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Revisão de textos acadêmicos e literários

Revisão de textos: conceitos e perspectivas

A revisão de texto pode ser interferir o documento original até onde? Até que ponto o revisor deve manter a construção autoral na tese, por exemplo?

O revisor de uma tese considera a língua e o contexto. Nada pode escapar à revisão.

Chamaremos  revisão de textos toda reconsideração de um primeiro texto, incluindo tanto os comentários, opiniões e  críticas de autores e leitores como as alterações efetivas realizadas no escrito. Denominaremos reescritas a estas alterações efetivas.
A revisão de todos os tipos de textos requer profissional competente.
Revisão de textos é um ofício e uma neurose: ninguém se torna revisor impunemente.
Para praticar revisão, principalmente de termos acadêmicos, formais e registrados na língua culta, é fundamental o domínio normas oficiais, da ABNT à NGB, em grande parte porque os textos, no dia a dia, nos reservam notáveis surpresas: na maior parte das vezes as normas são desprezadas, com frequência porque não são nem mesmo conhecidas pelos responsáveis pela redação ou orientação dos trabalhos.
Na perspectiva histórica, o papel do revisor pode ser definido de diversas maneiras. Não temos dados sobre como os copistas corrigiam seus próprios escritos, temos apenas as marcas de correções que eles deixaram em seus manuscritos. Por outro lado, sabemos como corrigem os profissionais da revisão contemporâneos (os revisores).
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É esta a ideia de revisor que vamos trabalhar: a do profissional que se melhora o trabalho de terceiros. Alguém que faz muitas vezes leitura e releitura “com a mente e com os olhos”, prestando atenção tanto naquilo que está carregado de sentido como o que não está e, ao mesmo tempo, esforçando-se por tomar distância do sentido que teve intenção de gerar para olhá-lo com olhos de outros.
Ao se revisar um texto, devem ser respeitados os parágrafos e tópicos, sua eventual numeração (nesta questão a norma se refere obviamente a textos técnicos, contratos, etc.) e as subdivisões do texto em frases.
É necessário mencionar qualquer diferença de conteúdo entre o documento original e a revisão, indicando as interferências, correções, reduções ou adições realizadas no texto, no índice ou na bibliografia: tudo sempre feito com controle eletrônico de alterações.
Em textos a serem revisados, são empregadas terminologias pertencentes a diversos campos do conhecimento. Nesses casos, é necessário que o revisor aprenda os conceitos básicos implicados, para não fazer substituições equivocadas. Entretanto, sendo um neologismo referente a novo conceito, é recomendável que, após a revisão, se defina o termo em rodapé.
As editoras e demais empresas que contratam revisores exigem, para a admissão, que o aspirante apresente título de bacharel ou diploma universitário. Em qualquer dos casos, quem se inicia na revisão geralmente estudou Letras, mas não tal exigência legal, nem é raro que seja outra a formação. Mas é necessário que o aspirante a revisor conheça claramente as diferenças existentes entre o aprendizado de uma língua para o ensino e para a revisão.
O currículo de muito curso de Letras moderno tem a revisão como uma disciplina, assim como as literaturas e as linguísticas - mas raramente complementa com teoria sólida de revisão e com prática. Não é nossa intenção julgar o ensino de revisão. O que desejamos é deixar claro que o estudo de um idioma materno para o magistério está muito distante de ensinar revisão. Não se se haveria possibilidade ou necessidade de se criarem cursos de graduação ou aumentar as pós de revisão existentes.
Na verdade, acho mesmo é que revisão de textos continuará a ser um ofício a ser aprendido principalmente na prática, por pessoas que amem as letras e tenham construído erudição por gosto, mas subsidiadas por todo aparato humanístico da academia.

Tipologia da revisão de textos

Sempre revise, sempre formate com profissional.

Muitos serviços diferentes são chamados de revisão de textos. Quem contrata a revisão de uma tese, por exemplo, deve ter noção disso ao negociar o trabalho.
Não há uma tipologia definida para revisão de textos ou uma taxonomia estabelecida de forma muito definida e uniforme para as ações que compreendem essa atividade. Ao revisar textos, não nos restringimos nunca aos aspectos formais e linguísticos. Para melhorar o trabalho, mesmo que nem sempre se domine as áreas técnicas deles, procuramos sugerir alterações objetivas e explícitas. Se depois estas alterações são mantidas, será decisão do autor. Ele, melhor que ninguém, sabe o que diz.

Todavia, pode-se falar de alguns tipos de revisão:

  • editorial: procura verificar situações estruturais, como notas de rodapé, referências, translineação, bem como proceder a algumas adaptações de linguagem;
  • linguística: em que aspectos formais e comunicacionais do texto prevalece;
  • literária: em que se procura aferir o rigor dos conteúdos. É neste tipo de revisão que ocorre o verdadeiro processo de releituras do texto e a reescrita dele;
  • mecânica: em que apenas questões que não suscitem dúvida são imediatamente sanadas;
  • acadêmica: destinada especialmente a textos destinados ou provenientes das atividades de ensino, pesquisa ou extensão.
Um texto – literário ou científico – pode incorrer em qualquer uma destas tipologias de revisão, ou mesmo em mais de uma delas.

Dai que seja válido falar em duas abordagens:

  • restritiva, que implica apenas correções de ordem linguísticas ou tipográfica;
  • extensiva, que engloba o melhoramento linguístico e a correção de conteúdos (algumas vezes chamada "preparação de textos" - mas não usamos essa terminologia).

Revisão de texto cooperativa

A revisão cooperativa de texto é pautada um conjunto de quatro máximas: máxima de quantidade, máxima de qualidade, máxima de relevância e máxima de modo. Cada uma das máximas é observada durante o processo de revisão realizado pelo revisor e autor em conjunto, ou pelo colegiado de revisores - com ou sem a participação do autor.
  1. Máxima de quantidade está relacionada à informação apresentada no texto para que se dê o processo de compreensão por parte do leitor. Implica quantidade necessária, suficiente e supressão de excessos.
  2. Máxima de qualidade está relacionada à verdade, a credibilidade e plausibilidade. O texto deve fornecer informações em que o autor acredita e apresenta como verdadeiras e que tenha evidências para comprová-las.
  3. Máxima de relevância sugere que o autor faça com que seu texto seja relevante e comunicativamente pertinente, a inclusão de uma informação alheia ao foco dificulta a compreensão da mensagem por parte do leitor.
  4. Máxima de modo refere-se à clareza de expressão, é um princípio evidente de cooperação por parte do autor e do revisor. Ambos interagem para procurar organizar as ideias com palavras objetivas, expressões de sentido preciso e frases bem estruturadas, evitando: obscuridade, ambiguidade, prolixidade, desordem.
Claro que o revisor que trabalha sozinho, de forma resolutiva (tendo seu trabalho como versão definitiva), também vai considerar todas essas máximas, mas a condição ideal para melhor proveito nesse sentido advém do trabalho cooperativo e dele resulta.

Revisão de texto resolutiva

A revisão de texto é atividade complexa em que a função do revisor é intervir no texto do autor com o objetivo de apontar lacunas e inadequações na tessitura desse objeto cultural. Ao revisar, o profissional precisa levar em consideração o gênero textual estabelecido na proposta, cujo enunciado necessita cumprir as condições de produção de textos: o que dizer (tema); a quem dizer (leitor); como dizer (gênero); por que dizer? (objetivo); onde será veiculado? (suporte). Dessa maneira, a revisão varia conforme o gênero textual.

Revisões de texto resolutivas são as mais comuns.

Mas é possível afirmar que há maciça preferência dos revisores de língua materna (e certamente também das demais línguas) pela revisão resolutiva, caracterizada pela apresentação e solução dos problemas detectados nos textos. Trata-se da concepção de língua como código homogêneo e neutro  em que se estabelece a perspectiva normativa que considera o texto do cliente apenas para correção de regras gramaticais, ou de pressão de tempo para execução do trabalho.
Revisão resolutiva consiste em eliminar todos os erros, reescrevendo palavras, frases e períodos inteiros. Nela, o revisor faz uma delicada operação que requer tempo e empenho, isto é, procura separar tudo o que no texto é aceitável e interpretar as intenções do autor sobre trechos que exigem correção; reescreve depois tais partes fornecendo um texto depurado. Neste caso, o erro é eliminado pela solução que reflete a opinião do revisor.
Limita-se, assim, o processo reflexivo entre autor e revisor, pois aquele recebe  todas as alterações como consumadas, eliminando-se a possibilidade de refletir  conjuntamente sobre o texto, uma vez que o veredito já está dado; dessa forma, entende-se o texto como produto acabado e não como processo.
Revisão é um processo lento, dentro do qual se insere outro processo, o da chamada correção, que, por sua vez, também supõe e demanda etapas. Mas a realidade do mercado é que o fator tempo é premente, assim como os custos em que implica a revisão múltipla, interativa e cooperativa.

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