Visibilidade do revisor de textos

Para ter sucesso profissional, o revisor de textos precisa ter visibilidade no mercado editorial, para conquistar clientes ou posições de trabalho condizentes com sua qualificação. O problema é que seu trabalho é quase invisível!

Existem diferentes tipos e níveis de revisão. Quase todos os tipos deixam o revisor na posição em que seu trabalho não deve aparecer. Onde o cliente solicita uma verificação ortográfica simples, os revisores só têm de revisar o texto de acordo com as regras de ortografia atuais, confiando em seu conhecimento de idioma e nas ferramentas disponíveis. Em contrapartida, a revisão completa consiste em comparar o texto de destino ao original e corrigir os erros, tendo em conta a exatidão e completude da comunicação, bem como suas características linguísticas e de formatação, ou seja, todos os parâmetros que se seguem:
O trabalho do revisor é tão menos visível quanto mais bem feito! É um paradoxo.
O revisor de textos precisa ser visível
para seus clientes e para o mercado
de trabalho editorial.
a) Exatidão: o texto reflete a proposta original?
b) Completude: algum elemento proposto foi omitido ou informações desnecessárias foram adicionadas?
c) Lógica: a sequência de ideias faz sentido? Existe contradição?
d) Factos: existem erros factuais, conceituais, cronológicos, estatísticos?
e) Legibilidade: existem frases estranhas, difíceis de ler?
d) Textualidade: a trama textual está adequada aos leitores em função do gênero?
e) Registro: o estilo está adequado ao gênero? A terminologia correta foi usada?
d) Idioma: todas as combinações de palavras são características do idioma?
e) Ortossintaxe: as regras de gramática, ortografia, pontuação e as normas de estilo foram observadas?
f) Layout: há problema na forma como o texto é organizado, no espaçamento, nas margens, no estilo, nos tópicos?
g) Tipografia: existem problemas de formatação de texto, negrito, sublinhado, tamanho e estilo da fonte?
c) Organização: existem problemas estruturais no documento como todo, na numeração de página, nos cabeçalhos, nas notas de rodapé, no índice?
Se os revisores são capazes de consideração sobre todos os parâmetros acima mencionados ao fazer seu trabalho, isso é prova de que certamente possuem as competências da revisão. Os autores devem também estar familiarizados com as considerações dos revisores para tê-las em conta enquanto reescrevem, para que possam verificar seu próprio trabalho – de acordo com estes parâmetros e segundo os apontamentos do revisor – antes de enviá-lo a seu destino, ou mesmo durante a redação.
Mas se o revisor estiver bem consciente dos parâmetros indicados, se ele aplicar todo seu conhecimento ao trabalho, sua intercessão no texto ficará praticamente invisível – é assim mesmo que deve ser: o protagonista do texto é o autor, é a presença dele que deve ser mantida em primeiro plano.
Os parâmetros de revisão – as características dos textos-alvo que os revisores consideram ao verificar e corrigir – são determinados pelas instruções recebidas do cliente, pelo tipo de revisão requerido, por um lado, e pelo gênero e propósito comunicativo do texto, por outro lado. Ao revisar um trabalho criativo, literário, parâmetros completamente diferentes são aplicáveis em relação aos cabíveis a um contrato entre partes. No primeiro desses casos, as características linguísticas e estilísticas, a legibilidade e o registo correto são especialmente importantes, bem como se o texto segue as normas de obras originalmente escritas na língua, enquanto que no segundo caso o emprego de terminologia correta e expressão do significado com precisão é muito mais relevante. Como já mencionado, os revisores precisam estar cientes desses aspectos exteriores ao texto antes de iniciar a revisão para que eles possam basear o processo nas suposições corretas.

Procedimentos de revisão de textos

Além de saber exatamente o propósito comunicativo do texto a ser revisado, quais são as expectativas do cliente, os destinatários quem são e, consequentemente, o que levar em consideração durante a revisão, os revisores acham benéfico se podem seguir os passos que são baseados em um método cuidadosamente considerado e consciente. Sugere-se uma ordem ideal de passos no processo de revisão, que, quando seguidos, garantem que os revisores podem se concentrar em cada parâmetro adequadamente e, no momento certo, que não se perca qualquer aspecto do texto que precisa ser verificado, assegurando que eles possam utilizar todos os elementos da sua competência nas fases apropriadas. Naturalmente, o método sugerido é baseado em situação ideal, mas aplicado na vida real, pressionado por atribuições urgentes e prazos apertados. Os revisores não têm sempre tempo para incluir todas as etapas no processo. Os revisores profissionais, entretanto, tomam decisões conscientes em tais cenários também: consideram que etapas podem ser deixadas de fora, ou podem ser fundidas segundo cada projeto requeira e cada orçamento permita, de acordo com o tempo disponível, as características do texto e a qualidade exigível.
No processo de revisão ideal, a etapa inicial de coleta de informações – o propósito comunicativo, a terminologia e o tema do texto-alvo a ser revisto, bem como os textos paralelos relevantes – é seguida pela leitura primária: o texto de origem deve ser lido a fim de se compreender sua mensagem global e estilo. Nessa fase, os revisores ainda não fazem modificação substancial, eles simplesmente marcam as partes problemáticas, se desejarem, e implementam correções mecânicas sobre as quais não paira nenhuma questão. Só em seguida, depois da revisão e leitura primária, os revisores começam a efetuar interferências propositivas e resolutivas mais concretas, comparando o original ao projeto passo a passo: eles remediam omissões, adicionam os sinais diacríticos omitidos, desfazem inversões, apontam lacunas e redundâncias. No entanto, eles não tentam encontrar soluções para as questões que ficarão em aberto no texto – a função do revisor será somente apontar tais lacunas. Em seguida faz-se a correção da ortografia e de eventuais erros gramaticais com sucessivas releituras, em vários estágios, em vários segmentos do texto. Como o último passo na fase da revisão, fatos e números devem ser comparados conscienciosamente. Dependendo da natureza do texto, os revisores podem precisar verificar e, se necessário, modificar as características técnicas também. Essa etapa deve ser executada ao final do processo porque durante a edição de revisão pode-se facilmente ir pelo rumo errado. Verificar o texto inteiro do início ao fim, várias vezes, também requer tempo. A última etapa do processo de revisão não existe: sempre pode ser feita mais uma “passagem” pelo texto, mais uma verificação assistida por computador para detectar os últimos erros tipográficos e espaços ausentes ou excedentes resultantes de alterações sugeridas ou implementadas. Não bastasse tudo isso, uma edição de qualidade requer que todos esses passos se repitam por pelo menos três revisores profissionais em sequência – claro que isso onera muitíssimo qualquer edição, mas é o que resulta em qualidade máxima da obra.

Visibilidade das falhas do revisor de textos

Finalmente, depois de descrever virtudes, habilidades e tarefas dos revisores, suas falhas e possíveis erros precisam ser mencionadas também. Evidentemente, a revisão não serve a seu propósito se, como resultado das intervenções, o texto revisado permanece impreciso no que diz respeito ao conteúdo, ou se ainda está gramaticalmente incorreto, se ele não corresponde ao projeto original ou as propostas de sua introdução, se ainda está difícil de ser processado pelo destinatário. Isso pode acontecer se os revisores não tiverem suficiente alicerce linguístico ou se trabalham com sobrecarga cognitiva, sob qualquer tipo de estresse, ou se não têm a base teórica adequada que os norteie na revisão texto. Pode sempre haver falha ao executar uma verificação estilística ou, mais raramente, pode-se adicionar erros no que diz respeito ao conteúdo do texto e à formatação. A revisão também não cumpre sua finalidade se revisores reescreverem o texto em vez de verificá-lo e corrigi-lo, ou seja, eles se eles executam trabalho desnecessário e interferem além da conta, com desperdício de tempo e energia. Todos esses casos são hipóteses nas quais o trabalho do revisor se torna totalmente visível: quando ele erra por omissão ou por excesso. É desse tipo de visibilidade que o revisor deve procurar distância. É pelo erro que passou no texto que o leitor invoca o revisor e o autor o execra.
Errar geralmente é o que acontece a revisores que não sabem qual é sua tarefa, ou aos que são submetidos a sobrecarga. Os revisores podem também ser responsabilizados se não seguirem as diretrizes estipuladas para sua atribuição, descumprir o prazo ou dificultar a cooperação entre os participantes do processo de tradução. Mas aqui estamos mencionando falhas laborais, sem relação direta com a atividade de revisão propriamente.
Revisores são, naturalmente, longe de infalíveis: eles não estão envolvidos no processo por causa de seu conhecimento superior entre os profissionais do texto. Eles simplesmente usam competências específicas, cultivadas em treinamento criterioso e prática acurada, e tomam decisões conscientes, empregando métodos pré-definidos ao verificar e interferir no texto. Revisores profissionais passam por avaliação contínua de seu desempenho profissional, no entanto, na maioria dos casos, eles só obtêm feedback dos autores e, muito eventualmente, dos leitores.
Os revisores só têm apontadas suas falhas se houver problemas com suas interferências, porque, no processo de edição, geralmente, o texto não é verificado depois que os revisores terminam de trabalhar nele, não é feita uma nova revisão do zero. Embora na maioria dos casos a revisão tenha lugar sem consultar o autor, cooperar com ele contribui para o desenvolvimento profissional do revisor. Fornecer e aceitar contínuo e sofisticado feedback com base em argumentos conscientes, bem como nas normas linguísticas e profissionais, em vez de sentimentos instintivos, serve ao avanço profissional de ambas as partes, autor e revisor. A consulta recíproca ajuda na detecção e depuração de erros e impede modificações desnecessárias e fúteis. É importante ter em mente que os autores e revisores não são inimigos empenhados em arrastar o trabalho uns dos outros pela lama. Pelo contrário, eles têm um objetivo comum: entregar um texto próximo do perfeito, de alta qualidade, tarefa que coincide em promover seus próprios interesses, dentre os quais a visibilidade recíproca.

Paradoxo da invisibilidade na revisão de textos

O revisor cujo trabalho tenha se revestido dos melhores parâmetros apontados, que tenha podido se debruçar sobre o texto pelo tempo necessário, que tenha sido precedido por outro revisor e seja sucedido por mais um, não será lembrado pelo leitor: ele terá sido um dos muitos intercessores invisíveis no texto. Mas a boa revisão é perene: ela permanece no texto em que se estabeleceu. O produto da boa revisão pode vir a se tornar tão longevo quanto o texto sobre o qual ela se realizou, e a revisão feita será lida e relida continuamente, visível pela duração e permanência da obra, mesmo que o revisor seja esquecido.
Por outro lado, o revisor profissional requer sobre si alguma visibilidade: ele precisa aparecer no mercado em que atua, precisa se destacar entre seus pares, precisa estar visível para seus clientes e precisa ser notado pelos editores. Para tanto, o revisor precisa manter o portfólio dos trabalhos que executa; precisa ter os créditos por seus trabalhos devidamente assinalados nas publicações e precisa – eventualmente – produzir e publicar conhecimento de seus estudos sobre revisão de textos, como nós temos feito.
Falar da visibilidade do revisor não pode omitir a relação de parentesco etimológico entre visibilidade e revisão, dois vieses das habilidades de ver, rever, revisar e ser visto.

Conclusão pouco visível

Tendo em conta o que precede, fica visto que os autores geralmente não possuem a competência requerida para a revisão e, se eventualmente a possuírem, qualificados em aspectos linguísticos, de fato, são desqualificados pela proximidade que têm de sua obra, subjetivamente incapacitados para o desempenho. Os revisores não são primeiramente excelentes autores: pode faltar a eles, por exemplo, a criatividade ou a capacidade de observação inerentes ao autor ficcional – sem nenhum prejuízo para serem excelentes revisores. O trabalho do autor e o trabalho do revisor são regidos por diferentes competências, que podem se sobrepor em alguns casos, dependendo da tarefa dada ao revisor como mediador linguístico. A competência de revisão não é habilidade inata, mas um conjunto de habilidades que podem ser adquiridas, aprendidas e que requerem desenvolvimento. A habilidade do revisor demanda que ele seja pouco visível pelo seu trabalho, mas também que ele se torne visível como profissional. Um dos elementos da competência de revisão é que os revisores verificam e corrigem textos seguindo princípios específicos, e todos os aspectos de seu trabalho são permeados pela consciência deles, metacognição. Os revisores sabem que parâmetros ter em conta, também sabem que método empregar para o fim proposto. Eles podem justificar suas decisões, e, uma vez que eles o façam, não dependem de instintos, eles podem dar feedback objetivo e construtivo sobre o texto que revisam. Dito isso, revisores são capazes de admitir seus próprios erros, a fim de garantir que o resultado do processo de editoração resulte em texto de excelente qualidade. Os bons revisores de textos são capazes de serem vistos como tais, inclusive permanecendo invisíveis nos textos em que colaboram.
Esta postagem é antecedida por: Invisibilidade da revisão de textos.
Inspirado por: ROBIN, E.