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Limites da revisão

O trabalho do revisor de textos está balizado por dois tipos de limites: um é o próprio conhecimento linguístico, o outro é a alteridade em duas personas, ele próprio e o autor.

Cada texto possui subjetividade inerente. As marcas pessoais do autor assomam-se a cada palavra, a cada coordenação ou subordinação escolhida, a cada vírgula. O autor imprime na escrita essas marcas, muitas vezes, sem percebê-las: manifesta-se, surge, irrompe no papel (ou na tela) uma presença cara e que confere naturalidade ao texto: trata-se do estilo. Sem esse detalhe, o texto torna-se uma organização de símbolos para transmitir uma mensagem, nada além de uma mensagem, inócuo. Esperam-se consequências do texto no leitor – preferencialmente que não seja o tédio.
Revisão e formatação são processos interativos entre editores e autores.
Os limites da linguística e da alteridade
são inerentes a toda revisão de texto.
Antônio Houaiss, em seu texto Preparação de Originais – I, lembra a proeza que foi editar Guimarães Rosa. Segundo Houaiss, o autor de Grande Sertão: Veredas, afeito a neologismos e subversões bem-vindas da língua, escrevia prescindindo da norma padrão ao acentuar palavras em função das necessidades de seu discurso: “[Guimarães Rosa] achava até que o circunflexo, o acento agudo, ou o acento grave entravam no ritmo visual da linha do próprio texto”.[1] Dessa forma, um texto detém personalidade resultante de habilidades e objetivos do autor, sustentada pelo estilo, pelas peculiaridades dos termos escolhidos durante a redação, pelos efeitos que causa na fluidez do texto a pontuação. Essa última é uma das marcas mais visíveis do estilo do autor.
A vírgula, utilizada para marcar o texto e auxiliar em sua leitura quando apropriadamente empregada, causa transtorno quando aparece onde não deveria aparecer ou é omitida quando necessária. As situações nas quais sua utilização é eletiva, no entanto, são as que mais geram violações ao estilo do autor. Nos casos em que há problemas desse gênero, muitas vezes, há conflito entre o estilo do autor e o estilo da pessoa que faz a revisão do texto, que, apesar de estar na posição de revisor de textos, ou preparador de originais, também possui seu estilo de escrita; todavia, quase sempre não lhe cabe interferir nesses pontos. Se o autor optou por suprimir uma vírgula que é opcional em determinado trecho, o revisor não deve acrescentá-la apenas por acreditar que fazendo isso o texto ficará “melhor”. Plinio Martins Filho, em seu Manual de Editoração e Estilo, esclarece que as decisões de intervenção do revisor de textos ou preparador de originais não devem ser tomadas por capricho: “Nunca se deve alterar um texto se não for absolutamente necessário e, para isso, é preciso ter segurança e certeza do que se está fazendo.”[2] Ao mesmo tempo, o revisor experiente que deseja aperfeiçoar um texto sem que o estilo autoral seja comprometido deve ter em mente que a melhor alternativa nesse caso é dialogar com o autor, se possível. Sugestões colocadas com polidez e respeito, além de bem fundamentadas, melhoram a interação entre ambas as partes em contato com o texto. Mitsue Morissawa, discorrendo sobre o assunto, lembra que achar uma construção no texto “feia” ou “esquisita” não confere ao revisor direitos de modificar o texto, mas “se, todavia, [ele] percebe que certos usos do autor depõem contra a obra em qualquer sentido, sem dúvida poderá ‘levantar a questão’”.[3] Não é preciso dar uma aula de gramática para o autor do texto, apenas explicar o porquê de determinada interferência, um esclarecimento de acordo com uma gramática, manual de estilo, dicionário de usos etc. Além disso, entender o intuito do autor ao escrever determinada passagem pode ser um caminho para se chegar a um acordo sobre algum trecho problemático.
Tendo os pontos anteriores em mente, fica claro que o trabalho de revisão de texto exige do revisor sensibilidade de, no mínimo, poder: A) identificar o estilo do autor do texto que está sendo revisado; B) discernir entre uma interferência necessária e uma supérflua; C) respeitar o trabalho de escrita do autor do texto, independentemente do tipo de revisão proposta, seja ela revisão de tese, revisão de dissertação, revisão de TCC, revisão de artigo etc. Espera-se a mesma compreensão do autor para com o revisor, que age segundo sua função e trabalha para aperfeiçoar o texto: “Não importa qual seja o brilho de sua prosa; o editor [revisor, preparador…] irá descobrir nela erros de ortografia, gramática, consistência, redundância e construção”[4], escreve Ellen Lupton na seção de dicas úteis para profissionais do texto, presente em Pensar com tipos: guia para designers, escritores, editores e estudantes.
Outro ponto importante quanto aos limites da revisão, isto é, das interferências feitas pelo revisor em um original, baseia-se na forma como o texto chega ao revisor: se diretamente – uma revisão solicitada pelo autor, geralmente revisão de tese, revisão de dissertação etc. – ou se chega por meio de uma casa editorial – o que acontece com um texto a ser publicado por uma editora. No primeiro caso, que é o caso da Keimelion, o autor entra em contato conosco buscando pelo aperfeiçoamento de seu texto, o que confere maior liberdade ao revisor para decidir, junto ao solicitante, como padronizar o texto. Assim, em contato direto, revisor e autor estão sempre se comunicando e decidindo o melhor caminho que o texto deve seguir. No segundo caso, em uma revisão feita em uma editora, apesar de similar ao primeiro, há alguns detalhes nos trâmites do processo que fazem toda a diferença. Um deles, por exemplo, se refere ao manual de estilo da casa editorial – que consiste em um conjunto de normas de padronização para a publicação, abrangendo regras que vão desde o uso de itálico e negrito à escolha do local das notas (rodapé, fim de capítulo) e uso de maiúsculas e minúsculas. Desta forma, o trabalho do revisor fica mais limitado às normas da casa, e o autor tem pouca autonomia na hora de decidir sobre detalhes de padronização em seu texto. Além disso, ainda sobre a revisão feita por meio de uma casa editorial, em alguns casos, o contato entre revisor e autor é intermediado pelo editor responsável ou coordenador de revisão, de forma que podem ser raras as vezes em que revisor e autor estão em contato direto, o que, se não dificultar a realização da tarefa, deixa-a mais suscetível a erros. Alterar realces em um texto (itálico, negrito, maiúsculas etc.) sem antes verificar com o autor se a interferência é válida pode gerar um retrabalho para o revisor. A comunicação eficiente entre as partes poupa tempo e deixa a revisão mais precisa. Aristides Coelho Neto, ao escrever sobre as regras que norteiam a revisão em seu livro Além da Revisão: critérios para revisão textual, enumera três pontos fundamentais que o revisor deve observar atentamente para poder desenvolver seu trabalho: as normas da língua (gramática, ortografia etc.), as normas editoriais (estabelecidas pelo cliente ou pelo manual de estilo da casa editorial) e as normas pessoais do revisor. Esta última, vale lembrar, deve sempre respeitar o estilo do autor, como escreve Coelho Neto: 
Essas regras pessoais do revisor não se devem pautar pela gratuidade. Ao se observarem algumas tendências do autor dentro do texto, o revisor deve agir como agente de homogeneização. Os poderes do revisor de sugerir ou interferir no texto – e até na diagramação –, apontando construções gramaticais mal concebidas, falta de clareza, de correção etc., vão variar sempre de acordo com cada cliente e cada situação específica.[5]
O revisor de textos experiente sabe que é preciso pesquisar muito antes de efetuar uma interferência, por isso, a importância de ter acesso a gramáticas de autores diferentes, manuais de revisão, dicionários, incluindo os de regência verbal e nominal. Além das ferramentas físicas, o revisor de textos experiente deve sempre contar com seu aparato imaterial, colocando-se no lugar do outro: houve um trabalho de escrita do texto com o qual o revisor se depara, e isso não deve ser negligenciado. Apesar da importância do material de consulta, o revisor também precisa entender que, em algumas situações, a imposição da regra limita a criatividade do autor, fazendo com que seu estilo se perca em meio a uma padronização dura. Cabe ao revisor possuir, além do conhecimento sobre a língua e as regras que a regem, sensibilidade com a criação do outro, consciência da alteridade. Morissawa lembra-nos como o jogo de cintura é importante durante a revisão de texto: não adianta tentar padronizar a revisão, pois não existe um padrão normativo absoluto, cada caso é um caso – algo que pode ser observado nos equívocos cometidos pelos revisores automáticos, como o do Word, muitas vezes falhando quanto à concordância, ortografia, etc. “Muitas vezes a melhor solução dissolve a regra e faz a sensibilidade prevalecer sobre o rigor da norma.”[6] Em casos assim, não há espaço para a intransigência robótica da revisão pautada exclusivamente pela norma padrão; torna-se imprescindível o fator humano ao se interferir em um texto.

Notas

[1] HOUAISS, Antônio. Preparação de originais – I. In: QUEIROZ, Sônia. A preparação de originais. p. 10.
[2] MARTINS FILHO, Plínio. Manual de Editoração e Estilo. p. 170.
[3] MORISSAWA, Mitsue. O preparador de originais. In: QUEIROZ, Sônia. Editoração: arte e técnica. p. 21.
[4] LUPTON, Ellen. Pensar com tipos: guia para designers, escritores, editores e estudantes. p. 166.
[5] COELHO NETO, Aristides. Além da revisão: critérios para revisão textual. p. 107.
[6] MORISSAWA. p. 22.

Referências

COELHO NETO, Aristides. Além da revisão: critérios para revisão textual. 2. ed. Brasília: Editora Senac, 2007. 304 p.
HOUAISS, Antônio. Preparação de originais – I. In: QUEIROZ, Sônia. A preparação de originais. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2015. p. 7-22. (Coleções Viva Voz)
LUPTON, Ellen. Pensar com tipos: guia para designers, escritores, editores e estudantes. Tradução de André Stolarski. São Paulo: Cosac Naify, 2006. 184 p.
MARTINS FILHO, Plínio. Manual de Editoração e Estilo. São Paulo: Editora da Unicamp, 2016. 728 p.
MORISSAWA, Mitsue. O preparador de originais. In: QUEIROZ, Sônia. Editoração: arte e técnica. 3. ed. rev. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2015. p. 19-22. (Coleções Viva Voz)

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