Invisibilidade da revisão de textos

O serviço de revisão de textos padece de um paradoxo bastante curioso: quando ele é bem feito, ele se torna praticamente invisível. Quando o revisor erra, por qualquer motivo, a falha salta aos olhos do leitor.

Frequentemente se discute a invisibilidade da revisão. No entanto, o que há de verdadeiramente invisível no processo de revisão é, certamente, o revisor. Felizmente, porém, a revisão atrai cada vez mais atenção, e começou a se tornar internacionalmente instrumento essencial para a garantia da qualidade textual – e o texto de boa qualidade tem visibilidade. Tanto os profissionais como as instituições de formação de revisores salientam a importância da revisão, e a formação dos revisores tem ganhado importância. Isso porque a revisão serve ao interesse de todas as partes envolvidas no processo: o cliente, que recebe o texto preciso, cuidadosamente revisado; o autor, assegurado por uma revisão completa e de alta qualidade; e o público-alvo do texto, que pode fruir de um produto comunicacionalmente mais eficiente, um texto mais palatável. Os autores também podem estar mais à vontade ao produzir, se souberem que as suas produções serão revisadas, uma vez que o feedback do revisor contribui para seu desenvolvimento redacional e profissional.
O trabalho do revisor de textos só aparece quando ele erra.
Se o revisor de textos não cometer
erros, seu trabalho fica invisível.
Apesar disso, na prática, o papel do revisor está muitas vezes longe de ser claro, mesmo para os participantes no processo. Qual é o papel do revisor? Como alguém pode se tornar um revisor? Será que o revisor sabe mais do texto que o autor? O que transforma o curioso sobre revisão em revisor profissional? Como pode ser desenvolvida a competência de revisão? Para os profissionais de revisão, responder a essas perguntas o mais rapidamente possível é de grande importância, uma vez que a clarificação dos papéis e a descrição das funções torna o trabalho mais fácil e incentiva a cooperação. Os autores também podem achar útil aprender sobre a revisão, já que, mais cedo ou mais tarde, eles terão que cooperar com os revisores em seu trabalho e poderão ser solicitados a fazer a reescrita, executando a autorrevisão em base regular. Nesse processo de valorização do revisor, o que tem realmente incremento é a visibilidade do profissional de revisão, cuja atividade passa a ser mais conhecida pelos leitores e cuja necessidade tem mais reconhecimento pelos autores.

O que faz alguém se tornar revisor de textos?

Uma das primeiras perguntas que surgem ligadas à revisão é como alguém pode se tornar revisor de textos. Quase ninguém sabe de onde surgem os profissionais de revisão, tão pouco visíveis, e que executam seu ofício tão discretamente. Até bem recentemente, a prática profissional dava-se por meio do recrutamento, por agências de publicidade e por editores, de profissionais experientes em outras áreas para trabalhos de revisão de textos, aqueles que provaram suas habilidades de escrita e confiabilidade ao longo do tempo – ou mesmo aqueles que já exerçam a atividade especificamente, como autônomos ou freelancers. Contratam-nos supondo que, além da competência de escrita e do domínio suficiente da linguística, os revisores de textos possuam os conhecimentos e habilidades necessários para corrigir, avaliar e interferir no trabalho dos outros; os escolhidos começam a revisar as produções alheias e se formam na messe. No entanto, muitas vezes, falta o conhecimento teórico que deveria servir como base para o trabalho de revisão. Isso resulta em uma série de tentativas de reescrita e conflitos incômodos entre autor ou editor e revisor. Os revisores inexperientes precisam frequentemente adquirir as habilidades básicas de seu trabalho enquanto fazem suas primeiras revisões. Os conhecimentos teóricos sobre a atividade da revisão de textos ou são completamente descartados pela submissão a um manual que lhes é imposto, ou somente serão obtidos (quase sempre consuetudinariamente) ao longo de décadas.
A prática descrita acima realmente assume algum tipo de “processo evolutivo”, em que o aprendiz da língua primeiro se torna um revisor esporádico e, depois de ficar experiente, eventualmente, venha a ser revisor profissional. Esse processo de desenvolvimento, no entanto, não nos diz nada sobre as habilidades que o revisor deve ter, ou sobre como o revisor pode se destacar e ter visibilidade profissional. Os revisores deveriam ter reconhecida qualificação ou experiência profissional documentada, bem como experiência de revisão do gênero textual a que se aplicarão – em consonância com o processo evolutivo acima mencionado, afinal, nada descartará a prática longeva como consolidante da capacitação do revisor.
Os revisores profissionais têm, primeiramente e acima e antes de tudo, habilidades linguísticas. Mas o que os distingue, em seguida, de autores, professores e tradutores que não fazem revisão? As eventuais respostas a essa questão ainda são incipientes, pois os cursos que já subsidiam a formação de revisores dotam-nos de tênue, nada teórica, e bem pouca prática: não há treinamentos eficazes para desenvolver as habilidades necessárias. Nem mesmo as habilidades mecânicas inerentes à revisão costumam ser objeto de capacitação. É verdade que os revisores tentam desempenhar seu trabalho enquanto manipulam os mesmos interesses dos autores e editores: as suas decisões são influenciadas pelas expectativas do cliente, da profissão (as normas linguísticas e editoriais), do autor e, principalmente, do leitor. Tanto o editor quanto o revisor de textos se esforçam para criar comunicação bem-sucedida entre o autor e o leitor. Eles se certificam de que o texto produzido está isento de interpretações equívocas, ambiguidades, conforme as normas da língua, e que possam ser facilmente processados, contendo informações relevantes para o leitor.
Mas a revisão é muito mais que “outro par de olhos”, outro leitor folheando o texto concluído. A tarefa dos revisores é verificar o texto antes e depois de editado, corrigi-lo comparando os textos de origem e de destino em relação aos aspectos gramaticais e estilísticos, de acordo com as exigências aplicáveis em termos linguísticos e editoriais. Os revisores visam colaborar na produção do texto que, como resultado de interferências, torna-se mais preciso no conteúdo, gramaticalmente adequado, fiel ao produto autoral, apto ao processamento pelo destinatário e pronto para impressão, defesa ou publicação. Assim, os revisores não se engajam na criação de um novo texto, eles simplesmente interferem no trabalho (concluído ou em curso) e apresentam sugestões. Nesse processo, que não é exatamente criativo, os revisores têm o papel de intercessores: sua presença ideal não se faz notar, exceto pelo que se pode presumir da fluência e perfeição do escrito. Os revisores até fornecem novas soluções de redação, mas antes verificam o texto e depuram erros e ruídos comunicacionais. Esses profissionais baseiam seu trabalho no texto-alvo, abordam não somente o nível microtextual (ortografia, pontuação…), mas analisam o produto mais globalmente, focando no texto inteiro e em cada um de seus segmentos – de modo cíclico e contínuo em todas as leituras que fazem. Uma vez que os revisores verificam o trabalho de outra pessoa (postas as necessidades de alteridade e exotopia inerentes ao ramo de atividade), eles podem achar difícil se identificar com o uso da linguagem do autor, e eles poderiam forçar seu próprio estilo na revisão – o que lhes é vedado. Esse é mais um motivo pelo qual os revisores não são visíveis: as marcas de pessoalidade firmadas e reafirmadas no texto são aquelas do autor; por mais que o revisor se posicione formalmente de outro modo ou tenha preferência por outro tipo de construção, ele preserva a estrutura original e autoral tanto quanto possível. As diferenças entre os papéis dos autores e revisores estão resumidas no quadro seguinte:
Quadro apresentando as diferenças de função entre autor e revisor de textos.
Os papeis dos autor e do revisor quanto ao texto são complementares em benefício do escrito.
A tabela demonstra claramente que o trabalho de autores e revisores difere em vários aspectos. O fato de que eles diferem torna evidente que a revisão requer conhecimento, perícia e habilidades que os profissionais que executam a revisão precisam possuir. Esse conhecimento gera reconhecimento e eventual visibilidade.

Competência para a revisão de textos

Não há revisores natos, suas interferências não são guiadas por algum tipo de conhecimento místico que eles sentem em seus ossos enquanto verificam os textos alheios. As competências necessárias para a revisão só podem ser adquiridas com a prática, enquanto trabalham, preferencialmente depois de terem sido submetidos a treinamento teórico e atividade supervisionada por revisores experientes; mas essas habilidades também podem ser aprendidas em treinamento autodidata, afinal, as informações estão todas disponíveis, e quem desejar as pode alcançar. Os revisores possuem competência específica: têm conhecimentos linguísticos e extralinguísticos necessários à atividade, estão perfeitamente cientes das expectativas da indústria do texto e das ferramentas tecnológicas que auxiliam a revisão, possuem o perfil psicofisiológico necessário e habilidades cognitivas essenciais à profissão, bem como administram as transferências cognitivas e processamentos estratégicos extralinguísticos. Os revisores são capazes de identificar as diferenças entre o texto original e o projeto que havia dele e determinar se são desvios que requerem revisão. Eles remediam omissões, excluem adições desnecessárias e erros que violem as normas linguísticas aplicáveis, mas, além de corrigir erros, eles também se esforçam para melhorar o texto em seus aspectos comunicacionais (Mossop 2001). Revisores precisam frequentemente dar seu parecer sobre tradução e avaliar o trabalho do tradutor. Estas competências foram listadas no quadro que se segue:
O revisor de textos tem competências específicas que o descrevem.
As competências do revisor de textos são personalíssimas: cada um tem uma configuração de habilidades.
Além das habilidades descritas acima, os revisores precisam de conhecimento linguístico aprofundado para serem capazes de detectar erros, bem como fornecerem explicação aceitável a suas intervenções e propostas. Eles estão familiarizados com a literatura que contém as normas linguísticas vigentes, não dependem de conhecimentos escolares vagos e sabem exatamente onde procurar informações quando em dúvida. Os revisores de textos estão cientes das opiniões correntes dos linguistas contemporâneos e da atitude compatível em relação aos fenômenos linguísticos incidentes. Eles também podem justificar suas decisões e estão conscientes sobre as estratégias implementadas. A ausência de qualquer dessas habilidades dificulta, desqualifica ou mesmo inviabiliza o trabalho do revisor.
A competência linguística bem fundamentada ajuda os revisores na tomada de decisões e livra os revisores da acusação frequente de que está fazendo alterações desnecessárias no texto. Revisores profissionais são hábeis em distinguir entre boas e más soluções e, ao tomar decisões conscientes, apoiam suas posições em argumentos sólidos. Eles também estão prontos a aceitar os argumentos propostos pela literatura e têm postura crítica consciente quando discordam de qualquer posição vigente, uma vez que não dependem de instintos subjetivos durante o trabalho.

Princípios fundamentais da revisão de textos

Se os revisores possuírem a competência necessária para a revisão, poderão também seguir os princípios que definem a eficiência e o sucesso da tarefa. Esses princípios podem ser resumidos como a “estratégia minimax” da revisão. Os revisores desempenham seu trabalho de forma eficiente, produtiva e certamente rentável se eles se esforçam para alcançar máximo efeito com esforço mínimo, ou seja, mínimas interferências. Esse minimax também vai se projetar sobre a visibilidade do trabalho do revisor: quanto menos o revisor interfere, segundo o que for necessário, menos ele será notado pelo autor e mais o trabalho do autor se destacará.
Uma vez que a principal tarefa dos revisores é evitar equívocos interpretativos por parte do público-alvo, os erros linguísticos ou gramaticais, erros graves, constituem ruídos comunicacionais se permanecerem no texto revisado, dificultando sua leitura ou minando sua credibilidade se subsistirem. Portanto, os revisores precisam fazer todas as correções necessárias, pois essa é a única maneira de atingir o máximo de efeito. Revisores não precisam apenas indicar erros, eles sempre precisam fornecer ou propor a solução necessária a cada problema, isso porque, normalmente, ninguém verifica o texto depois que termina de trabalhar nele. No entanto, é aconselhável que os revisores só façam alterações quando estiverem confiantes de que a interferência é necessária. Quando em dúvida, devem consultar a literatura atual, ou podem discutir a edição com outro revisor, e mesmo com o autor, a fim de propor a solução ideal. Durante a revisão, os revisores devem se esforçar por obter a maior consistência textual possível: se decidirem corrigir (excluir, substituir, adicionar) algo no texto, eles devem fazê-lo ao longo de todo o texto, emprestando uniformidade e consistência macrotextual ao escrito.
Os revisores também precisam estar cientes do fato de que a maioria dos novos erros no texto são causadas por mudanças desnecessárias e injustificadas introduzidas pelo revisor. Todos os revisores estão sujeitos a fazer isso. Esse fenômeno é característica universal da revisão. As alterações são consideradas desnecessárias quando não tornam o texto traduzido mais correto, mais preciso – em comparação ao original – ou não melhoram o estilo do texto revisado. Tais interferências excessivas são simplesmente desperdício de tempo e frustram os autores, sem promover exatamente a cooperação profissional autor-revisor. Se os revisores procuram fazer o menor número possível de interferências ou proposições, só devem fazer as revisões mecânicas que sejam estritamente necessárias e justificáveis. Vale sempre a pena ter em mente o propósito da revisão, uma vez que, com base nele, os revisores podem decidir o que conta efetivamente como erro e quais os parâmetros em que se concentrar durante o trabalho.
Esta postagem tem sequência em: Visibilidade do revisor de textos.
Inspirado por: ROBIN, E.