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Estrangeirismos e redação acadêmica

O que é estrangeirismo? Por que a implicância?

Pode-se ou deve-se usar estrangeirismos em teses e dissertações?

Existe linguagem científica sem estrangeirismos? Onde encontrar as palavras em português?

Estrangeirismo ou peregrinismo é o uso de palavra, expressão ou construção estrangeira que não tenha equivalente vernácula em nossa língua. É apontada nas gramáticas normativas como um vício de linguagem, mas há muito esta é apontada como uma visão simplista por diversos linguistas, como Marcos Bagno, da UnB, John Robert Schmitz, da UNICAMP e Carlos Alberto Faraco, da UFPR (Wikipédia)
Talvez seja conseqüência de um conjunto de fatores o que leva os brasileiros a imaginar como místicas e esotéricas as palavras ordinárias usadas no inglês para dar nomes às coisas. Nesse conjunto, constato a presença do deslumbramento pelos falantes de inglês, da ignorância da língua portuguesa, da ignorância da língua inglesa, da ignorância da cultura estrangeira, da ignorância de etimologia e da ignorância de semântica. Juntam-se todas essas ignorâncias e, sem precisar bater no liquidificador, surgem as palavras mágicas e as traduções literais, as traduções mal-ajambradas e a importação de palavras alienígenas em sua forma original. Precisamos exorcizar esses demônios (SIMÕES, 2001).
A regra é sempre evitar abuso. Em estrangeirismo inclusive.
Todas as falas são produtos de muitas línguas, não existe uma "língua pura" a ser alcançada.
Palavras ou expressões estrangeiras são usadas quando não existe equivalente em português ou foram consagradas pelo uso corrente: rock, show, pop, punk, réveillon, status, blitz, kitsch, overnight, outdoor, know-how, lobby, software, hot dog. Nesses casos são grafadas sem aspas nem itálico.
Muito cuidado ao flexionar número nas palavras estrangeiras. A forma correta de o fazer é a da língua de origem. O plural de blitz é blitze, mas já se viu escrever blitzes, blitzen e outras barbaridades... O mesmo se aplica aos latinismos, o plural de campus é campi, o plural de curriculum é curricula (e neste caso se pode bem usar em português, currículo(os), sem ser vedado o latinismo). Mas não se devem fazer outras flexões ou declinações, apenas a de número. Não se escreve: as páginas curriculi (do currículo), mas: as páginas do curriculum – sem declinar o genitivo.
O uso gratuito ou excessivo de estrangeirismo torna o texto pedante. Palavra ou expressão estrangeira menos conhecida e de difícil tradução, ainda que em texto especializado, deve ser acompanhada de explicação: spread, taxa de risco nos empréstimos internacionais. Nesse caso, a expressão é grafada em itálico, preferencialmente, ou entre aspas.
Os juristas devem deixar terminologia latina desnecessária de lado, no texto acadêmico, fazendo uso restrito dos conceitos referentes a institutos importados do Direito Romano. Periculum in mora: aceita-se – data venia: é preferível evitar.
Não levam aspas ou itálico os nomes ou marcas de companhias estrangeiras (Microsoft, Boeing, TWA, Levi’s, Sears, Viagra), modalidades esportivas (squash, skate), denominações de naves e satélites espaciais (Vega, Challenger) e nomes de pessoas, instituições e lugares.
Nomes de órgãos e entidades estrangeiras devem ser traduzidos quando não forem ligados ao objeto do trabalho. Quando a tradução literal for insuficiente para a compreensão do que faz o órgão ou entidade, usa-se a sigla estrangeira sem aspas, traduzindo seu significado e citando o equivalente brasileiro: FBI (Birô Federal de Investigações, a polícia federal norte-americana) (FOLHA, adaptado).
Pode-se afirmar que convivem inúmeros termos ingleses em conversas corriqueiras tais como: – vamos ao shopping; – preciso deletar o arquivo; – vai ter coffe break. Já incorporamos uma torrente enorme palavras que nos remetem ao mundo da informática como: software, site, harward, mouse, home page, on line, entre tantas outras. Também há palavras referentes a ritmos musicais como: punk, tecno, hiphop, rap, dance, jazz, funk e rock, além dos termos correlatos como: CD player, auto reverse, surround. Muito gente se assusta com essa “invasão” do anglicismo à nossa “indefesa” língua pátria. Mas, considerando que o anglicismo nada mais é que o empréstimo realizado pelos falantes de uma determinada língua (no nosso caso o português brasileiro) de termos da língua inglesa, importa lembrar as palavras de um intrigante questionamento:
“Não são os próprios falantes que fazem os empréstimos? Por acaso, alguém toma emprestado o que não deseja?” (Garzez & Zilles 2004, p. 25).
Mas o que motiva esses empréstimos? Existem duas constatações que podem explicar tais usos. Primeiramente, a tecnologia e a pesquisa avançada são desenvolvidas e registradas predominantemente em inglês, os termos advindos delas induz o uso das palavras mais expressivas, e por mais que existam palavras aparentemente substitutivas, tais como: mouse = rato, ou computador = ordenador, estas não transmitem o mesmo sentido que as advindas do inglês. (Ribeiro e Alcântara)
“O processo de assimilação de certos itens e eliminação de outros é complexo. Primeiro, certos empréstimos desaparecem porque a coisa que designam cai de moda ou se torna obsoleta. Exemplos são ban-lon; boogie-woogie; mi-mollet; lansquenete e muitos outros que você provavelmente nem conhece. Outros empréstimos são substituídos por formações vernáculas: goal-keeper hoje é goleiro; corner é escanteio; off-side é impedimento etc. Ainda outros ficam, mas são graficamente assimilados, de maneira que nem se sabe que são estrangeiros: gol (goal); nocaute (knock-out); batom (bâton); marrom (marron) e muitos outros. Esses três processos dão conta da grande maioria dos termos estrangeiros. Fica uma quarta categoria, que não se assimila graficamente (embora assuma sempre pronúncia portuguesa): impeachment ; site; off (desconto), nylon, etc. São esses últimos os verdadeiramente irritantes. A maioria é muito recente, e não se sabe se vão acabar sendo assimilados ou eliminados de uma maneira ou de outra. Alguns deles persistem porque não têm equivalente em português: não se falava de site, e-mail, marketing até que as coisas propriamente ditas entraram na nossa conversa. Alguns, bem ou mal, já se assimilaram: salvar (alguma coisa no computador); deletar; e o próprio computador (em italiano ainda se diz computer).” ir a um espetáculo de canto metralhado. Se você não entendeu nada, aí está a tradução: ‘ordenador’ é computador. ‘Caminhada no mato’ é trekking. ‘Rato’ é mouse. ‘Canto metralhado’ é rap.” (Perini, 2001).
A regra geral no uso e para evitar o abuso é a do bom-senso. O importante é que o autor se sinta bem com as palavras que escolhe e que elas não incomodem o leitor. Não há uma guerra ou caça aos estrangeirismos nas teses e dissertações, proclamada pelos orientadores e pelos revisores de textos, mas é bom ter em conta que a linguagem acadêmica não é no mesmo registro em que a mídia atua. Considerando a importância da mídia na formação da opinião pública, e da língua em geral, muito mais poderia se avançar perante as "guerras em torno da língua", mas a mídia não está interessada em contribuir no esclarecimento da população sobre o funcionamento da língua, mesmo proclamando também que a língua faz parte do patrimônio cultural do país. Portanto, quanto mais a população souber sobre ela, melhor saberá utilizá-la, e se for o caso poderá até defendê-la. Enquanto isso, fica sob a responsabilidades parcial dos revisores de textos fazer essas defesas, principalmente no caso dos textos formais em que o abuso de estrangeirismo não cabe.

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