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Revisão do texto técnico: a retórica da acessibilidade

O texto técnico ou científico é repleto de retórica

A relação entre retórica, conhecimento, produção e revisão de textos é um problema filosófico antigo e interessante, em parte, por causa dos diferentes pressupostos sobre a natureza da comunicação e da revisão.

A revisão de textos no contexto dos negócios ou da vida acadêmica, considerando o ritmo de trabalho, a pressa ou a premência dos prazos, parte da premissa de que os textos não tenham sido concluídos como deveriam, impossibilitando ao revisor colaborar antes, durante e depois da produção; antes, durante e depois da elaboração do projeto e de seu desenvolvimento; descarta-se a colaboração que poderia orientar a produção, instruir a construção do discurso retórico e, finalmente, mas não menos importante, corrigir e aferir a comunicabilidade, consistência e acessibilidade do produto textual.
inventio – dispositio – elocutio – memoria – actio – prolepsis – revisão
A construção do argumento não é aleatória, todos os dados devem ser apresentados em boa ordem.
A revisão é o tempo em que se verifica se o autor conseguiu impor às palavras ordem para produzir um texto tão eficaz e eficiente que tenha materializado a intenção de comunicação do emitente, alcançando o destinatário sem ruídos indesejáveis. Tende-se a considerar a revisão como tarefa auxiliar – mas essa postura é um equívoco que trataremos de deslindar: a revisão é parte do processo de produção texto.
O que não se pode não ignorar para a comunicação escrita eficiente são os estágios da retórica clássica que determinam a composição dos discursos, passando por inventio dispositio elocutio memoria actio prolepsis – revisão: para produzir um bom texto você deve primeiro reunir as informações, então fazer o roteiro do trabalho – ou o esquema a ser observado, depois escrever e, finalmente, proceder à revisão. São as aplicações das boas constantes aristotélicas do ethos (forma pela qual o autor convence o leitor de que está qualificado para falar sobre o assunto, como a formação ou autoridade adquirida podem influenciar o leitor), do pathos (trata-se de captar a empatia do leitor pelo uso de apelos emocionais externos o julgamento objetivo do conteúdo; pode ser feito por metáforas ou outras figuras de retórica pertinentes ou apresentar o tema de forma que evoque emoções favoráveis – o pathos é fortemente prejudicado em textos truncados, obtusos, confusos ou permeados de erros fáticos ou linguísticos) e do logos (uso da razão lógica e do raciocínio indutivo e dedutivo na construção do argumento, recorrendo à objetividade, estatística, matemática, raciocínio indutivo, paralelismo – exemplos, raciocínio dedutivo partindo proposições aceitas para extrair conclusões específicas, tudo para alcançar conclusões; argumentos logicamente inconsistentes ou enganadores são as falácias: erros lógicos propositais ou acidentais).
O estudo da retórica não pode ser relegado.
O triângulo da retórica é a estrutura da argumentação.
Os cânones da retórica servem de guia para a criação de mensagens e argumentos persuasivos. Atuando sob tais balizas, o revisor de textos afere o processo de desenvolvimento de argumentos, o estilo – determinando pela forma de apresentar os argumentos; a organização dos argumentos para o efeito pretendido; a apresentação das ideias, a entrega por signos, imagens, gestos, pronunciação, elocução, tom e ritmo utilizados ao apresentar a persuasão; e o processo de aprender e memorizar o discurso e as mensagens persuasivas.
No campo teórico, há um debate intelectual sobre a definição de retórica em Aristóteles. Alguns acreditam que Aristóteles defina a retórica como a arte da persuasão, enquanto outros pensam que ele a define como a arte do julgamento. A retórica como arte do julgamento significaria que o leitor discerne os meios disponíveis de persuasão com uma escolha. Aristóteles também diz que a retórica está preocupada com o julgamento porque o leitor julga o ethos do autor.
Uma das mais famosas proposições aristotélicas foi a ideia de topos (também conhecidos como tópicos comuns ou lugares–comuns). Embora o termo tivesse uma ampla gama de aplicativos (como técnica mnemônica ou exercício de composição, por exemplo), ele se referia mais frequentemente aos “assentos do argumento” – a lista de categorias de pensamento ou modos de raciocínio – que um autor poderia usar para gerar argumentos ou provas. Os tópicos foram, portanto, uma ferramenta heurística ou inventiva projetada para ajudar os autores a categorizar e assim reter melhor e aplicar tipos de argumentos usados com frequência. Por exemplo, como muitas vezes vemos efeitos como causas, uma maneira de inventar um argumento (sobre um efeito futuro) é discutindo a causa (que será “como”). Este e outros tópicos retóricos derivam da crença de Aristóteles de que existem certas maneiras previsíveis em que os seres humanos (particularmente os não especialistas) tirem conclusões das premissas. Baseado e adaptado de seus tópicos dialéticos, os tópicos retóricos tornaram-se uma característica central da posterior teorização retórica e são inteiramente aplicáveis às proposições de um manual de procedimentos, para um relatório técnico ou para a dissertação acadêmica.
Nos contextos corporativo (empresarial ou do terceiro setor) e acadêmico, concluída a redação de um documento pelo especialista no processo ou no conteúdo, é a fase de revisão que mais empresta credibilidade ao conteúdo, pela intervenção do linguista, possivelmente um profissional externo e necessariamente alterno: o revisor final não pode ter tido contato com a produção do texto. O autor, na verdade, está envolvido pelo texto e, quando relê ou reescreve o resultado de seu projeto, ele já conhece o conteúdo e antecipa as informações e conclusões, ficando impossibilitado de identificar as lacunas ou incoerências lógicas. Para que se obtenha o grau de legibilidade desejado, a comunicabilidade fluida, para o texto se inserir adequadamente no gênero em que se pretende, perfeitamente compreensível para aqueles a que ele se destina, o autor deve ter familiaridade com os conceitos expressos no texto – conhecimento de causa. Por outro lado, o revisor tem um ponto de vista diferenciado, que lhe permite avaliar o texto e a experiência global de ler de forma mais objetiva (ligada ao objeto textual como mídia), para identificar problemas específicos que interferem com o entendimento e a compreensão.
Entrando em contato com o texto, o revisor deve construir de zero um modelo mental e isso ocorre independentemente de sua experiência de escopo técnico sobre o objeto, porque sua capacidade de análise não depende muito do conhecimento da matéria textual, mas trata o texto como absoluto comunicacional – informação que deve ser completa em si, que expõe os objetivos, desenvolve argumentos e apresenta conclusões, não obstando que tais etapas estejam implícitas. Por essa razão, não é necessário que o revisor tenha formação técnica na área de conhecimento a que o texto está afeto, mas é imperioso que ele seja especialista em língua. Isso faz parecer que o autor apresenta o texto para revisão ao exame de um leigo, que alega identificar melhor as dificuldades do destinatário. Revisão geralmente envolve profissionais pouco experientes em tecnologia ou no ramo da ciência a que o texto se reporta, ela permite um acórdão de usabilidade do produto textual, seja ele um manual técnico ou uma tese, pois o objetivo dos processos de revisão é a qualidade textual e retórica do texto, e eles não requerem conhecimento anterior ou experiência além do campo da linguística.
A retórica é a arte do discurso em que um escritor ou orador se esforça para informar, persuadir ou motivar públicos específicos em situações específicas. Como sujeito do estudo formal e de uma prática cívica produtiva, o revisor de textos tem desempenhado papel central na tradição europeia. A retórica tipicamente fornece heurísticas para entender, descobrir, e desenvolvendo argumentos para situações particulares; a contribuição do revisor de textos em projetos de fulcro empresarial ou acadêmicos pressupõe, obviamente, que ele possa contribuir em tais esferas da comunicação.
A revisão de um manual de procedimentos, um relatório técnico, um parecer, uma tese, como todas as atividades relacionadas à comunicação, admite diferentes estratégias porque implica a comparação de variáveis. A técnica redacional tem basicamente dois pontos de referência: a materialidade, o objeto fundamental do texto, substancialmente conteúdo extralinguístico em trâmite entre a fonte e o destinatário, mas quem escrever ou reescreve só tem controle conteudístico sobre tais elementos; a subjetividade – por outro lado – que é afeta aos códigos comunicacionais estabelecidos e solicitados no processo de expressão e interpretação com melhor ou pior aderência ao texto, porquanto só pode formular hipótese sobre como o segundo lerá o que o primeiro escreveu. É impossível saber exatamente que leitura terá o destinatário de um manual técnico ou de um artigo científico. O poder de controle do autor sobre o texto finda quando da publicação.
O objetivo da revisão de um texto pode não ser a clareza absoluta, a que é impossível chegar, mas será a busca do coeficiente de clareza e da economia linguística considerados aceitáveis com base em critérios estabelecidos, porém difusos. A experiência do revisor no campo da linguística não o autoriza a intervir de forma arbitrária, mas permite a ele identificar e eliminar desnecessárias complexidade e ambiguidade visando reduzir o esforço de decodificação necessário ao destinatário. Essa operação não é óbvia, porque clareza e economia linguística podem se apresentar em conflito: para ser claro, deve-se escrever de forma explícita e completa, ao passo que o texto curto e com poucos detalhes é muito mais fácil para emissor e receptor, mas pode não apresentar todos os dados ou argumentos. Os revisores profissionais que se ocupam do texto não criativo devem pesar benefícios e desvantagens de várias soluções para chegar ao cometimento mais conveniente entre o respeito ao produto autoral comunicativo, situação em que o texto se insere, e sua eficácia e eficiência comunicacionais. Naturalmente, tais considerações são alheias ao texto estético criativo, mas se aplicam fortemente aos manuais e às teses, por exemplo.
Para responder com eficiência e objetividade às demandas do texto, a revisão deve não ser livre, mas balizada por um padrão composto por direções concreta e precisas que alinhem os recursos da interferência sobre o texto. Esse padrão permite também não se perder de vista a linha mestra do trabalho original e não se deixarem de fora possíveis melhorias. O revisor colabora para alcançar o mesmo objetivo presuntivo do autor, a revisão deve ser pautada pela adaptação de um ao outro, subsunção do revisor ao autor: editores e revisores devem compartilhar perspectiva e estratégias comuns. As correções do revisor devem também ser seletivas e afetas exclusivamente a problemas de compreensibilidade e a casos em que as recomendações do guia de estilo foram rejeitadas sem razão. Desta forma, logra-se reduzir o tempo necessário à revisão e se respeita a diretriz de mínima interferência no texto, eliminando só os erros eventuais e a escolhas inadequados; não se trata de reescrever com base na própria preferência.
Desse ponto de vista, o parâmetro de legibilidade oferece a vantagem de ser objetivo: considerando o texto antes e depois a revisão, apesar de não exaustiva ou extensiva, constata-se a utilidade das alterações feitas. Enquanto o escrever autoral abre um leque de direções muito disperso para qualquer um que escreve, em incontáveis digressões da própria individualidade, o revisor e o percurso da revisão devem construir ferramentas de escolhas com vistas à comunicação eficaz: o revisor não é um antagonista do autor.
O revisor de textos controla o sucesso de todas as fases anteriores do processo editorial, certificando-se de que o texto contenha todas e só as informações relevantes (inventio), organizadas funcionalmente (dispositio) e que a renderização linguística responda aos requisitos formais (elocução). Nesse sentido, renderizar é o ato de compilar um texto e obter o produto final de um processamento editorial, é realinhar toda aquela sequência de imagens, signos, significados e significantes que foram montados na linha retórica e precisam ser condensados em parágrafos e capítulo. No caso específico de manuais ou teses, textos não criativos em geral, a seleção de informações é o aspecto mais problemático para o revisor, que muitas vezes não tem nem acesso ao objeto material, nem a possibilidade de entrevistar os autores; de tal modo, ele fica tolhido para verificar a precisão de informações e para resolver determinados problemas de dados ou de lógica. No entanto, esse limite não faz inútil ou confere menos confiança à revisão, mas estabelece o fato de o revisor ser capaz de trabalhar com o texto em si, em função apenas do que constar nele, procurando a coerência internamente e dentro dele constatando as lacunas que impedirem as conferências dos dados oferecidos, trabalhando apenas com imagens ou com o modelo mental que possibilita ver a clareza e a exigibilidade das instruções ou das conclusões parciais ou globais do raciocínio desenvolvido.
A prestação de informações macrotextuais requer ordem lógica (retórica) já no primeiro projeto do texto: a sucessão de capítulos e de instruções com base nas várias fases de processamento lógico constituem exigência de gênero bastante bem estabelecida, então, superada essa questão, a intervenção do revisor será provavelmente mais referente ao conteúdo comunicacional e linguístico.
Muitas vezes, a revisão é focada especialmente no plano significativo, que requer o controle de muitos fatores, ou de confrontos com o jogo de espelhos dos estilos de escrever inadaptados à comunicação técnica e científica que, no entanto, por motivos não linguísticos, têm certo prestígio: essa forma de expressão foi chamada “jargão” ou “antilingua” (um idioleto usado por um grupo social para evitar que outsiders entendam o que está sendo dito). Cabe ao revisor considerar especialmente se o texto é conciso e preciso, cabe intervir para estabilização de questões lexicais, sintáticas, semânticas tanto quanto as conhecidas conferências ortográficas: a consequência é o aumento do paralelismo formal do texto. É essencial a análise consciente e compreensão objetiva de cada intervenção processada, caso contrário o procedimento poderá introduzir no texto problemas mais graves que aqueles a serem afastados.
Inspirado por Magrini.

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