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Revisão de textos acadêmicos: abordagem cultural

O papel da revisão de textos acadêmicos

O trabalho científico consiste de duas partes heterogêneas: a investigação (pesquisa) e a comunicação (publicação).

As duas são pertencentes a diferentes sistemas cognitivos e semióticos da língua viva, que inclui ruído, texto e também elementos multi e intertextuais (imagens, movimentos, gráficos, animações, personagens, paisagem, atmosfera, efeitos). Quanto à parte verbal, que é o tema do nosso interesse, em si, também não é homogênea. Existem duas formas bem distintas de comunicação verbal: escrita (texto, artigo, comunicação, tese) e oral (aulas, palestras, colóquios, defesas, debates). Em um trabalho científico, esses componentes são organizados de maneira a constituir um conjunto de elementos inseparáveis. Como o revisor só pode intervir na componente linguística, deixando inalteráveis as informações contidas na parte não-verbal, alguns pesquisadores preferem destacar texto escrito como o principal objeto do estudo e ação do revisor, o que atualmente pode ser questionado, em tese, mesmo que, inegavelmente, seja o que ocorre, de fato.
Escrever e revisar são duas etapas inerentes e indissociáveis da comunicação científica.
A comunicação científica
coroa a investigação e o
título acadêmico.

O papel do texto acadêmico e de sua revisão

Em nossa opinião, a questão do papel do texto acadêmico pode ser abordada de dois diferentes ângulos muito relacionados: do ponto de vista da análise textual e do ponto de vista da análise interpretativa.
Se nós adotamos o primeiro ponto de vista, podemos classificar o trabalho científico entre textos de mídia baseados na forma escrita, mas dos quais o destinatário recebe boa parte na forma oral, isto é, pelas leituras e apresentações que se fazem dos textos. Com efeito, no texto científico, o papel de escrita é muito mais importante que se pode imaginar. No entanto, quando se percebe um trabalho científico como produto acabado, o componente textual, muitas vezes escondido durante a pesquisa, tem atenção imediata.
Em primeiro lugar, deve notar-se que cada trabalho científico é precedido por um cenário literário que existe na forma escrita (as fontes, as referências, a literatura: o estado da arte), da qual o operador, o autor e, muitas vezes, um orientador acadêmico, fazem o roteiro da investigação e do texto científico que se sucederá. Podemos mesmo dizer que a escrita do projeto conduz a um tipo de decomposição da integridade estrutural do texto científico, porque o apresenta como obra literária escrita quase autossuficiente (e até mesmo autopoiética), como peça antecedente, mas que é a base para todo texto científico resultante.
No campo da revisão de textos acadêmicos, a interdependência entre oralidade e escrita é ainda mais complexa. Em primeiro lugar, verificamos que as teorias e modelos da escrita acadêmica e da revisão foram construídas, quase na totalidade, desde a Renascença, estando contaminadas pelo fetichismo da retórica e mesmo da estrutura argumentativa do latim escolástico. Passaram-se quatro séculos de civilização literária (desde que a imprensa extraiu os textos dos mosteiros, como um Prometeu redivivo roubando o fogo agora morto) e ainda é difícil projetar uma visão diferente. No entanto, hoje, a língua falada está em ressurreição – rádio, televisão, cinema, conferências internacionais, e a interpretação volta a considerar aspectos cognitivos da comunicação oral como extremamente relevantes – depois de séculos de sacralização do texto impresso.
Em nossa opinião, para entender melhor as relações entre oralidade e escrita na revisão acadêmica, é necessário iniciar a partir da prática, analisando as técnicas implementadas para garantir tal revisão. Existem três principais técnicas de revisão do texto científico: uma se aplica à pós-produção (é a mais comum e os autores raramente são capazes de ultrapassá-la como clientes), revisão cooperativa (o revisor interagindo com o autor, durante a produção) e a revisão dialógica (na qual as portas da comunicação permanecem abertas entre todos os intercessores). Todas estas técnicas requerem um processo complexo de revisão e reconhecem que a escrita desempenha papel muito importante, ainda hegemônico na comunicação científica. Mesmo se uma parte dela se desloca ao campo da oralidade (vídeos, EAD, colóquios, entrevistas), a base se situa na escrita. Nota-se que a revisão se destina inclusive ao texto escrito que reflete o conteúdo apresentado oralmente, e que os escritores e comunicadores podem, a partir da versão revisada, trabalhar com o texto já aperfeiçoado, já revisado por escrito na versão original, feita: uma espécie de revisão intralinguística (de texto escrito para mensagem oral). No caso de colóquios, a revisão do texto científico (bem como o técnico ou o institucional) começa com os artigos e propostas originais, ou, em sua ausência, o revisor, então, torna-se suporte da escrita que servirá como base para a apresentação oral – antes de lhe ser dado interferir no texto resultado; mas voltaremos à revisão do produto acabado.
A terceira técnica de revisão de texto científico, diacrônica, é definida pelos pesquisadores como uma variedade de revisão simultânea envolvendo os intercessores na produção semiótica, com referência à situação em que o foco do autor é na direção do texto, mas a atenção ao destinatário requer do revisor a perspectiva da escrita para a oralidade, o que altera significativamente a percepção de todo o processo de trabalho.
Nas apresentações orais dos conteúdos científicos, as legendas podem ter funções muito diferentes (nos PowerPoits® – praticamente inevitáveis, e.g.): completar a cadeia do raciocínio e representar um breve resumo do componente oral da comunicação – nessa situação, elas se posicionam como reforço da comunicação, que não ultrapassa as fronteiras da informação básica; pode se tornar o principal meio de percepção do texto científico, por exemplo, para o portador de deficiência auditiva: diante disso, sua finalidade é envolver o destinatário específico na comunicação, a fim de tornar o trabalho científico inteligível; uso de áudio gravado, como complemento (muitas vezes em suporte ou com alguma dublagem): nesse caso, são usados para representar o trabalho científico em novo ambiente cultural, muitas vezes multicultural e para públicos de diferentes línguas maternas. Este último ponto é objeto determinante de nossa reflexão.

Percepção cultural e revisão de texto científico

Como o texto científico tem forma canônica e a sua maneira peculiar de interpretar a realidade, fenômenos linguísticos e culturais tradicionais trazem novas formas de expressão a ele. Cinema e televisão, vídeos na internet e todos os tipos de apresentações em multimídias, são fonte de várias referências textuais, dentre as quais podemos distinguir citações, alusões, evocações – que usamos em nossa comunicação diária, em nossos ofícios e nos textos científicos e profissionais.
A simples percepção do texto pelo público-alvo continua a ser culturalmente determinada. O trabalho científico ligado à comunicação por multimeios está envolvido no processo de comunicação intercultural, muito mais que o texto de mono-semiótico (apenas escrito). Antes de tudo, o trabalho científico, assim como o texto institucional, mais facilmente cruzam as fronteiras da cultura, do tempo (entre uma geração e outra), bem como do espaço (de um país para o outro). É óbvio que a formação do conceito de texto na consciência de um indivíduo é determinada por um conjunto complexo de condições, incluindo a cultura em primeiro lugar. O mesmo texto pode ser entendido de forma diferente por representantes de diferentes estratos culturais.
O conteúdo verbal no texto ou o elemento audível do trabalho científico contêm informações explícitas, implícitas e decodificações tão incontroláveis a partir da ótica do autor quanto mais impactante for a mensagem. A informação constitui as condições pragmáticas primárias que têm antecipado a criação do texto e a situação em que ele foi criado. Ela também inclui os pressupostos baseados no conhecimento da realidade que nos rodeia, que dá significado ao texto produzido sobre o alicerce cultural. Essa informação implícita vem como texto de conteúdo adicional (ou mesmo oculto), mas nem sempre intencional do ponto de vista de seu autor. A informação assimilada pode ser predeterminada pela língua e ou pela cultura nacional, que faz parte da interpretação realizada, apenas indiretamente constituída a partir do fraseado, da esfera idiomática; em alguns casos, a presença do autor do texto evoca alguns fenômenos interpretativos, e os questionamentos podem advir das bases sociais, culturais ou literárias diversificadas, podem ser distribuídos pelos vários aspectos do texto apresentado, e a informação implícita nem sempre é perceptível pelo destinatário.
Neste contexto, a revisão do texto científico, tecnológico ou de difusão apresenta-se como intercessora na transferência cultural. Consideramos os fenômenos de transferência cultural como objetos históricos, que se materializam nos textos dos documentos, primariamente, e, em seguida, no discurso ideológico coletivo envolvido no que chamamos de construção da referência. Por outro lado, estimamos que a transferência cultural seja, como tal, passível de revisão que considere a especificidade do público-alvo (mono ou multicultural, e.g.), porque a comunicação se apresenta como passagem de um código a outro, tanto quando a mensagem vai transitar entre culturas distintas. O objetivo da revisão multimidiática é a realização da comunicação pela interpretação do texto original, que encontra sua expressão no novo texto escrito na língua-alvo, do público-alvo, o que pode resultar mesmo num texto híbrido e pasteurizado, despido que seja da “pureza” linguística, mas com a maior uniformidade interpretativa no destino.
Se quisermos ver mais de perto o papel da revisão como interveniente da transferência cultural, devemos distinguir vários fatores culturais que podem criar problemas de revisão. Primeiro, pode ser feita uma distinção entre micro e macroestruturas textuais. As microunidades estruturais são, sobretudo, léxicas, tais termos que designam o real, por exemplo, as instituições jurídicas e políticas ou os objetos do cotidiano (roupas, comidas, lugares). As unidades macroestruturais incluem, entre outras coisas, convenções específicas para os vários tipos de textos (cartas, relatórios, projetos, textos científicos, gêneros literários). Cabe aqui a noção da especificidade cultural de um texto. Segue-se que as unidades macroestruturais são correspondentes ao ambiente cultural do macrocontexto no qual o texto tenha sido concebido, antes de ser apresentado ao revisor. As unidades microestruturais são representadas por unidades que contêm a carga comunicativa referente a cada cultura. Para determinar essa carga, os cientistas sociais e linguistas usam um monte de palavras, escolhemos o termo mais geral: conteúdo cultural.
A noção de conteúdo cultural tem dupla dimensão. Do ponto de vista do meio receptor (destinatário do texto) o conteúdo cultural é considerado uma informação não-estereotipada, alheia à consciência linguística do destinatário; o resultado é a lacuna entre as práticas cognitivas e comunicativas das comunidades linguísticas ou culturais diferentes, mudança que marca as experiências e práticas totalmente ou parcialmente separadas de representantes dessas comunidades; informação que não se reflete paralelamente nos valores, nas práticas da comunidade linguística e cultural alterna, assim como permite identificar as características da mentalidade nacional ou de qualquer segmento coletivo culturalmente identificável; uma carga comunicativa com estrutura complexa que inclui ou exclui o componente informativo, refletindo o conteúdo geral da mensagem e a conotação sociocultural (conceito utilizado nomeadamente nas obras definidas como reflexos e interpretação de aspectos denotativos ou imagem deformada do significado nas categorias de cultura originais). Em outras palavras, é a ligação entre o conteúdo e seu significado nas culturas. Essa informação, imperfeita na origem, requer do destinatário a mobilização de conhecimento enciclopédico ou outras práticas em sua decodificação.
Do ponto de vista da revisão, a transferência de conteúdo cultural para outro registro comunitário torna necessária a adaptação. Em termos psicológicos e cognitivos, a adaptação, consciente ou inconsciente, é um valor dinâmico de condução da mensagem. Para nós, será a interação do revisor com seu ambiente, mecanismos que ele implementa a fim de restaurar o equilíbrio com o ambiente multicultural, quebrado por uma razão ou outra. Fieis à teoria interpretativa, assumimos o sujeito agindo (o revisor) e podemos postular que a adaptação seja o processo de mudança pelo qual o revisor se conforma e ajusta seu comportamento para as condições que o ambiente impõe a sua prática. Por “condições” entendemos que o revisor subsume a intenção dos vários elementos da situação em que ele se situa perante um texto determinado, no ato de discurso único, colocado como corolário, do qual a informação decorrerá pelo texto para se adaptar, ao invés de se presumir que o leitor ou ouvinte se dê à interpretação autêntica.
A revisão de texto científico ou qualquer outro para divulgação mista enfrenta a questão da relação entre oralidade e escrita: na maioria dos gêneros, trata-se de expurgar uma da outra; a transposição dos recursos, artifícios e suportes da oralidade para linguagem escrita acadêmica, como no caso de teses ou dissertações, é reputada como altamente indesejável, mas a presença de construções ainda aceitas no texto impresso numa projeção de áudio com ou sem vídeo pode ser inaceitável: (pense no uso de mesóclise no PowerPoint® – pura excrescência). A fidelidade deve se estender à língua não apenas no sentido representativo, mas em todas as conotações presumíveis. A verdade e naturalidade de expressão devem alcançar a seleção léxica, o sentido estrito, o respeito ao público, a diferença cultural. Em nossa opinião, é este tipo de equivalência que ocorre em nosso caso prático: equivalência da mensagem centrada na peculiaridade da informação científica ou de divulgação científica, na comunicação técnica e nas técnicas de comunicação, na sutileza da pronúncia (campo da oralidade) e na retórica clássica sendo aceita em suas limitações culturais (eurocêntricas, basicamente), como são naquela cena em questão, compreendendo a finalidade dos jogos de palavras e eventuais efeitos cômicos indesejáveis. Graças ao sistema semiótico não-verbal, conhecimento do contexto, o trânsito entre informação verbal escrita e oral, bem como público-alvo como componente a ser privilegiado na relação, nós escolhemos em nossas práticas a abordagem baseada particularmente no ponto de vista de transferência cultural ao proceder uma revisão.

Conclusões extralinguísticas

Na transferência cultural decorrente do trabalho científico, em sua fase comunicativa, o revisor é forçado a escolher a abordagem que lida com o aspecto macrocultural do público-alvo. Isso é devido à natureza do texto, à natureza da comunicação pretendida, e permeado pelos matizes interculturais; nomeadamente, o trabalho do revisor fica marcado pela impossibilidade de aplicar as abordagens da revisão de texto monossemiótico (em que todas as referências são partilhadas entre autor e leitores). Na verdade, a abordagem transparente – interposta por notas e explicações – poderia ter tido lugar em alguns casos, mas, como estratégia geral pode levar a falha, porque ela também presume um comentário mais ou menos longo de conteúdos culturais, o próprio comentário se tornando barreira intercultural que distancia o público-alvo do texto em pauta, introduzindo muitos elementos intermitentes no texto e obstaculizando a chegada à percepção mais imediata; trata-se, por exemplo, do contraprodutivo abuso das notas de rodapé constituídas por intertextos que, ou são relevantes e devem subir ao texto, ou são impertinentes e devem ser descartados.
O revisor de texto intercultural tem que forçar em ambos os lados: forçar uma linguagem, que seja clara a nativos de outra língua, a se manter fiel à língua nativa. Com efeito, em muitos casos, citamos apenas que a revisão tende a enriquecer a mensagem, porque é para interpretar a referência cultural de partida para as categorias da cultura de chegada. Isto revela a interação intercultural nos dois sentidos, como traduções que também enriquecem o texto de partida, estabelecendo analogias entre as práticas dos diferentes ambientes. A programação de linguagem natural, ao estabelecer algoritmos específicos para gêneros textuais, tem aportado subsídios muito interessantes que não constavam do arcabouço linguístico pré informática.
Quanto à escrita, pivô no processo do trabalho científico, do projeto à comunicação dos resultados, é óbvio que o mesmo acontece no caso de sua revisão, mas em circunstâncias já mais bem conhecidas. Em nossa opinião, pela revisão acadêmica, a escrita apresenta-se como poderosa ferramenta universalizante. É certo que ela é a base para todas as outras técnicas de revisão, mas, por outro lado, tem um ativo perene: enquanto as técnicas de revisão assumem a substituição de componentes linguísticos do texto científico original, a revisão entre discursos distintos apresenta-se como um sistema semiótico adicional que está em constante interação com todos os sistemas semióticos do original. Isso nos leva a pensar sobre o conceito texto intersemiótico, mantendo a visão de que escrever ou revisar significativamente amplia a gama de ferramentas de transferência cultural, assumindo funções extralinguísticas.

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