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Revisão de dissertação ou tese: um modelo teórico

A revisão de texto para teses e dissertações tem um modelo teórico a seguir? Existem rotinas de procedimentos ou o revisor sai apenas procurando os erros de português?

A finalidade da revisão do texto final do mestrado ou do doutorado é apurar a qualidade do material antes de ele ser submetido à banca de defesa. Isso é feito detectando-se e corrigindo-se problemas no texto com respeito às linguagens convencionais e à exatidão no significado, mas não se limitando a tais procedimentos.
Uma tese bem revisada ou uma dissertação bem formatada, quase sempre, surpreendem positivamente a banca.
Reserve sempre no cronograma
o tempo necessário à revisão.
A propósito dessa referência sobre detecção e correção de erros em teses e dissertações, o senso comum é que a revisão se limita à correção, motivada pela detecção e identificação de algum mau funcionamento ou discrepância normativa existente no texto. Nesse sentido, a detecção de diferentes tipos de mau funcionamento, certamente, envolve diferentes tipos de conhecimento. As habilidades diferentes envolvidas no processo de revisão dependem do tipo de conhecimento requerido e das circunstâncias sob as quais tal conhecimento precisa ser agregado.
O processo do modelo de revisão em tela toma como referência os procedimentos de interferência, mas o esquema que contempla esses aspectos está dividido em dois segmentos que permitem a funcionalidade do processamento da revisão: à esquerda, os processos vivenciados pelo revisor; à direita, as categorias de conhecimento que possibilitam os processos ou resultam de suas ações.
Formatação e revisão de teses não podem ser feitas ingenuamente.
Os processos de revisão de teses e dissertações têm modelo teórico e rotinas de procedimentos.

De acordo com o esquema gráfico da imagem acima, a Definição da Tarefa constitui o primeiro subprocesso que envolve o processo de revisão. Esse subprocesso reproduz as concepções do revisor sobre as atividades a serem desenvolvidas, bem como o que o leva a realizar tais atividades e como gerenciá-las na vivência e articulação entre os demais subprocessos. Sendo assim, cabe à Definição da Tarefa o controle das decisões sobre objetivos para o texto, as restrições sobre esses objetivos e os critérios de avaliação. Ao tomar decisões, o revisor pode deter domínio sobre a definição da tarefa, de modo que esse subprocesso passa a ser atualizado durante o processamento da revisão. Representando uma estratégia metacognitiva, já que o revisor deve ter consciência de seus próprios processos cognitivos, a Definição da Tarefa envolve armazenamento de conhecimento na memória sobre em que consiste o ato de revisar e que informações são acrescentadas continuamente pelo ambiente da tarefa – toda informação externa ao revisor, incluindo o texto com suas modificações. O segundo subprocesso da revisão, é a Avaliação, que corresponde a três procedimentos: ler para compreender, para avaliar e para definir problemas. Ler para compreender diz respeito à tentativa dos leitores de construir, a contento, uma representação interna do significado do texto, e abrange habilidades em vários níveis:
  1. decodificação de palavras, identificando e recuperando seu significado da memória;
  2. identificação da estrutura gramatical das sentenças;
  3. aplicação de regras semânticas para interpretar as sentenças;
  4. processamento de inferências para buscar significados implícitos;
  5. aplicação de esquemas e ativação de conhecimentos de mundo;
  6. aplicação de convenções de gênero;
  7. identificação da essência do texto;
  8. inferência de intenções e ponto de vista do autor.

As habilidades para a construção do significado na tese e na dissertação podem se manifestar em qualquer ordem e cooperam entre si para reproduzir uma representação satisfatória do texto.
Naturalmente, quando as pessoas estão lendo para efeito de compreensão simplesmente, não são sensíveis a problemas do texto como o seriam quando o fazem com o objetivo de revisar. No entanto, mesmo ao ler para compreender sem intenção de revisar, problemas podem ser observados. Isso porque certos problemas que aparecem no texto dificultam a compreensão e repercutem na efetivação da leitura.
Exemplo: para o problema de erros ortográficos, a solução reside em buscar nova grafia, condizente com as regras do sistema ortográfico; para o problema de erros gramaticais, a solução é buscar construções alternativas que sejam adequadas ao contexto frasal da produção e, desse modo, se sucede a correspondência entre problema e solução a ser proposta.
Ler para revisar conduz o revisor à procura da detecção e caracterização de problemas no texto. Depois, resulta na busca de soluções para efeito de correção, implicando em uma atitude mais ativa frente ao texto. Essa busca pela melhoria da produção escrita possibilita a descoberta dos diferentes níveis do processo de compreensão, em processo de constante interatividade com o texto e, direta ou indiretamente, com seu autor.
O resultado da tarefa de leitura para avaliação, que corresponde ao ler para compreender, ler para avaliar e ler para definir problemas, resulta na representação do problema, que se dá através de dois subprodutos:
  1. detecção – percepção dos problemas. A detecção constitui a pré-condição para que a revisão aconteça.
  2. diagnose – representação dos problemas, baseada em conhecimento mais profundo sobre eles. A diagnose depende dos conhecimentos do revisor sobre as bases textuais – normativas e sociolinguísticas.
Mesmo não sendo obrigatória no processo de revisão, a diagnose é poderosa estratégia dos revisores experientes quando lidam com problemas mais complexos que, por natureza, exigem maior conhecimento linguístico para resolvê-los.
Em seguida, o revisor passa a tomar decisões estratégicas sobre as interferências a serem feitas no texto. Esse procedimento corresponde à seleção de estratégias e inclui ignorar o problema, adiar, dialogar com o autor ou buscar mais informações para resolver o tópico, ou modificar o texto: reescrever, revisar. No processo de revisão, a estratégia com função mais diretamente de interferir no texto, corresponde ao ato de revisar propriamente.
Este modelo do processamento da revisão, apresenta-se como uma possibilidade da representação cognitiva do uso efetivo de práticas textuais em seu processo de produção, na medida em que dispensa atenção ao contexto da tarefa – âmbito social, para, a partir de então, levar a efeito os mecanismos de processamento textuais em linguagem escrita – natureza psicológica, mostrando sua compatibilidade com a proposta interacionista e sociodiscursiva.
Usando essa estratégia, os revisores, ao diagnosticarem o problema, selecionam um procedimento de reparação. O procedimento adotado nem sempre revela o problema detectado, mas propõe de modo resolutivo, uma interferência que atenda de modo imediato ao autor em sua exiguidade de prazos.
Fragmentos adaptados de Moreira, M. E. O.

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