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A escrita na pós-graduação

Escrita e revisão de textos de pós-graduação.

Tenhamos consciência de como o autor de uma tese ou dissertação escreve, as estratégias cognitivas usadas, as técnicas e recursos em jogo e que aspectos devem ser observados para se produzir e revisar um bom texto.

Pesquisa sobre a escrita de pós-graduação

Têm sido feitas várias pesquisas sobre a escrita na pós-graduação, principalmente nestas primeiras décadas do século XXI. Algumas questões abordadas são: a análise dos conteúdos da pós-graduação; dificuldades formais e bloqueios de escrita; percepções dos processos de ensino da escrita; a produção e qualificação de publicações; gêneros como resumos, resenhas ou sumários da pesquisa; a revisão linguística do texto científico; dialogia e ideologia.
Conhecer para escrever e para revisar: trabalho de revisores de texto profissionais.
A escrita é um processo complexo de cognição e produção.
A escrita acadêmica se tornou tema de investigação com interesse internacional, essa área de pesquisa é considerada um campo em crescimento, com vinculações pragmáticas diretas; no entanto, a pesquisa metalinguística sobre o gênero de textos universitários ainda é incipiente e seus resultados inconclusivos. É necessário ainda conhecer mais a fundo os desafios e dificuldades que envolvem a produção escrita para alunos, professores e orientadores acadêmicos, compreendendo-a como processo coletivo de criação, bem como estabelecer o conhecimento sobre os processos de revisão desse tipo de textos e a colaboração dos revisores no processo produtivo e valorativo da comunicação científica.
Processo de escrita da tese e da dissertação
Com base nos casos estudados por dezenas de pesquisadores e nas revisões que temos feito, a escrita da tese e da dissertação é vista como um processo individual, guiado principalmente pelo orientador, sempre repleto de dificuldades e erros. As atividades científicas de pesquisa e de redação desenvolvidas pelos alunos de mestrado e doutorado permitem que se vislumbrem os elementos dos modelos cognitivos do processo de escrita; de certa forma, esses modelos, em si, são vinculantes, posto que estão atrelados à tradição. Claro que não deixa de ser paradoxal um vínculo de tradição escolástica ao processo que se apresenta como científico, mas os envolvidos não costumam ter ciência do fato – com o perdão do trocadilho.
As atividades exercidas por pós-graduandos para a escrita de sua dissertação ou tese, de maneira geral, são semelhantes entre si; infelizmente, muito mais semelhantes em seus defeitos que assemelhadas em virtudes, essas bem raras. Doutorando e mestrado identificam um tema, gênero discursivo posto e a estrutura do trabalho repetida; levantam material de leitura e redigem artigos e comunicações durante o curso; procuram escrever em conformidade com as características do gênero discursivo acadêmico e repetem as estruturas dos textos com que entram em contato, persistindo em erros e cacoetes clássicos. Ao cabo do tempo estipulado pelos cronogramas, tem sido useiro simplesmente alinhavar os opúsculos produzidos ao longo do cumprimento dos créditos e apresentar como tese – o que nem sempre se faz com critério ou qualidade de texto longo. Há nisso uma série de equívocos; não estou negando se possa dispensar a tese como corpo, mas que isso seja posição formal, se assim se entender que deva ser; todavia, três ou quatro artigos permanecem sendo o que são, ainda que juntados em capa dura e precedidos de louvores, salamaleques, índices e epígrafes.
As diferenças formais entre tese e artigos ultrapassam o volume de texto que as duas formas pressupõem; apontando apenas algumas das questões, a transitoriedade é a primeira: entende-se a função dos artigos mais ligada à transitoriedade, ao questionamento entre os pares, a publicitação de um processo que não está consolidado, ao passo que a tese é o cemento lógico e retórico do processo científico de conhecimento; em seguida, perdem-se entre os artigos e a tese referenciais cronológicos (da provisoriedade à longa duração), abandonam-se os focos de público-alvo ao qual vai dirigido o texto e a escrita correspondente.
O processo cognitivo de interpretação textual – ainda que bem assimilado e processado pelos autores (quando isso ocorre!), não é suficiente para que a produção textual apresente os mesmos elementos de cognição. As teses morrem sendo, quando muito, intentos frustrados de engenharia reversa dos textos com que o aluno teve contato, plasmados de dados insuficientes para a conclusão preposta que estava travestida de hipótese. Os autores de teses e dissertações, assim como os orientadores deles, permanecem marcados pelo entendimento de que, desenvolver um texto a partir das diferentes fontes de informação, pode ser inferido a partir das atividades dos envolvidos (leituras, diálogo com os pares, esquemas) – sem que haja um processo cognitivo e criativo inerente.
A leitura permanece atividade capital para a interpretação textual e executa várias funções identificadas no processo criativo – inclusive de teses. Pode-se falar sobre a leitura exploratória e seletiva durante do material de pesquisa e seleção de fontes; a leitura de compreensão de textos, bem como a leitura da revisão do escrito em progresso. Mas a leitura e as releituras não prescindem da reflexão, outro processo cognitivo identificado equivocadamente com dados ou inferências que se desenvolvem na tese. Por exemplo, frequentemente encontramos tabelas e gráficos apontando dados auferidos, depois de cuidadosas descrições metodológicas de sua obtenção; os textos que acompanham tais tabelas e gráficos rarissimamente ultrapassam a descrição acrítica do que já teria sido apresentado sinótica e visualmente – como se a dupla redundância valorizasse o conhecimento.
O que se designa como um processo de reflexão escrita envolve diferentes formas de produção inerentes à criação; por exemplo, o processo exploratório, que remete aos resumos e ideias geradas; o desenvolvimento, incluindo esquemas e rascunhos ou avanços; a comunicação, que exige o cumprimento de todas as regras estabelecidas no campo científico. Os dois primeiros tipos são chamados de escrita privada, o último é conhecido como ação comunicativa. A seleção de estratégias para a escrita e enfrentar as dificuldades de sua produção são maneiras de expressar o processo de pensamento.
Deve ser mencionado que a capacidade de discernimento quanto ao processo de produção textual não integra, pelo menos não necessariamente, o processo cognitivo correspondente aos modelos de produção de textos do gênero acadêmico reconhecidos como parte do processo que o autor de uma tese (ou dissertação) deve ser executar (doravante, mencionaremos apenas a tese, mas tudo que tange à redação vale igualmente para o trabalho de mestrado também).

Os participantes na escrita da tese

Em conformidade com os processos de cada participante, tanto o orientador quanto os revisores de textos – aqui em atuação dialógica, prestando assessoramento à produção – se fazem presentes, em maior ou menor medida, durante o desenvolvimento de toda a tese, em diversas interferências, principalmente na revisão dos avanços escritos, bem como na definição das seções da tese (por exemplo, a definição do problema, objetivos e metodologia) e na alocação dos dados, argumentos, conclusões e sugestões em estrutura retórica.
Na escrita da tese, o orientador não representa (em tese) mais que um colaborador, assim como o revisor acadêmico; o primeiro é quem dá suporte e guia durante todo o processo de investigação e escrita, especificamente, quando os alunos executam pela primeira vez um trabalho de tese, o segundo empresta recursos que ampliem a comunicabilidade, aprofundem a textualidade e aumentem a credibilidade do texto, propiciando – inclusive – rompimento de barreiras e bloqueios redacionais.

As dificuldades redacionais e as estratégias para superá-las

No processo ou nas atividades de redação, tem sido identificada uma série de erros e dificuldades de escrita que se enfrentam em momentos diferentes e de acordo com as situações particulares. Isto pode ser atribuído às formas de atuação do orientador, nem sempre acessível de modo constante durante a redação da tese, mas essa está longe de poder ser apontada como a única causa de problemas; há um sem-número de situações que podem ser devidas às características da formação dos envolvidos, experiência acadêmica, crenças sobre a pesquisa e escrita, bem como personalidade, traços que são considerados relevantes para uma interação produtiva.
A ignorância das formalidades do gênero discursivo em tela é mencionada dentre as dificuldades que os alunos vivem para produzir na pós-graduação. Situação comum de quem não desenvolveu uma monografia de grau, então este tipo de escrita é algo novo, apesar de eventual familiarização com os relatórios da pesquisa e outros tipos de textos científicos – principalmente como consumidor e menos como produtor. Essas dificuldades também podem ser atribuídas à falta de formação na produção de textos acadêmicos e científicos na graduação.
No que se refere às características específicas da escrita científica, posicionar-se como autor, integrar informações de diferentes autores e construir o próprio argumentos, são dificuldades corriqueiras na tese, principalmente na preparação das discussões do capítulo, para estabelecer um diálogo entre a teoria (que muitas vezes nem é percebida como abstração), os resultados encontrados e suas próprias ideias (inclusive posturas ideológicas e visão de mundo – não tão descartáveis quanto pretenderia a isonomia e alegada imparcialidade metodológica).
Precisão, especificidade, clareza, concisão e clara expressão de ideias são outras características da escrita científica, mesmo não sendo frequentemente identificadas como dificuldades da tese, no entanto, são difíceis de alcançar. Entre outras coisas, desde que se procurara a explicação para esses problemas, nota-se que os textos mais repetem ideias ou, eventualmente, se perdem sem objetivo claro do que se pretenderia comunicar por falta de conhecimento das características da escrita científica.
Erros de ortografia e pontuação são constantemente identificados. De maneira geral, ocorre o uso inapropriado de vírgula e a falta de acentuação em os verbos conjugados no plural ou no passado. Conhecimento de gramática parece que não foi adquirido nos níveis anteriores, o que se leva a imaginar o que aconteceu na educação de primeiro e segundo graus – e na graduação, onde esses erros não foram corrigidos. No entanto, a solução destes problemas não pode ser tarefa para a pós-graduação. O caso é que os autores – os alunos de pós – não são formados para a redação que se lhes exige, eles desconhecem as propriedades que se reconhece no texto científico e que são exigíveis.

As propriedades texto acadêmico

Correção: o texto científico bem escrito tem que atender a objetivos comunicacionais estritos e se submete a normas e práxis acadêmicas: deve respeito a regras de ortografia e gramática, bem como usar arcabouço léxico adequado.
Coesão: essa propriedade se refere ao conjunto que confere textualidade do texto – pode parecer tautológica a definição, mas é realista. Também se deve ter em conta que as orações que compõem um discurso não são unidades isoladas e desconexas, que as frases e os tópicos são relacionados por meio de mecanismos variados e com diferentes efeitos e funções. Recursos da língua que resultam em coesão textual são os usar as dêixis (característica da linguagem humana que consiste em fazer um enunciado referir-se a uma situação definida), os pronomes adequados, os advérbios correspondentes, os artigos (quando necessários), as paráfrases ou usar conectores sem repetições infindáveis ou encadeamentos supérfluos.
Coerência: é a propriedade de o texto ser interpretado como unidade de informações a ser percebida de forma clara e precisa pelo receptor. É obtida pela seleção de informações e pelo conhecimento que se compartilhar entre transmissor e o receptor no contexto. Quando falamos de coerência como propriedade de textos, referimo-nos ao domínio do processamento de informações para que a estrutura da mensagem, de acordo com a situação da comunicação, corresponda à intenção do conteúdo. São aspectos importantes quanto às informações no texto: a quantidade, a qualidade e a estrutura delas.
Adequação: propriedade que tem a ver com o conhecimento e o domínio da diversidade linguística e com as peculiaridades que, em cada caso, apresentam os vários elementos envolvidos no ato de comunicação. Implica a adaptação do texto segundo o tema e a finalidade de comunicação para que ele é produzido.
Apresentação: muitos textos escritos seguem convenções sociais que determinam o formato, margens, cabeçalho, tipo de papel. A apresentação começa com o domínio de aspectos psicomotores, tais como a ergonomia visual, e continua com regras básicas como para margens, títulos, separação de parágrafos, paginação ou índice. A apresentação é vinculada ao formato do texto.
Estilo: está relacionado à forma e composição do texto escritos. Não há uma só forma de escrever, cada autor deve encontrar seu estilo pessoal de composição e desenvolver a criatividade. Em outras palavras, o escritor compromete-se no processo de desenvolvimento de ideias que se concluem na tarefa linguística de redigir. Por isso, para escrever satisfatoriamente, não é suficiente com ter bom conhecimento de gramática, é necessário dominar o processo de composição de textos. É necessário estar-se consciente de como trabalha um escritor, que estratégias cognitivas são usadas, que técnicas e recursos estão em jogo para escrever um bom texto.

Revisão de teses pelas propriedades textuais

Assim como ler – porém, mais ainda – escrever é um processo complexo que exige uma série de habilidades, algumas são mecânicas, como o aprendizado do alfabeto ou da caligrafia, mas sempre estão envolvidos os processos cognitivos, como ordenar ideias, planejamento, recuperação e exposição de informações. A escrita da tese ou dissertação, frequentemente, é o primeiro texto longo do autor; esse tipo de redação apresenta dificuldades específicas e gera texto com propriedades particulares. Postas essas considerações, apresentamos algumas abordagens da revisão de textos acadêmicos voltadas às características textuais inerentes aos textos daquele gênero, considerando as habilidades que estão em desenvolvimento durante sua redação e as propriedades textuais decorrentes do processo criativo e identificáveis no produto.
Tradicionalmente, não se ensina aos alunos de pós-graduação formas conscientes e estratégias que melhorem o processo da redação; a consequência é que o aluno escritor, geralmente, concebe o texto como a processo automático de preenchimento uma folha ou da tela em branco, sem plano ou sem refletir no que escrevem, sem fazer plano de redação e com o fim de concluir a produção – quanto antes possível.
Também é comum que os professores orientadores devolvam cada versão ou a “versão final do texto” apontando – e em tinta vermelha – os erros mais relacionados aos aspectos formais, vale dizer: ortografia, gramática ou digitação (além, é claro, das observações sobre a materialidade do texto, o assunto de que ele trata). A revisão colaborativa, que coloca ênfase no processo completo de composição, segundo a ótica linguística, respeitando o diferenças e habilidades individuais, não ocorre na maioria dos casos. O orientador, que entende do objeto, se arroga conhecedor da mídia (o texto) e “solta” o orientando com as poucas diretrizes fornecidas pela caneta vermelha.
A revisão do texto acadêmico deve entendida como processo de melhoria do texto e de sua composição. A revisão cooperativa global, cobrindo diferentes propriedades do texto e micro habilidades do autor em sua composição, requer mudança na concepção do autor de que a revisão somente afeta falhas de ortografia que se resolvem com o auxílio do orientador, de outros leitores críticos e do corretor gramatical do Word.
A revisão de textos científicos deve ser instrumento eficaz para a otimização dos produtos textuais e dar direções precisas ao autor sobre como melhorar sua produção textual. Não se trata de aula de redação, mas de possibilitar ao escritor inferências diretas a partir das sugestões apresentadas.
Não há uma só forma correta – uma oposição perfeita ao erro. É recomendado ao revisor usar técnicas de intervenção e alternativas variadas, flexíveis e participativas, que preservem autonomia dos autores e lhe respeitem todas as propriedades criativas e características textuais.
A revisão dever ser processual. A revisão dever ser colaborativa. É preciso vencer as resistências dos autores quanto ao apego a seu produto (excessiva apropriação autoral) bem como quanto ao investimento – inclusive financeiro – que requer a colaboração do revisor na tese ou na dissertação.

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