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Texto como construção complexa

Quanto mais longo o texto, mais complexo ele é; por isso, as teses e dissertações requerem a contribuição do revisor de textos no aperfeiçoamento de sua forma e legibilidade.

Do ponto de vista cognitivo, escrever é atividade humana de grande complexidade, mais que jogar xadrez. Revisar o texto também é atividade composta por uma série de procedimentos terrivelmente complexos, bem mais que dar palpite na partida de xadrez dos outros! Pesquisadores de diferentes áreas – principalmente psicolinguística – estão interessados nos subprocessos da textualização (produção escrita com textualidade). Antes de mostrar o que propicia a textualização e a possibilidade de contribuição do revisor na construção de textos longos (as teses e dissertações estão dentre os textos mais complexos), vamos apresentar os níveis de organização do texto, depois expor a teoria de recursos, teoria para entender certas dificuldades com a escrita, inclusive as presentes em estudantes de pós-graduação.
Autor e revisor de textos são parceiros cognitivos da redação.
O papel do revisor de textos também
passa por aliviar o coeficiente de
cognição linguística para o autor.

Textualizar é gerenciar simultaneamente um número incrível de dados

A maioria dos autores considera que a escrita é para colocar no papel (ou na tela) ideias existentes – assim, de modo mesmo bem simples. A maioria dos autores, em todo caso, não considera nada sobre a escrita: têm-na como um processo mecânico mais ou menos bem aprendido. Cumpre aos autores, segundo muitos deles próprios, escrever – bem ou mal – o que devem e, ex post facto, cumprirá ao revisor as emendas de praxe. Na verdade, não é bem assim, o processo da escrita é complexo e demanda elementos de cognição e memória que se refletem sobre as mais diversas características do texto. O estudo dos esboços dos autores nos mostra que o texto é uma construção, cada rascunho é um construendo, a “versão final” é a parte sobrenadante que cobre as versões anteriores.

Essa construção é erigida em simultâneo nos vários níveis que incluem uma ou várias dimensões:
  • Os fonemas (combinações particulares de sons em palavras);
  • As palavras (gramática, ortografia, semântica, conjugação);
  • As sentenças (sintaxe, pontuação, marcadores de relacionamento);
  • O texto (sequências textuais e sua articulação, organizadores de texto – elementos catafóricos e anafóricos, tempos, coesão verbal, uniformidade ou coerência vozes – ativa, passiva, reflexiva);
  • O discurso (situação de comunicação – destinatário, objetivo do autor, do texto; sujeitos envolvidos, lugar e tempo de publicação do texto, presença ou ausência do autor na leitura do texto; modelagem de padrões de linguagem, narração; registos de linguagem; gênero textual).
  • A retórica (os argumentos, as sequências, a lógica, os dados, as conclusões).

Não há ordem necessária no processamento das dimensões, embora elas estejam aqui relacionadas dos componentes mais simples aos mais complexos. O procedimento e o recurso cognitivo a esses componentes não se processam analítica ou sinteticamente, mas de acordo com a disponibilidade mnemônica: a capacidade textual. Cada uma das dimensões merece estudo específico, mas devem ser gerenciadas todas simultaneamente. Uma tarefa hercúlea para o escritor aprendiz!

Teoria de capacidade textual

A relação de elementos da textualidade nos leva à teoria dos recursos, segundo a qual a capacidade cognitiva é limitada e, portanto, alocada na gestão de todas as dimensões expostas. Quando o limite for atingido – e cada autor, a cada momento da produção, tem limites distintos – quando isso ocorre, a gestão de um ou vários aspectos da textualidade pode ser prejudicada. Por exemplo, um grupo de pessoas convidadas a memorizar uma série de palavras comete mais erros na concordância verbo-nominal que quando elas não têm essa restrição. Assim, quando atenção é dividida porque a tarefa de armazenar está em curso, é mais difícil de se concentrar na concordância gramatical. Vai o mesmo para um escritor que, preocupado primeiro com o conteúdo a processar, deixa de lado a gestão de outros subsistemas da linguagem, incluindo ortografia e sintaxe básicas. Por isso, também, as incontáveis falhas que os revisores apontam nas teses e nas dissertações: o autor está preocupado com questões mais relevantes do ponto de vista de sua pesquisa e não tem domínio operacional concreto ou abstrato das tais operações da textualização.
Há duas opções para superar o limite de capacidade – ou, pelo menos, dilatar o limite. A primeira é a gestão e planejamento da redação, compreende o layout do texto, foca-se na gestão do tempo dos diferentes níveis de organização do texto e se concentra em um de cada vez: o escritor vai começar controlando níveis mais amplos – discurso e retórica – e se interrompe gradualmente em níveis mais específicos – a sentença, a palavra e fonemas. A segunda opção é a reescrita e revisão contínuas e contíguas: o revisor do texto, trabalhando em franca cooperação com o autor, oferece listas de verificação para a arquitetura do texto e, implicitamente, sugere aos autores usar a gestão seriada da redação; o autor, portanto, atentará sobre os níveis globais durante os segmentos temporariamente inativos da produção do texto e, posteriormente, volta a atenção a aspectos como a pontuação e ortografia, a se verificar mas adiante.
Um escritor experiente sabe, no entanto, que não é assim: ele não produz um texto sem a colocação de acentuação ou vírgulas! Ele suporta concomitantemente as componentes paralelas do texto, já tem automatizada a gestão de alguns deles, tais como a ortografia, coerência lexical e gramatical, pontuação e sintaxe; há bastante espaço cognitivo para gerenciar alguns dados simultaneamente e até mesmo outros conscientemente.
Usada por muitos escritores experientes, a gestão paralela é, para uns, mais eficiente que a série de gerenciamento. A gestão paralela é baseada na automação de alguns procedimentos cognitivos, o que supera os limites de capacidade operacional consciente. Como conseguir essa automação? Em primeiro lugar, com exercícios repetidos em cada uma das dimensões – tais exercícios se inserem na atividade contínua de escrita, anos e anos em processamento de textos longos. No entanto, esses exercícios – quando implementados conscientemente para a construção da habilidade – são tão próximos quanto possível dos problemas encontrados em situações de escrita, mas preservam a artificialidade do procedimento em suas primeiras fases, só permitindo remotamente a automação na qual os verbos conjugados não são colocados em negrito ou itálico pelos indivíduos! Por outro lado, a necessidade de instruções e programações conscientes para escrever inclui os parâmetros da situação de comunicação além do gênero para produzir o texto, para que os autores se habituem à tomada do sentido cognitivo e comunicativo do que escrevem com frequência e para aprender a articular eficazmente a gestão de restrições em todos os níveis de organização do texto.
Para aliviar a carga cognitiva, também é possível construir uma lista de verificação ou uma grade apropriada para o gênero em produção, a partir da análise de textos pertencentes a tal gênero. Essa ferramenta, a que muitas vezes recorre o revisor de textos, e que a poderá “emprestar” ao autor, incluirá peculiaridades genéricas que afetam diferentes níveis de organização, recursos especiais em que ele não mais dispersará sua atenção. Por exemplo, para escrever uma descrição do lugar, seria apropriado estudar as construções e complementos nominais encontrados em tais sequências textuais: adjetivos, advérbios, orações subordinadas, sequências assindéticas. A ferramenta, além disso, pode conter uma lista de marcadores da relação para localizar um objeto em relação a outro: acima, no fundo, no fundo e uma série de elementos catafóricos aplicáveis: esse/este, aquele/a, tal/tais… Em suma, a ferramenta apropriada para o gênero deve ser construída antes do texto, mas serve como guia ao longo da redação, além de propiciar certos controles ao final da jornada. Como ela contém apenas alguns subsídios textuais e gramaticais, aspectos relevantes para a situação de escrita, ela alivia as exigências cognitivas para o autor. Todas essas ferramentas e recursos de produção podem ser ofertados ao autor pelo revisor de textos que colabore com ele; o recurso ao revisor é mais uma “ferramenta” na lista de recursos para liberação da capacidade cognitiva para a criação ou a argumentação.

Fazer uma pausa para economizar tempo

Durante a redação do texto, as pausas são de grande interesse. Elas permitem a releitura, a retomada de ideias e a reescrita eventual – em se tratando de pausas breves; a pausa maior permite submeter o texto ao revisor, para o acompanhamento da produção, para ele ter ideia de conjunto em diferentes momentos da elaboração. O revisor garante, então, a coerência do texto, incluindo garantir a utilização dos pronomes de recuperação necessários e apenas os suficientes, por exemplo – poupando ao revisor a inenarrável “poda” que é tão costumeira quanto sua atuação é exclusivamente a posteriori. As mais longas pausas permitem reler as secções mais amplas do texto, garantindo que o significado geral construído seja consistente com o significado pretendido. Além disso, permite-se com as pausas que o autor retenha conhecimento reativo sobre o assunto em sua memória de longo prazo, o que facilita a busca de argumentos a implementar no texto. O autor aprende com o próprio texto ao fazer pausas – dominando o assunto mais profundamente, escreve melhor.
Outras quebras são usadas para retornar ao setpoint da escrita e, portanto, à organização conceitual do texto; as paradas são reflexivas. Mais pausas ainda são tomadas para consultar os recursos, sejam eles linguísticos, referências materiais ou literárias, para se reunir com orientador (no caso de mestrando e doutorandos), ou rever as notas. Tendo em conta essas informações, nós entendemos que alguns escritores parem constantemente durante a produção; alguns param, talvez, nas nuvens, mas outros têm realmente dificuldade no trabalho! É interessante incentivar os autores (principalmente os iniciantes) a fazer pausas em momentos diferentes do processo e reler o que eles escreveram, rever o propósito, reconsiderar os resultados da produção.

Como facilitar a formatação de texto?

O layout de texto é facilitado, primeiro, se o conteúdo foi planejado em estrutura que corresponda à retórica pretendida, integrando o conhecimento sobre o assunto a ser transmitido e liberando o escritor, espontaneamente, para uso da memória de longo prazo. Nesse tipo de escrita, o autor constata que suas habilidades de leitura terão impacto significativo sobre a qualidade do texto gerado: trata-se do letramento reflexivo, habilidade de leitura passa a resultar em qualidade de produção textual. A capacidade de percepção consciente dos processos macrotextuais alheios redunda em reproduzir ou adaptar o layout para o próprio texto. Perante a tarefa de escrita, leitores fracos tendem a transcrever as fontes; muitas vezes a copiar longas passagens em seus textos (com ou sem a legitimidade das citações de fontes, segundo a honestidade intelectual – que é outra questão). Em contraste, os leitores eficientes produzem segundo a memória que têm e se limitam a apor notas mais genéricas durante a reprodução (resumos e citações), o que lhes permite estabelecer relações entre informações de diferentes fontes e avaliar subjetiva e objetivamente a qualidade dos dados. Essa maneira de proceder dos mais letrados lhes permitirá o planejamento abrangente do texto a produzir e escrever sem retornar constantemente para os textos originais. Os melhores leitores, assim como os autores experientes, portanto, produzirão dois tipos de escritos – notas e o texto em si – e farão quatro tipos de leitura: fontes, notas, texto atual e o texto final (posterior à intervenção do revisor de textos). Ensinar a leitura e estratégias de tomar notas, portanto, é essencial para o sucesso da escrita com uso e emprego fontes documentais e referências literárias.
O tempo continua a ser fator importante no considerar relativo à criação do texto. Dar mais tempo ao layout do texto necessariamente melhora o produto textual. Tempo é sempre limitado e, muitas vezes, os autores são incapazes para a gestão de todas as dimensões do texto a fim de reduzir a carga cognitiva, liberando a criatividade ou o raciocínio dedutivo e argumentativo. Tais autores justificam seu fracasso pela exiguidade do prazo e não vão apreender o que teria permitido um layout de texto feito mais detidamente. Outras atividades – Internet, passeios, esportes, etc. – entram em concorrência com as escrituras, sempre e inexoravelmente, diminuindo a motivação inercial e o prazo para a tarefa. Essa constante premência temporal, argumento e justificativa de muitos, faz desabar sobre o revisor o texto à véspera do final dos tempos – e cumpre a ele sanar tudo que couber, sem falhas!

Dispositivos estratégicos promissores para a escrita

Vários dispositivos práticos podem facilitar a gestão dos subsistemas do idioma para a redação do texto longo. Alguns devem ser afixados num lugar à vista do escritor:
  • Fazer exercícios de escrita, seguindo instruções indicando a situação de comunicação e gênero;
  • Fazer planejamento para a tarefa da escrita, entre outros, considerar: o plano, o conteúdo do texto e construir uma ferramenta relacionada ao gênero a produzir;
  • Tomar notas de leitura, útil na elaboração de um texto de fontes documentais, tomar notas sistemáticas das referências e leituras paralelas à redação.
  • Adotar exercícios complexos para automatizar o gerenciamento de alguns dos aspectos do texto.

Mais especificamente, no que tange ao texto:
  • Adotar procedimento de gestão serial das diferentes dimensões textuais;
  • Fazer intervalos eficazes de releitura e ensaio, retomar continuamente o texto já produzido e as notas extraídas das fontes, se for o caso, bem como consultar referências, colegas, o orientador ou o revisor;
  • Programar o tempo necessário para o sucesso da tarefa, especialmente para os autores iniciantes (alunos de mestrado – no caso de nosso foco).
  • Contar com a assessoria dos revisores de textos durante a produção, a redação, e não apenas à última hora, quando derem seu trabalho por finalizado (mas não acabou ainda!). (Adaptado de Paradis)

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