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Autor, revisor e revisão de texto

O que é revisar um texto?

Revisar é aperfeiçoar o texto! Revisão de uma tese é bem mais que correção de erros ortográficos, mas refinamento da comunicação.

Revisar um texto é torná-lo objeto de reflexão, é pensar sobre o que foi ou está sendo escrito e encontrar meios para melhor dizer o que se quer dizer, reelaborando e reescrevendo o já escrito. Nesse sentido, é preciso que o revisor se desloque entre os papéis de escritor e possíveis leitores/ interlocutores do texto, refletindo se o autor logrou êxito em intenções, bem como se está adequado à situação comunicativa em que ele se insere. Com base nas propostas do revisor, o autor poderá tomar decisões sobre o que precisa (re)escrever. Isso significa que as condições de  revisão e seus pressupostos terão, com certeza, impacto no trabalho de produção textual que poderá ser refletido pelo autor ao redigir. Reflexo é um fenômeno entre dois objetos. Reflexão é confronto de ideias entre indivíduos, no caso, autor e revisor.
Antes de tudo, revisar é refletir sobre o texto.
Há uma crença segundo a qual a revisão de textos envolveria habilidades muito elaboradas, conhecimentos técnicos de campo alheio ao domínio do escritor especializado em outras áreas, considerando-se mais adequado deixar essa etapa de “refinamento da produção escrita” para o revisor. Mas essa ideia não é inteiramente verdadeira.
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De fato, ao revisar um texto, exige-se que o revisor, continuamente, reflita sobre as “partes” efetivamente escritas e as avalie com base em conhecimentos linguísticos, em função do(s) destinatário(s) e finalidade previsto(s) do texto, assim como do contexto comunicativo em que o texto está colocado. Portanto, revisar é uma habilidade metacognitiva complexa, que implica tornar-se consciente e pensar, deliberadamente, sobre processos e decisões tomadas durante a escrita.
No entanto, observa-se que reflexões iniciais para melhorar os textos ocorrem a qualquer leitor ou autor, desde que os considere como objeto passível de questionamento, de aperfeiçoamento e suporte para ideias que sempre estarão se reconstruindo.
O objetivo do processo de revisão de texto é seu aperfeiçoamento. Esse processo inclui correções, inserções e supressões, inversões, de acordo com uma série de critérios técnicos objetivos e bem maior número de considerações subjetivas e contextuais. Tudo é sempre feito no sentido de melhorar a comunicação entre autor e leitor pela valorização do texto como veículo da informação.

Diversos aspectos são considerados no aperfeiçoamento proposto pela revisão:

Aspectos textuais da revisão

  • Sintaxe de construção de frases e períodos: adequação dos conetivos e palavras de relação; fragmentação e truncamento de idéias;  acúmulo de idéias num mesmo período; construir  paralelismo sintático.
  • Coesão e  coerência: distinção da ideia central; eliminação das ideias incompatíveis ou sem importância para o desenvolvimento da ideia central; especificação das generalizações; articulação das  relações lógicas entre as ideias por meio de conetivos; uso de argumentos adequados; eliminação de repetições e ambiguidades. 
  • Vocabulário: Atenção a palavras repetidas. Uso de  termos precisos. Eliminação de gíria, expressões coloquiais, clichês.
  • Parágrafo: Agrupamento de ideias complementares ou dependentes. Distribuição das ideias diferentes por parágrafos diferentes. Hierarquizar parágrafos.
  • Gênero: Manutenção do tom conforme o gênero textual. Evitar mudanças injustificáveis de registro (formal/ coloquial).

Aspectos gramaticais e formais

Forma, legibilidade, estética, pontuação, concordância, regência, maiúsculas/ minúsculas... Alguns destes itens, constituem o que tem sido chamado na literatura especializada de parte "mecânica" da revisão. São questões que constituem pontos pacíficos e sobre as quais o revisor pode adotar ação resolutiva.

O autor e o revisor

Segundo nosso ponto de vista, o revisor de textos surge como o interlocutor prévio para o autor, dando sentido primário à função comunicacional do texto, inaugurando o processo de diálogo em que ele surge como a segunda pessoa (tu) para que se construa ou se identifique o autor como primeira (eu).
Os textos têm sido vistos como ponto final do processo de escrita; os autores continuam escrevendo sem contar com um leitor efetivo e, por isso, tomam o texto que produzem como um espaço em que não se podem assumir enquanto um eu sujeito que diz, que se assume enquanto locutor. Fica explícita, assim, uma visão de língua como objeto, desprovida de sentido, na qual os sujeitos envolvidos não são tomados como interatuantes. Isso fere um dos pressupostos da teoria da enunciação, especificamente no que se refere à relação  eu-tu. Em outros termos, fere a própria essência do ato  enunciativo – deixa de existir a intersubjetividade, pois não há mais referência.
Na alternância entre o  eu e o  tu, sempre únicos e que podem ter intercambiadas suas posições, se instaura a intersubjetividade enunciativa. O eu fora da linguagem é inatingível. É o exercício da língua que faz o homem subjetivar-se, colocando-se como sujeito do discurso.  É a consciência do outro que desvela a intersubjetividade, dada a possibilidade de se dizer não (ou sim) para uma instância diferente: o  tu. O  eu só pode ser  eu na premência de um  tu. O revisor se empresta como tu ao autor, favorecendo-lhe a construção do eu. Há um jogo de relações complementares nisso e nele se constrói a função do revisor, como player - nunca como antagonista.

Revisão de textos é assunto para profissional do ramo.
O autor solitário é um mito desconstruído pelo revisor.

São os pronomes pessoais que instauram a subjetividade no discurso, inclusive porque não pertencem à realidade do mundo, mas à do discurso. Da mesma forma ocorre na referência de espaço e de lugar. A relação temporal também manifesta a subjetividade – tudo gira em torno do hoje, da instância discursiva atual.
Para o revisor, como linguista, há elementos formais que situam o locutor em relação ao que diz – são as marcas de tempo, espaço e pessoa.  Mas, além desses, todos os arranjos que são feitos a partir da língua, as ações pelas quais as formas linguísticas são diversificadas e combinadas acabam por situar aquele que fala em seu próprio ato enunciativo.  Assim, quando faz determinada escolha linguística, o autor, como enunciador, transpõe uma forma ele que tem disponível na língua para seu discurso, dando a ele significado particular.
A consciência de si mesmo só é possível se experimentada por contraste. O revisor propicia ao autor a antecipação da construção de sua identidade autoral por propiciar a ele interlocução privilegiada, direcionada e subsidiante. É para o texto sim, mas sobretudo para o autor que existe o revisor.

Texto, contexto, revisão e revisor de texto

A malha das palavras deve estar bem urdida em qualquer texto. A tese e a dissertação são textos em que não pode haver pontas soltas ou nós mal atados.
O texto é uma tessitura de informações que levam o leitor à compreensão do todo, não é um aglomerado de palavras soltas ou de frases sem sentidos. Ele contém um pronunciamento situado em um debate de escala mais ampla, de acordo com o contexto em que foi escrito. Contexto é a unidade linguística maior em que se encaixa a unidade linguística menor.

A formatação de um texto é como dar feitio às malhas de palavras.
Não existe texto sem contexto e sempre deve haver um revisor de texto.

O texto pode também ser entendido como a atividade verbal decorrente de estratégias cognitivas e interacionais entre os indivíduos que não existem isoladamente. Logo, a escrita é interativa e social, já que é feita por um ou mais sujeitos para outro(s) sujeitos que levam consigo conhecimentos de mundo diferentes.
Antes de ser publicado, o texto passa por diversas fases até chegar às mãos dos leitores. Uma dessas fases é a revisão, necessariamente. Alguns autores diriam que revisar um texto é simplesmente corrigir a ortografia; outros, que é adequá-lo à norma culta da língua, à coesão e coerência, à ortografia, levando em consideração todo o contexto em que foi escrito. De acordo com Houaiss, revisar é ter novamente sob os olhos, é fazer a inspeção, é examinar com atenção, procurando possíveis erros; é rever, levar novamente em consideração, é repensar.
Revisar não é apenas um exercício mecânico de apontar falhas gramaticais, mas o de tornar claro em que sentido essas falhas podem interferir na coesão e na coerência, comprometendo a clareza do texto. É a “manipulação” do texto escrito para a publicação, visando sua melhoria. O profissional responsável por esse trabalho é o revisor de textos.
O revisor exerce papel fundamental. Seus campos de atuação são: editoras, gráficas, empresas jornalísticas e publicitárias, assembleias legislativas, escolas de nível básico, bancas de concurso, cursos preparatórios, e locais onde existam trabalhos acadêmicos. Ainda que a informática contribua para esse processo, ela não é capaz de substituir um profissional habilitado e competente, visto que revisar não é apenas corrigir a ortografia. No entanto, muitas empresas jornalísticas reduziram ou eliminaram esses profissionais com a introdução da informatização em suas redações.
O autor, ao redigir, está preocupado em escrever suas ideias com rapidez, de forma a não perder de sua mente o que deseja apresentar, o que o leva a não se ater aos seus próprios erros. Aqui entra o revisor, o qual se tornará responsável pela “perfeição” desse texto para publicação, que o deixará “pronto”, compreensível, adequado a sua finalidade, para que o leitor não tenha dificuldades em entender a ideia do autor.
Para ser um bom revisor, alguns requisitos são necessários como: ter um ótimo conhecimento da norma-padrão da língua em que o texto está escrito (no caso, o português), especialmente, trata-se aqui de um conhecimento teórico de acentuação gráfica, crase, regência; ter o hábito de consultar boas obras de referência para sanar suas dúvidas e se atualizar sempre. Um bom profissional qualificado continua seus estudos e aprimoramentos até o final de sua vida.

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