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Revisão de texto em tempo real

Consciência metapragmática e a atitude metacognitiva epistêmica em escritores acadêmicos.

Os estudos sobre fluência verbal escrita estão intimamente relacionados à micro e macroestruturas da fala, em que o emissor deve gerenciar processos de planejamento conceitual e linguístico. Já o escritor tenta controlar processos internos, representações e ideias e convertê-los um produto verbal com registro gráfico linear da forma mais fluente possível. Como resultados, a memória de trabalho e memória de longo prazo têm papeis centrais em ambas as elaborações, porque elas são responsáveis por processos cognitivos e de controle e armazenagem de todos os conhecimentos necessários envolvidos. Quando o escritor tem que produzir o texto sob pressão, é forçado a controlar eficazmente os processos com estresse aumentado – o que é bem frequente e pode resultar extrapolação da capacitância cognitiva, com prejuízos claros para o texto.
A intervenção em textos próprios ou
em textos alternos tem profundas
diferenças cognitivas e epistêmicas.
A tarefa de escrever requer a realização de uma série de complexas atividades cognitivas, tais como recuperação e ordenamento de eventos da memória de trabalho, leitura avaliativa, resolução de problemas e a atividade motora da escrita propriamente, bem como tentar evitar erros e escolher as estratégias apropriadas de estilo, como o uso de sinônimos, se necessário, ou evitar certas palavras, inadequadas ao gênero do produto. 
O escritor está sozinho com seus pensamentos no momento da escrita e dialoga somente consigo, embora o leitor externo esteja presente de maneira indireta, ficta, influenciando assim a atividade de redação.
A revisão, considerada neste ponto como o processo autoral a que costumamos nos referir como reescrita, autorrevisão ou interferência em textos próprios (ITP), é um dos três principais processos cognitivos da atividade de redação, sendo os outros dois o planejamento e a formulação. Esses processos não são separáveis, do ponto de vista operacional-cognitivo, muito pelo contrário, eles se sobrepõem durante a atividade de produção de textos e são, portanto, cíclicos, dinâmicos e imbricados. A revisão a que estamos nos referindo aqui, a ITP, é considerada atividade estratégica e deliberada, o que significa que o escritor escolhe se deve ou não fazer mudanças em seu texto – trata-se propriamente da reescrita autoral, e se processa, predominantemente, sem consciência plena de justificativas para alterações efetuadas. A ITP no momento da escrita pode perturbar a própria atividade, por um lado, porque os recursos mobilizados são divididos entre as duas tarefas (escrita e reescrita) e, por outro lado, a leitura de sua própria obra recente influencia a capacidade avaliativa; por exemplo, às vezes, o escritor acredita que já escreveu algo que ainda não está no texto, ou pensa ter cortado palavras que ainda estão lá.
Na verdade, ao escrever e reescrever em tempo real, o escritor, mesmo em se tratando de autor experimentado, raramente faz retornos substantivos sobre o texto. Além disso, muitas vezes acontece que o retorno ao texto não é acompanhado de melhoria da construção. As dificuldades que explicam a escassez de interferências eficazes nas ITP são de três ordens: primeiro, trata-se de perceber que algo está errado; em segundo lugar, é necessário determinar que há lacunas; em terceiro lugar, ocorre a necessidade de implementar meios específicos para remediar os problemas detectados – se, quando e onde os problemas tenham sido detectados. Essa complexidade surge do fato de que o escritor é acometido de uma forma intensa de demandas cognitivas na gestão em tempo real de seu conhecimento linguístico, pragmático e material durante a atividade de escrita. A reflexão e a geração de ideias situam-no dentro dos próprios processos, concomitante e paralelamente. Durante a ITP em tempo real, que é feita em sequência direta ao texto ser escrito, a parte avaliativa é acentuada, entre outras coisas, pela verbalização mental. Nesse tipo de pensamento, o escritor avalia a revisão com alguma forma de distanciamento ficto; em que ele tem um ponto de vista um pouco mais objetivo ou mais crítico no que diz respeito a seu texto do que se fosse uma verbalização ocorrendo simultaneamente à atividade de escrita (verbalização simultânea). Assim, uma vez que o texto é terminado e o escritor sai do mundo de seu texto como infectum, o ponto de vista dele tenta tornar-se externo, tomando o texto como perfectum. O escritor escreve seu texto para os leitores externos, mas também para o avaliador interno que ele é – trata-se da contínua autocrítica literária. Essa distância entre o texto infectum e o perfectum é relativamente curta, desde que a verbalização retrospectiva usada aconteça logo após a redação. No entanto, quanto à redação do primeiro texto, o rascunho ou o original, dependendo do caso, uma vez que o escritor recue para melhorar sua qualidade, de alguma forma ele se torna um crítico semiexterno.
O autor de um texto cria uma representação em sua mente da tarefa a ser executada e, a partir de seu conhecimento prévio, ele tenta transformar essa representação em texto linear de tal forma que o leitor possa formar dele sua representação específica. A linguagem interna de uma pessoa inclui o léxico mental e estruturas cognitivas, tais como conceitos, propostas e padrões que formam a base de suas habilidades linguísticas, incluindo sua intuição. O escritor poliglota tem a sua disposição várias representações mentais em paralelo, o que complica a colocação de ideias em palavras de uma língua só.
Ao estudar processos cognitivos como revisão, protocolos verbais são usados para detectar processos subjacentes, decisões tomadas e representações de padrões. Estudos no campo da psicologia cognitiva tentaram especificar o seguinte postulado: os processos verbalizados seriam controláveis, o que significa que eles articulam a memória de trabalho. De fato, estudos indicam que escrever ou revisar consiste em representações mentais das quais uma parte é mais ou menos acessível e, portanto, verbal.
Em nosso caso, como revisores profissionais, nós usamos um protocolo verbal retrospectivo, isso é, depois de o autor executar a tarefa principal, interferimos com um lembrete impulsionado (recall estimulado) para evitar a inferência, durante a tarefa de interferência em textos alternos (ITA), da eventual omissão de informações sobre que a atenção foi frustrada durante a atividade principal (a redação). Os protocolos verbais (ou seja, a oralização) não revelam os processos mentais em curso, mas representam as informações disponíveis na memória de trabalho a que o escritor prestou atenção e, portanto, os processos cognitivos são sempre manifestos de forma indireta. Na situação de verbalização, o escritor-orador relaciona o que ele faz em um monólogo destinado simultânea e indiretamente, ao experimentador: o leitor. No contexto de comunicação específico que descrevemos, o autor explica a si as atividades cognitivas que realiza, ou seja, escrever e revisar; além disso, ele pode se referir a objetos de linguagem em suas representações (por exemplo, a escolha de itens a serem usados ou a geração de ideias). Para nós, o texto já escrito consiste na primeira versão autoral e a ITA será o redesenho desse texto durante a revisão em tempo real – em trabalho concomitante. Vamos olhar como o escritor reinvestiu e reescreve seu texto perfectum e que tipos de mudanças ele escolhe fazer que têm algum retorno em seu próprio texto. Durante essa reverbalização, o autor também pode expressar atitude epistêmica metacognitiva para o seu texto, uma atitude que manifesta a ação de avaliação de um orador.
No discurso ordinário, os verbos que referem o fato do pensamento igualmente representam a avaliação e a emoção. A hipótese aqui é que a atitude metacognitiva epistêmica expressa, por um lado, a ação deliberada e orientada e, por outro lado, a incerteza no que diz respeito à solução de problemas.

Consciência metapragmática e atitude metacognitiva epistêmica

A metacognição refere-se à conscientização do indivíduo sobre seus próprios processos e atividades cognitivas, incluindo produções verbais orais e escritas. Está relacionada à autorregulação que representa o controle do indivíduo em relação às suas ações e processos. A capacidade de um indivíduo autorregular seu comportamento é subordinada a um conceito-chave na metacognição que se refere à interação entre o meio ambiente e as ações individuais. Ainda assim, pode-se distinguir entre dois componentes da metacognição: em primeiro lugar, a consciência metacognitiva referindo-se à consciência estratégica do autor (o conhecimento declarativo, processual e condicional) e, em segundo lugar, o controle e regulação metacognitiva (avaliação e apreciação da sua própria atividade). O conceito de consciência metacognitiva abrange os dois sentidos mencionados acima. Da mesma forma, para nós, estes termos são inseparáveis porque é quase impossível saber como esses processos se sobrepõem na cabeça de um indivíduo. Além disso, os conhecimentos processuais (implícitos) e declarativos (explícitos) que revelam diferentes graus de consciência podem ser misturados, especialmente durante a aprendizagem acidental ou incidental.
Parece ainda melhor o emprego do termo “consciência metapragmática” em vez de “consciência metacognitiva”, pois a importância da relação e interação entre os diferentes conhecimentos metacognitivos relacionados à atividade de redação: processo (atividade cognitiva), objetivos relacionados à tarefa (objetivo discursivo), situações comunicativas, elementos linguísticos (gramática, estilo, gênero, audiência) e assunto ou tema da tarefa. Além disso, apresentam-se os termos “consciência retórica” e “consciência discursiva” no contexto acadêmico. A nosso ver, um termo que abrange todos esses aspectos parece mais adequado a nossos questionamentos, porque as indefinições de termos descrevem esporadicamente os mesmos fenômenos e, por vezes, fenômenos distintos. Na verdade, diferentes meta-conceitos podem ser usados no campo linguístico e da psicologia cognitiva, e uma vez que o nível conceitual da meta tenha sido cruzado, mergulhamos na proliferação da terminologia.
Uma vez que a linguagem é uma entidade que compreende a forma, o sentido e a função, podemos abordar esse fenômeno em termos pragmáticos, analisando o discurso na situação. Preferimos a noção de consciência metapragmática, que tem conexão com a consciência metalinguística, onde a última reflete a primeira. Nesse sentido, as sugestões linguísticas da ITP e da ITA revelam consciência metapragmática. Essas interferências consistem de sinais metalinguísticos explícitos (por exemplo, marcadores discursivos, fala narrada e registros léxicos gráficos) e implícitos (expressões dêicticas, certos aspectos e modos verbais). Em outras palavras, a consciência metapragmática forma o quadro interpretativo para o uso da linguagem. Para nós, a consciência metapragmática significa reflexão e consciência sobre a estrutura da língua, o conhecimento sobre a língua e a cultura em questão, e o conhecimento referencial sobre o mundo. A consciência metapragmática reflete assim o conhecimento implícito e explícito da língua dos autores e dos revisores. Em nossa opinião, o conhecimento implícito é usado em atividades automatizadas sem controle consciente (ou seja, intuição), enquanto o conhecimento explícito requer a conscientização da atividade, o que se reflete na estrutura verbal das atividades de escrita ou revisão.
É sempre a partir da perspectiva pragmática que podemos distinguir a consciência metapragmática na forma pela qual o orador prevê, avalia, ou expõe seu conhecimento. Em outras palavras, na atividade linguística, quando o orador expressa sua opinião em relação a um fenômeno, ele se posiciona em relação ao fato (toma uma postura). O que nos interessa mais de perto aqui é o que se chama “postura epistêmica”. Ela está relacionada à modalidade epistêmica que diz respeito à força que o orador coloca em sua declaração proposicional e as evidencias que apresenta referindo-se à sua posição de orador em relação a sua declaração proposicional. A modalidade epistêmica manifesta o fato que o falante mostra sua incerteza por meios linguísticos diferenciados. Podemos falar sobre postura epistêmica e características evidentes, marcadores epistêmicos, modificação epistêmica, frases e advérbios epistêmicos (eu acho, eu acho, eu sinto como; aparentemente, definitivamente, é claro). Em outro contexto, as expressões tais como “eu penso” ou “eu acredito” podem ser consideradas como marcadores do autorregulador. Portanto, entendemos o termo atitude metacognitiva epistêmica como a descrição metacognitiva da experiência externa e interna que reflete uma atitude que poderia ser caracterizada por epistêmica. Isso se refere à atitude metacognitiva ligada à avaliação do conhecimento do orador e da forma como ele o conceitua.
Em suma, a consciência metapragmática pode ser analisada em contexto específico de expressões cognitivas, como “na minha opinião” e “eu acho que”, quando há distinção entre julgamento de valor sobre a atividade de revisão em tempo real, quando os autores expressam uma atitude epistêmica metacognitiva para suas declarações proposicionais.
Durante a revisão, os escritores alcançam objetos linguísticos micro e macrotextuais e, às vezes, em ambos os níveis ao mesmo tempo. Resulta que o retorno autoral ao texto nem sempre é acompanhado de melhoria efetiva; o escritor não recorre a outros meios que o léxico mental e seu próprio conhecimento prévio, incluindo a sua intuição e limitado por suas estruturas cognitivas, tais como conceitos, propostas, padrões e suas limitantes epistêmicas. As escolhas que os autores fazem ao autorrevisar em tempo real indicam que as questões que os perturbam estão relacionadas tanto à forma como ao significado, mas as regras gramaticais ou pragmáticas ainda não estão totalmente internalizadas. Sua consciência metapragmática está em incipiente processo de desenvolvimento epistêmico.
Adaptado de Mutta.

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