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Questões complexas da revisão de textos

O que predomina nos limites dos textos e dos processos de revisão de textos é a irregularidade, embora exista um padrão regular (semelhança) nessa forma de ser irregular. Como as coisas são medidas linearmente, com retas, e os limites são variáveis, a extensão do limite fractal das unidades frásticas depende da unidade padrão de medida, tendendo aquela ao infinito, quando a unidade padrão de medida tende a zero. Quanto mais se reduzir a unidade padrão de medida, mais se aumentará a extensão da coisa medida. A noção fractal de limites pode ser aplicada a limites cognitivos. Podemos, então, aumentar os limites de uma malha frasal reduzindo a unidade padrão de medida do conhecimento gerado pela textualização, obtendo conhecimento que vá aos mínimos detalhes. Dessa forma, uma revisão de textos pode aumentar seus limites:
O texto é uma estrutura
fractal complexa.
Dando maior atenção aos detalhes e desenvolvendo dados mais específicos acerca dos padrões textuais e processos de interferência, o que corresponde à redução da unidade de medida do padrão cognitivo;
Reformulando em termos fractais o padrão de textos e processos de revisão de textos já existentes, pelo desenvolvimento de novas interpretações tempo-espaciais. Com isso, a revisão de textos pode ter seus limites estendidos nos procedimentos de interpretação e interferência.

Os limites dos textos e dos elementos fractais não são exatos, rígidos, impermeáveis. Existe um grau de indistinção nesses limites permeáveis. Por sua vez, essa permeabilidade permite o intercâmbio de dados para geração de informação e conhecimento, intercâmbio de energia e de dados no ambiente social, bem como aumento e melhoria dos relacionamentos desde a menor escala – a do indivíduo em relação ao texto – até as escalas mais amplas, envolvendo o contexto, com todos os atores, fatores, ecofatores, aplicação e implicações desse conhecimento. Trata-se do relacionamento da sociedade em relação a eventuais efeitos do texto. A permeabilidade dos limites proporciona a mudança de estado, caracterizada pelo aparecimento súbito de eventual solução qualitativamente diferente para uma intervenção no texto quando o parâmetro é variado suavemente. Porém, o processo consegue ter continuidade graças à manobra de subsistência (mudança do padrão fractal), saindo de um atrator para outro, fundindo atratores e fazendo emergir novos atratores na caminhada de transformação, permitindo o estabelecimento de neologismos, bordões, parassínteses e demais formas de associações. Os radicais ou até mesmo os fonemas cuja raiz significante tenha se perdido serão determinantes da autossimilaridade que se estenderá complexamente em reproduções fractais ao limite superior da significância macrotextual.
Existe sempre alguma semelhança nas formas e nas características abstratas dos textos e nos processos de revisão de textos em relação a suas componentes. Ao se dividir iterativamente o todo em partes, elas, por menores que sejam, apresentam formas e características semelhantes às do todo de que se compõem. Na verdade, cada parte reflete a estrutura do todo. Diz-se, então, que a parte está no todo e que o todo está na parte. A autossimilaridade proporciona um sentido de ordem a estruturas aparentemente desordenadas tanto de objetos como de processos. Assim são os fractais.
O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.
Em todo o sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.
O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.
Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.
(Gregório de Matos) 
Elementos de cognição abstrata: identitários, conscienciais e epistemológicos.
Fig. 1: Elementos textuais
 de cognição abstrata.
Podemos dizer que a visão fractal do texto é a iterativa reflexão de toda a textualidade em cada uma de suas unidades componentes. A trama textual deve ser vista como ela toda se refletindo iterativamente ou recursivamente em cada um dos nós componentes da rede. Sem dúvida, essa abordagem não é visão hierárquica, estrutural ou sintática, não é visão para cima ou para baixo, mas visão em zoom que se alterna entre lentes de macro ou de micro – em observação fractal que propiciará intervenção no texto mais dinâmica em profundo dialogismo entre elementos textuais e elementos sociológicos imbricados.
Reconhecemos que o texto, que é criado por seres humanos, existe de forma semelhante ao ser humano: vivo e inteligente, dinâmico e dependente sempre da interpretação que os seres humanos lhe dão. Então, escolhemos bolhas interpretativas para formar a representação da morfologia textual, de suas unidades componentes e dos elementos de cada unidade componente, por acharmos que elas lembram muito bem a ideia de células, de campos mórficos e de campos de força, como sintagmas atratores caóticos de significado. O padrão de irregularidade no contorno de cada bolha, representa a ideia de indistinção, de permeabilidade dos limites e de extensão infinita dos limites.
Organização fractal: aspectos físico, mental, emocional.
Fig. 2: Elementos
textuais de cognição subjetiva.
Na visão fractal do texto, uma célula inicial (célula-mãe) representa a morfologia da interconexão dos elementos que a compõem (morfemas). O âmbito de atuação de cada elemento está representado por uma bolha dentro da célula inicial. Quatro desses elementos se referem ao que podemos denominar elementos textuais de cognição abstrata, sendo eles: transcendental, epistemológico, identitária e consciencial.
Outros quatro elementos se referem ao que chamaríamos de elementos característicos do aspecto textuais de cognição subjetiva: físico, mental, emocional e experiencial. Figura 2.
Os aspectos abstratos e subjetivos são inseparáveis e definem a unicidade textual como um objeto cognoscível. São mesmo as relações entre os elementos que definem essa unicidade formam o texto, definem o texto como tal, são seus determinantes e definidores.
Organização fractal transcendental e experiencial.
Fig. 3: Imbricação de fatores
abstratos e subjetivos.
Na realidade, esses elementos, representados por bolhas dentro da célula-mãe, são inseparáveis e se interpenetram para formar o “ser vivo inteligente” que é o texto, cujos componentes principais são os sujeitos que o criam e os interpretam. Além de inseparáveis, os elementos abstratos e subjetivos então imbricados, constituindo o elemento mínimo do fractal, a célula-mãe. Figura 3.
Como ocorre em qualquer ser vivo, a partir dessa célula-mãe inicial (figura 3), para que o texto seja produzido e mantenha a autossustentabilidade, é preciso que a dinâmica textual gere novas células com as mesmas características da célula-mãe, em processo fractal, em que cada célula gerada represente um novo âmbito escalar que envolve todos os elementos apontados, tal como no quadro que se segue.

Elementos de cognição textual abstrata e subjetiva.

Elementos
Natureza ou objeto
Caracterização
Transcendental & Experiencial
Interconexão entre elementos abstratos e subjetivos do texto.
Texto como um objeto em desenvolvimento, com liberdade, autonomia e automotivação, criando seres em desenvolvimento (pessoas) com sua liberdade, autonomia e automotivação, a partir da visão complexa de mundo, visando um propósito, seguindo princípios, e desenvolvendo valores segundo os quais pautam a sua conduta.
Epistemológico
Relação entre natureza do conhecimento e processo cognitivo.
Conceito de texto segundo a visão fractal. Estabelece marcos orientadores (filosófico, teórico-metodológico, histórico, cultural).
Identitário
Caracterização do texto segundo gênero e estilo.
Forma e conexões das determinantes operacionais, acoplamento estrutural (coerência e coesão internas e externas).
Consciencial
Autopoiese textual.
Consciências críticas individual, social e ecológica dos indivíduos (autores e leitores) em relação ao texto.
Físico
Infraestrutura: contextual interno e externo.
Coagentes (sujeitos e textos); conexões, fatores (internos e externos), cofatores, reatores e ecofatores.
Mental
Intuição, criatividade, inteligência (interligações), referências.
Estabelecimento de estratégia, gestão e teoria de fundo e geratrizes metodológicas, métodos de planejamento e roteirização.
Emocional
Clima determinado pelas emoções e afetividade.
Expressão dos valores individuais ou sociais e da fruição textual por parte de autores e leitores.
Experiencial
Vivência.
Processos, ações, atitudes dos atores, estado dos fatores, alternativas, pertinência, ajustes e implicações de sua aplicação (coerência e coesão internas e externas).
O texto é formado por partes. Cada parte é formada por um ou diversos segmentos. Cada segmento é composto de frases, orações, palavras, semantemas (inclusive em diversos estádios hierárquicos), e formam parágrafos. Nesse processo fractal, todos e cada um emergem à imagem e semelhança da célula-mãe do texto. O padrão fractal de significantes e significados manifesta suas características em todas as escalas.
As interconexões entre todos os elementos de cada nova célula, entre cada elemento de cada nova célula e a nova célula como todo, entre cada elemento de cada nova célula e a unidade de texto como todo, entre todas as células textuais, como equipe, e entre cada célula sintagmática e o texto global são interconexões de curto e de longo alcance.
Sucessão infinita de elementos abstratos e subjetivos integrantes do texto.
Fig. 4: Morfologia da estrutura fractal do texto.
São interconexões que se manifestam como partícula (bolhas) e como onda (círculos concêntricos, na figura 4). Assim, o texto constitui uma rede fractal autocatalítica (cada elemento funciona como catalizador para os demais), na qual o local afeta o global e o global afeta o local. Dessa forma, existe a possibilidade do surgimento de uma nova célula, a partir de qualquer das células já existentes.
Na verdade, a ideia é que cada elemento textual passe a funcionar com o mesmo padrão do texto completo. O texto assim é complexo (tudo tecido junto) em todos os âmbitos (escalas). Cada elemento textual tem seu valor, porque cada um tem coerência espacial e temporal com os demais.

Revisão de estruturas fractais

É oportuno enfatizar que o grande papel de qualquer revisor de textos (fractal) é aperfeiçoar as condições para as pessoas criarem significado de suas leituras – o propósito – criar condições para que o texto e todos os sujeitos afetos desenvolvam, o seu elemento transcendental (ser em desenvolvimento), o que potencializará o efeito comunicativo do texto, tanto em seu aspecto abstrato quanto subjetivo. Transcender significa ir além, em tudo o que se faz. É pela transcendência, por meio da vivência, que o ser e os textos se desenvolvem.
Um texto deve existir para a realização de um propósito, caso contrário, ele será um mero conjunto de signos. O propósito é a afirmação de intenções claras e simples que identifica e une os componentes textuais para alcançar algo que valha a pena construir ao redigir, ou desconstruir ao interpretar. O texto é expressão inequívoca do que as pessoas, em conjunto, querem se tornar e do que elas tentam se tornar. O texto deve falar às pessoas de maneira poderosa e efetiva. O propósito, por sua vez, tem a sua realização pautada em princípios e orientada por valores (amor, compaixão, cooperação, ética, lealdade, solidariedade) a serem preservados, recuperados e cuja expressão deve ser aperfeiçoada no processo de revisão do texto.
Os princípios são aspirações partilhadas pelos intercessores no âmbito do comportamento, uma afirmação inequívoca de compromisso segundo o qual o texto e os sujeitos intervenientes pretendem se conduzir para a realização do propósito. É o estudo do contexto que revelará a existência de determinados atores e fatores que são chave para a avaliação qualitativa do texto. Para isso, é necessário conhecer a capacitação, sensibilização, motivação dos sujeitos intervenientes.
O desenvolvimento do texto e das pessoas que trabalham nele e que com ele interagem – intercessores – deve ser propiciado a partir da visão de mundo, a mais adequada possível para tal, compartilhada por todos os interagentes. As características da visão de mundo adotadas pelo intercessor no texto influenciam fortemente a natureza, o rumo e as prioridades até da revisão do texto. Por isso, a negociação da visão de mundo a ser adotada deve ser a mais cuidadosa possível, porque os resultados dela geram impactos profundos nas negociações dos demais elementos textuais.
Esse processo deve acontecer a partir do elemento epistemológico, o que permitirá o processo adequado para a geração e apropriação do conhecimento, levando a conceber e implementar um conceito de revisão de textos que explicite como os participantes se relacionam, segundo os marcos orientadores do processo revisional. Esse conceito de revisão de textos deve ser orientado por diferentes enfoques teóricos que permitem distintas interpretações e direcionem diferentes formas de atuação. Para tanto, devem ser negociadas as premissas, as vantagens e as desvantagens dos conceitos disponíveis e possíveis de serem aplicados, cujo conteúdo ético e implicações sejam aceitáveis. O conceito de revisão de textos aplicável é praticamente definido a partir da visão de mundo, do propósito e dos princípios correspondentes.
O conceito de texto imanente propiciará que a revisão de textos seja fruto da íntima interconexão de todos os elementos que a compõem, em especial o elemento transcendental, permitindo que a revisão de textos seja reconhecida como um processo em desenvolvimento, e constituída por pessoas que são seres em desenvolvimento, pois, no âmbito do elemento experiencial, os processos e ações da intervenção no texto devem articular, de forma coerente, os sujeitos e os fatores em função da atitude dos intercessores e do estado dos fatores (intrínsecos e extrínsecos) relevantes para a realização do propósito. O estado atual dos sujeitos e dos tais fatores permite verificar a contribuição potencial de ambos para o êxito da textualização, permitindo também a análise antecipada das implicações derivadas da implementação dos processos.
Na concepção e desenvolvimento de cada componente, cada um dos demais itens deve ser considerado de forma interconectada e constituinte da morfologia fractal, para que o texto, vivo inteligente, possa desenvolver todas as potencialidades no âmbito dos seus componentes físico e mental, expressando seu componente consciencial (consciência individual, social e ecológica), e criando oportunidades para que seus sujeitos possam desfrutar do prazer de fruir suas emoções, sua afetividade, a partir da expressão de seus valores. Em ambiente de liberdade para desenvolver as suas potencialidades, os sujeitos terão aumentadas sua autonomia e automotivação e fortalecida sua identidade, o que propiciará uma mudança positiva na própria revisão de textos.
Adaptado de (Tôrres & Góis, 2011).

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