentido perverso, pejorativo mesmo, retórica é o emprego de procedimentos enfáticos e pomposos para persuadir ou por exibição; discurso bombástico, enfático, ornamentado e vazio, discussão inútil; debate em torno de coisas vãs; logomaquia. Mas não é disso que se trata na retórica das artes linguísticas, como veremos adiante: trata-se mesmo de evitar tais comportamentos indesejáveis. Vamos abordar a retórica como processo lógico, portanto, precisaremos dissertar sobre a lógica como processo psicológico, consequentemente, individual. O processo retórico é essencialmente social, por isso, é o método interativo que pode ser utilizado para construir e transmitir conhecimento, contribuindo para a compreensão da realidade. Além disso, como parte de sua essência, a lógica tem a capacidade de persuadir pensadores a compreender o conhecimento como verdade, ainda que transitória. Gramática, lógica e retórica são três vias que se cruzam e se complementam; dominar as três é essencial para a compreensão mais precisa da realidade. Nessa visão, sofistas e estoicos, gregos e troianos concordam que sabedoria, virtude e poder político pragmático são conquistas simultâneas e inseparáveis das habilidades decorrentes das artes linguísticas.
Buscar persuasão na retórica envolve três comportamentos: é preciso saber o que dizer, como dizer e a maneira bem estruturada de dizer. Os principais componentes da retórica são a invenção (inventio – descoberta sistemática de argumentos persuasivos), disposição (dispositio – organização dos argumentos na composição verbal), estilo (elocução – elocutio – expressão verbal, refere-se ao uso de elementos de estilo voltados para correção, clareza, plenitude e decoração), memória (o registro) e expressão (pronunciatio – ou uso correto da língua ao falar ou escrever).
A retórica é a realização das artes linguísticas. Quando gramática, lógica e retórica não podem ser integrados, o resultado pode ser desastroso para o cientista ou suas teses, porque a linguagem cria tanto o universo individual quanto o representa. O mau uso da gramática, a falha de lógica e a ausência de retórica distorcem o universo cognitivo, levando à insanidade e confusão.

Revisão de textos e as artes da linguagem

Revisão de tese e gramática

A revisão de uma tese ou dissertação é a aferição adequada de todas as características linguísticas (gramática, lógica, retórica) de seus segmentos e do conjunto macrotextual em condições específica, trata-se de um sistema de específico de interpretação e intervenção destinado a controlar variáveis cognitivas, comunicacionais, ambientais e acidentais para criar uma fusão de ideias, conceitos e dados entre os leitores e em torno dos elementos que compõem a estrutura canônica. Trata-se de um conjunto de ações para conquistar a meta comunicacional.
A capacidade de revisar é essencialmente linguística. Revisão é o conjunto de julgamentos sobre o texto, tem base nas considerações sobre ele, sobre seu objeto, objetivo e público-alvo. A revisão considera o texto como estrutura fractal cuja sintaxe se expande entre os elementos frasais e os capítulos que constituem a obra, sendo necessária a coesão entre todos os níveis intermediários (tópicos, parágrafos) e integração lógica e retórica entre todos os segmentos.
A linguagem é a ferramenta do processo de interação social, o autor acadêmico (um mestrando, doutorando ou professor) a utiliza para construir, registra e transmitir conhecimento, bem como para convencer seus interlocutores, leitores ou ouvintes, principalmente, por meio de discursos, argumentos, dados e descrições de processos, bem como pela materialização dessas narrativas na forma de teses, dissertações, artigos e outros subgêneros. O domínio da linguagem tornará essa correlação mais satisfatória e eficaz, pois os autores devem, não só entender a linguagem de seus leitores, mas também ser a fonte da comunicação nesse código que, de alguma forma, os define como cientistas. Para a maioria dos autores, o domínio do sistema de linguagem é deficitário, ainda que quase todos o reconheçam como essencial. A atenção do leitor do texto acadêmico é mantida principalmente por meio do uso de argumentos criativos, ainda mais que por dados novos ou inferências brilhantes: é preciso saber contar a história, mesmo que ela seja boa. Muitos autores com excelente inteligência verbal têm a oportunidade e habilidade de contar boas histórias em suas teses, ainda que se trate da avaliação da eficácia de um produto em teste duplo-cego. Outros usam discursos persuasivos e redação proficiente para desenvolver e propor conceitos analíticos ou metodologias inovadoras como seu objetivo principal.
Nesse processo interativo de relação com o conhecimento, a gramática comunicacional é a base para o desenvolvimento sustentável da ciência. Os autores devem ser os “intérpretes” desse conhecimento; primeiro, por ter a capacidade de percebê-los, segundo, por compreender seu significado plausível e, por último, eles são registrados na linguagem canônica que constitui o padrão das teses, com a ressalva de que aquele cânone pode ser uma barreira, limita-se a ser uma forma. A compreensão correta da realidade pode libertar a interpretação da norma padrão de problemas comunicacionais que dificultem a interpretação, porém, para isso, os autores precisam de amplo quadro de referências que lhes permita acessar as várias dimensões da realidade do passado para o futuro – pois a cadeia da construção do conhecimento, ainda que não seja linear, é alcançado por meio de leituras, interpretações sutis do conhecimento existente e pensamentos relacionados a eles que impliquem alguma novidade, circunstâncias em que, sempre, o domínio linguística é a base efetiva para se estabelecerem as conexões e proposições.
O desenvolvimento da excelência da ciência, por meio da excelência na linguagem, requer do autor a construção de pontes, que ele use seu domínio linguístico para o autodesenvolvimento e para o desenvolvimento cognitivo, construindo ligações entre as linguagens de sua investigação e as de seus leitores. Nesse aspecto, a atuação do revisor é a de conferir a arquitetura das pontes (mantendo a metáfora), agindo como mediador entre o autor e seu leitor. A base da ponte é a lógica, sua arquitetura é a retórica e seus segmentos são unidos pela gramática.

Revisão de tese e lógica

Enquanto a ciência trata de ir ao mundo e adquirir fatos e dados cuja sintaxe constituirá o conhecimento, a lógica é mais introvertida e contemplativa, requer reflexões aprofundadas acerca da variedade de informações e processos, analisando-os e comparando-a à visão já testada da realidade, assim, produzindo novos conhecimentos relevantes que confirmem ou alterem a visão precedente.
A hipótese é muito valiosa e indispensável para qualquer tese, pois pode antecipar mudanças ou sustentar permanências, preparando o leitor para elas, as hipóteses podem desenvolver novos processos ou produtos, principalmente para otimizar e melhorar a eficiência dos métodos e interpretações consolidadas, as proposições hipotéticas têm em si a proclamação tácita da provisoriedade do conhecimento científico. Nesse caso, o uso da arte da linguagem pelos cientistas, especialmente a lógica dedutiva, é vital para a tese, sendo mesmo a essência do cânone.
Além de selecionar, avaliar e ordenar as informações, os autores também transformam a compreensão das coisas em conhecimento aplicando métodos, alguns dos quais são mais característicos de uma área do conhecimento, outros se aplicam mais a outro domínio cognitivo, de qualquer forma, o método em questão afeta a produção do conhecimento (a investigação) tanto quanto afeta o produto (a tese) que requer lógica na apresentação dos dados e das inferências, tanto quanto foi requerida naquela obtenção. Não tem sentido obter grande quantidade de informação e apresentá-la sem que seja interpretada em coerência com a metodologia de sua obtenção, visando produzir conhecimento utilizável e texto interpretável. O conhecimento vem da interpretação da informação e da sua utilização para gerar novas ideias, resolver problemas ou tomar decisões, ele existe na interpretação tanto quanto na informação. O conhecimento está sempre integrado à informação e à comunicação, que também é o resultado do aprendizado, o resultado da nossa experiência e o conhecimento que pode ser reaproveitado em diferentes situações, notadamente aquelas de partilhamento. O conhecimento perfeitamente assimilado, suficientemente processado se reflete em texto claro, argumentação facilmente inteligível – o que nem sempre o autor alcança. O revisor colabora na tese tornando o texto mais assimilável pelos leitores, às vezes, com interferências simples de alteração de ordem sintática, ou alternando recursos catafóricos, ou suprimindo qualquer tipo de ruído comunicacional que algum lapso de registro possa constituir – os erros ortográficos, por exemplo.
Quanto mais o leitor consegue interpretar corretamente as informações que recebe e convertê-las em conhecimento, mais ele pode partir delas e entregá-las como novo entendimento. Quanto mais claro o texto, mais ele pode promover a autoridade e a confiança no autor por parte dos leitores, captar a atenção do público e sua simpatia favorece o comportamento harmonioso e cooperativo da construção social (e acadêmica) do conhecimento.
Sob o mesmo entendimento, o autor proficiente nas artes linguísticas tem amplo quadro de referências (a erudição construída e apresentada na tese). Com base em fatos e experiências confiáveis, ele pode acessar melhor os aspectos da realidade de que está tratando. Portanto, ele pode usar a lógica para formular juízos rapidamente e para argumentar com o leitor, para raciocinar e ordenar as informações corretamente, para comparar seus dados com outros subsídios de diferentes fontes, e filtrar as informações relevantes e verdadeiras. Desse modo, após longo período de reflexão e muito trabalho, o objeto da pesquisa é convertido em conhecimento, assumindo a forma da tese que estabelece o registro gráfico do saber e transmite o modelo mental organizado e coerente que será reconstruído pelo leitor.
É importante ressaltar que, mesmo que sejam utilizados recursos técnicos os mais modernos e sofisticados, a construção do conhecimento é pessoal. Na verdade, o conhecimento é criado por indivíduos, mas as instituições podem apoiar e inspirar o conhecimento intencionalmente, e as universidades o fazem, mas, se fornecem a infraestrutura, o ambiente e os desafios necessários à construção do saber, requerem desse processo um produto na forma do registro formal daquele conhecimento. Esse registro é a tese. A formalidade da tese é sua estrutura lógica transparente ou imanente. Essa lógica que a tese requer é a mesmíssima que, desde a Idade Média, se aprende e se ensina como uma das três habilidades linguísticas básicas, todas do domínio do revisor e com as quais ele colabora no texto.
Além disso, os revisores, por terem recebido treinamento formal no trivium, sabem explicar por que certas palavras, informações, dados, construções podem ser descartados; eles não ajudam a estabelecer o processo lógico necessário e constituem ruído comunicacional. Esse é o motivo pelo qual os revisores tanto suprimem palavras desnecessárias, aplicando o princípio da concisão textual. Isso não é apenas escolha ou decisão estética, mas é algo que o revisor faz com consciência, sempre por motivo linguisticamente plausível, trata-se de aplicação pragmática do princípio da mínima interferência: maximizar a preservação do texto autoral, aumentando-lhe a eficiência comunicacional.
Além disso, o revisor, treinado no trivium, sabe explicar a razão pela qual certas informações foram descartadas e não servem para a construção do processo lógico do construto de conhecimento. Não é só escolher e decidir, mas saber por que tomou a decisão ou fez a proposição.

Revisão de tese e retórica

A retórica reflete a essência das artes linguísticas. A gramática, a lógica e a retórica se combinam, tornam-se o perfeito amálgama de compreensão e comunicação da realidade. Para reforçar esse aspecto, a linguística é conjunto de conhecimentos inter-relacionados que se concretiza na realidade por meio da retórica. Nos meios acadêmicos, vários grupos de pessoas se aglutinam em diferentes núcleos institucionais, falando várias “línguas”, com características muito específicas e distintas, reunidas para atingir os objetivos traçados, e a retórica é o elemento catalizador desses grupos, ela cimenta organização deles como elemento indispensável. A retórica é base da comunicação e a superestrutura do projeto coletivo de conhecimento (construção ou transmissão dele). Para haver comunicação, é necessário que o destinatário da informação compreenda satisfatoriamente a mensagem; nesse caso, cumpre conceber a retórica relacionada tanto à forma de transmitir a mensagem quanto ao propósito de criar a informação.
Deve-se destacar que o discurso científico e o processo de interação mudam constantemente a cultura acadêmica e influenciam a linguagem departamental, assim como afeta os integrantes da área, afetando, igualmente, o relacionamento com os clientes externos: o público-alvo dos textos de cada autor. Além disso, é importante observar que essas interações dependem da aceitação das ideias apresentadas no discurso dos autores dentro da instituição ou fora dela e, portanto, destaca-se a importância das palavras: da gramática, da lógica e da retórica, na aceitação das ideias principais do autor ou de seu grupo de cientistas. Cultura é linguagem, é código – ciência também. A retórica fornece a estrutura das teses que permite aos autores dar sentido ao mundo em que vivem e a suas ações: investigações e seu registro. Portanto, a cultura textual comum não apenas aglutina os personagens que não podem ser dissociados no mundo acadêmico, mas afetará a direção dos jogos estratégicos em cada grupo, para que todos possam defender seus próprios interesses e crenças, segundo a lógica que lhes for inerente e por meio da respectiva retórica.
O discurso do autor e sua aplicabilidade prática devem ser convincentes, ele não deve apenas informar (ou seja, provar a si mesmo e aos leitores) o que diz, mas também deve persuadir (ou seja, impressionar e comover – catalisar). A persuasão é o elemento da retórica que tenta captar a aprovação do público-alvo de cada texto. A retórica clássica é a arte do convencimento (ou persuasão), cabe ao revisor de textos maximizar os meios de ação discursiva implementados com o objetivo de conquistar a atenção ou valorizar a persistência do leitor. O resultado é benéfico para o texto, para o autor e para a instituição a que ambos se reportam.
Nesse caso, os esforços conjuntos de autor, orientador acadêmico e revisor produzem o resultado decorrente das intenções comuns; a retórica adequada é um meio necessário para que os autores emulem as intenções de grupos heterogêneos prevalentes no ambiente acadêmico para trabalharem juntos. Porém, nesse comportamento, o autor e seus pares têm uma escolha mútua e recíproca de adesão, desde que se saiba perceber e compreender as necessidades coletivas, e se consiga articular as propostas do autor e as demandas do público-alvo por meio da retórica. Organizar objetivos em discursos complexos e persuasivos, ao final, não requer apenas o uso da retórica, mas demanda o uso perfeito das artes liberais.
Gramática, lógica e retórica são essenciais para a boa escrita, e os autores modernos devem entender que, se têm habilidade suficiente para compreender a relação entre os objetivos do texto e os interesses do leitor, é porque sua visão da natureza ou das ideias está falha. Quem não consegue entender os aspectos mais profundos de sua própria pesquisa pode carecer dos elementos linguísticos necessários à apreensão e à transmissão do conhecimento. Quando objetivos comuns não são atraentes o suficiente aos olhos de todos os sujeitos, as teses e dissertações só causarão reações maçantes ou indiferentes. Que os autores aprendam a contar mais com a colaboração dos revisores, linguistas que, por dever de ofício conhecem a gramática (muito além da ortografia e sintaxe), praticam a lógica e colaboram na construção retórica dos textos.

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