Pular para o conteúdo principal

Qualidade do autor acadêmico versos qualidade do revisor de textos: alguns paradoxos

Quanto melhor for o texto da tese ou dissertação, melhor será o revisor necessário para revisá-lo.

Alguns autores de textos acadêmicos, principalmente os que produzem teses de doutorado ou dissertações de mestrado, têm a falsa impressão de que, por já terem experiência de escrita, não necessitarão de serviços profissionais de revisão para seus textos. Também há os que, equivocadamente, submetem os textos à revisão de pares ou pessoas de suas relações que tenham boa redação – inclusive professores de português ou jornalistas, mas esse é outro caso, de que trataremos em outra postagem.
A lupa está sempre presente na revisão de textos - metaforicamente.
Os autores experientes sabem o quanto
vale a pena investir em um revisor de
textos competente e  profissional.
O que queremos destacar aqui é a questão qualitativa do texto e do revisor que ele requer, uma relação que é diferente do que se pode prever.
Primeiramente, um autor que tenha grande experiência e que já produza textos naquele gênero (tese ou dissertação – nos casos em que mais trabalhamos), naturalmente, incorrerá em muito menos erros gramaticais ou ortográficos, assim como incorrerá menos em equívocos de edição (corte, inversão, cópia e cola de seu próprio texto) de que outro escritor com menor produção textual. Haverá mais coesão e coerência no texto de um escritor experiente. Mas os equívocos em que ele incorrer serão muito mais sutis, talvez não sejam perceptíveis por olhos menos treinados; faz-se necessária, portanto, a interferência de um revisor bastante experiente no gênero e com conhecimento linguístico apurado.
Outro ponto que indica a necessidade de revisor profissional e qualificado para os textos dos autores maduros é o elevadíssimo grau de exigência que eles têm em relação ao produto final. O autor de uma tese sabe que ela será lida pela banca a que ela será submetida, por seus colegas, por seus alunos, e ele pretende que o trabalho possa ser transformado em livro ou em diversos artigos a serem publicados. O autor sênior, que já conclui o doutorado, jamais aceitará problemas em seu texto que seriam, eventualmente, passíveis ou admissíveis em textos de outro tipo que a tese.
Pensando em outro limite da situação, autores inexperientes, ou que estejam redigindo em português há pouco tempo, tendem a incorrer em erros simples, que são facilmente identificados por qualquer leitor atento. Claro que nenhum texto relevante dispensa a revisão profissional. Mas os equívocos dos autores cujo domínio da língua ou do gênero não seja pleno vão requerer interferências em maior quantidade e menor dificuldade técnica. Considerando que a principal função da revisão é o aperfeiçoamento do texto e que não existe um grau absoluto de perfeição ou comunicação perfeita, as propostas de qualquer leitor que domine a língua tendem a ser boas contribuições.
Revisor muito bom é aquele que aperfeiçoa qualquer texto que lhe seja apresentado. Texto muito bom é aquele que comunica bem a informação, o pensamento do autor ao leitor, sem a interferência de ruídos causados por erros ortográficos ou gramaticais ou problemas de estilo, fluência, coesão, coerência, sonoridade. Texto perfeito não existe, pois qualquer escrito é obra humana. Revisão perfeita não existe, pelo mesmo motivo. A meta da revisão é sempre a perfeição, mas ela inexiste em comunicação pois todos os componentes (emissário, mídia, destinatário) são sujeitos às falhas humanas.
Infelizmente, existe a situação contrária à do bom texto conjugado a bom revisor, resultando em ótimo produto: o texto ruim, qualquer que seja o revisor que trabalhe nele, não se tornará texto excelente. Para que o texto ruim fique bom, é necessário reescrevê-lo – e isso o revisor não faz. Revisor revisa, escritor reescreve. Esse paralelo também pode ser expresso na negativa: escritor não revisa, revisor não reescreve. Aqui estão embutidos dois princípios básicos da revisão: o primeiro é o da subordinação funcional do revisor ao texto apresentado, revisor não modifica o texto em substância, apenas em forma e formalidade; o segundo é o princípio da alteridade, segundo o qual é necessária outra pessoa para o processar a revisão, ninguém revisa o próprio texto, nem mesmo revisores profissionais quando estão na função de produtores de textos.
Outro aspecto interessante na relação qualitativa entre o autor experiente e o inexperiente é que o primeiro já sabe o que esperar do revisor. Isso ocorre principalmente em relação àqueles escritores que tiveram a sorte de já terem tido bons revisores, atualizados e críticos diante do texto. Já os autores inexperientes julgam que a revisão alcançará somente aqueles aspectos textuais mais rasos, que constituem o que nós chamamos de revisão mecânica: ortografia e sintaxe – questões que quase podem ser totalmente resolvidas com um bom revisor eletrônico (como o do Word mesmo!).
O autor experiente sabe que o revisor deve assumir posição crítica e abrangente diante do texto em sentido amplo (hipertexto, contexto, subtexto...). Nesse posicionamento, o profissional lança mão da linguística para alcançar a criticidade e o conhecimento dos textos multimodais. Muitos aspectos novos devem ser considerados na revisão moderna: o revisor atual e sua formação específica ou diversificada, os limites entre as funções de cada profissional envolvidos na editoração dos textos (revisores, editores, formatadores...), as interferências do revisor (e o respectivo controle), as expectativas do autor em relação ao revisor, as contribuições que os revisores pretendem agregar aos textos que têm em mãos. Algumas dessas questões já são antigas, mas as respostas não são consensuais. Mesmo sem consenso para elas, novas questões e abordagens já se apresentam: a análise do discurso aplicada à revisão e a gramática visual, encetam mudanças, dialeticamente, no próprio discurso sobre o que é revisar. Além disso, são questões que começam a ser feitas por outros profissionais da revisão de textos, como temos visto (vide: Macedo, 2013). Tudo isso faz o escritor experiente valorizar o revisor profissional e, principalmente, aceitar os custos que a boa qualidade do serviço de revisão requer.
Portanto, quem quer produzir bons textos tem, a seu dispor, excelentes revisores no mercado. O recurso a profissionais de revisão modernos e a interação dinâmica entre a revisão e a redação dos textos, o autor escrevendo e reescrevendo, o revisor lendo, revisando e relendo, são as vias para se contornar a barreira que os autores iniciantes têm frente ao texto que resulta de sua pesquisa e que os autores seniores continuamente postulam como senda para o contínuo amadurecimento de seus escritos, inclusive os de pós-doutoramento.

Postagens mais visitadas deste blog

Principais estilos de citações bibliográficas e referências

Formate sua tese ou dissertação na Keimelion Os estilos de citações são muitos, cada revista científica, cada programa de pós-graduação decide qual estilo vai adotar, como fazer as citações. Primeiramente, vale informar que "estilos científicos" não são estilos "literárias", mas a edição de estilos, ou seja, modos de apresentação de conteúdo estruturados, formas de escrever artigos científicos , apresentação, organização de conteúdo, formas fazer abreviações, anexos e fotos presentes nos textos e, além disso, formas de citações bibliográficas e de referências . Por isso as formas de citações dependem de cada estilo científico.  As normas são muitas para as referências, mas o princípio é sempre o mesmo: a transparência. Para trabalhar com estilos de citações, é melhor usar um gerenciador de bibliografias como Refworks, Zotero, EndNote, Reference Manager, BibText e outros similares. Mesmo o Word que todo mundo tem faz esse serviço. O que impressiona muito é que a qua

Estrangeirismos e redação acadêmica

O que é estrangeirismo? Por que a implicância? Pode-se ou deve-se usar estrangeirismos em teses e dissertações ? Existe linguagem científica sem estrangeirismos? Onde encontrar as palavras em português? Estrangeirismo ou peregrinismo é o uso de palavra, expressão ou construção estrangeira que não tenha equivalente vernácula em nossa língua. É apontada nas gramáticas normativas como um vício de linguagem , mas há muito esta é apontada como uma visão simplista por diversos linguistas, como Marcos Bagno , da UnB , John Robert Schmitz , da UNICAMP e Carlos Alberto Faraco , da UFPR .   (Wikipédia) Talvez seja conseqüência de um conjunto de fatores o que leva os brasileiros a imaginar como místicas e esotéricas as palavras ordinárias usadas no inglês para dar nomes às coisas. Nesse conjunto, constato a presença do deslumbramento pelos falantes de inglês, da ignorância da língua portuguesa, da ignorância da língua inglesa, da ignorância da cultura estrangeira, da ignorância de etimol

A escrita acadêmica como requisito principal para a boa formação

O texto acadêmico é um gênero muito específico. O suporte para formação acadêmica é, boa parte, o texto. São textos em que as informações são assimiladas e textos produzidos para demonstrar o conhecimento apreendido ou produzido. Quando se fala em produção científica , os primeiros critérios que vêm à cabeça são a quantidade e a qualidade de artigos produzidos. O conceito de qualidade, no entanto, geralmente leva em consideração apenas o fator de impacto dos trabalhos, a quantidade de vezes que são citados por outros cientistas. Mas outro tipo de qualidade vem sendo buscada pelos pesquisadores, inclusive para conquistar o fator de impacto: a qualidade textual, que depende do bom preparo e bagagem do aluno universitário, que permite a ele produzir trabalhos universitários com excelência, qualidade pode ser obtida mais facilmente ao se apoiar em uma minuciosa revisão do texto feita por um revisor profissional . A produção de textos é processo contínuo de realimentação e do qual a revis

Como escrever títulos atraentes em poucos passos: do artigo à tese

Como aumentar o número de leituras de seu artigo? Você gostaria que sua tese ou dissertação fosse muito lida e citada ao invés de ignorada? Claro, qualquer autor deseja isso! Acontece que, atualmente o número textos acadêmicos que encontramos em qualquer pesquisa é muito grande, enorme. A concorrência entre todos os autores, na busca pelo leitor, não tem tamanho. Claro que o mais importante sempre vai ser a qualidade do trabalho, e clareza das ideias e um texto bem limpo, mas o título tem que ser um ponto de destaque também! E existem técnicas para títulos atrativos , que fujam do enfadonho jargão acadêmico e que transmitam a mesma ideia com uma linguagem mais moderna e atraente; veja um exemplo de título à antiga – que eu jamais adotaria – para esta postagem: Questões de legibilidade, ergonomia visual e empatia em títulos de teses, dissertações e artigos acadêmicos: uma discussão propositiva de aplicação da técnica AIDA. Convenhamos, dá até preguiça de ler até o fim, mas você certame

A seleção do título no artigo científico

Título de artigo pode ser pedra angular na carreira Um artigo científico cujo titulo foi bem escolhido tem mais leituras e mais citações! Poucos refletem sobre os títulos de seus artigos científicos e até mesmo sobre os das teses. O revisor do texto poderá oferecer alternativas, mas considere um pouco os princípios que apresentamos.  O título do artigo científico deve ser definido, se possível, com o menor número de palavras para descrever adequadamente seu conteúdo. Digamos que ele seja o "cartão de visita" do trabalho. A maioria das pessoas que acessam o artigo não o lê completamente, um dos motivos que desencadeiam essa situação é um título desinteressante que não reflita o conteúdo do artigo com precisão e clareza. O título é parte de um texto, e parte importante, sobre a qual é necessária alguma reflexão e para cuja elaboração existem técnicas. Nunca despreze a importância do título. Primeiramente, pense bem sobre o conteúdo de seu trabalho, identificando termos releva