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Revisão linguística: bem mais que correção

O que vem a ser a revisão linguística? É o mesmo que a revisão de português? Minha tese precisa de revisão linguística? Revisão linguística modifica o texto?

A linguagem, tanto oral quanto na escrita, produz textos com contornos diferentes por causa das exigências dos contextos de produção e diferentes situações comunicativas. Refletir sobre a linguagem e trabalhar com ela é, necessariamente, debruçar-se sobre as características dos textos em função do gênero a que se filiam e compreender de que maneira eles cristalizam as práticas sociais da linguagem.
A revisão linguística é, portanto, muito mais do que aplicar a gramática. As reflexões produzidas pelos gramáticos se detêm na frase e não no texto. Pelas características dos gêneros e dos suportes, os textos podem variar em extensão. Pode ser um cartaz, ou estender-se nos sucessivos capítulos de uma tese, dissertação ou romance.
A formatação faz parte do texto, em sentido linguístico lato.
O papel do revisor é promover muito
mais a comunicação adequada que a
correção gramatical.
Ao colocar o texto em foco, o revisor considera diversos aspectos: o contexto de produção do discurso, o gênero a que o texto pertence e suas características, suportes, destinação. Mas o revisor não vai adicionar aos estudos gramaticais os novos conteúdos referentes ao texto. O revisor não se limita a substituir a unidade de análise (do fragmento para o todo), ele considera a necessidade de mudanças mais profundas. Pensar as palavras como compostas por fonemas que formam sílabas, segmentá-las em seus constituintes, agrupá-las em classes, ou analisá-las no papel delas na frase só faz sentido quando esse tipo de análise servir para aproximar conteúdo e expressão. O revisor selecionará os tópicos de análise linguística porque é preciso ser consistente com a opção de intervenção feita. Se a revisão linguística está subordinada ao sentido do texto, antes de tudo é preciso ter claro o gênero que vai ser trabalhado para definir os tópicos de linguagem a serem aplicados para enriquecer a compreensão do texto.
O trabalho do revisor com a análise linguística e sua aplicação deve ser proveitoso, agregando comunicabilidade textual. O conjunto de intervenções efetuadas pelo revisor tem que estar perfeitamente contextualizado; tudo que for possível ou necessário deve ser discutido com o autor para ficar evidenciada a sua significação, nenhuma interferência deve ser feita sem que, para ela, haja explicação linguística satisfatória; cada intervenção revisional deve estar ligada às práticas de linguagem: à escuta, à leitura e à produção de textos; deve também refletir os constantes avanços dos estudos linguísticos e estar sujeita ao processo contínuo de revisão crítica. Vista na perspectiva reflexão sobre a língua, o propósito da revisão é desenvolver a legibilidade do texto no universo social que o cerca, já que, na realidade, fala-se e escreve-se não uma, mas várias línguas, há diversas variedades linguísticas, que se multiplicam em diferentes registros e múltiplos gêneros, em função da situação comunicacional pretendida.
É muito importante, na estruturação do processo de revisão de um texto, aceitar e estudar as variedades linguísticas. Sempre é possível detectar “línguas” que vão revelar aspectos regionais, sociais e individuais. Da mesma forma, serão identificados os diferentes jargões das diversas áreas de conhecimento de um texto, quanto ele for dos gêneros tecnológico ou acadêmico, por exemplo. Cada variedade é adequada a uma função comunicacional específica e não pode ser substituída sem provocar estranheza, por exemplo, não se usam lugares-comuns ou construções coloquiais nos textos formais. Para cada situação de comunicação (conversa, discurso político, entrevistas) há inúmeras possibilidades de uso dessas variedades, em cujo limite o texto deve se manter, com a colaboração do revisor.
Fazendo brevíssima distinção entre a gramática normativa e a descritiva, a normativa prescreve o uso correto da língua e encara como erro qualquer desvio das normas estabelecidas, a descritiva preocupa-se em registrar as línguas como são faladas, segundo as formas praticadas nos grupos sociais. A gramática descritiva rompe com “determinismos” no estudo da língua e é mais adequada como parâmetro para a revisão de textos, consideradas as questões de gênero colocadas anteriormente, já que, na prática, a revisão linguística que ultrapassa o império da gramática normativa acaba valorizando a variedade linguística do autor em seu grupo social.
Muitas vezes, o autor, ao longo de sua produção, sente-se incomodado por não conseguir escrever com propriedade o que foi capaz de pensar e observar. Cabe ao revisor administrar o choque entre as modalidades falada e escrita de modo favorável ao texto, criando novos critérios de intervenção, valorizando e reconhecendo a identidade linguística de cada autor, afastando a relação de poder que implica o conhecimento da norma de prestígio, repudiando o famigerado preconceito linguístico. O revisor exerce seu papel ao assumir a posição de facilitador da criação autoral, ao viabilizar a convivência com a escrita, ampliando-lhe a comunicabilidade.
A prática da revisão linguística, a revisão de texto que vai bem além da gramática normativa, que ultrapassa totalmente a correção do português, deve estar vinculada ao estudo da língua em sua modalidade oral e escrita. Deve refletir sobre a língua e seus usos efetivos para, de fato, ajudar o autor a aperfeiçoar seus recursos expressivos. Somente assim, a atividade de revisão de textos será ferramenta para aprimorar a compreensão dos textos e para a reflexão sobre os fatos da língua e sobre as implicações decorrentes do bom uso dela.
Inspirado em MEC, s.n.t.

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