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Teoria e prática da revisão de textos

A revisão de textos é uma forma de controle de qualidade.

Todos reconhecerão que o autor, independentemente de sua formação e do tipo de texto produzido, não pode fornecer versões impecáveis de seus escritos em todos os momentos. A questão que surge, então, refere-se à qualidade buscada pelo autor ou pelo serviço de revisão. Pode-se questionar a utilidade do controle de qualidade em relação ao custo que ele representa. Um autor pode decidir não revisar seu texto, assumindo o risco de apresentar o texto com qualidade inferior à que se uma revisão profissional tivesse sido realizada. Uma série de argumentos poderiam apoiar tal decisão: textos de baixa importância ou escopo limitado, orçamento incompatível com o custo exigido por um serviço de revisão de alta qualidade – é o autor que, então, assume conscientemente o risco de apresentar o texto de qualidade inferior. O fato é que, no contexto atual de aumento do número de textos demandando revisão e de alta qualidade exigida (principalmente pelos textos acadêmicos, como teses e dissertações), em paralelo às conhecidas deficiências do letramento e do ensino de língua em geral – inclusive ambiente universitário, a revisão tornou-se uma necessidade, tornou-se mesmo indispensável para atender o grau de qualidade exigido pelas pós-graduações e pelas revistas científicas. Como resultado, a revisão de textos é hoje uma prática comum, mas ainda é pouco compreendida pelos autores.
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Assumimos aqui que a revisão está associada à melhoria de qualidade do texto em todos os seus aspectos linguísticos, mas vinculada fundamentalmente a sua comunicabilidade. Na verdade, a revisão tem que levar à melhoria na qualidade textual que, no mínimo, compense o custo que representa. Como resultado, os autores estão procurando uma prática de revisão que seja o mais eficaz possível.
A revisão é obviamente um assunto complexo e sensível. Em particular, pensemos no fato de que, porque envolve um julgamento de valor, a revisão tem em si um problema de subjetividade. Para minimizar a parte subjetiva de seu julgamento, os revisores são aconselhados a poder justificar todas as suas intervenções, demonstrando que não se baseiam em preferências pessoais. No entanto, vários pontos continuam a ser fontes de divergência: a importância dada à revisão no processo de escrita, a escolha do método de revisão e os parâmetros de revisão estão dentre eles. Por isso, vamos analisar brevemente os diversos métodos pelos quais os profissionais praticam a revisão e indicar o impacto esperado das revisões realizadas na qualidade dos textos.

Abordagem teórica da revisão de textos

O que é revisão de textos?

A atividade de melhorar um texto está intimamente ligada à noção de qualidade. Na verdade, é a textualidade do texto que precisa ser melhorada pelo processo de revisão. A qualidade de um texto reside na satisfação de uma necessidade específica para uma função específica e em uma relação comunicacional específica. Quando tais condições estão adequadamente satisfeitas, temos um texto de boa qualidade.
Se seguirmos essa perspectiva, o conceito de qualidade varia de acordo com as necessidades do cliente – o autor, o editor, o orientador acadêmico – e a qualidade da revisão pode ser expressa pela satisfação da expectativa de qualidade do cliente e do público-alvo. A satisfação das exigências do cliente, portanto, deve colocada acima de tudo, com certa reserva: a importância da ética do revisor, de seu dever profissional. Existem critérios de qualidade a que o revisor deve atender de qualquer maneira e que existem fora das necessidades do contratante. Não importa como seja definida, é a noção de qualidade textual que está ligada ao conceito de revisão. Para garantir que a qualidade necessária tenha sido alcançada, uma série de ferramentas e procedimentos são colocados em prática. Essas ferramentas e procedimentos estão agrupados no conceito de “controle de qualidade”. O controle de qualidade simplesmente decorre de uma aplicação do conceito de que duas opiniões são melhores que uma – inerente e decorrente do requisito da alteridade na revisão. Qualquer autor preocupado com a qualidade de seu trabalho o submete ao controle de qualidade, seja ele qual for, seja feito por quem for. Esse controle, portanto, pode ser realizado por pessoas diferentes, em diferentes níveis hierárquicos, de acordo com diferentes métodos e em diferentes graus de interferência. É por isso que o controle de qualidade pode tomar muitas formas diferentes, sendo a revisão apenas uma delas. Para esclarecer a terminologia usada para falar de qualidade, consideramos que o controle da qualidade textual auferida sempre ocorre antes de a revisão ser devolvida ao contratante. Por isso, distingue-se da avaliação da qualidade do serviço de revisão pelo fato de ocorrer após a entrega ao contratante – até mesmo porque a entrega é parte do serviço.
Controle de qualidade textual em sentido mais amplo é o conjunto completo de procedimentos aplicados antes, durante e após o processo de produção textual, por todos os envolvidos na produção do texto (por exemplo, no caso de uma tese: autor, orientador, leitores críticos, revisores e outros intervenientes), para garantir que os objetivos de qualidade estejam sendo cumpridos.
Quanto ao controle de qualidade com o qual estamos lidando, observam-se muitas sobreposições entre os conceitos utilizados pelos autores. Antes de analisarmos novamente o conceito de revisão (já o fizemos diversas vezes em inúmeros textos que publicamos), discutiremos as outras atividades de controle de qualidade. Vamos revisitar rapidamente os três tópicos que se distinguem, a edição, a revisão de provas e pós-edição. Quanto à correção das provas, ela sempre ocorre na fase final do processo editorial e consiste em indicar, nos testes de impressão, de acordo com padrões específicos, mudanças a serem feitas. A pós-edição está mais próxima da revisão, porque o trabalho é sempre o mesmo, consolidado, mas o texto que foi editado não por uma máquina (edição automática) e cabe aferir uma série de tópicos passíveis de falhas.
Define-se o controle realizado pelo próprio autor (e quando mencionamos autor, estamos considerando o autor individual, ou grupo de autores de todas as matizes) em princípio, como releitura ou reescrita, o que geralmente consiste em trabalho e retrabalho contínuo e sucessivo sobre seu original para corrigir quaisquer erros ou para adotar redirecionamentos de forma, de estilo, de conteúdo mesmo. Alguns autores falam de autorrevisão, mas preferimos guardar o termo revisão para o trabalho de interferência alterna. Neste caso, considera-se que o revisor, diferentemente do autor, verifica a qualidade linguística, técnica e comunicacional, mas sem fazer interferências que não as correções de erros de linguagem (ortografia e gramática) e aquelas que visem legibilidade, textualidade. Por fim, a releitura (ou leitura crítica) também é o termo utilizado para se referir ao controle realizado por um especialista na área tratada no caso de textos altamente especializados.
A correção, por outro lado, é uma prática mais bem sucedida que a releitura, no sentido de que consiste em corrigir erros materiais (revisão mecânica) alcançando equívocos e falhas sobre as quais não subsistiriam quaisquer argumentos. O corretor não justifica suas interferências e não as comunica ao autor. Ele simplesmente as integra ao texto sempre que achar adequado.
Vamos agora analisar a revisão, apontando a forma de controle de qualidade que estamos interessados nela.

Definições de revisão de textos

O termo revisão de textos não é usado da mesma forma por todos os autores e há alguma incerteza quanto a sua definição, incertezas e ambiguidades são mesmo inerentes à revisão e nós mesmos já abordamos diversas vezes o tópico e coletamos diversas definições – sem nos furtarmos, por isso e aqui, a retomar a tarefa, no anseio de contribuir na discussão. Então, vamos identificar algumas diferentes definições e escolher uma em que possamos nos basear para a discussão em tópico.
Antes de abordar as definições do termo revisão dado por diferentes autores, gostaríamos de fazer duas observações preliminares. Por um lado, enquanto vamos lidar com a revisão como produto, é a revisão como processo que vai nos interessar nessa abordagem teórica. Por outro lado, o autor, no processo de elaboração do texto, pode fazer alterações assemelhadas a alguma forma de revisão, mas a que preferimos nos referir como reescrita. Portanto, para este texto, consideramos a revisão como uma fase separada, que se segue à produção do texto; vem sempre à tona a exigência de alteridade (outra pessoa interferindo) quando nos referimos à revisão de textos propriamente.
Segundo Horguelin e Morena (1998: 3), a revisão é definida como “o exame cuidadoso de um texto a fim de alinhá-lo segundo critérios linguísticos e funcionais reconhecidos”. Trata-se de uma definição de revisão no sentido mais amplo, que se aplica a textos acadêmicos, como aqueles com que trabalhamos, e a quase todos os gêneros, talvez excluída a poesia.
Graham (1989: 66), por sua vez, distingue duas atividades: verificação e revisão. Define a verificação (a que frequentemente nos referimos como revisão mecânica) como a atividade de corrigir erros de digitação, identificar ambiguidades, verificar a ortografia de nomes próprios, questões acima de dúvidas linguísticas razoáveis. Ao passo que a verificação consiste em controle de qualidade “puro”, o que ele chama de revisão é mais um “teste de operação”, permitindo que o texto seja melhor direcionado para seu público-alvo, aferição de legibilidade. A linha entre esses dois conceitos, no entanto, permanece tênue, e as duas atividades se sobrepõem.
Passando à aplicação da definição de Hyang Lee (2006: 414), revisão é o exame, por revisor que esteja familiarizado com o registro da linguagem requerido por um texto para trazê-lo ao acordo com as necessidades e expectativas do autor. A crítica que podemos fazer contra essa definição é que ela fala apenas do cumprimento das necessidades e expectativas do destinatário do serviço, o autor, em detrimento do destinatário do texto, o leitor, público-alvo. A essa definição podem estar faltando critérios de idioma que não são definidos pelo autor, mas se enquadram nos requisitos da revisão.
As várias definições que citamos até agora têm em comum a referência a uma “revisão” para descrever a atividade de revisão, mas não mencionam a ação corretiva tomada pelo revisor, as intervenções processadas, que é a base de seu trabalho. Então, vamos olhar para outras definições. A definição de Tim Martin (2007: 58) enfatiza a principal ação do revisor: “revisão é verificar se mudanças são necessárias e fazer as mudanças em si”. Essa definição insiste, com o termo “necessário”, que a revisão não consiste em transformação, alteração, no sentido de que o revisor não deve fazer as mudanças que são possíveis, que sejam desejáveis, ou que lhe aprouverem, mas as mudanças necessárias – e tão somente elas, sempre passíveis de justificação técnica.
A definição de Gouadec (2002: 128), mais detalhada, é semelhante à de Martin: revisão é o conjunto de intervenções para se obter um texto de qualidade ideal a partir de um original apresentando, ou que possa apresentar, inadequações, falhas ou deficiências.
Diante dos diversos significados dados ao termo revisão, a norma europeia, por exemplo, tentou esclarecer a terminologia. Ela não propõe uma definição da revisão, mas indica que o revisor deve agir para verificar a adequação do texto. A tarefa de revisar, nesse sentido, deve incluir a adequação de textos para garantir a consistência textual, bem como a adequação do registro e estilo, assim como o revisor deve tomar medidas para garantir que a maioria das interferências propostas estejam sendo implementadas. A norma europeia pretende ser completa e clara, segundo a pretensão daquele continente de resolver normativamente todas as questões. Mas eles marcam um ponto na discussão ao exigir que o revisor deve ser pessoa diferente do autor: o que pode parecer óbvio, mas é um risco comum que até mesmo linguistas correm, ao que entender que podem “revisar” os próprios escritos pelo simples fato de dominar a língua.
Em termos de como queremos abordar a revisão aqui, a definição fornecida pela norma europeia é muito restritiva (realizada por outra pessoa). Por isso, escolheremos a definição adaptada de Mossop (2001: 109): revisão é aquela função dos revisores profissionais em que eles identificam características do texto original que ficam aquém do aceitável e fazem correções e melhorias apropriadas, vale dizer: fazem interferências.

Tipologia de revisão de texto

A revisão, e talvez seja por isso que não há unidade na forma pela qual é definida, continua sendo uma prática aberta a muitas variações. É interessante voltarmos a alguma tipologia da revisão, ainda que o rol seja sempre incipiente:
  • revisão acadêmica: revisão de textos destinados ao mundo universitário, compreende teses, dissertações, artigos, relatórios e outros documentos das mesmas matrizes de gênero; pretende-se que seja uma revisão abrangente e integre aspectos que, no mundo editorial são mencionados como “preparação do texto”;
  • revisão de tradução unilíngue e bilíngue: a revisão unlíngue envolve examinar apenas o texto-alvo sem se referir ao texto-fonte ou referir-se a ele apenas se necessário, enquanto a revisão bilíngue envolve uma comparação do texto-alvo com o texto-fonte.
  • revisão recíproca: sinônimo de interrevisão, a revisão recíproca refere-se à prática pela qual dois autores se revisam, intercambiando a tarefa. Esse tipo de revisão é chamado também de “leitura cruzada”.
  • revisão colegiada: mais rara, envolve várias pessoas (revisores, autores, grupos de editores, orientadores, consultores técnicos).

As duas funções da revisão de textos

Correção e melhoria dos textos. A primeira, e mais óbvia, razão para revisar um texto é a eliminação de erros identificáveis nele. As melhorias (estilo, textualidade, coerência interna e externa) vêm em segundo lugar. Elas são uma espécie de “bônus” que o revisor escolherá adicionar ao texto com base em uma série de critérios (tipo de textos, leitores-alvo…). A correção trata da “função pragmática” da revisão: garantir o cumprimento de determinados critérios, inclusive na ausência de qualquer comunicação entre o revisor e o autor ou tradutor.
Esse não é o significado preciso que damos ao termo “revisão”. Na verdade, consideramos essencial corresponder à função de correção e aperfeiçoamento e uma dimensão de formação em benefício dos autores e do público-alvo, o que, como veremos posteriormente, confere total importância à prática de revisão.

Treinamento do revisor de textos

Quando a revisão, além de pragmática, também visa o desenvolvimento do revisor, trata-se de “revisão didática”. No caso específico em que é dirigido aos alunos em formação, há quem use o termo “revisão pedagógica” e aqui estamos nos desviando para o uso da expressão revisão no contexto do letramento, ao qual nos opomos infrutiferamente.
Esta função didática, que visa aperfeiçoar o revisor, ressalta precisamente a força e o valor da revisão, uma arte imperfeita que nunca pode garantir que um produto ruim intrínseco se converta em bom texto. A revisão também não deve ser vista apenas como forma de ação corretiva. Sua real força que justifica o valor do investimento é como ferramenta de feedback que permite que seus resultados sejam canalizados de volta para todo o ciclo de produção do texto, a fim de eliminar ou reduzir problemas na fonte.

Por que revisar os textos?

A maioria dos autores concorda que a revisão é de grande importância. É um passo fundamental no processo produção de textos e passo indispensável na cadeia de controle de qualidade.
Hoje, o mundo da produção de textos é inegavelmente marcado por pressões orçamentárias cada vez maiores e prazos mais curtos, bem como por aumento nos volumes de produção e a demanda por qualidade permanece alta. Os serviços de revisão são forçados a lidar com o aumento da exigência de qualidade. Mas nenhum revisor pode constantemente reivindicar concomitantemente a qualidade absoluta e escrupuloso respeito aos prazos, a revisão encontra seu lugar e utilidade dentro do processo de produção de textos segundo o critério de fazer o melhor possível segundo o prazo e o orçamento disponíveis. À primeira vista, a revisão pode não parecer a melhor solução para as restrições atuais, pois adiciona um passo adicional ao processo de produção e, portanto, dispende tempo. É com isso em mente que se impõe uma gestão eficaz da revisão. Qualidade demanda tempo e dinheiro, mas observe-se que revisões ruins também podem ser caras.
Outra realidade é o aumento da subcontratação, que acompanha o aumento dos pedidos de revisão. Os serviços de tradução geralmente usam tradutores externos (independentes ou trabalhando para agências de revisão) para fazer o trabalho em volume que eles não têm capacidade de alcançar. O trabalho desses revisores externos deve estar sujeito a um controle especial por parte dos colaboradores internos e, nesse contexto, a necessidade de revisão final acurada necessariamente aumenta. A terceirização, no entanto, muitas vezes traz à tonas o problema da falta de relações entre os diferentes atores, especialmente entre o revisor e o revisado.
Cientes da importância da revisão, as faculdades de Letras começaram a integrar a revisão em seus currículos. Além disso, alguns autores têm olhado para o aprendizado da revisão, a profissão de revisor, com outros olhos – principalmente quando se trata de autores experientes ou sob supervisão de orientadores maduros, no caso das teses e dissertações.
Inspirado por QUENETTE.
Referências:
HORGUELIN, Paul A, BRUNETTE Louise, Pratique de la révision, 3e éd revue et augmentée, Linguatech, Brossard (Québec), 1998, 121 p.
GRAHAM, John D, « Checking, revision and editing », in : PICKEN Catriona (éd.), The translator's handbook, Aslib., London, 1989, pp. 59-70.
LEE, Hyang. « Révision: Définitions et paramètres », in : Meta, 2006, vol. 51, n°2, pp. 410-419, , consulté le 8 août 2012. 
MARTIN, Tim, « Managing risks and resources : a down-to-earth view of revision », in : Journal of Specialised Translation, 2007, vol. 8, pp. 57-63, , consulté le 8 août 2012. 
GOUADEC, Daniel, Profession : traducteur, La maison du dictionnaire, Paris, 2002, 432 p. 
MOSSOP, Brian, Revising and Editing for Translators, St Jerome Publishing, Manchester, 2001, 177 p.

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