Pular para o conteúdo principal

O revisor profissional e o autor


O revisor é o ator principal da revisão profissional, pois ele é tão essencial para o trabalho de revisão quanto o texto – por mais óbvio que isso possa parecer.

O revisor de textos é o foco desta postagem e seu trabalho, a revisão do texto, é a prática e o produto que o define. A natureza do serviço de revisão de textos, tanto como processamento (as etapas do serviço), quanto como resultado (o texto revisado), será aventada em função da pessoa do revisor; vamos discutir e procurar subsidiar a formação de revisores e a mediação que ele exerce em relação aos escritos e no mercado de revisão, em especial a revisão de teses e de dissertações – que são o foco de nosso trabalho.

O revisor de textos

O revisor profissional é aquele que tem a tarefa de corrigir e aprimorar o escrito de outrem, fazendo as modificações e adequações necessárias, em diálogo aberto com o autor, de forma a contribuir para a qualidade da publicação.  A definição não dá conta apenas do fato de que o diálogo aberto com o autor só é possível se ele estiver presente, o que nem sempre ocorre, até por óbito; quanto ao mais, a proposição subsiste.
Autor e revisor são parceiros na qualidade do texto.
Já foi bem demonstrado, no caso da escrita acadêmica em particular, que certas características do autor influenciam sua tarefa de escrever um artigo científico ou mesmo sua tese. Motivação e afeto, por exemplo, desempenham papel central nos processos de pesquisa, de composição, de redação, seja pelos objetivos que o autor se impõe, pelas predisposições e atitudes que apresenta em relação a seu trabalho, ou pela estimativa que ele faz dos custos-benefícios associados a uma ação e não a outra.  A mesma observação pode ser feita no caso da revisão profissional: certas características dos revisores influenciam seu processo de revisão do texto. Na prática, pode-se atestar isso: dois revisores que recebam o mesmo mandato, a trabalhar no mesmo ambiente, não apresentarão produtos idênticos ao cabo; disso se pode dizer que a revisão de textos, ainda que estabelecida em mesmas bases teóricas e segundo mesmos critérios procedimentais, seja um serviço personalíssimo: cada profissional faz de modo particular e chega a seu próprio resultado. Em última instância, a persona e a personalidade do revisor se refletirão sobre as intervenções propostas e feitas, assim como não se poderá negar sua invisível presença como um dos intercessores no produto. Mesmo se a abordagem geral é semelhante de um revisor para outro (leitura, detecção, resolução), os problemas detectados sejam os mesmos, as estratégias e as proposições apresentadas vão diferir: a língua contém um sem-número de alternativas válidas e a decisão por alguma delas, se não é aleatória, não será também coincidente entre diversos revisores. 
As principais características do revisor de textos, na prática de seu trabalho, dizem respeito à profissão e à personalidade. Todavia, apontam-se diversas características específicas do revisor que refletem em sua vida profissional, algumas das quais têm caráter pessoal, outras dizem respeito ao ofício, há ainda aquelas de natureza discursivas ou funcionais e as meramente contextuais; todas elas, conjugadas, formam o perfil de cada revisor. Todavia, a engenharia reversa, traçar-se um perfil ideal e ir-se à busca de alguém para ser revisor parece ser uma estratégia inadequada. Pelas nossas observações, é mais fácil encontrar-se uma pessoa no revisor que encontrar um revisor entre as pessoas.
Um pouco de história. Com o advento da imprensa em meados do século XV, abriram-se as portas para as primeiras gráficas na Europa. Desde a invenção da imprensa e até hoje, o trabalho do revisor continua sendo corrigir os erros percebidos – por mais que o revisor moderno vá muito além disso. Naquelas gráficas antigas, havia uma variedade de funcionários, sendo um deles o revisor tipográfico, o que não existe mais, pois não se usam tipos móveis desde o fim do XX. As gráficas antigas estabeleceram procedimentos para editar, preparar o texto e revisar. Corretores especializados garantiam que os textos seguissem os padrões da época.
Antes da imprensa, os copistas monásticos alteravam palavras ou frases que julgavam estranhas, supondo que o copista antes deles tivesse cometido um erro. Foi isso que levou a tanta variedade em textos comuns como a Bíblia. As sucessivas versões de quaisquer textos antigos apresentam variações segundo as gerações de copistas que os reproduziam, até que se chegassem às versões “consolidadas” pela impressão ou pelas sucessivas edições críticas e comparativas. Revisadas e cotejadas por profissionais exaustivamente.
O papel do editor era decidir se um manuscrito era bom o suficiente para ser publicado. Com o passar do tempo, os papeis de autor, editor e revisor começaram a se delinear melhor. Embora houvesse nova relação entre editores e autores, a edição cuidadosa não terminou. Após a globalização do livro, entre os anos 1800 a 1970, deu-se a ascensão de escritores e editores americanos. Um editor em particular, Maxwell Perkins, foi procurado por escritores como Fitzgerald, Hemingway e Wolfe, porque ele melhorou muito o trabalho desses autores proeminentes com seu olhar editorial. Perkins era conhecido por editar, orientar e fazer amizade com seus escritores – mas os tempos estavam mudando. 
Ao longo do XIX e princípio do XX os revisores de textos foram empregados em várias editoras, revistas, periódicos e por autores particulares que buscavam revisões em seus trabalhos – mas revisores eram, em grande parte, estudantes de humanidades que exerciam o ofício para ter renda complementar durante sua formação. Com o advento da mídia de massa, alguns revisores de textos foram empregados por empresas de relações públicas e publicidade que valorizavam fortes práticas de edição em seus negócios.
Apesar de sua longa história, a revisão como prática não passou por nenhuma transformação significativa desde o avento da imprensa até a revolução da editoração eletrônica nos anos 1980. Esse fenômeno começou como resultado de uma série de invenções lançadas em meados desta década e refere-se ao crescimento do uso da tecnologia no campo da produção e editoração dos escritos. O desenvolvimento do computador Macintosh, a impressora a laser de mesa da Hewlett-Packard e o software para publicação de desktop chamado PageMaker permitiram o grande salta na revisão de textos. Ao possibilitar que os sujeitos, por exemplo, os autores de teses, dissertações assim como as universidades e agências de publicação passassem a fazer, de maneira barata e eficaz, a edição de composições inteiramente na tela, em vez de manualmente, a revolução das publicações transformou a edição de originais na prática atual. Atualmente, a maioria dos editores depende dos processadores de texto, como o pacote Microsoft 365®, que são evoluções do PageMaker original para fazer melhor seu trabalho.
Houve alguns eventos que levaram a mudanças carreira do revisor. Uma delas, a bem-sucedida greve do departamento editorial do Newark Ledger, de 17 de novembro de 1934 a 28 de março de 1935, e a série de greves lideradas pelo Sindicado dos Jornalistas de New York contra vários jornais menores no verão de 1934, essas ações serviram para mudar a imagem do redator e do revisor como um “profissional”. Outra greve do ano de 1934 foi na Macaulay Company, que pode ter sido a primeira greve a ocorrer em uma editora. Na conclusão da segunda greve de Macaulay, que ocorreu três meses após a primeira, o impulso nacional à sindicalização havia entrado no setor editorial e estava “varrendo todas as principais editoras”. 
Devido ao surgimento da era digital, as funções e responsabilidades do revisor foram transformadas. Por exemplo, a partir de 1990, os editores de textos já faziam paginação eletronicamente. Já se podia ver páginas diferentes de um texto em várias telas e editar facilmente, em vez de colá-las manualmente em um quadro. Quem escreveu sua tese antes dessa época se lembra dos recursos de colagem, corretivos líquidos e dos serviços de datilografia especializados. Esse avanço tecnológico também exigiu que os pesquisadores, editores, designers e revisores aprendessem a usar novos softwares como Pagemaker®, Quark Xpress® e Adobe InDesign®. Passou a ser necessário revisar as versões digital e impressa do texto da tese e da dissertação. A revisão na tela requer que os revisores entendam feeds, mídias sociais como Twitter® e Facebook® e Hyper Text Markup Language®. Deve ser levado em consideração que, na era digital, as informações são divulgadas quase em tempo real, o que leva ao declínio na edição das versões online. Embora os revisores ainda se dediquem às tarefas tradicionais, como verificar fatos, gramática, estilo e escrever títulos, algumas de suas funções foram deixadas de lado para abrir caminho para a tecnologia. Alguns revisores precisam criar, formatar layouts de página e outros até editar conteúdo de vídeo. Muitos revisores especializados em teses e dissertações, ou mesmo em artigos científicos, também fazem a formatação, segundo as normas que o cliente indicar.

O profissional da revisão de textos

O revisor profissional é o linguista que intercede no escrito visando sua compreensão e avaliação, para fazer interferências e proposições visando o aperfeiçoamento dos aspectos informativos, organizacionais ou formais, a fim de melhorar a estrutura linguística do texto e sua eficácia comunicacional. São intercessões feitas por operações de sugestão, adição, exclusão, substituição, deslocamento e podem afetar as diversas unidades do escrito, do caractere à trama completa. As mencionadas interferências podem ser menores – e relacionar-se ao detalhe – ou maiores – e relacionar-se ao conteúdo e organização textuais. A tal conjunto de práticas do revisor profissional chamamos revisão – mas essa expressão tem sentidos bem diversos aos quais voltaremos à frente. Menos frequentemente, a atividade de revisão de textos também pode incluir a reescrita de parte de uma frase ou seções longas do documento, bem como inversões de parágrafos, blocos de texto ou mesmo capítulos inteiros. A revisão profissional é o trabalho de interposições feitas pelo linguista de ofício na escritura de outrem antes de ela vir a público. Revisão é atividade complexa, compreendendo ampla gama de tarefas processadas com base na linguística e por razões comunicacionais ou editoriais. A revisão de uma dissertação, um texto mais longo, ou a revisão de uma tese, requerem experiência com a linguagem acadêmica e longa vivência no ofício.
A revisão, tomada em sentido amplo, é o resultado de mediação que mantém o maior número possível de palavras e do sentido do manuscrito original. Trata-se da interferência mínima, muitas vezes feita sem recorrer a uma estratégia bem clara (correção automática de detecção). O revisor expressa a ideia do autor, mas de forma ligeiramente diferente, tentando aumentar-lhe a clareza e precisão, mantendo o sentido. A reescrita de uma tese, como nós a definimos, é o resultado de ajustes, correções e até de mudança substancial na forma do texto original, mas processada pelo autor que pode, inclusive, alterar o sentido das palavras ou dos segmentos.
A revisão acadêmica está diretamente e inexoravelmente relacionada aos processos da produção de textos científicos, em primeiro lugar, e de leitura, em conjunto e em seguida. Por isso, ao relermos um documento científico que produzimos, buscamos – mesmo sem o conseguir – assumir uma visão exotópica, aquela em que a leitura é realizada com um olhar diferente do que lhe empresta o autor, um olhar que simularia a leitura realizada pelo leitor para o qual aquele escrito é destinado, é o que temos chamado de visão alterna, e verificar os mais diversos aspectos da estrutura textual, de forma a identificar possíveis problemas, inclusive trechos cuja interpretação seja difícil para o leitor. Revisão é sempre esse processo, mesmo quando relemos um bilhete, um e-mail informal, um trabalho acadêmico ou um livro a ser publicado. 
Na maioria das vezes, a reescrita adota estratégia imediata. A revisão profissional é, em sentido restrito, o processo pelo qual o revisor propõe metodicamente interferências com vistas a resultados planejados, segundo estratégias bem estabelecidas.  A intercessão e as interferências do revisor só fazem sentido se o material a ser editado já tiver um padrão muito bom. De fato, é ilusório, do ponto de vista prático (e econômico), querer revisar um texto que não alcançou ainda uma versão de boa qualidade.  No caso das teses e dissertações, o ideal é que o texto seja submetido ao revisor depois de ter sido aprovada a versão final pelo orientador.
Ao apresentar o contexto em que os revisores trabalham, especificaremos alguns dos fatores que influenciam suas decisões de fazer interferências no texto. Por outro lado, ao descrever a abordagem dos revisores profissionais para revisar os textos acadêmicos, apresentaremos as interposições, incluindo as mudanças léxicas, em todo o processo de revisão, como intercessões, o que possibilitará compreender em caráter inicial como elas são geradas e o papel do revisor profissional como coautor invisível.
Para saber as circunstâncias em que os revisores trabalham, os modelos de revisão desenvolvidos até o momento, sobre os quais já nos detivemos em outros textos, são muito úteis. Eles fornecem orientações relevantes sobre a atividade de revisão, mas não refletem todos os aspectos da realidade profissional dos revisores. Recentes pesquisas sobre o processo de revisão profissional compensam a falta de conhecimento teórico, até então grave, sobre essa profissão e suas práticas, bem como já possibilitam apresentar uma primeira descrição, conceitualmente bem amarrada, bastante completa do processo e do profissional. Os dados compilados e analisados aqui, não apenas apontam as semelhanças e diferenças entre a revisão profissional e autorrevisão (reescrita), mas também levaram à definição de revisão de textos e ao modelo de revisão profissional arquetípico a que temos aderido. Fique claro que novas pesquisas na área precisarão ser realizadas para validar o modelo ou ajustá-lo, se couber, mas no estado atual da arte, ele nos parece já representar com bastante precisão tudo o que a revisão profissional engloba.
Antes da era digital, os revisores marcavam erros e inconsistências com uma caneta vermelha, usando uma linguagem de marcação de símbolos que eram universalmente conhecidas. Aqueles sinais não podem ser usados na edição digital porque não são suportados em plataformas digitais. Com mais publicações on-line e menos impressão em papel, as cópias impressas não conseguem mais acompanhar a publicação digital. Para um editor contratar revisores para imprimir uma cópia impressa, fazer edições e depois fazer alterações não é mais o processo mais eficiente. A posição dos revisores pareceu estar em risco porque o tempo cada vez mais exíguo exigiu resultados mais rápidos, com o serviço parcialmente automatizados pelos softwares que detectam erros gramaticais. A transferência da responsabilidade dos revisores humanas para o software digital foi adotada por algumas editoras, pois estava disponível gratuitamente – logo em seguida passou a ficar bem claro o equívoco que essa substituição denota, e passou a haver novamente demanda de revisores, mas eles outras funções, além daquelas tradicionais.
Os profissionais que temiam que a introdução do software de edição digital acabasse com a carreira de revisor, na verdade, viram sua função se ampliar. Os revisores ainda são empregados e necessários para a revisão mecânica, ainda que com a assistência dos computadores, mas também para a verificação de fatos e organização de conteúdo, que estão além das habilidades do software, e muito mais que isso: a aferição da comunicabilidade entre emissor e destinatário está tão distante da capacidade dos computadores quanto a possibilidade de eles assumirem o controle autônomo de nossa sociedade. Com o software de gramática e os autores que podendo editar na tela, os revisores são vistos como um luxo em qualquer publicação. O potencial de uma empresa usar software de edição também pode exigir que o revisor realize apenas edições e consultas intensas. Embora as etapas para edição de texto sejam as mesmas, a execução foi adaptada para ambientes digitais.
Uma das características da revisão de textos é que ela demanda tempo e pode retardar a publicação; na verdade, revisão pode ser um processo mais lento que a própria redação, nessa nova dinâmica das palavras. Quem vai defender uma tese tem que ter a noção de que será necessário reservar algum tempo para que o revisor possa fazer seu trabalho! Com a era digital, surgiu a demanda e a oferta crescentes por rápida troca de informações, por publicações urgentes, prementes e instantâneas, mas a revisão é trabalho humano e a tese ou dissertação precisam ser bem revisadas: é necessário tempo. As publicações baseadas na Web não têm espaço suficiente em seus orçamentos para manter uma equipe suficiente para revisar suas massivas e diárias produções rotações de conteúdo. O mesmo acontece com um mestrando ou doutorando, o orçamento é restrito. Portanto, as publicações de menor prioridade são publicadas sem revisão e pronto, na verdade, muitas vezes as publicações recebem várias atualizações e emendas no dia em que são publicadas e nos dias subsequentes; depois, o texto “morre” quando o interesse por ele desaparece e a versão publicada fica abandonada, no estado em que estiver, é uma relação bem diferente dos autores com a palavra e com o público, bem diferente daquela ligada à palavra impressa. Já a tese ou a dissertação são textos perenes: são escritos uma vez e perduram para sempre. Por isso é necessário muito cuidado com o produto.
O texto publicado na Web “surge” em resposta a demandas altas por conteúdo produzido rapidamente – e é instantaneamente dado ao público; a maioria das publicações on-line começaram a publicar os artigos primeiro e depois a editar depois, um processo conhecido como edição posterior. Os editores priorizam histórias para editar com base no tráfego e se o conteúdo foi originalmente relatado por precisar de edições. Nós mesmos, revisores que somos, publicamos em nossos blogs material sem a maturação que aconselharíamos para o texto a ser impresso. Trata-se de uma mensagem urgente, mesmo que não haja urgência na informação. A emergência é criada pela mídia, não pelo conteúdo e a provisoriedade e a constante possibilidade de aperfeiçoamento do que já foi a público faz do revisor um personagem diferente na rede da edição.
A tese e a dissertação, ao contrário, são texto de longa tradição escrita. Têm suas próprias regras e costumes. É necessária para esse tipo de textos científicos longos a contratação de serviços de revisão especializados.
À medida que os textos on-line aumentam sua base de leitores, os revisores se esforçam para atender da melhor maneira possível o aumento do consumo digital de informações, e a competição pelo leitor se torna acirrada, com a característica de que a demanda é mais suprida pela urgência da informação que por sua qualidade – principalmente quanto à textualidade; essa alta concorrência e permanente urgência resultou em diminuição gradual da qualidade da edição, excluindo a revisão ou verificação de fatos. No entanto, isso não significa que a Internet tenha limitado o escopo das responsabilidades ou oportunidades de trabalho de um revisor. Um dos avanços mais importantes da era digital é o advento da paginação e edição em tela, que dá aos revisores mais controle sobre a construção e as revisões de conteúdo. Para o profissional do texto, a internet não fechou portas, não eliminou postos de trabalho, todavia é bem claro que ela mudou o mercado, pois o volume bruto de textos produzido e dado a público é incomensuravelmente maior depois da era digital.

O autor

No sentido que nos afeta, autor é o criador de qualquer obra escrita, como um poema ou uma monografia, também é mencionado como escritor. Em sentido amplo, autor é a pessoa que originou ou deu existência a algo; essa relação entre o a pessoa e a obra, relação de autoria, determina a responsabilidade pelo que foi criado e os direitos sobre a criação. Em nosso contexto e para nosso propósito, podemos dizer que o autor é sujeito situado no polo da criação da obra, enquanto o revisor será o polo de seu aperfeiçoamento. Claro que nenhuma obra fica simplesmente polarizada entre autor e revisor, há diversos outros sujeitos intervenientes – e incontáveis precedentes, até que surja a figura do leitor-alvo. Ainda assim, precisamos sempre estabelecer entre o autor e o revisor os distanciamentos da alteridade (são personas distintas), da exotopia (situadas em lugares diferentes) e da heterografia (nos sentidos de que é o escrito do outro e para o outro) e, desse ponto de vista sim, o revisor e o autor são polos.
Autor é palavra que vem do latim auctor, derivado do verbo augeo (aumentar), é aquele que cria – mas não significa que ele cria a partir do nada: ele acrescenta, modifica, interfere; conta o conto, aumentando-lhe um ponto; autor dá causa, princípio ou origem a alguma coisa, especialmente obra literária, artística ou científica. Autor pode ser persona diferente de narrador, mas necessariamente é pessoa diferente do revisor e do leitor.
O autor de uma tese ou dissertação é o pesquisador que assina o trabalho, é quem vai defender o texto da tese perante a banca, mas ele recebeu influências de seu orientador e de todos os autores que leu. Ninguém é autor sozinho de seus textos científicos. O mesmo se dá em relação aos textos criativos.
O autor é uma das três entidades do repertório, sendo as outras o narrador e o leitor. O revisor não é entidade da narrativa, não pode ser e preza não o ser. Autor, revisor e leitor são personas do mundo real que têm relações entre si pelo menos pelas escrituras que os estão a definir como tais. A história desafia a ideia de que um texto pode ser atribuído a um autor único: todo escrito tem uma gênese. Essa gênese faz parte da escritura, também diz sobre ela e integra a mensagem. “É a língua que fala, não o autor”.  Segundo este raciocínio, as palavras e a linguagem do texto determinam e expõem os significados, e não qualquer dos sujeitos que tenha responsabilidade material ou legal pelo processo de sua produção. Cada linha de texto escrito é reflexo de referências de muitas tradições, “o texto é um tecido de citações retiradas dos inúmeros centros de cultura”; nunca é original. Caberia aqui apontar a antiga distinção que se fazia entre os verbos criar e “crear”, que não existe mais: “crear é a manifestação da essência [divina] em forma de existência – criar é a transição de uma existência para outra existência.”  Nesse contexto da criação, “somente à lembrança do étimo latino em conflito com a consciência da pronúncia se deve atribuir a vacilação entre creador e criador (falando de Deus), creação e criação (do mundo), etc, observável ainda em escritores seiscentistas. Desta incerteza tira partido o falar hodierno, sobretudo no Brasil, para definir dois conceitos distintos com dois verbos diferentes: crear (com formas próprias dos verbos em -ear), dar existência, tirar do nada, e criar, educar, cultivar, promover o desenvolvimento, crescimento ou cultura de coisa existente.”  Com isso, a perspectiva do autor é retirada do texto e os limites anteriormente impostos pela ideia de voz autoral, com sentido último e universal de “creação” são destruídos. A explicação e o significado da obra não precisariam ser buscados naquele que a produziu, assim, a psique, a cultura, o fanatismo e a vontade de um autor poderiam ser desconsiderados quando se lhe interpreta texto, porque as próprias palavras seriam suficientemente ricas, com todas as tradições da linguagem. Em tese, isso seria o paraíso para o revisor, que teria à mão toda a informação necessária ao desempenho. Mas expor ou recompor significados em um trabalho escrito sem considerar a celebridade de um autor, seus gostos, paixões, vícios, é permitir que a linguagem fale, todavia, calando o autor, despersonalizando-o.
Para nós, todos os autores são escritores, mas nem todos os escritores são autores. Assim “uma carta particular pode ter um signatário – ela não tem um autor”. Portanto, um leitor atribuir o título de autor a qualquer trabalho escrito é atribuir certos padrões ao texto em relação à ideia funcionalista de autor, segundo a qual o autor existe apenas em função de um trabalho escrito, como parte de sua estrutura, mas não necessariamente parte do processo interpretativo  ou, muito menos, fonte exclusiva. O nome do autor “indica o status do discurso dentro de uma sociedade e cultura”, podendo ser usado como âncora para a interpretação.
Segundo essa linha de pensamento, os revisores e leitores não deveriam confiar ou procurar a noção de uma voz abrangente ao interpretar um trabalho escrito, devido às complicações inerentes ao título de autor de um escritor. As interpretações poderiam sofrer ao associar o assunto de palavras e linguagem inerentemente significativas à personalidade de uma voz autoral. Em vez disso, deveria ser permitido interpretar em termos da linguagem como “autor”.  Como já dissemos, tal não caberia ao revisor.
Boa parte dos autores não possui necessariamente a competência que baste para a revisão, assim como os poucos que a possuem perdem grande parte dela em relação aos próprios escritos; de fato, pesquisas futuras podem até mesmo demonstrar que os revisores não são, por força ou decorrência, excelentes autores. O trabalho de autores e revisores é regido por demandas de diferentes perfis funcionais, pessoais e gnosiológicos, que podem se sobrepor em alguns casos, dependendo da tarefa dada ao mediador linguístico. A habilidade de revisão não é inata, mas decorrente do conjunto de informações e técnicas adquiridas, aprendidas e que requerem desenvolvimento contínuo e contíguo. Um dos elementos da competência de revisão é que os revisores interfiram nos textos seguindo princípios específicos, e todos os aspectos de seu trabalho são permeados pela consciência profissional e embasamento linguístico formal. Os revisores sabem quais parâmetros levar em conta e sabem qual método empregar para esse fim. Eles podem justificar suas decisões, e, como não confiam em seus instintos, podem dar feedback objetivo e construtivo sobre o texto que revisam.  Os revisores especializados em teses e dissertações sabem o que os pesquisadores esperam deles: pontualidade e rigor científicos.

Postagens mais visitadas deste blog

Como escrever o resumo de sua tese ou dissertação

O resumo é parte necessária da apresentação final de uma tese, dissertação ou mesmo de um artigo. A versão final do resumo terá de ser escrita depois que você terminar de ler a sua tese para enviar ao revisor do texto. Um resumo prévio, escrito nas diferentes fases do seu trabalho vai ajudar você a ter uma versão curta de sua tese a cabeça. Isso vai conduzir seu pensamento sobre o que é que você está realmente sendo feito, vai ajudá-lo a ver a relevância do que você está trabalhando no momento dentro do quadro maior, e ajudar a manter os vínculos que acabarão por conferir unidade à tese (dissertação, TCC, artigo). Resumo é uma apresentação concisa dos pontos relevantes de um documento (NBR 6028:2003).  O que é um resumo? O resumo é um componente importante da tese. Apresentado no início da tese, é provável que seja a primeira descrição substantiva do trabalho a ser lida por um examinador ou qualquer outro leitor externo. Você deve vê-lo como oportunidade de definir as expectativas p…

Como escrever um texto acadêmico – aspectos gerais e específicos

Um texto científico ou acadêmico é um complexo trabalho dissertativo ou narrativo que tem características próprias sobre sua concepção, criação e apresentação. Bons textos científicos acrescentam conhecimento mesmo quando levantam novas dúvidas, novos problemas ou novas abordagens sobre uma questão, permitindo que leitores encontrem realidade e humanidade em palavras que foram completamente estruturadas para apresentar ou discutir um enfoque específico de um tema. Não importa qual tipo de texto você queira ou necessite escrever – pode ser uma tese de livre-docência, de doutorado, uma dissertação, monografia, um artigo científico, relatório – você precisará de disciplina, energia criativa e de dedicação para a pesquisa, criação, revisão e edição do texto. Apresentamos algumas sugestões para contribuir na redação.
Antes de começar a escrever um texto acadêmico, considere: problema, tema, abordagem Tenha claro para si o tipo de texto que vai escrever e o público a que ele se destina. Ne…

Principais estilos de citações bibliográficas e referências

Os estilos de citações são muitos, cada revista científica, cada programa de pós-graduação decide qual estilo vai adotar, como fazer as citações.Primeiramente, vale informar que "estilos científicos" não são estilos "literárias", mas a edição de estilos, ou seja, modos de apresentação de conteúdo estruturados, formas de escrever artigos científicos, apresentação, organização de conteúdo, formas fazer abreviações, anexos e fotos presentes nos textos e, além disso, formas de citações bibliográficas e de referências. Por isso as formas de citações dependem de cada estilo científico.
Para trabalhar com estilos de citações, é melhor usar um gerenciador de bibliografias como Refworks, Zotero, EndNote, Reference Manager, BibText e outros similares. Mesmo o Word que todo mundo tem faz esse serviço. O que impressiona muito é que a quase totalidade dos autores brasileiros não faz uso de nenhum desses programas e nem sequer sabe que o próprio editor de textos mais comum faz o …

A tese: material e métodos, resultados e conclusão, estilo e referências

A escrita da tese segue parâmetros distintos nas seções específicas do texto, guardando unidade de estilo e coerência entre todos os segmentos do trabalho. Material e métodos Nesta seção o autor deve explicar claramente como o experimento foi realizado, e como foi realizada a análise estatística dos dados, podendo também utilizar as sugestões indicadas para escrever a introdução e buscando garantir que: a.Os leitores possam compreender e avaliar o experimento do trabalho e o tema da tese;
b.Outros pesquisadores possam utilizar o estudo independente para verificar os resultados do mesmo ou de outros contextos e produções. Algumas dicas úteis para escrita da fase “material e métodos” são descritas a seguir:
1)Mencionar a data e o local onde foi realizada a prova experimental, especificando as coordenadas geográficas e/ou as características físicas e biológicas relevantes.
2)Descrever o plano experimental, incluindo os tratamentos aplicados, o número de repetições, a unidade experimenta…

O gênero de discurso acadêmico-científico

O gênero acadêmico-científico, baseado na semântica linguística, na descrição de um sentido linguístico. Todas as esferas da atividade humana estão sempre relacionadas à língua. O uso da língua se dá em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, emanados integrantes da atividade humana. O enunciado mostra as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas: conteúdo temático, estilo verbal e construção composicional. Esses três elementos convergem para o todo do enunciado e todos eles são marcados pela especificidade de uma esfera de comunicação. Vê-se, então, que qualquer enunciado considerado isoladamente, é individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, que são os gêneros do discurso. Cada esfera dessa atividade se diferencia e se amplia à medida que a própria esfera se desenvolve e fica mais complexa. A partir das três características que formam um gênero, condições específicas, estilo …