Formação cooperativa de revisores de textos

Tornar-se fornecedor bem-sucedido de serviços de revisão de textos requer mais que apenas ser hábil em linguística aplicada.

Embora os conhecimentos de ortografia e sintaxe sejam, sem dúvida, indispensáveis a alguém que deseja ter sucesso como revisor de textos, é também imperativo que os revisores em formação continuamente estejam em treinamento e aperfeiçoamento em seu campo de atuação, incluindo as capacidades de interação com outros revisores e com os clientes. Portanto, além de simplesmente desenvolver as habilidades metalinguísticas de intervenção nos textos alternos, a mediação comunicacional está dentre as funções de futuros profissionais do texto e no aperfeiçoamento dos que já estão em exercício. Por tudo isso, os cursos de revisão devem preparar os alunos para a aprendizagem ao longo da vida: treinamento contínuo e contíguo são inerentes ao ofício de revisar.
Revisão de textos é uma série de processos de intervenção.
A formação do revisor de textos
é feita pela prática em regime
de trabalho cooperativo.
A fim de abraçar o conceito de aprendizagem vitalícia, os revisores devem ser capacitados para desenvolver suas habilidades de aprendizagem autônoma. Um dos métodos de desenvolvimento de competências de aprendizagem autônoma é a aplicação dos princípios da aprendizagem cooperativa. Em nosso campo de trabalho, esse tipo de atividade conjunta adquire a forma da revisão cooperativa (base do treinamento do revisor) e da revisão dialógica (na terminologia bakhtiniana) em relação ao autor ou cliente.

Aprendizagem cooperativa de revisão

O uso de técnicas de aprendizagem cooperativa pode contribuir muito para fortalecer a autonomia do revisor em formação. O termo “aprendizagem cooperativa” tem grande variedade de definições. De acordo com algumas delas, esse tipo de aprendizagem pode ser definido das seguintes formas:
i. trabalhar juntos em um grupo pequeno o suficiente para que todos possam participar em tarefa coletiva claramente estabelecida;
ii. metodologia abrangente para mudar a organização de formação e processos instrucionais e operacionais;
iii. trabalhar em pequenos grupos de responsabilidade compartilhada por objetivos comuns; aprendizado que resulta em interdependência e autonomia;
iv. método didático e organizacional que acomoda aspectos sociais, interativos e dialógicos.
Contornando as abordagens listadas acima, vamos analisar a aprendizagem cooperativa como método de organização de pequenos grupos de trabalho para aprendizagem e de aprendizagem do trabalho. Vamos discutir conceitos e princípios que determinam a estrutura da atividade de revisores em grupo. Esses conceitos incluem negociação, orientação curricular e processos de interdependência positiva.

Negociação cooperativa e dialógica

A negociação contínua é processada em discussões constantes entre o revisor formador e os revisores em formação, segundo a agenda de aprendizagem. Dessas negociações surgirá a proposta de roteiro da formação e a prática em revisão colegiada.
Além da organização de agendas de aprendizagem em grupo, a negociação deve se aplicar a todos os aspectos da formação, por exemplo, as necessidades de análise textual, objetivos e configuração objetiva, implementação (incluindo metodologia e desenvolvimento de recursos) e avaliação ou autoavaliação. O currículo negociado será composto por elementos curriculares tradicionais (como planejamento, implementação e avaliação), mas deve ser produto dos esforços conjuntos do formador e dos aprendizes, tomando todos parte na decisão sobre o conteúdo e os métodos de ensino. Outra diferença é que, com os currículos tradicionais, o processo de ensino segue a ordem estrita de planejamento, execução e avaliação, já objetivos, material e métodos de ensino são determinados previamente. Com os currículos negociados, por outro lado, negociação, tomada de decisões, planejamento e avaliação são feitos informalmente e durante a implementação do currículo, com possibilidades de ajustes de rota durante o processo. Um dos atributos mais importantes do currículo centrado no aluno é que todas as decisões prévias sobre ele podem ser descartadas durante a implementação. Esse tipo de currículo será orientado para o processo, interpretando os vários aspectos do planejamento curricular como uma série de subprocessos em constantes mudanças, intercambiáveis e alteráveis, que caracterizam o processo de ensino e aprendizagem dinâmico. Dado que o currículo negociado é orientado ao processo, ele permite maior fluxo e integração entre subprocessos de planejamento, de implementação e de avaliação. Como podemos ver, o currículo dialógico não é apenas ferramenta para o planejamento do processo de ensino e aprendizagem da revisão de textos, assim como não se aplica exclusivamente para determinar o conteúdo a ser ensinado, mas trata-se de sistema mais integrado que incide sobre o que acontece durante a execução do programa de formação do revisor.
O objetivo do treinamento orientado para o processo é facilitar a aprendizagem autônoma e desenvolver a capacidade dos alunos de se tornarem aprendizes autônomos. Os princípios da aprendizagem cooperativa orientada para o processo baseiam-se nos seguintes pontos: avanço gradual para o processo de aprendizagem completo; foco na construção do conhecimento linguístico e revisiológico; atenção aos aspectos emocionais da aprendizagem; processo de aprendizagem e seus resultados vistos como fenômenos sociais.
Os defensores da versão mais radical dos currículos negociados dizem que os alunos devem participar em todo o processo de determinação do material de aprendizagem, metodologia de ensino e avaliação.
Ao se discutir a autonomia e a aprendizagem cooperativa, é essencial ter em conta os objetivos dos aprendizes. Os alunos visam alcançar, manter, fortalecer e proteger metas pessoais que considerem importantes. A orientação pode ser definida em termos de pensamentos, sentimentos e ações autogeradas, sistematicamente orientadas para a realização dos objetivos pessoais dos aprendizes, tendo em conta as condições locais e sociais. Isso está em consonância com o aprendizado cooperativo no sentido de que ela também é, por natureza, orientada a objetivos, pois oferece experiências de aprendizado diferenciadas, proporcionando, assim, a cada aluno sua chance de participar ativamente da lição e representar seus próprios objetivos ao longo de todo o processo de trocas de experiências e conhecimentos, desde o estágio de planejamento, passando pela implementação, até a fase de avaliação. A aprendizagem cooperativa só pode ser eficaz se os alunos puderem alcançar seus objetivos de forma que ela não prejudique as perspectivas socioemocionais. Isso é importante, porque o padrão de interação entre os alunos pode diferir dependendo do assunto. A aceitação da opinião de um aluno por seus pares durante a discussão, ou se a ele é dada a possibilidade de se expressar, pode depender da competência desse estudante no assunto que está sendo discutido. Não dar ao aluno a oportunidade de exprimir sua opinião pode até levar a impacto negativo no processo de aprendizagem, pela criação de zonas de desconforto e barreiras cognitivas ou emocionais.

Interdependência dialógica positiva

Outro elemento chave no ambiente de aprendizagem cooperativo é o conceito de interdependência positiva. A interdependência positiva significa que os revisores em formação entendem que dependem uns dos outros e que são mais capazes de alcançar metas maiores juntos do que seriam por conta própria. Qualquer dificuldade que determinado aluno possa ter com o material de aprendizado incentiva o resto do grupo a ajudar esse colega para que todo o grupo possa ter sucesso. O sucesso do grupo é também o sucesso do indivíduo, da mesma forma que o fracasso do grupo é também o fracasso do indivíduo. Portanto, a lição que emprega técnicas de aprendizagem cooperativa centra-se em atribuições e projetos que requeiram a contribuição de todos para que sejam concluídas. As lições tradicionais, por outro lado, trazem interdependência negativa para as classes, nas quais o sucesso de um aluno leva à falha de um outro e vice-versa. A interdependência leva os revisores aprendizes a interagir uns com os outros quando se trabalha em equipe e os leva a interagir com os escritores ou editores em situações reais mais à frente.
Não basta simplesmente colocar os alunos em grupos, a fim de criar o ambiente de aprendizagem cooperativa. Para se estabelecer o ambiente de aprendizagem verdadeiramente interativo e cooperativo, as tarefas que os aprendizes precisam realizar para completar sua atribuição devem ser corretamente estruturadas, as etapas bem definidas, o papel de cada um estabelecido em relação ao trabalho completo. A melhor maneira de conseguir isso é por meio da criação de interdependência entre eles. O objetivo também é conseguido pela interdependência de recursos e pelo partilhamento dos meios de pesquisa (os livros disponíveis, e.g.), o que se baseia no fato de que cada membro do grupo possui recursos cognitivos e materiais específicos, e os disponibiliza para o grupo para ter sucesso conjunto, usando cada um o conhecimento do outro para alcançarem todos o objetivo coletivo. Os princípios de meta e interdependência de recursos devem ser utilizados simultaneamente.
Outra forma de interdependência é a de recompensa do grupo baseada no desempenho individual. Isso, no entanto, significa que cada membro é responsável por sua própria aprendizagem. A responsabilidade individual é, portanto, fator-chave no sucesso do grupo. O movimento de aprendizagem cooperativa salienta a importância e a eficácia da aprendizagem social. A aprendizagem cooperativa dá aos alunos a oportunidade de adquirir habilidades sociais e interativas que são de grande importância na vida, como negociação ou cooperação nos futuros trabalhos de revisão de textos. As técnicas de aprendizagem cooperativas também promovem a autoestima dos alunos e reforçam a sua aprendizagem pelo fato de que todos têm a oportunidade de participar ativamente no processo de aprendizagem. Os alunos também servem uns aos outros como fontes de informação e, ajudando-se reciprocamente a encontrar soluções para os problemas, têm a chance de debater e refletir sobre quaisquer discordâncias que possam surgir no grupo. A aprendizagem cooperativa reforça também a independência e a autorregulação dos aprendizes, bem como sua vivência na construção social e a origem social do conhecimento; por fim, as etapas de avaliação, desempenhadas coletivamente, têm amplamente reforçadas suas funções no que tange aos aperfeiçoamentos do processo.
Outra característica do ambiente de aprendizado cooperativo é que os alunos são responsáveis individual e coletivamente pelo próprio aprendizado e pelo aprendizado do grupo. Um por todos e todos por um. O poder dentro do grupo é dividido paritariamente e os alunos que participam da aprendizagem tomam decisões como iguais. A relação entre a aprendizagem cooperativa e a aprendizagem autônoma pode ser interpretada de duas formas: a aprendizagem cooperativa pode ser tida como condição prévia ou como resultado da autonomia do aprendiz. Independentemente de como olhamos para elas, é claro que os dois conceitos estão intimamente ligados. As práticas de ensino e aprendizagem que utilizam os princípios da aprendizagem cooperativa contribuem grandemente para formar e desenvolver a autonomia do aluno. A aprendizagem cooperativa permite que os formadores organizem o trabalho de treinamento dos revisores de forma mais eficiente, sem desistir completamente da sua autoridade, mas sempre reconhecendo a alteridade. Além disso, ela fornece aos alunos um ambiente de aprendizagem em que todos têm maior responsabilidade pelo seu próprio aprendizado.

Aprendizagem cooperativa de revisão de textos

A negociação contínua, o currículo orientado a processos e a interdependência positiva são todos princípios fundamentais na formação de revisores. Como já foi dito, vamos reforçar: o treinamento do revisor de textos exige que os instrutores e estudantes negociem constantemente a organização do curso, o material de aprendizado e o método de avaliação. É nesse processo que os alunos aprenderão a negociação comunicacional e operacional que são inerentes à revisão de textos moderna. É vantajoso que os elementos da negociação sejam incorporados ao currículo, assim como vale a implementação de uma versão mais “frouxa” do currículo, negociado e orientado a processos. Isso significa que os alunos têm constantemente a oportunidade de exprimir suas opiniões sobre certos aspectos do processo de aprendizagem, o material de aprendizagem e o conteúdo ministrado, os métodos de trabalho e a forma de avaliação (ainda que em medida menor que os outros). Por isso, é preferível que os estudantes aproveitem a oportunidade e que os formadores tenham em conta as opiniões dos revisores em formação. A aprendizagem cooperativa é orientada para atingir objetivos e diferenciados individualmente. Isso significa que a formação dos revisores modernos permite aos alunos exprimirem as próprias opiniões e representar seus objetivos nas diferentes fases do processo de aprendizagem. Uma coisa que torna isso mais fácil é o fato de que os grupos de aprendizagem em formação de revisores raramente sejam homogêneos, visto que os alunos estão todos aprendendo a mesma profissão – mas com metas distintas; procuram a mesma qualificação, mas para a exercer em diferentes campos de atuação. A maior diferença entre os alunos em termos de seus objetivos é que alguns deles vão preferir a forma autônoma (ou freelance), ao passo que outros vão optar por obter empregos.
A implementação do princípio da revisão cooperativa com interdependência positiva é crucial para o revisor que trabalhará em grupo ou para o que venha a praticar o ofício por conta própria. A interdependência positiva mais uma vez significa que os alunos dependem uns dos outros para alcançar seus objetivos de aprendizado. O princípio da interdependência positiva no caso dos estudantes de revisão e interpretação é implementado na forma do papel ativo dos alunos no trabalho em sala de aula. O sucesso dos estudantes depende muito de se os textos que selecionam para interpretar são apropriados para os propósitos do curso. Os textos devem se adequar ao curso em termos de linguística e devem ser relevantes para os tópicos que estão sendo discutidos. O sucesso também depende de como os alunos reagem ao feedback uns dos outros e se o feedback que eles dão uns aos outros é pertinente: tudo isso sendo passível de avaliação sob a coordenação do formador. A definição de interdependência de recursos é válida desde que os alunos devam usar regularmente o conhecimento uns dos outros como recurso de aprendizagem e de trabalho. Os alunos devem poder confiar uns nos outros para alcançar os objetivos do grupo, com isso conhecerão as fraquezas e as forças de cada um, podendo suprir umas com outras.
Uma das principais características da aprendizagem cooperativa é que esse método estabelece mudança no papel de alunos e de professores. Idealmente, os instrutores de revisão e interpretação possuem o alto grau de autonomia dos professores, devem ser pessoas flexíveis, responsáveis e continuamente em aperfeiçoamento profissional e pessoal. Em termos de seu papel no processo, sua responsabilidade é ajudar os alunos a desenvolver o conjunto específico de habilidades necessárias. Em outras palavras, eles não estão lá como possuidores e transmissores de conhecimento acadêmico. Eles estão lá principalmente para dar conselhos aos alunos sobre como conduzirem sua aprendizagem e ajudá-los a organizar o processo de formação. A gestão do processo é dividida entre os estudantes e o formador, mas sem que o último perca sua ascendência. Além disso, como os instrutores de revisão são provedores de serviços linguísticos eles mesmos, eles também servem como modelo para os alunos e também crescem na convivência.
A formação moderna de revisores deve fazer mais que simplesmente acompanhar as mudanças na profissão: deve também preparar os alunos para poderem treinar-se durante toda a sua carreira profissional. Para isso, os alunos devem se tornar profissionais reflexivos, que estejam cientes de todos os diferentes aspectos dos serviços linguísticos: o próprio processo de revisão; os vários aspectos que devem ser tidos em conta aquando da avaliação da qualidade do produto acabado; os aspectos que devem ser tidos em conta ao avaliarem a si próprios ou aos seus colegas; as diferentes fases de prestação de serviços linguísticos e os vários intervenientes envolvidos na prestação desses serviços. Os revisores, como provedores de serviços linguísticos, também devem conhecer os diferentes profissionais com que vão interagir no mercado editorial, tendo ciência dos padrões éticos do ofício, e devem adaptar-se ao mercado e ao ambiente institucional da sua profissão. O treinamento em si pode ser de grande ajuda na direção de futuros provedores de serviços linguísticos por esse caminho. A principal fonte de ajuda é o próprio formador, mas assuntos práticos podem e devem ser debatidos nos cursos básicos de revisão. O conteúdo linguístico da formação também é muito relevante, devendo ser composto de material autêntico e atualizado. O trabalho em grupos e a gestão de aprendizagem individual são igualmente importantes: a aplicação dos princípios da aprendizagem cooperativa desenvolve competências de aprendizagem autônomas, o sentido da responsabilidade do aluno, bem como as competências de avaliação e autoavaliação. Ele também ajuda os alunos a melhorar na definição de objetivos pessoais claros e desenvolver o desejo de autonomia na aprendizagem contínua ao longo da vida.
Adaptado de Horváth, I.