Revisão profissional – contexto e abordagem

A revisão profissional é o trabalho de intervenções feitas pelo linguista no texto de um autor antes de ele vir a público.

Revisão é atividade complexa, compreendendo ampla gama de tarefas processadas com base na linguística e por razões editoriais. O trabalho do revisor profissional é o conjunto de atividades de compreensão e avaliação do texto escrito por um autor, individual ou coletivo, para fazer interferências e proposições que afetarão os aspectos informativos, organizacionais ou formais, a fim de melhorar a qualidade linguística do texto e a eficácia comunicacional. Essas alterações são feitas por operações de sugestão, adição, exclusão, substituição, deslocamento e podem afetar as diversas unidades do texto, do caractere ao texto completo. As mencionadas interferências podem, portanto, ser menores – e relacionar-se ao detalhe – ou maiores – e relacionar-se ao conteúdo e organização do texto. Menos frequentemente, a atividade de revisão também pode incluir a reescrita de parte de uma frase ou seções longas do texto, bem como inversões de parágrafos, blocos de texto ou mesmo capítulos inteiros.
Pesquise muito antes de contratar um revisor para sua tese ou dissertação.
O revisor de textos profissional
que se especializa em teses e
 dissertações é aquele de que
mais se exige rigor e pontualidade.
A revisão, tomada em sentido amplo, é o resultado de interferências que mantêm o maior número possível de palavras e do sentido texto original. Trata-se de uma correção mínima muitas vezes feita sem recorrer a uma estratégia bem clara (correção automática de detecção). O revisor expressa a ideia do autor, mas de forma ligeiramente diferente. A reescrita, como nós a definimos, é o resultado de uma mudança substancial que muda a forma do texto original, mas processada pelo autor que pode, inclusive, alterar o sentido das palavras. Na maioria das vezes, a reescrita adota estratégia imediata. A revisão profissional é, em sentido restrito, o processo pelo qual o revisor propõe metodicamente interferências com vistas a resultados planejados, segundo estratégias bem estabelecidas. 
Ao apresentar o contexto em que os revisores trabalham, especificaremos alguns dos fatores que influenciam suas decisões de fazer interferências no texto. Por outro lado, ao descrever a abordagem dos revisores profissionais para revisar os textos, apresentaremos as interferências, incluindo as mudanças léxicas, em todo o processo de revisão, como intercessões, o que possibilitará compreender em caráter inicial como elas são geradas e o papel do revisor profissional como coautor invisível.

Para saber as circunstâncias em que os revisores trabalham, os modelos de revisão desenvolvidos até o momento, sobre os quais já nos detivemos em outros textos, são muito úteis. Eles fornecem orientações relevantes sobre a atividade de revisão, mas não refletem todos os aspectos da realidade profissional dos revisores. Recentes pesquisas sobre o processo de revisão profissional compensam a falta de conhecimento teórico, até então grave, sobre essa profissão e suas práticas, bem como já possibilitam apresentar uma primeira descrição, conceitualmente bem amarrada, bastante completa do processo e do profissional. Os dados compilados e analisados aqui não apenas apontam as semelhanças e diferenças entre a revisão profissional e autorrevisão (reescrita), mas também levaram à definição de revisão profissional e a um modelo de revisão profissional arquetípico. Fique claro que novas pesquisas na área precisarão ser realizadas para validar o modelo ou ajustá-lo, se couber, mas no estado atual da arte, ele nos parece já representar com bastante precisão tudo o que a revisão profissional engloba.

O contexto da revisão profissional

Por contexto, entendemos as circunstâncias em que a atividade de revisão é praticada. O contexto baseia-se em uma série de parâmetros, os elementos que caracterizam a revisão e influenciam a abordagem do revisor. Os diversos parâmetros que a revisão da literatura sobre o trabalho dos revisores profissionais identificou são o contrato (mandato, ordem de serviço) de revisão, o texto a ser revisado, o ambiente (social, cultural, físico) do trabalho do revisor e mesmo do autor, por razões a que voltaremos. Muitos dos elementos que compõem os parâmetros estão quase sempre presentes, por exemplo, a remuneração média correspondente ao serviço de revisão, o sujeito (mandante, contratante, cliente) e os destinatários (público-alvo, leitores) do texto a ser revisado, o autor assim como colegas de trabalho no ambiente social serão sempre intervenientes. No entanto, esses personagens não se definem necessariamente da mesma forma. O contexto também engloba fatores processuais e procedimentais impostos ou decorrentes, por exemplo, em termos de suporte à revisão, nem todos os revisores são obrigados a enviar uma versão eletrônica de seu trabalho; alguns clientes preferem (cada vez mais raramente) receber o serviço em papel. Da mesma forma, os revisores revisam textos de diferentes gêneros e direcionados para destinatários os mais diversos, eles atuam em diferentes ambientes (empresa, ONG, editora) e trabalham sozinhos ou colaboram com um grupo de revisores ou editores. Além disso, nem todos têm a mesma experiência de trabalho ou tiveram treinamento equivalente, portanto a formação e o background do revisor, igualmente, comporão o contexto. Isso tudo explica o motivo pelo qual o contexto pode ser muito diferente de um revisor para outro, mas também, para o mesmo revisor, de um serviço para outro. 

O mandato de revisão de texto

Antes de se envolver na revisão de um texto, o revisor deve saber que a tarefa que terá de realizar geralmente recebe um mandado de revisão de um cliente – um autor, um editor ou um editor, por exemplo – no qual esse sujeito fornece as informações necessárias ao editor sobre o trabalho que deseja ver realizado. O mandato é, portanto, uma espécie efetiva de contrato que inclui as informações úteis ao revisor para orientar seu trabalho na revisão, as instruções e restrições impostas, o prazo que se estipula para o serviço – dente outras considerações, também podemos nos referir ao contrato ou mandato como a ordem de serviço: a instrução executiva que dará curso ao trabalho. As informações fornecidas no mandato geralmente dizem respeito ao tipo de revisão e aos propósitos secundários da revisão, às características do texto, ao meio de revisão, ao cronograma – quando o serviço se desenvolve por etapas – e à remuneração.

O tipo de revisão

Dos itens que o cliente deve mencionar ao revisor, um dos mais importantes, senão o mais importante, é o tipo de revisão que o revisor terá que realizar. Ele quer que o revisor faça uma revisão simples (revisão de idioma), uma revisão de fundo, uma preparação de cópia ou uma correção de prova? Definem-se algumas das tarefas que revisores, funcionários e freelancers realizam para editores de livros e revistas, corporações, associações, governo, universidades e muitos outros grupos e indivíduos. Aqui estão as principais tarefas dos revisores:
  • revisão formal visa melhorar o estilo do texto como um todo pela exploração criteriosa dos recursos sintáticos e léxicos. Isso inclui corrigir erros de sintaxe, vocabulário, ortografia e pontuação;
  • revisão substantiva requer análise abrangente do texto, particularmente no que diz respeito à inteligibilidade, estrutura, articulação lógica das ideias, exatidão das declarações e adaptação aos destinatários;
  • preparação do texto envolve a adequação de um texto que já foi revisado para que ele possa receber layout. Isso inclui aplicar as regras e convenções em uso uniformemente em todo o documento e informar o designer gráfico de quaisquer requisitos de produção específicos;
  • revisão de provas inclui qualquer verificação que possa ser feita no primeiro ou nos testes de impressão subsequentes, como fontes, ortografia, layout de texto e todos os aspectos da apresentação visual que se confundem ou incorporam reciprocamente elementos, duplicando as tarefas para evitar omissões.

Por exemplo, durante uma revisão forma, a verificação da exatidão do conteúdo pode ser necessária. A revisão formal também pode incluir a correção de erros de digitação e aqueles na apresentação visual. Pode-se também falar sobre reescrita, que pode ser incorporada à revisão substantiva quando se trata de reescrever partes de um manuscrito – tarefa que se remete ao autor. Todavia, a distinção em revisão substantiva e revisão forma não se aplica de fato, ambas se confundem na prática e a divisão de tarefas é meramente didática. Os dois se fundem em um tipo de revisão, revisão linguística; os próprios revisores se impões pouco ou nenhum dos limites formais do trabalho e que só querem que os textos alcancem a maior qualidade possível.

As etapas da revisão

O tipo de revisão solicitada permite que o revisor conheça, por um lado, os aspectos do texto (finalidade, público-alvo) sobre as quais terá que prestar atenção e, por outro lado, estabeleça as etapas da revisão (primária, secundária, longitudinal, final), por exemplo, para tornar o texto mais claro em uma delas, melhorar o estilo ou corrigir falhas e outra. Essas etapas contribuem para a realização da finalidade principal, que é melhorar a qualidade linguística do texto e a eficácia da comunicação escrita, mas também possibilitam a divisão das tarefas em mais de um revisor, possibilitando trabalho em equipe e, de tal modo, multiplicando as leituras e minimizando as imperfeições.

As características do texto

Para melhorar um texto, o revisor deve conhecer as principais características dele: o assunto, o propósito (informar, entreter, aconselhar), gênero (relatório de pesquisa, artigo, manual de entrevista, romance, tese), os destinatários (crianças, acadêmicos, público em geral, funcionários públicos, uma banca), o tipo de publicação (revista científica, revista masculina ou feminina, livro, site, defesa pública) e o tamanho do texto.
Na situação de reescrita, o autor já está ciente desses elementos, uma vez que ele próprio escreveu o texto em que está trabalhando; o revisor profissional, no entanto, não sabe com antecedência quais atributos do texto que ele está sendo solicitado a revisar, mas é preferível que ele os tenha em mente antes de realizar seu trabalho. Assim, o revisor está mais preparado para avaliar o texto e adaptá-lo à situação de comunicação adequada ou pretendida. Tanto para o cliente quanto para o revisor, o mandato é o lugar certo para especificar essas informações. Se isso não for feito, o revisor deve então fazer perguntas sobre o texto ao cliente, para garantir que o trabalho que ele fará esteja de acordo com as necessidades do contratante e, assim, poder garantir que ele será atendido. Claro, quando o revisor trabalha regularmente para o mesmo cliente, um mandato específico é menos importante, já que o profissional já conhece as expectativas de seu cliente globalmente. Também se dá o mesmo quando o gênero do texto e sua finalidade constituem cânones: não há muito que indagar sobre o que pretende o autor de uma dissertação com seu texto, bem sabida qual será sua imediata função diante da banca.

O suporte à revisão do texto

Inúmeras pesquisas relataram diferenças em saber se uma pessoa revisa seu texto na tela ou no papel – na verdade, essa é praticamente uma questão ultrapassada: a exceção é a revisão em papel (exceto no caso da revisão de provas). Todavia, na revisão profissional, observa-se que alguns problemas são mais facilmente detectáveis no papel do que na tela e cada revisor adota o meio que mais lhe convém – postas as demais limitações contextuais. Idealmente, seria aconselhável que pelo menos uma das fases fosse processada sempre em papel, mas raramente há tempo, dinheiro ou demanda nesse sentido. O cliente, no entanto, pode desejar obter o resultado da atividade revisional em um meio e não em outro e, em seguida, deve especificá-lo no mandato. Ainda assim, mesmo que ele peça para fazer alterações na versão eletrônica do texto usando a ferramenta de revisão (após as alterações), nada impede que o revisor primeiro revise no papel e, em seguida, adia suas alterações na tela. O suporte da revisão tem, portanto, importância e influência na abordagem do revisor, com reflexos sobre o resultado, mas o mercado não considera isso.

O prazo para a revisão

O tempo disponível é fator que influencia o trabalho ou processo de revisão. O revisor deve conhecer sua velocidade de trabalho e saber avaliar o tempo que determinado texto demanda, segundo sua qualidade e os tipos de problema que deverão ser superados. Também, em projetos maiores, caberá o estabelecimento de quantos revisores estarão empenhados naquele serviço. O tempo e o pessoal envolvidos terão impacto direto no número de intervenções e sugestões que se fará no texto. Outro procedimento que demanda tempo é a comunicação com o autor, uns respondem prontamente e outros pode não fazer a leitura completa para validar as alterações no texto após observá-las. Por fim, a relação entre tempo e dinheiro: serviços urgentes podem ter custos maiores, notadamente se demandarem trabalho fora do horário habitual da equipe. Revisão não é diferente de outros trabalhos nesse quesito: uma revisão demanda um número determinado de horas de trabalho, as horas têm um custo. Caso não haja disponíveis as horas necessárias ou o orçamento necessário, a qualidade vai cair.

Compensação financeira do revisor

A remuneração do revisor profissional é outro fator que deve ser incluso no mandato e aqui também não existe mistério: os melhores revisores cobram mais caro e nem por isso deixam de ter muito serviço. O revisor experiente, maturo e altamente qualificado deve ser reservado para textos de grande responsabilidade, pois o custo do serviço é elevado. Numa equipe, reserva-se o revisor sênior para monitorar, aferir e conferir o serviço de revisores menos experientes, assim se otimizam os custos e a qualidade. O cliente que contrata um revisor autônomo para um texto bissexto, que não tem muita recorrência em produção, deverá avaliar corretamente sua disponibilidade e a importância do texto para escolher corretamente o revisor mais adequando. Quem contrata um revisor para uma tese, por exemplo, enfrenta um custo elevado e deve se preparar para arcar com a despesa: a demanda é por um revisor especializado, experiente e o texto é longo e complexo.

O texto a ser revisado

O texto é a razão de ser da revisão porque sem ela o revisor não tem tarefa para realizar. O texto é o objeto de trabalho e ele mesmo influencia o trabalho do revisor, ele é visto como um parâmetro em seu próprio direito e não como parte do ambiente de tarefas. O texto é o paciente que recebe a ação, mas não é um paciente passivo, uma vez que ele também age sobre o revisor. Nesse sentido, concluímos que a revisão seja um processo reflexivo entre texto e revisor.
Embora os principais elementos característicos do texto sejam apresentados no mandato (sujeito, finalidade, gênero, destinatário, tipo de publicação e tamanho e valores), cada frase, cada parágrafo que compõem o texto pode levar o revisor a fazer uma alteração por um motivo ou outro. As qualidades de linguagem e comunicação do documento inicial determinam a extensão do trabalho de revisão naquele momento. Um texto escrito em “bom” português, com um mínimo de erros de linguagem, alcançando seu propósito e adaptado aos destinatários requisita menos intervenções do o revisor do que outro texto cuja linguagem e formulações às vezes são mancos e não se encaixam nos destinatários. Assim, o revisor normalmente faz poucas alterações em um texto cuja qualidade linguística já atende aos requisitos da língua e cuja qualidade de comunicação está em consonância com os princípios de legibilidade e inteligibilidade. Espera-se sempre haver mais mudanças a serem feitas para melhorar um texto que não atenda aos critérios das qualidades comunicacionais esperadas. Paradoxalmente, entretanto, o texto mais bem elaborado, o texto “melhor”, também demanda um revisor mais experiente ou mais atenção, pois as falhas serão sutis e as intervenções sugeridas deverão estar à altura do material recebido – implicando em efetivas propostas de aperfeiçoamento.

O ambiente de trabalho do revisor de textos

Quer o revisor trabalhe para o governo, em uma editora, em uma ONG ou em uma empresa privada, ou se ele é um autônomo e tem seu escritório em casa, cada revisor exerce seu ofício em determinado ambiente, como qualquer trabalhador. Esse ambiente consiste de indivíduos com os quais o revisor provavelmente interagirá, bem como vários elementos materiais; haverá ruídos e interferências que, na medida do possível, o revisor deverá controlar, para minimizar a influência negativa que possam ter sobre o produto.

O ambiente social

O ambiente social pode consistir do autor do texto a ser revisado, outros colegas editores, um editor ou gerente de projeto, um editor, um chefe, um designer, ou um superior hierárquico. Sua influência na tarefa de revisão é variada. Alguns revisores consultam colegas para obter suas opiniões sobre questões específicas em um texto e como lidar com elas. Outros fazem perguntas ao autor, diretamente ou por escrito no texto, a fim de esclarecer certas declarações ou ideias feitas; ainda outros às vezes fazem mudanças para facilitar o trabalho do designer gráfico depois.
O editor, o gerente de projeto, o editor-chefe, o autor e o superior hierárquico podem ser os contratantes ou colegas de trabalho. Mas, clientes ou não, essas pessoas às vezes vêm em auxílio do revisor para orientá-lo sobre a escolha de uma solução, por exemplo, hesitando entre dois meios para resolver um problema recorrente em um texto. O revisor também pode entrar em contato com eles (exceto o autor) para relatar um grande problema detectado em uma das fases de um projeto de publicação, ou a decisão a ser tomada sobre como remediar uma situação que não seja da responsabilidade do revisor.
O revisor de uma agência de serviços, geralmente, não fez contato com os destinatários do texto que está editando, ao contrário do editor que pode ter, por exemplo, contato com um professor que escreva um livro didático para estudantes. O revisor precisa saber quem são os destinatários para adaptar o adequadamente o texto, mas, a menos que haja exceções, revisores de agências não precisam interagir com os autores.
Os revisores que trabalham em casa têm que saber lidar com as pessoas e situações do ambiente doméstico e com as circunstâncias do cotidiano que podem vir a constituir desvios de sua atenção, com reflexos na qualidade do trabalho.

O ambiente físico

O ambiente físico do revisor profissional corresponde ao local do trabalho. Assim, o ambiente é geralmente composto por um home office ou um escritório (em ambiente isolado ou coletivo) em qualquer empresa, ou ambos. O escritório é organizado de uma certa forma: ele tem mesa e cadeira, estantes, talvez um telefone, um ou mais computadores, impressora; nas proximidades pode haver uma janela e ter iluminação natural ou artificial. Os instrumentos de revisão (papéis, lápis, computador, obras de referência) também são elementos do ambiente físico do revisor. Alguns acrescentam objetos decorativos e de conforto, como quadros, cafeteira, bebedouro, geladeira. Esses recursos materiais suplementares podem ser de grande ajuda para o revisor quando ele trabalha – e não podem constituir motivo para desvio de atenção.
Baseado em Laflamme.