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Revisão de texto: interação e processo

A revisão de textos interacionista discursiva

Noções básicas de revisão

O termo revisão de texto refere-se, no contexto de nossa prática, aos atos de verificação e aferição dos escritos alheios por leituras, releituras e interferências; seu propósito fundamental é melhorá-los e aprimorá-los. Nessa perspectiva, a revisão do texto deve ser entendida como processo que envolve um conjunto de interações que constituem as sucessivas etapas de correção e melhoria do texto. Visto que o texto revisado é o resultado desse processo, ele é um produto. No campo da pedagogia, distinto da área editorial a que pertencemos, distinguem-se dois tipos de modelos de correção da escrita – mas que, de certa forma, guardam alguma conexão com nossa atividade: no modelo de correção tradicional, os produtos são relevantes (a versão final do texto); no modelo de revisão processual, importam mais os procedimentos (a construção do texto). A revisão como procedimento ou processo é mais aproximada da atividade autoral de escrita e do conjunto de procedimentos chamamos reescrita, para distinguir de nosso objeto e prática que requerem exotopia.
Conheça nossas bases teóricas para revisar textos.
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Em português corrente, “revisão de textos” é atividade profissional, embora raramente se utilize a atividade de revisor como meio, as vezes que se recorre ao revisor para o assessoramento da produção de texto são poucas. Por outro lado, o conhecimento da linguagem e das práticas da revisão ainda é muito pequeno – inclusive por aqueles que produzem textos com frequência, como o pessoal do meio universitário. Geralmente, a atividade de revisão de texto é entendida como tarefa focada na correção de linguagem (gramática, em todas as suas facetas). Essa visão reduzida se deve ao fato de haver pouca informação sobre o assunto e, de fato, poucas pesquisas e escassa divulgação sobre a atividade do revisor e sobre os desdobramentos possíveis dela.
Embora as revisões de texto possam ser analisadas de diferentes perspectivas e as definições e traduções das palavras em si ainda não estejam unificadas, parece que a maioria dos autores usa o termo “revisão” para se referir a mudanças em textos que foram escritos por terceiros (princípio da alteridade). Algumas pessoas acreditam que, na revisão, a abordagem multidisciplinar deva ser usada para vincular diferentes métodos analíticos de psicologia cognitiva, linguística e pedagogia. Para nós, a revisão de texto é abordada como atividade profissional, e nossa proposta é a revisão interacionista, que integra dois tipos de abordagem: a da psicologia cognitiva e a análise do discurso. A finalidade dessa prática é transformar os princípios teóricos do interacionismo, da psicolinguística e da teoria da comunicação subjacente em síntese textual. Em suma, a proposta é centrada na revisão do texto como atividade interativa na qual o conhecimento e a linguagem ocupavam lugar central.

Modelos do processo de revisão

Modelos psicopedagógicos

Nas últimas décadas, o interesse pela revisão como subprocesso da escrita tem levado à elaboração de alguns modelos explicativos e descritivos do procedimento. O modelo original proposto por Flower, Hayes e seus seguidores lançou as bases para apoiar a construção de modelos teóricos sucedâneos. O modelo possui, na raiz, um processo autônomo composto por dois subprocessos: leitura do texto original e a correção como intervenção (edição). Nesse modelo, a revisão inclui quatro subprocessos consecutivos: definição de tarefas, avaliação, seleção de estratégia e execução. Além disso, nesse modelo, a memória de longo prazo é particularmente importante, principalmente no subprocesso de definição de tarefas, visto que essa representação depende do conhecimento prévio do autor (texto e contexto).
O modelo proposto por Hayes inclui três elementos: a estrutura de controle, como componente que inclui funções de planejamento, de missão e outras funções complementares; e o processo básico, como a composição cujo papel central é atribuído à leitura crítica da apreciação do texto produzido; o autor integra as funções de memória de trabalho e memória de longo prazo. Além da importância da memória de trabalho, como componente que permite a expressão das funções da estrutura de controle por meio de processos básicos, Hayes enfatizou a importância da memória de longo prazo, que é parte fundamental na definição de planos de tarefas e conhecimento do destinatário.
Por outro lado, Hayes também associa a memória de longo prazo à prática intensiva da escrita, pois, dessa forma, o revisor pode melhorar a qualidade de seu trabalho fazendo revisões cada vez mais eficazes e rigorosas, mas também por meio da escrita prática. As pessoas aprendem a avaliar o texto de maneira adequada escrevendo. Nessa perspectiva, pode-se considerar que a qualidade da revisão do texto e a adequação da estratégia de resolução de problemas dependem do conhecimento do revisor, por um lado, e da habilidade prática, por outro. A escrita, sua vez, depende das atividades do revisor, ou seja, do ponto de vista da teoria da interação, depende das ações de linguagem realizadas.

Modelo intervencionista

O segundo modelo ocupa as três últimas etapas daquele de Flower, mas tendo em vista a aplicação das funções docentes no letramento infantil. Nesse modelo, o procedimento pode ser expresso por meio de três operações cognitivas: comparação, diagnóstico e intervenção (CDI). Dado que esses processos cognitivos permitem que os revisores comparem a representação do texto escrito ao texto idealizado e identifiquem a dissonância entre as duas representações, esse processo também tem implicações em modelos de revisão ulteriores. O modelo implica que se deve evocar o armazenamento de conhecimento prévio e a representação na memória de longo prazo e na memória de trabalho. A memória de longo prazo é o recurso cognitivo que possibilita armazenar informações por um longo tempo, com alguma permanência. A memória de trabalho é o recurso cognitivo que permite armazenar informações temporariamente e, ao contrário do recurso anterior, é restrita e efêmera.

Modelos interacionistas

O terceiro modelo acrescenta à descrição das diferentes etapas da revisão, o padrão de conhecimento e as estratégias necessárias envolvidas na revisão, com importante demanda de memória de trabalho. Esse modelo utiliza também a proposição de Flower, sendo que, agora, a distinção entre processo e conhecimento (representação) é particularmente importante. Partindo da atitude da pessoa que conduz a revisão eficaz, o autor propõe quatro etapas no processo de revisão: definição da tarefa, avaliação, descoberta e orientação reflexiva. Nesse modelo, de modo semelhante ao anterior, o conhecimento é mobilizado como aspecto básico das atividades de revisão de texto. Portanto, a eficácia de cada etapa da revisão do texto depende em grande medida de diferentes modelos e acervos cognitivos.
O padrão de conhecimento e as estratégias necessárias são aspectos essenciais dos modelos de revisão. Por um lado, porque permitem antever eventuais problemas, por outro, porque facultam reaplicar estratégias mobilizando modelos de conhecimento e práticas específicas disponíveis.

Revisão de texto como processo

A partir da visão geral dos modelos descritivos do processo de revisão da redação – a revisão pedagógica no contexto do letramento, pode-se concluir que, embora a terminologia seja diferente, os modelos são consistentes na natureza e no estágio do processo de revisão como procedimento editorial. Portanto, o seguinte aspecto deve ser enfatizado: nos modelos psicolinguísticos, a revisão é considerada relativamente independente do processo de redação.
Do ponto de vista do interacionista, devemos considerar que as ações de linguagem realizadas durante a redação do texto são também independentes das ações de linguagem realizadas durante a revisão, porém, intimamente relacionadas. Nessa perspectiva, deve-se considerar que o revisor é, por um lado, o destinatário da ação de linguagem a ser implementada no texto a ser revisado e, por outro lado, é o agente que propõe nova ação de linguagem que resulta em outro produto (texto revisado), pois, durante a revisão, o revisor também é emissor de signos de linguagem.
Voltando ao modelo descritivo do processo de revisão, verificamos que, nos três modelos-tronco, ao comparar as representações do texto autoral idealizado ao escrito específico, destaca-se a importância da tarefa de revisão do representante pelo revisor e a forma pela qual ele avalia o texto como representação. Fazemos revisões entendendo que a compreensão sobre a escolha e adequação das estratégias de resolução de problemas se aplicam com o fim de melhorar o texto.
Se transferirmos a centralidade da linguagem no quadro da interatividade humana para o âmbito da revisão textual, o conhecimento e o desenvolvimento social são obtidos por meio da linguagem, e o conhecimento e o desenvolvimento da sociedade são realizados por atividades de linguagem. Verificamos ainda que a linguagem desempenha papel central e reflexivo no conhecimento mobilizado na prática de revisão.
A atividade dos revisores deve mobilizar conhecimento e expressão, além implicar na implementação de comportamentos de linguagem, pelo que tem sido realizado um trabalho contínuo sobre os signos de linguagem. Nesse sentido, o revisor utiliza o conhecimento adquirido por meio da linguagem para realizar suas atividades, mas, ao mesmo tempo, também adquire o conhecimento e desenvolve suas habilidades por meio da linguagem para realizar diversas operações (por meio da linguagem) sobre a linguagem incorporada ao texto. Dessa perspectiva, pode-se entender por que a eficácia das revisões de texto aumenta com a experiência dos revisores.
Outro ponto de fusão do modelo psicolinguístico descritivo do processo de revisão é atribuir funções diferentes à memória de trabalho e à memória de longo prazo. Com base nesses modelos, parece que o processo cognitivo que integra as várias etapas da revisão não se refere apenas ao conhecimento da linguagem, mas também aos vários tipos de conhecimento textual e contextual armazenados em duas ou três memórias complementares. Durante o processo de revisão, o revisor armazena representações e conhecimentos prévios (texto e contexto) na memória, para que possa definir tarefas e seus objetivos (representação de tarefas de revisão), avaliar textos, selecionar estratégias e realizar diferentes tipos de modificações. Com relação ao conhecimento do texto, o conhecimento da categoria geral dos tipos de texto (gêneros) permite que os revisores avaliem sua aplicabilidade à interação do texto gerado (produto da revisão).
Uma vez que os textos correspondem a “atos de linguagem”, sua produção mobiliza a representação da compreensão efetiva do sujeito sobre o contexto comportamental e os diferentes gêneros. Nesse sentido, o revisor associa seu conhecimento do gênero textual ao background de seu trabalho, ou seja, a um conjunto de parâmetros que podem afetar a organização do texto.
Os procedimentos de integração das várias fases do processo de revisão, nomeadamente a seleção das normas aplicáveis a cada gênero textual e do tipo de revisão, a avaliação do texto, a seleção das estratégias e a implementação das alterações, são determinados pelo tipo de apresentação e conhecimento prévio (texto, contexto, linguagem). Por outro lado, o conhecimento do revisor também depende de sua habilidade de redação, pois escritores experientes possuem mais conhecimento de redação e habilidade de avaliação das qualidades da comunicação textual, bem como do domínio de ampla gama de procedimentos possíveis. Atividades intensivas de redação podem tornar as revisões mais eficazes. Nessa perspectiva, se a pessoa aprende a escrever escrevendo, também podemos dizer que a pessoa aprende a revisar revisando, escrevendo e criticando.
A melhoria da prática de redação e das habilidades linguísticas permite que os revisores avaliem os textos de forma mais adequada e definam objetivos, revisando os padrões de forma clara e objetiva. Por outro lado, o distanciamento entre a escrita (a produção textual) e a revisão permite modificar o texto de forma mais eficaz. Em comparação com o texto escrito por outras pessoas, temos mais probabilidade de detectar erros em textos alheios e, quando optamos por modificar nosso texto alguns dias após a redação do texto, detectaremos erros que não foram descobertos anteriormente. O processo de revisão não resulta da leitura do texto “real”, mas na leitura do texto idealizado pelo revisor, ou seja, não lemos o conteúdo representado pelos signos gráficos, mas o conteúdo que pensamos que deveria ser representado (representação psicológica do texto idealizado). Por isso, com o distanciamento dos sujeitos (autor e revisor) ou de um lapso temporal (o escrito repousar na “gaveta”), reconstroem-se as representações fictas (ideais) e elas podem ser pautadas na materialidade do produto (texto revisado).

Componentes da revisão de textos

Vamos apresentar algumas ferramentas teóricas e recursos linguísticos utilizados para atividades de revisão de texto, incluindo a hipótese de interação, o conceito de padrões de discurso, os principais pontos de convergência dos modelos criados no âmbito da psicologia cognitiva e da práxis revisional: normas e variações linguísticas, conhecimentos gramaticais e ferramentas de padronização.
Uma abordagem teórica foi desenvolvida para as principais hipóteses que sustentam a atual proposta de revisão interativa. Com base nas premissas que apresentamos, utilizamos ferramentas para atividades de revisão de texto que levam em consideração a inexistência postos seguros para a prática revisional como atividade de ofício: a língua não é ciência exata nem a linguística é prática positivada.
A definição da tarefa é a primeira etapa do processo de revisão. Nessa fase, são definidos os objetivos globais (correções, melhorias e normalização do texto) e os objetivos específicos da ordem de serviço, nomeadamente o tipo de revisão a realizar, o grau de intervenção e as normas que devem ser aplicadas. Cada revisão de texto, por sua vez, depende do tipo de recursos e das restrições (instruções, guia de estilo, prazo) disponibilizados e impostos pelo produtor ou entidade responsável pelo texto ou destinatária dele. Portanto, em primeiro lugar, o revisor deve verificar se existe padrão pré-determinado de revisão e se dispõe de todos os recursos necessários (material de consulta, ambiente e equipamentos, tempo) para realizar a tarefa.

As representações na revisão

Na primeira fase, diferentes representações são mobilizadas: a que o revisor tem da tarefa de revisão, a do ambiente físico da tarefa de revisão, a de a si como profissional, a de representante do destinatário, a do tempo disponível, a do contexto social subjetivo da tarefa de revisão, todas elas representando o status social do revisor e suas atividades, bem como o status social e a expectativa do cliente em relação ao revisor. Utilizamos aqui o termo “cliente” para sublinhar que, na revisão, como prática profissional, o destinatário do texto é o cliente que paga pelos serviços de revisão, sendo importante que o revisor procure adaptar sua intervenção às diferentes necessidades de cada cliente.
Na primeira etapa do processo de revisão, o profissional deverá compreender o ambiente de produção (subjetividade física e social) da ação de linguagem (texto a ser revisado), isso envolve o conhecimento do revisor sobre os seguintes aspectos: o criador do texto, o lugar e época de sua produção, o papel e posição social do autor do texto. Além disso, o conhecimento do revisor sobre o contexto de recebimento (subjetividade física e social), ou seja, o conhecimento do revisor sobre o destinatário do texto e sua finalidade, local e época de recebimento. Tal primeira etapa é a base do processo de revisão, pois orientará o trabalho com base no material fornecidos pelo autor ou entidade responsável pelo texto (cliente), nos recursos a que ele pôde acessar e os diversos conhecimentos e representações que possui. As informações iniciais serão armazenadas na memória de trabalho do revisor, interagirão com as informações anteriores armazenadas na memória de longo prazo e serão restauradas por meio do cruzamento dos conhecimentos e representações mobilizados nas etapas subsequentes.

Conhecimentos linguísticos

A segunda etapa do processo de revisão diz respeito à avaliação do texto. Nessa etapa, o revisor faz uma leitura crítica do texto, tendo em vista a detecção de problemas e a natureza deles. O revisor prospecta o texto como ação de linguagem que se insere no quadro de prática social com determinada função comunicativa e, por isso, na avaliação do escrito, são também tidos em conta, além dos critérios estabelecidos na primeira etapa do processo, os parâmetros de textualidade: o conjunto de características e propriedades que fazem com que um “texto seja um texto” e não apenas uma sequência de frases isoladas; a avaliação tem em conta os aspetos linguísticos e os que dizem respeito ao contexto comunicativo da escritura. A segunda etapa do processo de revisão envolve também a avaliação do texto. Os revisores fazem leitura rigorosa para descobrir os problemas e sua natureza. Cabe considerar o texto como ação verbal de prática social, com determinada função de comunicação, portanto, ao avaliar o texto, primeiro determina-se o padrão, o gênero (o que pode ser um dado, mas pode ser necessário ser identificado). No processo, mobilizam-se os parâmetros textuais aplicáveis. A textualidade, ainda que o “texto se transforme em texto”, é um conjunto de características e atributos a serem integrados, não apenas uma série de frases isoladas ou normas avulsas, ela não só deve ser considerada em termos de linguagem, mas também no que diz respeito ao ambiente comunicativo criado pelo texto.
Sob esse ponto de vista, o revisor deve avaliar o texto considerando o contexto de um lado e o texto de outro. Em relação ao atributo centrado no texto, parece certo que a coerência é fator de textualidade, ela é propiciada pela interação entre os elementos cognitivos apresentados pelo texto e nossa compreensão do mundo. Nesse sentido, a avaliação do revisor sobre a coerência do texto depende não apenas dos elementos que aparecem na superfície textual, mas também do conhecimento do revisor. No tocante à coesão do texto, ela envolve todos os tipos de processos que garantem que importantes conexões linguísticas sejam estabelecidas entre os elementos restauráveis na superfície textual e estejam subjacentes também em profundidade, principalmente quando se trata de texto longo.
Nessa perspectiva, o revisor deve avaliar como esses dois atributos (coerência e coesão) interagem. O texto pode ser coerente, mas não coeso. Por outro lado, considerando que a coerência do discurso depende da gama de conhecimentos disponíveis para o interlocutor e da capacidade efetiva do revisor de projetá-la no universo do público-alvo por meio de ferramentas de linguagem mais recentes, a relação linear autor-leitor é que difere os sujeitos no espaço e no tempo. Da mesma forma, cada revisor poderá ter julgamento distinto ao avaliar a coerência do mesmo texto em diferentes circunstâncias. Para contextos e parâmetros pragmáticos, o revisor usa os referenciais do texto para gerar contexto e definir o produto. O atributo da representação (ou seja, a intenção, aceitabilidade, contextualidade, informação e intertextualidade do texto) depende dos parâmetros do ambiente físico e social em que o escrito é produzido.
Na segunda etapa do processo de revisão, é mobilizado o conhecimento de idioma dos revisores, como conjunto de regras gramaticais que constituem a linguagem-padrão. Porém, há quem pense que na revisão do texto também deva ser considerada a diversidade das línguas ou dialetos. Isso não significa que o conjunto de regras e preceitos que constituem a variedade padrão do português do Brasil ou de Portugal não deva ser seguida, mas que o revisor deve encontrar um equilíbrio para adequar a elocução do autor às particularidades de cada texto. O português tem duas variantes padrão mais comuns: o do português brasileiro e o do europeu. Cada padrão é disseminado por fontes de acesso amplo (dicionários e gramáticas) e outras criadas a partir dele (prontuários, manuais, listas de checagem). As fontes de padronização e referência de linguagem são os recursos básicos para atividades de revisão.
Os revisores devem compreender as diferentes tendências de registro, posicionar-se no contexto e ter em mente os tipos exatos de idioma a serem tratados em determinado trabalho de revisão de texto. Para desenvolver senso crítico sobre a atividade de revisão, estamos nos repetindo em questões relativas ao necessário processo de interação entre revisores e clientes.
Desse ponto de vista, embora a correção do idioma seja aspecto central das atividades de revisão de texto, a qualidade do escrito não pode ser avaliada apenas por padrões estritos de linguagem. Na verdade, além do conhecimento do idioma, o conhecimento de modelos de revisão também é mobilizado. O conhecimento do revisor sobre os diferentes gêneros de texto e a representação do contexto gerado pelas ações de linguagem permitirá que ele avalie a adequação do tipo de intervenção selecionado. Isso não significa que os revisores devam utilizar como padrão algum texto de determinado modelo, mas cada escrito como objeto singular, padrão de si, ainda que inserido em gênero identificável. Cada original possui características variáveis devido à singularidade objeto e de sujeitos, por outro lada, possui características relacionadas ao gênero. O texto sempre apresenta características relativamente estáveis, permitindo que seja reconhecido como pertencente a determinada tipologia, mas também apresenta variabilidade e inovação que se devem à atualização de cada sujeito, adequando cada produto a cada ação de linguagem e a cada situação de comunicação, da forma pela qual o modelo de gênero é adaptado.
No processo de produção textual, os temas são constantemente atualizados, sempre os adaptando às características relacionadas ao gênero ao qual são inseridos. Nesse sentido, o que chamamos de gênero é o parâmetro textual ou o parâmetro normativo, um artifício analítico com correspondências na materialidade dos textos.
Considerando que o texto no singular é uma atualização dos parâmetros de gênero, a avaliação do revisor desses parâmetros é baseada na análise do mecanismo de realização do texto, sendo que o mecanismo de realização do produto corresponde às opções específicas do original efetivamente gerado, dados os parâmetros de gênero. No entanto, é impossível estabelecer relação biunívoca entre os parâmetros de gênero e os mecanismos de realização do texto, pois os mesmos parâmetros podem ser atualizados por meio de diferentes mecanismos, dependendo das opções individuais e da singularidade de cada texto. Nesse sentido, os revisores avaliarão a atualização dos parâmetros de gênero ao analisar o mecanismo de realização do texto. No entanto, a atualização não deve ser expressa como conjunto de características obrigatórias e invariáveis de dada espécie, mas como elemento norteador para a geração e interpretação de normas. Por meio do mecanismo de implementação de texto, podemos identificar marcadores de gênero.
Os revisores devem analisar dois tipos de marcadores de gênero: marcadores autorreferenciais, ou seja, aqueles que indicam claramente a categoria geral do texto, como marcadores gerais (teses, artigos de opinião, crônicas, notícias, receitas, crítica, por exemplo) que aparecem no texto, bem como sintagmas nominais que aparecem no texto e se referem claramente às categorias gerais do texto (este artigo, esta tese) e, tags inferenciais (estruturas de linguagem de marcação contendo instruções, dados, para que o leitor possa renderizar sua interpretação), que são diferentes das tags anteriores, mas indicam implicitamente o genérico da categoria. Diferentemente da autorreferência, as marcas inferenciais não podem ser identificadas de forma independente, ou seja, para os revisores, as marcas inferenciais devem ser identificadas no texto completo, deve-se compreender a complexidade e a diversidade do mecanismo de realização do texto.
Nessa perspectiva, acreditamos que os padrões de discurso constituem marcadores inferenciais de gênero, a organização dos tipos de discurso e sua aparição em todo o texto podem indicar a categoria geral do texto em que se inserem.
Se o tipo de texto não pode ser totalmente identificado a partir dos traços da linguagem, o tipo de enunciado é reconhecido pelas regras linguísticas ao longo do texto, mas tipos diferentes de enunciado ocorrem em tipos específicos de texto. Por exemplo: uma tese contém agradecimentos, resumo, introdução, desenvolvimento, conclusões – segmentos de diferentes enunciados, subgêneros, integrantes do gênero tese que, por sua vez, pertence supergênero dos textos científicos. No entanto, é claramente possível reivindicar relativa estabilidade, que pode ser observada quando os tipos aparecem na diversidade de gênero. Assim, embora os tipos de discurso possam não representar a categoria geral do texto em que se inserem, é necessário esclarecer o predomínio de um (ou mais) discursos e sua organização e aparência no mundo. Palavras (padrões de discurso) constituem marcadores de gênero inferidos.
Identificar esse tipo a partir do padrão de discurso depende, em certa medida, do entendimento do revisor sobre o gênero, porque mais conhecimento do objeto permitirá que ele identifique de forma mais eficaz possíveis problemas no padrão de discurso. Além disso, considerando textos mais padronizados, ou seja, textos com funções mais estáveis (como artigos científicos e resenhas), também é importante padronizar mais ou menos o texto, que tende a ter padrão de fala mais estável. Ao revisar textos mais padronizados, a representação de parâmetros comuns tenderá a ser mais clara e mais estável, e os revisores detectarão mais facilmente quaisquer características que não se espera que apareçam no tipo. Por outro lado, o conceito de padrões de discurso está relacionado à emergência de tipos de discurso, mas também relacionado ao plano de texto integrado.
Considerando que o plano do texto envolve a organização do conteúdo temático em todo o texto, e o modo discursivo envolve a organização e o aparecimento do tipo de discurso em todo o texto (a retórica textual), devemos entender que o modo discursivo nos permite compreender parcialmente o texto completo, de modo a determinar e atualizar planos gerais relacionados ao gênero. Portanto, o revisor deve considerar que o produtor do texto organizará, aparecerá e expressará os estilos de discurso mais convencionais de acordo com o plano de texto relacionado ao gênero pretendido. Nesse sentido, embora seja impossível classificar completamente os gêneros a partir do discurso, sempre é possível imaginar uma determinada identidade de discurso.

Estratégia de revisão

A terceira etapa do processo de revisão envolve a escolha da estratégia. Depois de avaliar o texto na etapa anterior, o revisor terá que decidir, escolher os aspectos que devem ser revisados e escolher as ações adequadas para corrigir os diferentes tipos de problemas detectados. Portanto, a decisão do revisor depende dos critérios de revisão estabelecidos na primeira etapa, da avaliação do texto, da representação e do conhecimento mobilizado nas etapas anteriores e, por outro lado, depende de sua mobilização nessa etapa do processo. Revisão, ou seja, a aplicação do conhecimento específico da linguagem e das estratégias adequadas para resolver diferentes tipos de problemas, aplicando todo o conteúdo cognitivo, está intimamente relacionada à experiência do revisor. Revisores experientes naturalmente terão gama mais ampla de repertório e tomarão decisões mais rapidamente.
Depois de tomada a decisão, entra a fase de execução e o revisor faz as alterações necessárias para corrigir e aprimorar o texto. Essas alterações podem ser feitas na superfície do texto (forma) ou podem afetar a profundidade do texto (conceitos). Todas as modificações feitas e a decisão implementadas dependerão sempre dos critérios previamente definidos. Portanto, as modificações realizadas pelo revisor podem incluir correções, reformulações, sugestões e modificações, bem como exclusões, adições, inserções e alterações. Tal como acontece com a tomada de decisão, a experiência do revisor nas práticas de redação e revisão de texto é decisiva para a eficácia da revisão.
Na última etapa, após reler o texto, o revisor faz dois tipos de comparações: comparações entre a representação do texto original (memória de trabalho) e o texto revisado (resultado do processo) e comparações entre exemplos de gênero. Texto revisado é produto do conhecimento que o revisor armazenou na memória de longo prazo e do modelo de gênero que o texto deve implementar.

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