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Revisor de textos: fidelidade e traição

A questão entre fidelidade ou traição em relação ao trabalho revisor de textos tem muitas nuances assemelhadas ao mesmo questionamento em relação à tradução.

Se, durante séculos, o debate sobre a tradução foi em torno dessa dicotomia, sendo a fidelidade geralmente entendida como a tradução literal do texto original e a traição como qualquer tentativa de adaptar o texto a um novo leitor, às vezes muito diferente do destinatário do original, tais problemas subsistem quanto à revisão. É bem certo que os critérios nos quais tais julgamentos baseiam são, muitas vezes, vagos e muito subjetivos, mas isso não afasta nem resolve a questão, pelo contrário, apenas agudiza a querela. Esse conjunto de problemas passou a ser mais afeto à revisão, à medida em que ela deixou de ser uma prática corretiva para se aproximar de um processo de aferição de textualidade; quando o revisor deixou de ser o corretor tipográfico para ser mais um intercessor na produção textual e suas ações passaram a ser efetivas interferências no texto. Nesse bojo, toda a discussão entre o papel do intercessor e a fidelidade, entre a interferência e a traição.
Revisar teses e dissertações requer experiência e maturidade profissional.
O revisor de textos é um intercessor
consciente na textualização.
Por quase meio século, a tradutologia desenvolveu conceitos teóricos e ferramentas que permitiram superar essa visão dicotômica e simplista da atividade da tradução; quanto à revisão de textos, a abordagem é mais recente. Estudos sobre revisão, tanto como processo como como produto, têm destacado a necessidade de levar em conta sua dimensão comunicativa e, em particular, o contexto cultural em que se encaixa. Revisar é hoje visto como um ato de mediação não entre autor, texto e norma, mas, sobretudo, entre mensagem e público-alvo. Revisar passou a ser uma série de procedimentos, de intervenções em um texto visando adequá-lo a um contexto de gênero com diversos vieses, social, político e econômico, mercado, fins, e esse contexto de recebimento do texto revisado tem forte influência nas estratégias adotadas pelos revisores. Mas a revisão também é um vetor de facilitação da circulação de ideias, sistemas de valor, expressões culturais. Revisão é o lugar da diferença, do questionamento prévio, da análise sobre a mídia.
O revisor passa a ser um interventor no texto ao assumir conscientemente a impossibilidade do perfeito distanciamento epistemológico de seu objeto material de trabalho ou das ideias nele contidas. No entanto, os autores geralmente relutam em aceitar a diferença, a transformação do papel do revisor. Sentem-se ameaçados por tudo o que for novo, desconhecido, e tendem a rejeitar o que pareça colocar em questão a ordem estabelecida. Alguns autores têm denunciado revisões com maior grau de interferência, que chamam de revisão “errada” ou excessiva, na qual o pretexto da comunicabilidade resulta em intercessão, há uma negação sistemática da presença coautoral do revisor. A essência da revisão é ser abertura propositiva, diálogo, cruzamento, descentralização. Revisão é alteridade no sentido de que, necessariamente deve ser feita por outra pessoa, mas também é alteridade no sentido de que não se pode negar a presença do outro, o revisor é outra persona na malha de intercessões que compõe o texto. Como diz Sylvie Durastanti: “Um país, uma civilização, uma cultura, uma literatura, uma língua que não dá lugar ao Outro estão condenadas a estagnar, a se repetir, à atrofia, à atrofia, à atrofia, à extinção.”  
A revisão está, portanto, sujeita a duas forças contraditórias dentro da mesma cultura literária, por um lado uma tendência naturalmente conservadora e, por outro lado, uma necessidade vital de renovação. Para satisfazer essa dupla necessidade, o revisor tenta, por um lado, estabelecer equivalências que permitam ao autor manter certas referências e, por outro lado, tornar visível a diferença concebida como fonte de enriquecimento, levando em conta outros fatores extralinguísticos, como o contexto em que o texto é recebido e as instruções dadas pelo cliente. A discussão parte agora em direção aos obstáculos enfrentados pelo revisor, as circunstâncias em que as escolhas devem ser feitas e o métodos usados para preservar a fidelidade ao original, as características autorais e, mais importante: para não subverter as intenções do autor. É isso que propomos discutir agora.

Em busca de representação

A linguagem não é apenas instrumento de comunicação. É também uma ordem simbólica na qual representações, valores e práticas sociais são fundamentados. Essas dimensões do social não são desarticuladas; pelo contrário, elas se interpenetram profundamente. As representações e valores pelos quais a sociedade constrói sua visão do mundo e sua identidade residem essencialmente na linguagem; ela é o agente fundamental da socialização do indivíduo e sua integração à cultura. Mas a cultura em si não está fora da ordem do discurso: a linguagem não coloca apenas “nomes” em objetos físicos e culturais; ela é o campo em que esses objetos são produzidos como representações sociais.
O estudo do processo de interpretação que gera tais representações tem sido abordado a partir de diferentes perspectivas, sendo a mais interessante para a revisão, entre outras, os espaços mentais, a semântica. Cabe atentar à complexidade da construção do sentido. assim como à importância de aspectos relacionados aos elementos simbólicos e experiências coletivas de determinado grupo linguístico.
As cenas cognitivas, padrões cognitivos em sentido geral, incluindo não apenas cenas visuais, mas tipos de transações familiares, cenários padrão, layouts familiares, estruturas institucionais, experiências ativas, imagem corporal; qualquer tipo de segmento coerente, amplo ou pequeno, de crenças, ações, experiências ou imaginações humanas, atua como filtro cultural tão importantes quanto o código linguístico, mas são muito mais difíceis de entender e de serem expressos em texto. De fato, do ponto de vista cognitivo, a revisão é uma operação entre dois sistemas semióticos que consiste em gerenciar o material linguístico a fim de estabelecer correspondências entre as representações geradas pelo texto original e aquelas que serão codificadas no texto revisado.

Intervenção como mediação linguística e cultural

A intervenção do revisor, portanto, visa essencialmente preencher lacunas comunicacionais (vazios semânticos) e reunir duas visões de mundo – a do autor e a do público-alvo, mesmo que a equivalência nem sempre possa ser garantida em todos os níveis.
Existem vazios semânticos de dois tipos: vazios linguísticos e vazios referenciais que, em traços largos, correspondem, respectivamente, a lacunas catafóricas e anafóricas ou lacunas culturais. De fato, esses dois fenômenos estão intimamente relacionados, pois a ausência de correspondência linguística é a manifestação de diferentes processos cognitivos na forma pela qual a realidade é percebida e representada.
No campo literário, vazios semânticos são comuns em textos intimamente relacionados ao cotidiano e às instituições de uma cultura. Nesse caso, o papel do revisor como mediador é evidente: intervém no texto e fornece ao leitor as informações necessárias para que ele possa construir uma representação semelhante à sugerida pelo texto original. Os processos de inserção de suplementos culturais necessários à interpretação de um texto variam e podem variar desde a inserção de um segmento entre parênteses, até a adição de uma nota de rodapé, ou mesmo várias páginas de prólogo, se as informações fornecidas forem necessárias para entender todo o trabalho.
No entanto, esse tipo de explicação é processo difícil de aplicar quando as cenas e quadros sugeridos pelo texto devem ser capturados imediatamente, por exemplo, no caso de trocadilhos ou metáforas. O trocadilho faz você sorrir porque, simultaneamente, desencadeia representações em, pelo menos, dois níveis diferentes de leitura. É a conexão de duas estruturas esquemáticas associadas a áreas de experiência humana completamente estranhas umas às outras que produzem o efeito lúdico e histriônico. Se o leitor constrói apenas uma dessas representações e a outra deve ser explicada a ele, o efeito lúdico desaparece. Quanto à metáfora, a falta de correspondência entre a fonte e a cultura receptora é um grande obstáculo, pois a metáfora não é apenas uma figura de estilo, é também, e acima de tudo, uma ferramenta de pensamento. Como a comparação, a metáfora é baseada em processo de analogia no qual uma estrutura esquemática imaginada a partir do domínio de origem é projetada para um domínio-alvo. Tal processo nos permite assimilar novos conhecimentos com base no conhecimento preexistente. No entanto, quanto mais familiar a estrutura esquemática do domínio de origem é para o leitor, mais poderosa é a metáfora. Autores de textos filosóficos ou científicos muitas vezes usam metáforas para transmitir estruturas de conhecimento que o leitor apreenderá na forma de uma imagem.
Se a ausência da referência impossibilita a construção da representação, a duplicidade ou a multiplicidade de referências é um problema igualmente importante. As virtualidades semânticas de certas unidades léxicas permitem jogar em ambiguidades ou duplos significados que nem sempre podem ser transferidos ao público-alvo.
Até agora, analisamos casos em que a assimetria cultural força o revisor a assumir plenamente seu papel como mediador. As modalidades de sua intervenção variam dependendo da função e do grau de relevância das unidades léxicas passíveis de interpretação pelo leitor. Mesmo que, em alguns casos, a solução envolva a supressão ou redução de certos efeitos estilísticos, a intervenção não altera o “espírito” do texto. No entanto, este não é o caso em todos os casos.

Intervenção como manipulação

Os fatores extralinguísticos que influenciam a revisão não se manifestam apenas na interpretação e comunicação de sentido, mas também no papel que o texto traduzido deve desempenhar no leitor. De fato, a revisão é um ato de reescrita e uma “manipulação” do texto original que pode ser usada para vários propósitos.
Esse ato revisional de recriação está sujeito a fatores sociais, econômicos e políticos que nem sempre o revisor é capaz de dominar. O primeiro desses fatores é a influência de formas canônicas de diferentes gêneros textuais no leitor-alvo. Desse ponto de vista, subscrevemos alguns dos princípios da Teoria do Polissistema aplicados ao estudo da literatura. O Polissistema refere-se a um conjunto heterogêneo e hierárquico de sistemas literários nos quais gêneros literários de prestígio e grandes obras ocupam posição dominante, no centro do sistema, enquanto obras “secundárias” são relegadas à periferia. A peculiaridade desses sistemas sendo seu dinamismo, esse equilíbrio de poder pode mudar porque as obras secundárias lutam para serem reconhecidas e acessar o centro do sistema. As formas literárias “em primeiro lugar” tornam-se, portanto, formas canônicas que regem a aceitabilidade de um texto. Devido a seu status como segundo texto, a revisão está na periferia do sistema e tende a se conformar com as convenções dos textos canônicos. Embora a teoria do polissistema tenha sido desenvolvida principalmente no campo literário, consideramos que alguns de seus postulados são aplicáveis a outros tipos de textos, notadamente aqueles com os quais mais trabalhamos, as teses e dissertações que intentam, muito frequentemente, aderir a cânones do gênero.
De fato, no campo científico, a análise de artigos de popularização revela importantes diferenças na percepção da ciência pelos cientistas ou pelos leitores externos à comunidade acadêmica. Nos textos de difusão científica, a introdução de elementos lúdicos é frequentemente usada como mecanismo de gancho para estabelecer conluio com o leitor e tornar, às vezes, assuntos difíceis mais atraentes. No entanto, nas teses e artigos científicos, a ciência é vista como um assunto extremamente sério e artigos desse tipo geralmente adotam tom formal, canônico, didático que tende a excluir qualquer aspecto lúdico.
Essa tendência de omitir qualquer elemento que possa ser interpretado negativamente na cultura receptora visa garantir a melhor aceitação do texto e, em perspectiva mercantilista, alcance maior de vendas. Não esqueçamos que revistas científicas, romances, são produtos, comerciais ou de outro tipo de mercado, que, em princípio, devem gerar lucro – ainda que ele não se expresse apenas em quantias. O aspecto econômico ou de outro tipo de retribuição está, portanto, longe de ser insignificante. Atualmente, pouquíssimos revisores realizam sua atividade apenas por diletantismo e afinidade; revisões pro bono são exceções, as revisões são realizadas para uma editora ou um contratante que paga pelo serviço. O cliente busca geralmente um objetivo específico que ele acha que alcançará por meio da revisão, e ele não hesita em dar instruções ao revisor nessa direção. Além da orientação do autor, em muitos casos do mercado, foi acrescentada a intervenção do patrocinador sobre a intervenção do tradutor e até precedendo-a.
Podemos falar de traição na revisão? Não esqueçamos que os textos publicados serão protegidos por direitos autorais e que as condições para revisar e publicar um romance ou livre de qualquer outro tipo estão estipuladas em contrato assinado após negociações entre editores e autores ou seus representantes. Qualquer adaptação do texto que possa ser descrita como censura por razões econômicas – é intencional e faz parte de uma estratégia específica. No entanto, há muitos casos em que o estudo dos textos originais e sua revisão revelam que os processos de revisão implementados tendem a mitigar elementos que podem ser percebidos como transgressores na cultura do leitor-alvo. É difícil dizer se tais mudanças foram feitas conscientemente ou se são resultado de uma resposta de autocensura, essa reprovação de elementos da vida cotidiana que as diversas autoridades da sociedade, ou a imagem que se faz delas, não toleram, não admitem. Então, o revisor tem que se submeter às ordens do autor ou instruções de um editor, um produtor... ou para não ter que frustrar suas próprias exigências, suas expectativas, o revisor pode avançar suas diretrizes vinculantes: a autocensura também é censura preventiva.
Consciente ou inconscientemente, o revisor se submete aos requisitos de “politicamente” ou “moralmente” correto. Esse tipo de censura ou autocensura afeta particularmente o campo da gíria e do conteúdo erótico ou político.
Por razões da brevidade da exposição, separamos os componentes linguísticos da revisão como mediação daqueles mais ideológicos, mas, na realidade, os dois são inseparáveis. De fato, as formas linguísticas que usamos revelam uma posição em relação ao mundo a nosso redor. A revisão faz parte de um contexto cultural, social e econômico que impõe restrições ao revisor. É por isso que a atividade de revisar é sempre intervenção em uma mensagem, e decisões sobre a escolha de uma estratégia de revisão no nível macrotextual se manifestam no nível microtextual, por certas escolhas léxicas ou sintáticas que geram representações específicas. Em tal perspectiva, noções de fidelidade e traição deixam de ser as âncoras que sustentam a crítica das revisões. O estudo da revisão deve, portanto, ser abordado a partir da noção de intervenção do revisor e as causas e modalidades dessa intervenção devem ser examinadas. Tal abordagem também nos permite alcançar a análise de textos literários e não literários, pois, embora a revisão literária e acadêmica tenhas certas especificidades relacionadas às características formais dos textos, trata-se, no entanto, de atos de comunicação sujeitos à influência de fatores extralinguísticos.
Adaptado de REY, J.
Rey, J. (2011). La traduction : entre fidélité et trahison. Em P. Marillaud, & R. Gauthier, Traduire… Interpréter (p. 554). Toulouse : Centre Pluridisciplinaire de Sémiolinguístique Textualle.
Durastanti, S. (2002). Éloge de la trahison. Notes du traducteur. Paris: Le Passage.

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