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Revisão de teses: interferência, intercessão e mediação

Revisores e orientadores colaborando nas teses

Faremos uma breve discussão teórica acerca de algumas das questões que envolvem o processo de revisão de teses e dissertações e acrescentaremos algumas de nossas observações práticas no contexto; para a maioria dos pontos, as questões levantadas também se aplicam a artigos científicos, monografias e outros textos mais curtos do gênero acadêmico. Associamos o uso dos conhecimentos linguístico, enciclopédico e relacional à questão dos limites de intervenção (interferência, intercessão e mediação) ao texto original da tese (ficando doravante compreendidas no termo tese a dissertação e a monografia – além de outros); analisaremos algumas diferentes posturas adotadas pelos revisores nessa atividade.
O revisor da tese é quase tão especializado quanto o orientador.
Para revisar sua tese, faça a escolha cuidadosa de um revisor qualificado e eficiente.

Fundamentação e alguma teoria

Os principais objetos dessa estrita discussão são a coesão, a coerência e sistemas cognitivos (linguagem, relacionamentos e erudição) relacionados ao processamento de teses e dissertações, incluindo produção (mediada pelos orientadores) e revisão de texto. De forma mais ampla, tentamos apontar como diferentes estratégias cognitivas estão relacionadas ao processo de geração e revisão dos escritos acadêmicos longos, considerando as intervenções dos revisores quanto à linguagem (coesão) e questões de coerência (interna e externa), bem como alguns trâmites entre o texto original e o texto revisado quanto ao relacionamento entre os sujeitos envolvidos (autor, orientador e revisor, principalmente, mas tendo em vista que cada leitor final é parte do processo comunicacional). Além disso, consideramos, ainda que superficialmente as restrições à mediação do revisor na criação do texto – tanto aquelas impostas pelos limites procedimentais quanto as que as situações práticas apresentam, tendo em vistas algumas das diferentes posições que os profissionais adotam durante o processo de revisão, o que poderá expandir o campo de pesquisa nessa área.
O processo de revisão não pode mais ser entendido apenas como simples correção dos problemas gramaticais superficiais do texto. Esse tipo de postura, principalmente por parte de um linguista profissional, já é completamente descabida. Entretanto, não são poucos os doutorandos e mestrandos (para não falar de seus orientadores) que desconhecem a amplitude do trabalho do revisor, supondo-a limitadíssima à patrulha da gramática.
O ponto de vista do revisor, bem mais amplo quanto a sua intervenção no texto, compreende, primeiro, dominar a linguagem do texto escrito, inclusive os cânones do gênero, e os mecanismos de coesão inerentes (gramática), bem como a coerência das informações, proposições, inferências presentes na tese (lógica) e, por último, a estrutura da argumentação e os elementos textuais de captação da atenção do leitor (retórica); cabe-lhe, portanto, ao ler e acessar seu sistema de conhecimento (memórias), e reconhecer três situações: a) o segmento de texto está satisfatório e não deve ser modificado; b) há algum problema que precisa ser verificado, corrigido, conferido, aferido, questionado; c) existem construções que não constituem desvio normativo ou material, todavia, podem ser melhoradas, a bem da comunicação ou do estilo.
Está bem claro para nós que existem semelhanças e diferenças entre os procedimentos e as intervenções dos diferentes revisores – bem como vários resultados possíveis delas, posto que a língua oferece uma infinidade de alternativas. A ideia de traçar o esboço claro e uniforme dos procedimentos não funcionará, assim como os resultados dos trabalhos de diferentes revisores será materialmente diverso – inclusive quanto ao grau de interferências resolutivas apostas ou de questionamentos apresentados ao autor. Existe linha tênue entre resolver a inconsistência do texto ou superar a voz do autor. Acreditamos que esse fato comprove a complexidade e relevância do papel social do revisor, pois ele deve ter conhecimentos e habilidades muito além do âmbito das normas linguísticas, sendo-lhe necessárias capacidades de interação com o autor, eventualmente com o orientador, apresentando a um ou a ambos as questões relevantes que detectar como mediação entre os objetos, os sujeitos e as imposições normativas que lhes forem inerentes.
Nosso foco serão as peculiaridades e relações inerentes à revisão de texto acadêmico, pois tal gênero constitui nosso principal objeto de trabalho. Partindo do pressuposto de que ainda é necessário muito estudo aprofundado da prática da revisão de texto em geral, mas, como os escritos acadêmicos têm características construtivas e relacionais bem específicas, nossa reflexão se direcionará a esses objetos em particular, levando em consideração as questões teóricas e práticas que envolvem a atividade da produção textual nas universidades, no geral, e aplicando-as a nossa prática.
No Brasil, existem poucos cursos de ensino superior treinando revisores, entretanto, o mercado e a universidade, reconhecendo a demanda por esses profissionais, têm provido essa formação em caráter suplementar ou de pós-graduação. Nesse contexto, o trabalho de revisão, em geral, é realizado por profissionais que se dedicam às línguas, estudantes e professores licenciados em Letras ou outros cursos da área de humanidades, notadamente na área de comunicação, que exigem e fazem com que os acadêmicos façam uso frequente e funcional da língua portuguesa. Esses profissionais, quando agem com consciência, procuram a complementação dos estudos da graduação, suprindo o arcabouço teórico que a formação original não conferiu.
Nosso pensamento como revisores é baseado na estrutura teórica que aborda questões de linguagem e de contexto relacionados à capacidade dos revisores e ao processo de revisão. O primeiro ponto é baseado na linguística e na semântica textuais, alicerces para os procedimentos de interferência e intercessão nos textos de terceiros. O segundo objeto da discussão imanente refere-se às capacidades e habilidades dos revisores e aos procedimentos inerentes; essa parte já está presente em publicações que envolvem revisões de texto, inclusive em algumas de nossa autoria.

Questões de linguística textual

Espera-se que os revisores vejam erros graves e erros invisíveis ao autor – esse ponto é completamente passivo e a visão dele é bem difundida. Entretanto, é necessário que os revisores entendam as etapas da geração de texto e, com tal conhecimento, dominem os mecanismos coesão e coerência textual, pois, se o texto não é apenas soma ou sequência de frases isoladas, a concatenação das ideias e as respectivas falhas são decorrentes do processo de redação. Da mesma forma, é muito importante discutir o objetivo do trabalho do profissional (para que revisar) e o objeto (o escrito), pois ambos podem ser compreendidos de diferentes maneiras.
Para a conceituação do que é um texto, adotamos como linha teórica as noções da linguística textual, corrente que teve início na Europa, na década de 1960, a princípio tendo como foco os fenômenos sintático-semânticos que ocorrem entre enunciados. Desde a década de 1970, embora com pesquisa ainda ligada à gramática de frases, os linguistas começaram a pensar que a gramática de texto explicaria melhor na pesquisa linguística. Na década de 1980, surgiram as teorias textuais com foco nos textos como unidades analíticas mais amplas que as estruturas frasais da etapa precedente. Em relação a esses passos, existem alguns momentos básicos na transição da teoria das frases para a teoria do texto, destacando-se que não se trata apenas de ordem cronológica, mas de diferença de ordem conceitual, pois não há significativas intercessões e justaposições entre elas. De modo bem simplista, a primeira abordagem é a sintática, a análise regular nos limites das declarações; a segunda é a construção da gramática do texto, implicando os elementos de coesão; a terceira alcança a construção da teoria do texto e análise do discurso. Mais recentemente, nós mesmos temos entendido o texto como estrutura fractal, aplicáveis aos diversos graus da escala sempre os mesmos parâmetros analíticos e estruturais, porém, essa visão ainda é incipiente.
Embora a linguística textual ainda não tenha definido satisfatoriamente seus objetos de pesquisa (e, talvez, nunca venha a fazê-lo), atualmente ela se concentra na geração, aceitação e interpretação de textos, demais, os entende como unidades de linguagem superiores às sentenças em determinado nível. Portanto, ela não se baseia no estudo de palavras ou frases, mas no estudo do texto (sua estrutura e função) como expressão da linguagem, com valorização de elementos comunicacionais. Porém, como existem conceitos diferentes de linguagem e texto coexistindo, é necessário defini-los como os adotamos.
O conceito de linguagem aqui discutido não supõe o autor como autônomo em relação a seu texto, nem identifica a linguagem como simples meio de comunicação, mas entendemos a linguagem como construção social e temporal; assim como o texto, a linguagem é considerada produto coletivo das diversas intercessões e mediações que nela operam. Adotar esse conceito significa aceitar que a compreensão da mensagem está muito além da decodificação das palavras e proposições, sendo, na verdade, atividade de interação e complexa construção de sentidos provisórios – conquanto o texto seja estável, as variáreis externas a ele não o são. A geração de sentido não se dá apenas a partir dos elementos da linguagem, também ocorre por meio da mobilização de sujeitos que utilizam estratégias para codificar ou decodificar a substância do enunciado.
Quanto ao conceito de texto, ele pode ser definido (a) a partir dos padrões internos da mensagem, da perspectiva do sistema de linguagem inerente, e (b) desde os temas ou padrões transcendentes ao sistema, considerando a mensagem como unidade funcional ou comunicacional. Nossa opção é considerar o texto como estrutura “acabada” (produto), resolvido pelo próprio processo de planejamento, construção e expressão de linguagem. Nessa visão, a construção do sentido do texto é relacional e mais estável, ainda que envolvendo mecanismos fluidos estabelecidos pela estrutura do texto e pelo conhecimento armazenado na memória do autor e do destinatário.
O mecanismo que estabelece conexões linguísticas entre os elementos da estrutura que aparecem na superfície do texto é denominado coesão. As conexões em si são objetos da sintaxe que, por sua vez, integram a gramática – tanto no sentido linguístico corrente quanto no sentido de arte liberal. A principal função da coesão textual é estabelecer relações processuais de restauração das conexões entre os elementos de linguagem da superfície do texto, vale dizer, nas declarações, nas estruturas frasais e entre elas. Essa conexão entre elementos pode ser alcançada por meio da coesão referencial (processo de referência em que um componente da superfície do texto se refere a outro) e da coesão sequencial (processo de sequenciamento que estabelece relação semântica). A coesão é entendida como elemento semântico que se realiza por intermédio do sistema léxico-gramatical. Embora seja importante princípio da textualidade, a coesão não é condição suficiente ou necessária, pois ao texto, em sentido lato, pode faltar coesão, sendo-lhe conferida textualidade e coerência. Não obstante, do ponto de vista das teses, a coesão é necessária: faz parte do que caracteriza o gênero e deve ser objeto da aferição na revisão.
Posto isso, além da coesão do texto, há outro mecanismo muito importante (senão mais) no campo da revisão: a relação entre a mensagem e os receptores (leitores, público-alvo), relacionada aos princípios interpretativos. Essa coerência comunicacional é que permite ao leitor realizar o processamento cognitivo para que o texto possa ser analisado de forma mais aprofundada, inclusive como percepção abstrata, podendo também ser considerada relacionada à inteligibilidade do texto no bojo da comunicação e da capacidade do destinatário do texto. O significado deve ser calculado, previsto, intencional e cabe ao revisor assegurá-lo. Desse modo, a coerência está relacionada à estrutura no contexto da comunicação com o leitor, e não ao conceito gramatical ou frasal da coesão.
Por algum tempo, a distinção entre coesão e coerência foi ignorada. Alguns autores usam um ou outro termo para se referir a esses dois fenômenos. Atualmente, usa-se o termo consistência de microestrutura para se referir ao mecanismo anteriormente chamado de coesão, ao passo que consistência de macroestrutura se refere aos elementos coerentes. Já dissemos que, mesmo se admitirmos que o texto não seja coeso, ele pode ser coerente, todavia, na maioria dos casos, precisamos dos dois elementos para tornar patente a textualidade e a distinção entre coesão e coerência textual se faz requerida e presente em todas as escalas fractais do objeto cognoscível como texto. Quanto há coerência, mas não coesão, pode haver textualidade latente, entretanto, ela seria inconsistente quase na totalidade dos escritos acadêmicos.
Essa questão nos remete à definição de texto. A coesão é responsável pela tessitura do texto – e por sua própria natureza, em parte; porém, aos olhos de muitos autores contemporâneos, tal conceito não é mais aceito, pois é sabido que o texto pode apresentar coerência (reconhecida ou inferida pelo leitor) mesmo sem apresentar coesão – como já afirmamos. A textualidade, ou textura, é o que torna uma sequência de elocuções texto, não o empilhamento aleatório de sequências, frases ou palavras. Quando o destinatário puder considerar a sequência como unidade globalmente significante, ela é considerada texto. Portanto, a partir do conceito de coerência, pode-se dizer que identificamos a causa da textualidade.
Nessa toada, a coerência configura-se como a estrutura de sentido macroestrutural, o mecanismo que permite ao texto manter a sequência lógico-retórica e, portanto, tornar-se compreensível. A coerência não é apenas característica do texto, também é produto da interação do escrito com quem o tenta compreender. Porém, para interpretar corretamente as relações coesas implicadas no texto, devemos fazer alguns cálculos sobre o possível significado dessas relações, o que não é muito comum, quer para autores, quer para revisores (infelizmente, no último caso). Portanto, embora geralmente seja entendido como fenômeno particularíssimo, quando a fronteira entre um mecanismo e outro é eliminada, existe intersecção entre coesão e coerência: quando se diz que a coerência se estabelece a partir da sequência linguística que constitui o texto, essa relação é explicada, ou seja, os elementos da superfície da linguagem são as pistas e os pontos de partida para o estabelecimento da coerência. Até aqui, essas relações parecem um pouco tautológicas; texto, coerência e coesão se definindo reciprocamente, mas talvez esteja aí mesmo a unidade entre esses elementos.
Ao questionarmos as pistas acima, que são estratégias cognitivas e sistemas de cognição (linguísticos e mnemônicos) relacionados ao processamento de textos, o conhecimento da linguagem inclui a gramática e a organização dos elementos da superfície textual, portanto, as gramáticas (normativas, históricas, dos usos) dicionários, vocabulários, estão associados a esse conhecimento. Além disso, essas estratégias refletem capacidade de usar apropriadamente os recursos anafóricos e catafóricos disponíveis no idioma para obter a referência ou a ordenação do texto.
Já a erudição, a que muitos se referem como conhecimento enciclopédico – nos parece pretenciosa e arcaica essa denominação – está relacionada ao conhecimento armazenado na memória pessoal, composto tanto por elementos declarativos (fatos sobre o mundo, vivenciados ou apreendidos, dados – asserções) quanto por procedimentais (obtidos por meio da experiência ou treinamento), sendo integrado por memórias diferentes quanto a sua permanência. Também pode ser chamado de conhecimento compartilhado, porque está relacionado a experiências de vida social, portanto, tanto mais fácil se comunicar quanto o autor e o destinatário compartilham os sensos. Esse conhecimento, por exemplo, pode ser usado para se estabelecerem hipóteses como base em manchetes de jornal, dados estatísticos ou qualquer de forma de presunção de conhecimento por parte dos leitores; a expectativa é que leitor saiba implicitamente de que se trata, dispensada a declaração.
Finalmente, em determinada situação, o conhecimento relacional lida com a forma de interação da linguagem. Ele inclui linguagem corporal (comportamento de voz, fala indireta, esperando que o interlocutor entenda a verdadeira declaração não verbal de intenção), conhecimento de comunicação, conhecimento de metacomunicação (correções, repetições, paráfrases destinadas a garantir a expressão da linguagem e a compreensão (atual ou posterior) do texto e conhecimento da superestrutura (reconhecimento do gênero do texto, por exemplo: distinguir receita médica e receita de bolo).
Em suma, o conhecimento linguístico é responsável pelo estabelecimento da relação lógica entre as frases e seus componentes, o conhecimento enciclopédico está relacionado à experiência anterior do falante e o conhecimento relacional está relacionado aos atos de fala por meio da linguagem. Portanto, os produtores e intérpretes do texto são estrategistas que, ao forjarem jogos de linguagem, mobilizam uma série de estratégias – cognição social, relacionamento e ordem do texto – para produzir sentido.
Considerando que essas estratégias são necessárias tanto para o destinatário (necessidade de decodificar e compreender o texto) quanto para o autor, que as usa no processo de redação, portanto, para revisores profissionais, que precisam interpretar o escrito a fim de saber o que está bom, o que pode ser melhorado e, às vezes, apontar o que precisa ser reescrito (pelo autor); eventualmente, o revisor pode parafrasear fragmentos obscuros para tornar a expressão clara, coesa e coerente. Na teoria e na prática, é difícil de definir o conceito da mediação exercida pelo revisor. Na verdade, a mediação revisional pode ser uma série de ações com características opostas, por exemplo, relacionada a atividade de linguagem no tópico ou ao objetivo da linguagem em contexto.
Pode-se dizer que a reflexão sobre mediação linguística tem três origens retóricas principais. A primeira é a visão lógica da mediação da equivalência formal entre sentenças, que está relacionada ao fato de que as proposições devam ter o mesmo valor de verdade. O segundo é o ponto de vista gramatical. Entende-se que mediação é sinônimo de frase, tendo um núcleo semântico desviante como identidade, o sujeito e a conotação podem ser divergentes, e o mesmo objeto pode ser visto diferentemente – é o caso das anfibologias, por exemplo, que podem ser buscadas pelos autores ou evitadas pelos revisores, circunstancialmente. Finalmente, a terceira fonte é a mediação como reencenação, visão retórica que envolve atividade de invocação, na qual o declarante restaura o conteúdo do texto fonte para o segundo texto – aqui, trata-se do procedimento dos tradutores, por excelência, ou dos revisores, episodicamente.
Segundo esse pensamento teórico, a mediação é entendida como distorção do sentido da expressão ou o esclarecimento da precisão e da pontualidade, vale dizer, o sentido estrutural é semelhante, mas a expressão não é totalmente semelhante, ou a expressão é clara. Por outro lado, a mediação baseada no mesmo e no semelhante é impotente para o desenvolvimento da linguagem; fica escondida atrás de um modelo antigo estabelecido, no qual algumas pessoas renunciam à própria voz, para que a voz da outra apareça no texto, sendo que a intervenção mediativa pode servir para esclarecer parte do escrito. Partindo desses conceitos, enfatizamos que a mediação é uma espécie de reformulação que busca manter ou reconstrói a equivalência semântica com o texto original, esclarece a informação dada e a nova informação, e não ignora a coesão e coerência no texto reformulado.
Reiteramos que a linguística e a semântica textuais fazem parte da base necessária para a revisão de teses e dissertações a partir de diversos aspectos, principalmente tendo em conta a modalidade de discurso correspondente ao gênero textual a que tais escritos correspondem. A compreensão das questões de linguagem e a compreensão dos conceitos do texto, coesão e coerência do texto, sistemas de conhecimento e mediação são importantes para o estudo do processo de revisão acadêmica, e para a respectiva práxis, pois existem nas atividades do revisor dia a dia.

Questões contextuais acadêmicas

Em primeiro lugar, destacamos que a contínua reescrita é praticada por muitos autores, no contexto acadêmico, tal afirmativa inclui os estudantes e seus orientadores (coautores), entretanto, acredita-se que a primeira revisão seja sempre realizada pelos escritores. Trata-se de equívoco bem generalizado confundir a prática do revisor, linguista profissional (a revisão, em sentido estrito) com a prática de retorno ao texto feita por autores (reescrita, em nossa terminologia). Em termos procedimentais, certamente há algumas equivalências, entretanto, dos pontos de vista epistêmico e técnico são atividades profundamente distintas, a priori, pelos sujeitos que as praticam: revisão requer alteridade (isso já é um bordão em nossos discursos!). Nem sempre os autores conseguem se desviar de suas palavras, suas ideias, esse fator destaca a importância do papel dos profissionais que não participaram do processo criativo. O termo revisão vem do latim, que significa reexame, o significado geral de revisão. Portanto, o palestrante que releu o discurso escrito várias horas antes de embarcar no avião, o médico que realizou o exame e conferiu novamente as informações antes de operar, o doutorando que releu toda sua tese antes de dar curso a ela, todos fazem revisão em sentido lato, não é a mesma atividade desempenhada pelo linguista profissional; essa última requer distanciamento absoluto do processo criativo.
Qualquer leitor atento que não tenha participado da criação do texto, no sentido da alteridade que temos proclamado, pode ler um escrito e apontar nele lapsos ou pontos obscuros. Mas essa leitura não é suficiente para permitir que ele revise e interfira ou avalize os teses e comunicações científicas, por exemplo, o que é mais complicado. Isso porque a intervenção em textos longos requer a aferição de gramática, lógica e retórica, bem como conhecimento teórico do processo de criação e concretização de ideias e sua respectiva consolidação em documentos formais, evitando desvios na estrutura de significados, o que pode ser além da capacidade de pessoas sem formação e treino específicos, mesmo para pessoas acostumadas às artes de ler e escrever. Assim, as leituras cruzadas – um autor lendo a tese do outro – no mesmo grupo de estudos, são altamente recomendáveis no meio acadêmico: entre outros benefícios, questões relativas a erros materiais podem ser dirimidas. Do mesmo modo, os orientadores acadêmicos apontam, todo o tempo, as lacunas, omissões, obscuridades nas dissertações e teses que estão orientando, é parte de sua função; todavia, a rigor, do ponto de vista da criação do texto, orientadores e orientados são coautores da tese – e ambos estão tão próximos do texto que ficam impossibilitados para a revisão, mesmo no caso de o orientador ser um linguista ou revisor de ofício, todos os coautores estão “contaminados” pela criação e inabilitados para revisar.
Ao revisar teses alheias, munidos de nossas ferramentas teóricas, incluindo trabalhos que envolvem a prática e a atuação profissional dos revisores, descobrimos questões situacionais que exemplificam a complexidade dos fatores envolvidos no processo de revisão. A presentaremos a seguir alguns aspectos que julgamos relevantes no contexto das revisões dos textos de mestrado e doutorado, para não mencionar outros mais curtos que são equivalentes para a maioria das questões objetivas indicadas: a revisão tipicamente acadêmica; como ela é feita; quem a faz; âmbito de intervenção nela; orientação e revisão na redação.

Questões objetivas: as teses

Revisões de tese e dissertação

A atividade de revisão profissional já existe há muito tempo, não sabemos quando foi que alguém pagou a outrem para ler e apontar problemas em sua tese pela primeira vez, mas vamos nos recordar que esse tipo de registro escrito existe desde a Idade Média, quando ainda não havia a estrutura de trabalho remunerado das últimas décadas. Ao longo do século passado, o ofício profissional de revisores, se não é que foi criado, pelo menos, se estabilizou, de forma mais ou menos como hoje ele existe. No entanto, foi ao longo dos três últimos decênios que a situação atual do revisor no mercado linguageiro se estabilizou, entre as muitas mudanças ocorridas no mundo, no meio editorial e, especificamente no universo acadêmico, a maioria das quais tentando acompanhar o ritmo da inovação tecnológica ou causada por ela.
No passado, as pessoas falavam sobre revisão de erros gramaticais e tipográficos. No início, a revisão do texto não seria a atividade complexa de hoje, mas coexistia com a revisão da impressão (revisão “typographica” – grafei à antiga para reforçar a obsolescência da prática), afetando-a assim. Outrora, a revisão de um trabalho acadêmico longo se contaminava por práticas seculares e inclusive estava, muitas vezes, delegada às exímias datilógrafas que desempenhavam a mecanografia dos manuscritos – e isso se deu durante mais de cem anos! No conceito vigente, o revisor deve compreender todos os aspectos da oficina gráfica, incluindo textos mecânicos ou manuscritos, diferentes tipos de estampas, fotos e desenhos, enfim, todos os conteúdos utilizados para a produção gráfica. Isso inclui, atualmente, usar adequadamente os diversos tipos de arquivos eletrônicos das diferentes mídias em voga.
O processo de revisão de teses, até o final da década de 1970, teve características bastante distintas das atuais. O original era corrigido (esse conceito é da época, apenas parcialmente superado por profissionais e ainda é a percepção de muitos autores) por linguistas (professores de português) com reconhecidas qualificações gramaticais, eventualmente, um algum acadêmico era engajado no trabalho (as vezes, por correspondência), instado a se dedicar às atividades de revisão visando renda suplementar e, a seguir ou em paralelo, surgia a figura impoluta e prestimosa da datilógrafa. O resultado do processo, inexoravelmente, era a necessidade de erratas, às vezes apontando vírgulas e acentos excedentes ou omissos. Risivelmente, a ABNT ainda indica onde devem ir as listas de erros nas teses, como se isso não fosse necessidade do passado.
Porém, com o advento dos computadores pessoais, ainda que sem as técnicas de digitação, os autores puderam começar a produzir seu próprio texto e entregá-lo diretamente aos revisores, sem a colaboração de digitador. Atualmente, é difícil imaginar alguém trabalhando na revisão de textos sem o uso de computador, a comunicação entre o autor e o revisor preponderantemente é feita por e-mail, e a internet também é usada para divulgar trabalhos acadêmicos e estabelecer novos contatos – inclusive identificando nela os revisores aptos ao serviço demandado pela profusão de teses dos anos mais recentes.
Depois de eventos da ordem que descrevemos, a atenção se volta para a forma de revisão mais comum que existe atualmente. Essa revisão de teses moderna é realizada em agência prestadora de serviços linguísticos ou por linguista profissional (independente), sempre com uso dos recursos da informática, aplicáveis muito além da correção às antigas, agora existe conexão entre o autor e o revisor, permitindo a interação que antes era praticamente impossibilitada pelas circunstâncias. Como o revisor não está junto ao autor do texto, eles passam a utilizar recursos que estabeleçam relações virtuais, permitindo o controle das alterações e inserções comentários que questionam passagens do texto. Queremos crer que todos revisamos assim as teses e dissertações em nossos dias.
Ao analisar os tipos de revisões de outra perspectiva, vale ressaltar que, lastimavelmente, muitas pessoas ainda entendem esta atividade como simples correção dos problemas gramaticais superficiais do texto. Não pretendemos diminuir a importância de solucionar tais problemas, mas sabemos que, se as atividades de revisão forem realizadas de maneira minimamente adequada, não cobrirão apenas esses aspectos. Entre as opiniões mais equivocadas difundidas a respeito das práticas de revisão de teses está a de que softwares que fornecem correções ortográficas podem ser usados em substituição aos revisores. É sabido que tais corretores atendem apenas parcialmente às necessidades de correções. Eles não interpretam, não reescrevem e não encontram erros em datas, ortografia de nomes próprios, além de proporem a introdução de incontáveis erros materiais. Claro que os corretores ortográficos dos editores eletrônicos de textos são ferramentas utilíssimas, mas sequer poderiam ser comparados aos já inexistentes revisores tipográficos.
Na verdade, o termo “revisão” tem sido usado em um sentido amplo pelo público em geral – inclusive por boa para dos autores acadêmicos, abrangendo nesse sentido lato desde a correção de elementos gramaticais até a reescrita e orientação do texto. Estes processos coexistem e, para além de afetarem o preço do serviço (sempre mais barato se prestado por um freelancer, ou por um universitário como “bico”), variam também em função das competências do revisor e de seu método de trabalho ou das demandas que lhe são atribuídas. Por fim, os profissionais que atuam nessa área precisam se atualizar constantemente com as mudanças tecnológicas e as novas necessidades dos públicos, aliando essas atualizações ao conhecimento que vem se consolidando acerca das revisões de textos técnico-científicos.

Como se revisa a tese

Quem não tem entendimento completo e domínio da linguagem padrão, não pode fazer boas revisões – é impossível lidar com os acentos, pontuação, convenções e regras extralinguísticas aplicáveis a cada gênero, sem formação adequada. Embora o que se concebe como texto revisado tenha evoluído muito, a abordagem se adapta às necessidades de cada local de trabalho e ao cliente específico; é importante considerar não apenas a forma, a estrutura e os símbolos, mas também o discurso implícito e o gênero no processo de revisão. De modo geral, na primeira passagem pelos textos, os profissionais prestam atenção em quem escreveu (autor) e a quem (destinatário – público-alvo) se destina a obra, observam a amplitude de circulação pretendida e composição desejada, na relação dialógica do texto. Na segunda passagem, cabe ler o original para analisar eventuais questões gramaticais e simbólicas, como convenções orais e nominais, ortografia, pontuação, conformidade com as normas aplicáveis (ABNT, APA, Vancouver…) se for o caso. No caso da tese, a primeira etapa já é definida: trata-se do doutorando e o público-alvo será a banca, seus pares; se haverá outros leitores em seguida, e certamente haverá, é consideração secundária do ponto de vista situacional do autor. Depois de concluir essas etapas, o revisor passará para as próximas, a cada uma, ou ao cabo de todas, fazendo proposições e discutindo com o autor os problemas encontrados, a fim de fazer os ajustes e alterações necessários.
As dúvidas sobre a coerência do texto são mais frequentes que as dúvidas sobre ortografia e problemas de superfície textual – embora se acredite erroneamente que o último esteja mais relacionado às revisões do texto que o primeiro. Para os problemas superficiais, quase sempre se aplicam interferências resolutivas. Na experiência de revisão acadêmica, ela é considerada etapa posterior à produção escrita, principalmente pelos alunos de mestrado ou doutorado, que poderiam ter grande proveito em contar com a assessoria de um linguista durante toda a redação; o objetivo principal deles, ao contatar o revisor, continua sendo “corrigir” o texto e detectar desvios normativos e de registro; ainda pensam que o processo de revisão se limita à gramática e ignoram questões óbvias como a clareza do significado e fluência da leitura.
Os revisores devem considerar três tipos de parâmetros ao realizar seu trabalho em teses e nos demais escritos universitários: (1) regras linguísticas (de acordo com a gramática e a normas culta padrão); (2) regras acadêmicas (ou as próprias regras do cliente, por exemplo: construções passivas ou plural majestático) e (3) regras pessoais de revisão do autor (os limites pactuados e as preferências determinadas). Dentre esses parâmetros, o terceiro parâmetro é o que menos afeta: os autores não correspondem adequadamente às demandas do revisor, deixando-o agir livremente (até mais solto que seria adequado). Isso está relacionado, ainda, à noção de que o revisor só corrigirá “ss” e “ç” – e de que ele entende bem do assunto. Questões apresentadas quanto à padronização e homogeneidade do texto, à situação em que pode haver várias construções gramaticais ou uso de palavras (por exemplo, duas grafias aceitas), variações propostas, raramente são atendidas pelos autores, então, o revisor deve optar, fazendo dessa escolha o padrão a ser aplicado ao longo do trabalho.
Quanto ao material de trabalho do revisor, existem algumas ferramentas básicas, como dicionários (seja em português ou em outras línguas), sinônimos e antônimos, abreviaturas. Além disso, é necessário verificar constantemente as diferentes gramáticas. Não há dúvida de que a Internet é hoje a ferramenta importante para fornecer aos linguistas bons recursos, como os dicionários eletrônicos, muito mais rápidos de se consultar, ou incomensuráveis corpora com abonações quase infinitas para os registros. É necessário não só compreender as possíveis mudanças na gramática e no uso de grafias, mas também observar as palavras existentes se ampliam continuamente, surgem novas palavras ou novo uso de palavras antigas.
O revisor acadêmico deve ter ambiente de trabalho adequado, silencioso e suficientemente iluminado, o que também é fundamental. O ideal é que o profissional seja alocado em sala separada dos demais para evitar que ruídos ou conversas que interfiram na atenção necessária durante o processo de revisão. Considerando que as atividades realizadas pelos revisores precisam ser focadas e requeiram profunda concentração – que se exaure com as pressões de tempo, também é importante dar aos revisores prazo suficiente para realizar cada tarefa que, se for feita com pressa, há chance maior de que questões de estrutura do texto sejam ignoradas.

Quem revisa a tese

Os revisores não podem ser leitores comuns; para teses e dissertações, também não podem ser revisores corriqueiros. É fácil para o leitor ordinário perceber problemas nos escritos, mesmo que não tenham a capacidade de reconhecê-los, classificá-los ou apontar-lhes a solução. É ainda mais fácil, para o revisor profissional, fazer isso. Porém, a atitude do revisor acadêmico em relação ao documento em que colabora é a atitude de pesquisador, pois, com a necessidade de interpretação do texto, surge a avaliação realista de cada problema, bem como a definição linguisticamente precisa de sua natureza, em função de um gênero em que ele têm trâmite e experiência, logo, o comportamento dos revisores todos é diferente do leitor comum, porém, a atitude do revisor de textos científicos á ainda mais diferenciada. A postura crítica do revisor de teses está impregnada da linguagem acadêmica, cientificizada, adaptada ao calão e aos rituais linguageiros em que ela se insere. Línguas são fórmulas, fraseologia, e as estruturas de jargão não se limitam a cada campo cognitivo, mas há uma série de lugares-comuns entre todas as ciências que se encontra consolidado no texto acadêmico em geral, campo de atuação do revisor científico.
Os revisores analisam o texto como linguistas profissionais e como leitores-alvo, são sempre as duas óticas em conjunção. O autor não costuma adotar essa atitude crítica. Os autores não têm alteridade (o outro lendo o texto), não há exotopia (o distanciamento necessário). É por isso que os trabalhos acadêmicos devem submetidos a outras pessoas antes de serem depositados. É necessária a visão de quem nunca lhes tenha posto os olhos, até mesmo que desconheça os conceitos, para não subentender o que está omisso. Portanto, não basta que os revisores conheçam e afiram o conteúdo da gramática. O ideal é que o revisor esteja atento a tudo, pois lida com múltiplos textos e tópicos do dia a dia – mesmo que trabalhe em área específica com maior frequência. Para os revisores acadêmicos, não basta dominar vernáculo e gramática, deve haver lastro e lustro de erudição. O revisor deve conhecer o máximo possível dos múltiplos campos do conhecimento; pelo menos, do ponto de vista do vocabulário incorporado.
Dentre os principais atributos pessoais necessários aos revisores de teses, destacam-se: elevada capacidade de concentração, memória funcional eficiente, proficiência em todos os aspectos gramaticais do português (e outras línguas) e nas peculiaridades da análise do gênero específico em que as teses se inserem; desejável cultura diversificada, com grande bagagem livresca; imparcialidade, distanciamento de interesses pessoais que possam desencadear avaliações tendenciosas.
Como fazem diferentes tipos de avaliações, os profissionais responsáveis por teses e dissertações também são especiais e adotam atitudes distintas, muitas das quais ligadas diretamente ao objetivo imediato de seu cliente. Ao enviar a tese para revisão, o autor deve entender que o revisor tem o dever de fazer ajustes com base no que os profissionais consideram correto e adequado; portanto, o autor precisa confiar no trabalho do revisor, e o revisor é responsável pelo cumprimento do que foi contratado, no prazo estipulado. Durante a revisão, o “poder” é conferido a revisor para aprimorar o texto do autor. Momentaneamente, ele é a extensão do autor, um coautor provisório, por fim: o revisor é um dos múltiplos intercessores de cujas ações o texto vai ao prelo.
Entretanto, é importante e necessário que os linguistas profissionais se permitam duvidar (metodicamente), que questionem suas próprias certezas (inclusive linguísticas), que tenham a humildade de aprender continuamente. O revisor, principalmente em tese cujo conteúdo esteja distante de seu domínio cognitivo, deve ter a coragem de dizer que não conseguiu entender alguns (ou muitos) dos trechos originais ou que detectou evidências que problemas estavam prejudicando a compreensão. Nesses casos, é importante a realização de pesquisas ou consultas ao autor, atitudes que, além de tornarem mais confortável seu desempenho no trabalho, o impedem de introduzir problemas no texto alheio.

Limites nas interferências

Uma das questões contextuais mais relevantes relacionadas à revisão do texto para dissertações e teses é até que ponto a pessoa que está revisando o original pode intervir. Para contornar esse tipo de questão, o revisor adota a técnica de identificar suas intervenções e sempre as apresentar ao autor. Sendo possível, deve-se distinguir entre (1) interferências resolutivas (a que não cabem questionamentos) – marcadas como “revisão” – e (2) recomendações, sugestões, dúvidas – apresentadas em caixa de comentário à margem do texto.
Os revisores precisam sempre entender suas próprias limitações e contribuir com seu conhecimento, sem alterar a natureza do trabalho que está sendo revisado. Claro, o revisor deve contribuir, todavia ele não deve formular juízo sobre o conteúdo do trabalho – somente lhe cabe julgar o texto. Em suma, quando se diz que o revisor não pode mudar a essência da obra, significa que o estilo do texto, a marca do discurso do autor e seu pensamento devem permanecer inalterados na versão revisada, fiéis ao original. O revisor deve ter constante cuidado de não abusar da mediação a ponto de alterar a obra do autor, ele não pode ir além do âmbito de intervenção nas construções básicas expressas no texto original, sempre preservadas as ideias. Trata-se sempre de outro princípio que temos acalentado: mínima interferência.

Orientação e revisão da tese

Questão que tem despertado nossa atenção recentemente é a da relação dos orientadores com os doutorandos e mestrandos em relação à revisão. Há muitas visões diferentes por parte dos orientadores, já vimos casos em que eles vetam a interferência do revisor, num dos extremos, e casos em que exigem a revisão, indicando inclusive com quem ela deva ser feita. As duas posições nos parecem inadequadas – mas as relações entre orientadores e seus orientandos é assunto deles.
Parece-nos incrível que orientadores não conheçam, não compreendam e não aceitem a colaboração de revisores nas teses de seus orientandos, julgando-os capazes de resolver todas as questões linguísticas, ou julgando-se suficiente para suprir as deficiências do aluno. Ambos os equívocos têm origem no desconhecimento das características necessárias mais básicas da revisão: alteridade e exotopia. Os orientadores, na suposição de tenham conhecimento gramatical suficiente, estão tão contaminados pelo texto quanto os orientandos, faltando-lhes o distanciamento necessário, se é que não faltam outros requisitos.
Por outro lado, acreditamos que a relação entre o autor e o revisor seja marcada por parceria e confiança, em alguns casos ela se estabelece por décadas de cooperação. Temos tido a felicidade de ter clientes a quem atendemos em incontáveis textos ao longo de muitos anos. Não existem revisores perfeitos, longe disso, mas pode ser que haja um revisor perfeito para cada autor, cabe a eles se encontrarem. Não entendemos adequada a imposição de um nome para revisar a tese, até porque o ônus do serviço recairá, de costume, sobre o autor. Claro, sugerir, indicar ou apresentar é completamente válido.
Isso posto, vale apontar que, infelizmente, muitos orientadores ainda têm a parca visão de que caberá ao revisor a mera patrulha gramatical. Outro grupo, não aceita o eventual copidesque que o texto requer, ou não compreende a preparação e a formatação profissional… Trata-se de muita desinformação com que nós, revisores, temos que lidar.
Quanto ao copidesque, por exemplo, um aportuguesamento da expressão inglesa copydesk, caracteriza a atividade de retrabalhar um texto original, muitas vezes mudando sua linguagem ou adequando-o a público-alvo diferente do original. Copidesque não faz parte da rotina normalmente exigível na revisão de tese. Também não é o que se espera do orientador. Não obstante, algum trabalho nesse sentido quase sempre é feito, pelo orientador, em primeiro lugar, pelo revisor em última instância. Sendo assim, o copidesque, ou a preparação do texto (que, a rigor, é ligeiramente diferente, mas são procedimentos que se confundem), consiste em um trabalho mais árduo e exigente do que o da revisão. A noção do que é copidesque ou preparação talvez não seja tão simples de definir, no contexto da tese, pois pode variar de acordo com a situação. Também, o que “sobra” para o revisor depende muito do grau de participação do orientador e do papel que ele desempenha em sua relação com o autor.
Entretanto, fica claro que tudo o necessário para que a tese se apresente, após a revisão, em condição de ser encaminhada à banca, fará parte da revisão acadêmica, apenas se distinguindo da revisão as tarefas compreendidas pela formatação. O autor da tese, normalmente, não estará familiarizado com distinções feitas no mundo editorial entre revisão e preparação, portanto, ele nunca solicitará os dois serviços, mas é o que ele espera que seja feito e deverá ser atendido. O orientador não tem limite formal para participação na redação, tampouco se lhe requer conhecimento de técnicas de produção textual, exigíveis do revisor, tanto para o copidesque quanto para apontar problemas em um texto que serão sanados pela preparação.

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