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Revisão e orientação: teses e dissertações

A interação de orientador e revisor com o autor

Os sujeitos do processo: autor, orientador, revisor

No processo de revisão de texto direcionado a teses e dissertações existem três sujeitos interagindo: o autor (estudante de pós-graduação), o orientador (cuja presença e grau de interferência é muito variável) e o revisor de textos (linguista profissional, muitas vezes encarregado também da aferição de aspectos gráfico-normativos do texto). Os papeis de cada um desses sujeitos é bem distinto. Cabe ao autor a produção do texto, a exposição das hipóteses, da metodologia, do material empregado, a apresentação dos dados e tecer conclusões. Ao orientador cabe o acompanhamento da redação, a verificação dos critérios metodológicos e a constatação de que as conclusões respondem às hipóteses apresentadas (dentre outros), todavia, na extensão desse papel, o orientador cuida de aspectos linguísticos do texto que – na maioria das vezes – ultrapassam seu dever acadêmico e até mesmo sua qualificação formal; considerando a validade desse desempenho, observamos que todas as pessoas estão aptas a fazer sugestões aos textos de outrem, quer apontando neles lapsos ou obscuridades, quer fazendo (formal ou informalmente) apontamentos linguísticos. Por último, e muitas vezes é quem tem mesmo a última palavra, surge a figura do revisor, a quem competia apenas o “patrulhamento da língua”, a verificação dos esses e cês-cedilhas, mas cujo papel cresceu muito nas últimas décadas, alcançando questões da comunicabilidade, coesão macro e microtextual, coerência interna e externa dos escritos.
Orientação e revisão de tese são complementares.
O autor deve decidir sobre as propostas do orientador e do revisor.

As sugestões de revisão apresentadas pelo orientador – e aqui estamos sempre considerando as sugestões quanto à redação, os aspectos materiais, o conteúdo da tese fogem inteiramente a nossa observação e não serão objeto de discussão – são utilizadas normalmente para conduzir seus alunos a reescrever o texto. Nesse artigo, baseado em alguns conceitos de escrita sociointerativa e outros de psicolinguística, discutimos o modo pelo qual parte dos alunos de pós-graduação respondem às sugestões de reescrita feitas por orientadores e às proposições e resoluções apresentadas pelos revisores profissionais. Nossa prática indica que o percentual de proposições dos revisores e seus comentários que serão ignorados é amplamente maior que o percentual observado e atendido – além do que, as interferências resolutivas são praticamente pontos passivos (como, de fato, lhes é inerente). 
Revisamos, no último par de décadas, várias centenas de dissertações de mestrado e teses de doutorado; normalmente, como os estudantes não costumam fazer uso da assessoria do revisor durante a redação (até por desconhecer essa possibilidade) somos contratados para colaborar quando o texto é tido como “pronto” pelo autor. Nessa circunstância, o que nos resta é interceder, tão bem quanto possível, no exíguo tempo que nos é concedido. Nossa orientação geral é que as teses e dissertações sejam submetidas à revisão depois de o texto ter sido aprovado pelo orientador; não é que queiramos ter a última palavra, mas se houver modificações depois da revisão, ela se perde; depois da revisão, idealmente, não cabe mais reescrita. Também orientamos veementemente a nossos clientes (os alunos) que não enviem o texto simultaneamente ao orientador e ao revisor – mas acontece! Esse procedimento, altamente indesejável, gera o que, no jargão editorial, chamamos “conflito de versões”: dois textos distintos gerados a partir de um original que precisam ser cotejados e compatibilizados. Do ponto de vista de expressar retrabalho, esse procedimento é oneroso, implica em perda de tempo, com resultados negativos na qualidade textual. Todavia, essa quebra no fluxo da produção textual ideal (autor-orientador/ autor-revisor) tem-nos permitido acompanhar as intercessões dos orientadores na fase final da redação. Aqui consideraremos, sem nenhum critério formal ou quantitativo, apenas os tipos de comentários que os orientadores (professores) fazem aos alunos e seus comportamentos em relação às proposições dos orientadores. Também consideraremos, com a mesma informalidade, o comportamento dos estudantes em relação aos comentários e interferências que, como revisores, fazemos nos escritos (aqui, teses e dissertações) alheios. Infelizmente, não apresentaremos exemplos, respeitando a privacidade de nossos clientes; do mesmo modo, nossas reflexões são meramente inferências, sem desejável rigor metodológico. 
Quanto à relação de aluno-orientador, do ponto de vista da intercessão do segundo no texto do primeiro, nossas observações são no sentido de que os alunos tendem a ignorar os comentários feitos pelo professor, nas fases iniciais da redação e no contínuo processo de reescrita do texto, eles costumam apresentar comportamento autônomo, até mesmo ignorando as sugestões. Observe-se que boa parte das sugestões e proposições dos orientadores se perdem por um dos dois motivos a seguir, senão por ambos: as anotações no texto (à margem do papel ou em comentário no arquivo eletrônico) não são precisas ou suficientemente informativas quanto à natureza do problema (lembrem-se da interrogação “?” tão frequente), ou o volume de comentários durante as entrevistas de orientação ultrapassa a capacidade de registro do aluno. Entretanto, nas etapas finais da orientação, parece-nos que a tendência de aceitação das proposições se reverte: os alunos parecem aceitar passivamente as proposições, de modo quase determinístico, por uma das duas razões, senão por ambas: menor esforço ou submissão hierárquica. 
Quanto aos autores, temos podido inferir que parte significativa desses personagens parece ignorar a existência de outra pessoa, a quem sua tese ou dissertação será direcionada; uns só têm em vista a própria satisfação em relação ao que produzem, outros veem, além de si, o orientador; pequeno número de autores consegue ter em mente a banca que os vai arguir e número ainda menor de estudantes tem em vista que vários outros leitores poderão vir a ter acesso a sua dissertação ou tese, e o texto deve ser comunicacionalmente eficiente em relação a todos os leitores, eventualmente por décadas. À falta dessas considerações pelos autores, muita produção se perde nas prateleiras das universidades ou mofa nas nuvens do ciberespaço. Acreditamos que essa visão egocêntrica dos textos (considerando aqui a baixa comunicabilidade deles) se deva à visão de que a tarefa se cumpre na defesa; além disso, os autores não consideram que a importância da revisão, além de conferir rigor linguístico, é promover a comunicabilidade e confiabilidade, aspectos importantes da interação verbal que devem ser promovidos durante a redação, senão, ao cabo dela. Durante a interação de revisão, o gênero do texto é questão sempre em vista e cabe ao revisor considerar constantemente os interlocutores envolvidos, o propósito de comunicação do texto, o suporte do texto, o público-alvo. 

A produção da tese ou dissertação 

No ambiente acadêmico, professores e alunos utilizam diferentes tipos de escritos para construir e reconstruir significados; os textos produzidos são realizações do supergênero específico que engloba toda a produção ligada à atividade fim das instituições, como teses, dissertações, monografias, ensaios, artigos, resenhas, resumos, relatórios. Na redação acadêmica, as teses são os textos em que a extensão da escrita é maior e requer mais tempo e mais habilidade para realizar tarefas de sua produção; as dificuldades relacionadas à execução de etapas específicas do processo de escrita (incluindo a reescrita contínua e a revisão do texto) podem se tornar obstáculos. 
Produzir textos adequados às diversas situações de interação é função habitual de professores, alunos de graduação e pós-graduação em universidades; ainda assim, as dificuldades em o fazer são praticamente universais – por muitos motivos que não cabe aqui apontar. A constante presença de achados nesse sentido nos leva a questionamentos sobre como conduzir o processo de revisão no contexto da redação da dissertação de mestrado ou da tese de doutorado, considerando que o texto original decorre da revisão inicial de um orientador, eventualmente um coorientador, leitores críticos, leitores-pares… e todos atuando como revisores ad hoc
Vamos discutir algumas as estratégias de reescrita adotadas pelos alunos com base no conteúdo apontado das intercessões de orientadores (em menor quantidade) e de revisores (com as quais lidamos continuamente). Para tanto, recorremos a trabalhos escritos desenvolvidos no contexto de revisão acadêmica profissional que praticamos. Dentre as interseções de orientadores e revisores, na construção do texto, há dois tipos de revisão a destacar: revisão resolutiva (que corrige de imediato questão sobre a qual não paira dúvida) e revisão propositiva, que pode ser levada à consideração e requer parecer ou opinião do autor. Muitas das intercessões se referem ao texto em si, outras consideram a perspectiva do leitor (comunicabilidade). O corpus utilizado para nossas considerações é bem amplo, são artigos e teses escritos por professores e alunos de mestrado ou doutorado e revisados por orientadores e por nós mesmos, motivo pelo qual trataremos das questões em abstrato, resguardando nossa clientela. 
A partir deste ponto, este escrito está dividido em duas partes principais cujos objetos estão parcialmente amalgamados. Em uma, discorremos sobre a perspectiva psicocognitiva de estudos sobre revisão. Apresentaremos de modos superficial os estudos fundadores de Hayes, que descrevem a tarefa de revisar e as estratégias usadas pelo revisor, seja ele autor ou leitor, na execução da tarefa. Já nos dedicamos mais a fundo, em outros textos, a essa referência irrenunciável que aqui retomamos para benefício de quem não leu nossas proposições em outra parte, mas direcionamos os pontos a nosso propósito momentâneo. As estratégias de revisão são retomadas na análise de nossas inferências. Na outra parte que se segue, examinamos os tópicos a partir de nossa práxis, acrescentando à discussão um olhar sociointeracionista a partir do qual se discute a consideração do outro (alteridade) na própria tarefa de reescrita, bem como na revisão e na pretensa comunicabilidade. 
A assunção de dois pontos de vista teóricos na investigação se dá pelo fato de se reconhecer, nas pesquisas atuais sobre o processo de escrita e de revisão, que essas perspectivas (cognitivista e sociointeracionista) se complementam, e que, por isso mesmo, não haveria como tratar das tarefas de escrever, revisar e reescrever desconsiderando os aspectos cognitivos ou os aspectos sociointerativos nelas envolvidos ou descartando os personagens interagentes na tese ou dissertação: autor, orientador, revisor. 

Processamento cognitivo da revisão de textos 

No modelo de revisão cognitiva construído por Hayes, encontramos duas áreas envolvidas na atividade de revisão: a primeira área remete ao processo e reúne os procedimentos a serem realizados pelo revisor nessa tarefa; a segunda área é relativa ao conhecimento e engloba a experiência exigida e disponibilizada pelos autores e revisores. Os dois domínios (processo e conhecimento) estarão relacionados entre si porque o conhecimento afeta a execução do processo e o resultado. Para autores sem experiência em reescrita, acreditamos que o conhecimento pode ser obtido a partir da ativação do processo em seu transcurso; para autores e revisores já experientes, esse conhecimento já tem impacto no produto (texto revisado). 
No campo correspondente ao processo de revisão, encontramos três subprocessos a serem acionados: definição da tarefa, avaliação e seleção da estratégia, orientada pelo conceito de comportamento do autor e do revisor. 
As várias direções tomadas pelo fluxo de produção e revisão, nesse modelo, indicarão a natureza da interação entre os subprocessos e entre eles e as categorias de conhecimento. Isso significa que a finalidade do modelo não é apresentar o processo de revisão como atividade desenvolvida por etapas sequenciais, lineares e uniformes, mas como atividade que envolverá múltiplos procedimentos inter-relacionados e recursivos. 

A tarefa de revisão: objetivos, critérios e restrições 

De acordo com o modelo psicolinguístico originado em Hayes, após determinar as metas, padrões e limitações da tarefa de revisão, os revisores, ou quem estiver lhes fazendo as vezes, continuarão a avaliar os escritos; a definição de tarefa é a etapa principal do processo de revisão. Nessa etapa, o autor especificará os seguintes aspectos relacionados à tarefa de revisão: a) por que ou para quê? b) o que revisar? c) como conduzir a revisão? 
O modo de processar a definição da tarefa de reescrita ou de revisão é distinto para cada escritor ou revisor. Em se tratando de alguém experiente (o orientador, senão o revisor), ele invocaria conhecimentos do conjunto de conceitos pré-estabelecidos acerca dos objetivos, critérios e restrições relacionados ao ato de revisar. Os procedimentos de revisão efetuados por esse sujeito experiente atenderiam, pois, a esse conjunto de conceitos. Em se tratando de pessoa inexperiente, por sua vez, o estabelecimento de objetivos, critérios e restrições que direcionariam sua revisão resultariam como produto da etapa de definição da tarefa. 
Após determinar as metas, padrões e limitações da tarefa de revisão, os autores continuam a avaliar seus textos em produção. Em relação ao subprocesso de definição da tarefa, o importante a se notar é que o autor que deve definir imediatamente os critérios para o caminho do mapeamento, independentemente da experiência adquirida durante a revisão. No modelo de Hayes, o subprocesso de definição da tarefa será a base para todas as outras habilidades de revisão, porque reflete o significado da revisão, as atividades específicas envolvidas e os conceitos básicos de como esses processos devem ser geridos. 

A revisão da tese: compreender, avaliar, definir problemas 

Depois de determinar os objetivos, padrões e limitações da tarefa de revisão e respectiva reescrita, os autores, os orientadores e os revisores continuarão a avaliar os originais. O subprocesso de avaliação corresponde ao momento da revisão em que se lê com o objetivo de compreender, avaliar determinar a natureza de problemas. Entretanto, essa leitura é focada, crítica e, principalmente, avaliativa. Nesse caso, o autor do texto adota comportamentos de revisor, tais como definidos por Hayes, e seu procedimento é conhecido como reescrita no campo da revisologia, ou, por outro lado, o revisor também pode ser outra pessoa incumbida de interferir em texto alheio. É importante notar que, de acordo com o modelo de Hayes, não importa quem seja o revisor (seja o próprio produtor do texto ou outros leitores), o material de leitura em revisão deve ser processado para fins de avaliação. Quando o revisor lê o texto para revisão, sua tarefa não se limita a construir o significado (compreensão) do texto. Durante o processo de leitura, o revisor também precisa construir um representante ficto do público-alvo. 
Hayes enfatiza a leitura avaliativa, pois ela permitirá ao autor ou revisor expressar com sucesso os problemas que encontrou durante a tarefa. O autor pode defrontar os problemas encontrados no rascunho de duas maneiras: como teste indefinido, o revisor pensará que há problema no rascunho, mas não será capaz de determinar com precisão sua natureza; ou como diagnóstico bem definido, em que o revisor considerará que há problema no texto do projeto e determinará sua natureza. 
Quanto às ações para determinar a natureza dos problemas encontrados no texto preliminar, os revisores e autores não precisam ser capazes de diagnosticar todas as deficiências encontradas a cada passagem. No entanto, a capacidade de identificar questões textuais específicas facilitará o desempenho satisfatório, já que refletir sobre tais questões ajuda os revisores e os autores a escolher e desenvolver estratégias de revisão de texto. 

A seleção de estratégias: ignorar, adiar, pesquisar, reescrever ou revisar 

As três primeiras ações (ignorar, adiar e pesquisar) ajudarão a gerenciar o processo de revisão, esclarecer a representação do problema detectado e definir as ações a serem aplicadas a questões textuais específicas. Por sua vez, as outras duas ações (reescrever ou revisar – que são procedimentos distintos) descreverão o método usado para revisar o texto original. Podemos observar que não existe fórmula preparada para revisão. Na verdade, o que o modelo nos traz é baseado nas questões representadas no texto do original e na maneira pela qual o autor e o revisor definem as tarefas de revisão e as ações estratégicas que devem ser selecionadas durante a revisão ou a reescrita. 

Estratégia de ignorar 

Quando o autor ou revisor encontrar problema que julgue não merecedor de atenção, ele adotará a estratégia de ignorá-lo durante o processo. Foi apontado que autores experientes e inexperientes costumam usar estratégias que ignoram certas questões no texto com base em um dos seguintes critérios: ignorar este problema não causará confusão aos leitores ou resolver este problema é muito difícil e não vale o esforço. Às vezes, ambos são usados simultaneamente. Chegamos às seguintes conclusões em relação à aplicação da estratégia de ignorar: 
  1. as decisões eficazes sobre o que ignorar dependem da capacidade de saber quando aplicar a estratégia; 
  2. a capacidade de exercer essa possibilidade é fator que distingue escritores e revisores inexperientes de experientes; 
  3. a ignorância pode ser estratégia complexa para controlar o processo de revisão, mas, para os menos experientes, muitas vezes, serve como estratégia de fuga. 

Estratégia de adiar 

A estratégia de adiamento está relacionada à decisão consciente de dividir o processo de revisão em várias partes. A ação adiada permite que se concentre seletivamente em parte da tarefa, por exemplo, enquanto se lida com outra parte da meta. Foi observado o uso dessa estratégia nas seguintes situações: 
  1. opta-se por priorizar as atividades de um tipo de problema por vez, tais como: primeiro olhar para os aspectos relacionados ao significado do texto, depois revisar os aspectos gramaticais e estilísticos, por fim, os aspectos relacionados à clareza; 
  2. é necessário reler o texto consecutivamente, para avaliar se o problema é grande ou pequeno em relação a outras alterações que devam ser feitas; 
  3. não há procedimento previsto para remediar o problema, então se opta por adiar até que a solução se torne óbvia; 
  4. deve-se avaliar o texto com mais rigor para encontrar a melhor forma de proceder; 
  5. é necessário ler parte específica do texto antes de saber como resolver os problemas em outras partes dele. 

A estratégia de pesquisar 

A revisão e a reescrita envolverão muitos processos, dos quais os mais importantes serão a pesquisa de memória e a pesquisa de texto. Quanto à pesquisa de memória, consiste em encontrar experiências e conhecimentos relevantes para representar o problema, trata-se de representações recentes de diferentes segmentos da memória. Por outro lado, a pesquisa de texto é o processo em que o revisor faz verificação interna ou externa para melhor processar a solução do problema encontrado, confrontando interferências adiadas com outros segmentos do texto (pesquisa interna), bem como cotejando dados com fontes referidas e outras também seguras (externa). 
Na estratégia de pesquisa, para Hayes e seus sucessores, a releitura com objetivos claros ajudará a apontar melhor o problema e a encontrar caminhos para soluções. Trata-se ainda de conferir os objetivos traçados pelo autor antes de redigir o texto com aqueles alcançados efetivamente. Algumas dessas metas são: 
  1. apontar afirmações contraditórias; 
  2. constatar se há informações redundantes ou ausentes; 
  3. avaliar a organização e consistência; 
  4. identificar os pontos que podem causar transtornos ao leitor; 
  5. conferir a consistência das legendas e demais marcas da estrutura interna; 
  6. verificar a diversidade da “abertura” e estrutura das frases; 
  7. observar a frequência de uso de frases, palavras ou conceitos específicos. 

Estratégia de reescrever

A estratégia de reescrita, ou mesmo o conjunto de operações respectivas, são ações do autor cujo objetivo não é necessariamente preservar o texto durante o processo de revisão, mas tentar conservar seu significado, consolidar a representação com o representado. Trata-se de reescrever o texto preliminar, o segmento dele em pauta, reformulando ou adotando outra estrutura. A reescrita ultrapassa a revisão neste aspecto: ela pode representar um avanço em relação à proposição inicial, conquanto a revisão, necessariamente, será mais conservadora, não interferindo exceto onde se fizer necessário e em estrito respeito ao original do autor. A esse limite da revisão temos nos referido como “princípio da mínima interferência”. 
Ao reescrever o texto, o autor tenta apenas extrair a substância da escrita e, então, reescreve, com base em sua representação ideal. Por sua vez, aqueles que optam por parafrasear (a outrem ou a si) tentam usar outras combinações de linguagem e outras estruturas de frases e parágrafos para expressar o significado original do texto, ou adaptá-lo à nova representação pretendida, preservando algumas de suas estruturas, segundo convier. No processo de reformulação, reescrita, o escritor produzirá novas redações após restaurar a essência do texto. Por outro lado, após restaurar o significado da frase ou parágrafo, o autor vai alterar a redação do texto – o que lhe é facultado, mas não ao revisor. 

Estratégia de revisar 

A estratégia de revisão se refere à ação proposta pelo revisor ao autor: o primeiro identifica o problema e o apresenta ao segundo. O problema pode ser apresentado com uma (ou mais) alternativa de solução, ou como questionamento aberto. Nessa estratégia, o revisor acredita que muito texto pode ser salvo – e, para ser conservador, o revisor deve salvar o máximo possível do original (mínima interferência). Também ocorre o contrário: o autor encontra um problema para o qual não entrevê solução e apresenta o questionamento ao revisor, para o último propor a solução. 
Essa estratégia de reescrever é a segunda mais comum, precedida pela de revisar resolutivamente. A escolha da estratégia de revisão não significa renunciar à possibilidade de o autor diagnosticar problemas e apresentar soluções que precisam ser mais bem elaborados durante a aplicação da estratégia – quando ocorre a consideração autoral sobre a proposição do revisor. Nesse caso, o autor e o revisor descobrem que suas habilidades de escritores experiente os colocarão em posição de decidir qual das duas estratégias de modificação de texto aplicar durante a revisão (demandar reescrita ou revisar resolutivamente). 
Pode-se perceber que o exercício das revisões é muito complicado; muito mais que pode parecer a quem não tenha boa intimidade com o procedimento ou não tenha construído o arcabouço teórico de revisiologia. A implementação da tarefa de revisão pela reescrita significará trabalho consistente no original do texto, gestão cognitiva, conhecimento, tempo e a aplicação de estratégias únicas e eficazes para detectar, diagnosticar e resolver problemas em diferentes níveis do texto em construção, levando em consideração o que significará o texto paro público-alvo e em que gênero ele se enquadra. 

Revisão de teses e dissertações: observações práticas 

Quem pensa em revisar seu próprio artigo, sua tese ou dissertação tem boas intenções – ou pretende economizar recursos, mas não é o caso – nem mesmo para aqueles com muita intimidade ou formação específica das letras ou da comunicação. A revisão requer outro ponto de vista: olhos que nunca leram ou participaram da criação da obra. Todos sabem o que isso significa: não importa quantas vezes o autor leia o texto: depois de certo tempo relendo, não se verá mais nada – o problema está aí. Os autores de teses e seus orientadores têm milhares de olhos direcionados ao texto e sabem do que está representado nele. Quanto ao texto em si, depois de muitas releituras, o autor e orientador muitas vezes não conseguem ver mais os problemas remanescentes. Surge, então, a demanda por revisores profissionais que ampliarão a credibilidade do trabalho, refinando-o e aperfeiçoando-lhe a comunicabilidade. 
É necessário submeter o texto a quem nunca viu o documento antes, para que a pessoa se distancie do produto e possa identificar e destacar todos os problemas. Não é recomendado que os orientadores atuem como revisores, nem é adequado que exijam profissionais específicos para revisar os trabalhos de seus alunos. É ótimo indicar ou sugerir um bom profissional, mas a escolha deve depender do autor do texto. 
Ao escrever textos mais extensos e destinados a alguma permanência (como monografias, teses e ensaios), é necessário que o autor do texto aceite comentários dos leitores (orientadores, revisores, críticos, editores…) sobre o rascunho do texto – cabe aqui apontar que o conceito de rascunho remete à provisoriedade: um texto, atualmente, é objeto vivo em constante evolução, sua estabilização nem mesmo pela impressão ou publicação é definitiva, vista a contínua possibilidade de modificação nele, inclusive após a morte do autor. Em relação à situação de escrita do gênero acadêmico, ela requer preparação contínua da versão do texto e precisa ser considerada na perspectiva do leitor; o texto acadêmico é continuamente revisado e reescrito até ser exaurido o prazo de seu advento, normalmente uma data de depósito ou remessa à publicação. Quanto ao leitor final, o público-alvo, é necessário redigir e revisar com a consciência de que ele não é leitor virtual, personagem ficto ou sujeito idealizado, mas leitor de carne e osso, semelhante a vários leitores, uns diferentes dos outros, que terão acesso ao escrito. 
Ao considerarmos o lugar que a escrita ocupa na universidade, podemos dizer que as atividades de revisão são fundamentais, pois, na perspectiva adotada, compreendendo a escrita como processo e evento de diálogo textual, as atividades de revisão são cruciais, já que o registro e trâmite das ideias se dá por seu intermédio, ainda preponderantemente. O resultado do processo de revisão será o texto em que o autor e o leitor tenham diálogo claro, porque o autor atendeu às expectativas do leitor, que, por sua vez pode reconstruir as intenções do autor no texto. Promover esse tipo de diálogo por meio da escrita é característica marcante do ambiente acadêmico, portanto, nesse sentido – e para tal fim, a revisão é indispensável no processo de escrita acadêmica. 
O reconhecimento da importância da revisão na redação de trabalhos acadêmicos e da tarefa de revisar é exercício que nos remete a algumas questões imanentes e permanentes em nosso ofício de revisores, entre elas: a) como um aluno de pós-graduação redige a partir de suas leituras? b) como os comentários e sugestões do orientador interferem na criação do texto? c) em quais aspectos do texto os comentários se concentram e qual o comportamento do autor em relação a eles? 
Estamos sempre dispostos a discutir as expectativas dos clientes e dar-lhe algumas sugestões antes e durante a revisão. Neste blog e em outras publicações, damos milhares de dicas e sugestões de como fazer e melhorar o texto: dê um passeio em nossa página, e aprenda, além de nossa filosofia e métodos de trabalho, algo de português e da literatura científica. Esta foi nossa primeira incursão em questionamentos sobre a posição do orientador como revisor e sobre a relação trilateral entre ele, seu aluno e o revisor. Haverá muitos pontos a serem amadurecidos e diversos aspectos não foram levantados, mas já há por aqui algumas indicações de questões que temos observado.

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