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Falácias em teses e dissertações

Argumentos falaciosos a serem evitados.

A tese e a dissertação devem ser constituídas de argumentos honestos, claros e lógicos. O revisor de textos verifica a natureza da argumentação.

Qualquer tese, dissertação ou artigo científico deve observar o que Peirce chama de “ferramentas para o raciocínio correto”. Quando se trata da construção e exposição de raciocínio ou argumentação em texto acadêmico, isso passa a ser coisa séria a que o revisor do texto deverá dar toda atenção de forma supletiva ou complementar ao cuidado que o orientador tiver dado ao caso.

Lógica argumentativa e revisão de texto.

Não somos especialista em metodologia, nem em retórica e tampouco pretendemos ensinar as pessoas a argumentar, mas lógica é assunto fascinante e construção de argumentos depende de lógica. As lógicas são esqueletos que tornam as linguagens (dos idiomas à matemática, passando, e muito, por tecnologia da informação) possíveis. Nós dependemos dessa lógica textual para nos relacionarmos uns com os outros, para nos fazermos entender, melhorarmos nossa forma de pensar e para escrevermos teses e dissertações.
Em Your Logical Fallacies, estão listadas as 24 falácias mais comuns, em linguagem simples, com exemplos engraçadinhos e tem até um pôster para você baixar em PDF, mandar imprimir na gráfica e colar na parede. Tudo de graça. A imagem que se segue é a reprodução do tal pôster.
A Keimelion tem a melhor revisão para tese e dissertação.

Como esse é um conhecimento bem importante para a linguagem acadêmica, na hora da tese ou mesmo quando se quer travar diálogos e debates saudáveis, adaptamos para esse campo – em que atuamos – a postagem de Papo de Homem, mais genérica, para nosso foco.
A numeração entre as falácias não indica nenhum tipo de hierarquia entre elas, é apenas para facilitar futuras referências a exemplos específicos.

Leia, entenda e não as use nunca, muito menos em textos acadêmicos que devem ser pautados pela honestidade argumentativa.

1. Falácia do espantalho

O autor desvirtua o argumento para ficar mais fácil atacá-lo. Finge que aquele argumento se refere a uma coisa, quando ele está focado em outra.
Ao desvirtuar ou simplesmente reinventar um argumento de outro autor, fica bem mais fácil apresentar a sua posição divergente como razoável ou válida. Esse tipo de desonestidade intelectual não apenas prejudica o discurso acadêmico racional, também prejudica a própria posição de alguém que o usa, por colocar em questão sua credibilidade – se alguém está disposto a desvirtuar negativamente o argumento do autor de que diverge, será que os seus próprios argumentos também não estariam falseando?

Uma das estruturas dessa falácia tem a seguinte forma:

  1. O autor A defende o argumento X;
  2. O autor B apresenta o argumento Y, como se fosse da pessoa A (pois Y é uma versão distorcida de X);
  3. O autor B ataca a posição Y;
  4. Logo, o argumento atribuído ao autor A é falso,
  5. Logo, X é falso.
Exemplo: O Cardeal William Levada, declarou que Richard Dawkins argumenta que a Teoria da Evolução prova que Deus não existe; um argumento que é absurdo. Esta, porém, é uma falácia do espantalho, porque a posição de Dawkins é que a Teoria da Evolução torna o Ateísmo uma posição válida: se existe evolução, a visão Naturalista do mundo é logicamente aceitável.
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2. Falácia da causa falsa

Consiste em estabelecer que qualquer relação real, deduzida ou inferida entre dois fatos determinam causalidade entre eles.
Em termos retóricos, essa falácia pode ser do tipo: cum hoc ergo propter hoc (com isto, logo por causa disto). Essa causalidade indevida deriva de se ignorar a possibilidade de que possa haver uma causa em comum para dois fatores, ou que entre ambos absolutamente não haja nenhuma relação de causa e a aparente conexão é coincidência.
Outra variação do mesmo equívoco é post hoc ergo propter hoc (depois disto, logo por causa disto), na qual uma relação causal é presumida existe sucessão temporal entre os fatos – e nada mais que isso. Antigamente esse era um vício constante em História, por exemplo.
Exemplo: Baseado em um gráfico, o autor mostra como as temperaturas têm aumentado nos últimos séculos, ao mesmo tempo em que cresceu a industrialização; sendo assim, obviamente, a industrialização é causa do aquecimento global.

3. Falácia do apelo à emoção

Consiste em tentar manipular uma resposta emocional no lugar de um argumento válido ou convincente. Apelos à emoção são relacionados a medo, inveja, ódio, pena, orgulho, entre outros. Ela é também chamada apelo ao povo. É a tentativa de ganhar a causa por apelar a uma grande quantidade de pessoas, pois os apelos emocionais tentam atingir toda a população.
O argumento logicamente coerente pode inspirar emoção, ou parecer emocional, mas a falácia acontece quando a emoção substitui argumento lógico ou oculta o fato de que não existe nenhuma relação racional estabelecida.
Todos somos afetados pela emoção, por isso apelos à emoção são uma tática de argumentação muito comum e eficiente. Mas eles são falhos e desonestos, com tendência a deixar o leitor justificadamente emocional (ou furioso).
Exemplo: A maioria das pessoas acredita em Deus e a maioria não erra, portanto Deus existe.

Argumentos falaciosos a serem evitados em teses e dissertações

Dando sequência à série de argumentos falaciosos, apresentamos aqui alguns que se reportam contra as falhas da argumentação, outros contra a pessoa que argumenta e outra que consiste em estender um argumento para negá-lo. A todas essas questões deverá atentar o revisor, dendo dos limites de sua competência estabelecida, inclusive, eticamente em relação ao autor e orientador da tese ou dissertação, isso é, sem formação de juízos sobre o texto, mas aparando-lhe as arestas segundo o pensamento do autor e sua intensão.

4. A falácia da falácia

Trata-se de se entender que uma afirmação está errada só porque não foi bem construída ou porque uma falácia foi cometida.
Se o autor for honesto, terá em mente que só porque alguém cometeu um erro em algum texto na sua defesa do argumento, isso não significa que o argumento em si esteja errado.

5. Falácia da ladeira escorregadia

O autor faz parecer que o fato de que, por se ter permitido que aconteça A implica que aconteça Z, e por isso não se pode admitir A. Também chamada de bola de neve ou derrapagem. O autor elabora uma sucessão de premissas e conclusões que conduzem ao absurdo.
O problema é que essa linha de raciocínio evita lidar com a questão real, desviando a atenção para hipóteses extremas. Sem apresentar prova de que tais hipóteses extremas realmente ocorreram, dá-se a forma de um apelo à emoção do medo ou outra.
Exemplo: Se alguém admite o aborto de bebês anencefálicos, logo defenderá o aborto em bebês com síndrome de Down e acabará defendendo todo tipo de aborto.

6. Falácia do argumento ad hominem

O texto ataca o caráter ou traços pessoais do autor de que diverge em vez de refutar o argumento dele.
Ataques ad hominem são golpes pessoais e diretos contra alguém, contra o caráter ou atributos pessoais. O resultado de um ataque ad hominem é prejudicar o adversário fugindo do argumento dele ou sem apresentar um próprio.
Exemplo: Se fulano afirmou isso, não pode ser verdade, pois fulano é de direita e autores de direita são canalhas.

Evitem qualquer falácia em teses e dissertações

Algumas falácias não passam de resultado da teimosia de certos autores, outras são resultados de arraigadas posições políticas ou ideológicas acerca da questão em tópico. De um modo ou de outro, quem está escrevendo uma tese ou dissertação deve estar atento a tudo que escreve para identificar as próprias posições e expurgar aquelas que o estão levando a erro. Sempre no intuito de preservar a intensão do autor é que ocorre a intervenção do revisor de textos que, por sua vez, não pode extrapolar com as próprias convicções políticas e ideológicas.

7. Falácia do tu quoque (você também)

Você evitar ter que se engajar em críticas virando as próprias críticas contra o acusador – você responde críticas com críticas.
Esta falácia, cuja tradução do latim é literalmente “você também”, é geralmente empregada como um mecanismo de defesa, por tirar a atenção do acusado ter que se defender e mudar o foco para o acusador.
A implicação é que, se o oponente de alguém também faz aquilo de que acusa o outro, ele é um hipócrita. Independente da veracidade da contra-acusação, o fato é que esta é efetivamente uma tática para evitar ter que reconhecer e responder a uma acusação contida em um argumento – ao devolver ao acusador, o acusado não precisa responder à acusação.
Exemplos:
  • O autor identifica que cometeu uma falácia lógica, mas, em vez de retificar aquele argumento, acusa outro de ter cometido falácia anteriormente.
  • Zé das Abóboras é acusado de ter desviado dinheiro público. Mas o autor não responde a acusação diretamente e insinua que o oponente de Zé das Abóboras também aprovou licitações irregulares à sua época.

8. Falácia da incredulidade pessoal

O autor considera algo difícil de entender, ou não sabe como funciona, por isso dá a entender que não seja verdade.
Assuntos complexos como evolução biológica através de seleção natural exigem alguma medida de entendimento sobre como elas funcionam antes que alguém possa entendê-los adequadamente; essa falácia é geralmente usada no lugar desse entendimento.
Exemplo: O autor apresenta a gravura de um peixe e um humano e, questiona se realmente alguém é tolo o bastante para acreditar que um peixe acabou evoluindo até a forma humana por processos aleatórios ao longo dos tempos.

9. Falácia da alegação especial

Incorre nessa o autor que altera as regras ou abre uma exceção quando sua afirmação é exposta como falsa. Autores são especialmente criaturas engraçadas, com uma aversão boba a estarem errados.
Em vez de aproveitar os benefícios do contraditório de poder mudar de ideia graças a um novo entendimento, ou para se corrigir em algum equívoco, muitos inventam modos de se agarrar a velhas crenças. Uma das maneiras mais comuns que as pessoas fazem isso é pós-racionalizar um motivo explicando o porquê aquilo no qual elas acreditavam ser verdade deve continuar sendo verdade.
Costuma ser fácil encontrar motivo para acreditar em algo que favorece uma tese decadente, e é necessária uma boa dose de integridade e honestidade acadêmica para examinar as próprias crenças e motivações sem cair na armadilha da autojustificação.
Exemplo: O economista prevê o índice de inflação do ano seguinte, mas quando as suas “habilidades” foram testadas pelo correr do tempo, elas magicamente desapareceram. Ele explicou, então, que fatores imprevistos advieram. Como se todo futuro não fosse feito de imprevistos.

Mais argumentos falaciosos a serem evitados

Outro grupo de falácias que não podem ser encontradas em tese ou dissertação, bem como em nenhum texto sério. Perguntas complexas, inversão de ônus da prova e ambiguidades são, quase sempre, vícios intencionais nos textos. Portanto, na ocorrência desse tipo de falha por desaviso, cabe ao revisor apontar a questão - inclusive para salvar a credibilidade do argumento. Texto fica tão ou mais comprometido pelas falácias, mesmo involuntárias, em que incorre, quanto por lapsos de ortografia e sintaxe.

10. Falácia da pergunta carregada

O autor apresenta uma questão que tem a resposta embutida, de modo que ela não pode ser respondida sem uma certa admissão de culpa. É uma insinuação por meio de um questionamento ou de uma pergunta. Chamada também pergunta complexa.
Questões desse tipo são particularmente eficientes polemizar, graças a sua natureza inflamatória – o interlocutor da pergunta carregada é compelido a se justificar e fica abalado ou na defensiva. Esta falácia não apenas é um apelo à emoção, mas também reformata a discussão de forma enganosa.
Exemplo: A clássica pergunta do debate em O nome da Rosa: "A quem pertencia o manto que Cristo usava?" - A pergunta tem em si a alegação de que a pobreza não é um postulado da fé cristã.

11. Falácia do ônus da prova

O autor espera que o leitor prove que ele está errado, em vez de ele mesmo mesmo provar que está certo. A obrigação da prova está sempre com quem faz uma afirmação, nunca com quem refuta a afirmação. A impossibilidade, ou falta de intenção, de provar errada uma afirmação não a torna válida, nem dá a ela nenhuma credibilidade.
Observar que a ausência de evidência, ou prova, não constitui evidência de ausência, no entanto o ônus da prova permanece subentendido para quem afirma algo, enquanto não houver a defesa da tese primária positiva, pois não é necessário, nem possível, provar que algo não existe, se não há demonstração positiva de que exista.
Exemplo: O autor afirma que não há ocorrência da moléstia tal em determinada área nos últimos tantos anos. A afirmação possível é de que não foi encontrado registro de tal ocorrência: não há como provar o que não aconteceu.

12. Falácia de ambiguidade

O autor usa duplo sentido ou linguagem ambígua para apresentar a sua verdade de modo enganoso. Usa uma afirmação com significado diferente do que seria apropriado ao contexto.
Não pode haver ambiguidade em texto científico, principalmente aquela que permitirá, depois, se houver questionamento, poder-se dizer que não era aquele o sentido da afirmativa. Isso é qualificado como uma falácia, pois é intrinsecamente enganoso.
Exemplo: O autor afirma a escravidão por dívida é desumana. Portanto, os humanos não escravizaram seus semelhantes por dívida.
O jogo e a ambiguidade ocorrem com a palavra "humanos", que possui vários sentidos, podendo ser um tipo de primata (sentido biológico) ou uma boa pessoa (sentido moral), mas a falácia usa a palavra sem considerar a diferença de sentido.

Teses e dissertações não podem conter falácias

As falácias não são apenas argumentos que se devem evitar nos textos acadêmicos, mas equívocos de raciocínio que falseiam decisões comportamentais das pessoas. O revisor de textos não vai mudar o pensamento nem orientar a vida das pessoas, não somos gestores de nada além das concordâncias nos textos. Se o autor incorre, involuntariamente, em algum desses equívocos na dissertação ou na tese, podemos apontar o problema - no máximo!

13. Falácia do apostador

O autor infere a partir de “sequências” fatuais independentes, como resultados rolagem de dados ou números sorteados na roleta. Os resultados da roleta não têm relação entre si; os termos da oração têm.
Apesar de a probabilidade de ocorrência do resultado desejado ser sempre baixa, cada lance de dado é inteiramente independente do anterior. Apesar de haver uma chance baixíssima de um cara-ou-coroa dar cara 20 vezes seguidas, a chance de dar cara em cada uma das vezes é e sempre será de 50%, independentemente de todos os lances anteriores ou futuros.
Exemplo: Muitos gostam de jogar na Mega Sena repetindo os números premiados no concurso anterior, outros evitam sistematicamente aqueles números. Uns preferem apostar nos números que tiveram menor ocorrência, ao logo da séria de todos os concursos, outros apostam naquelas dezenas sorteadas mais vezes! Nenhum desses raciocínios é válido, pois os concursos anteriores não têm nenhuma influência sobre os próximos resultados. Cada sorteio é um evento inteiramente independente.

14. Falácia (ou argumento) ad populum

O autor apela para a popularidade de argumento, no sentido de que muitas pessoas fazem ou concordam ele, como uma tentativa de validação da ideia. Também conhecida como apelo ao povo. É a tentativa argumentar apelando para a grande aceitação da tese por grande quantidade de pessoas. Por vezes, é chamada de apelo à emoção, pois os apelos emocionais tentam atingir toda a população.
O problema desse argumento é que a popularidade de uma ideia não tem absolutamente nenhuma relação com sua validade. Se houvesse, a Terra teria ficado plana por muitos séculos, pelo simples fato de que todos acreditavam que ela era assim.
Exemplo: Se a aceitação maciça de uma tese a justificasse, Hitler poderia ser canonizado, já que suas ideias foram aceitas por quase a unanimidade do povo alemão àquele tempo.

15. Falácia do argumento de autoridade

O autor usa sua posição, seus títulos ou sua visibilidade como argumento válido. No Brasil, a forma mais disseminada disso é popular “carteirada”, versão prática e negativa dessa falácia que quase faz parte de nossa cultura.

Revisores de textos não podem usar argumento de autoridade.

No que diz respeito a essa falácia, as autoridades (acadêmicas, institucionais, intelectuais) podem perfeitamente ter argumentos válidos e não se pode também inverter o raciocínio, como se o argumento daí proveniente seja inválido por sua origem. O argumento deve se sustentar por si, mas, é claro, é perfeitamente possível que ideia do autor na posição de autoridade esteja errada; assim sendo, a autoridade de que tal pessoa ou instituição goza não tem nenhuma relação direta ou inversa com a validade das suas postulações. Também é argumento de autoridade recorrer a outra pessoa que endosse determinada postura, só pela posição ou visibilidade o outro.
Exemplo: O papa pode dizer que o Sol é o centro do universo (e muitos deles pensaram e disseram isso, ao longo dos séculos), ou Pelé dizer que tudo gira em torna da bola, mas nenhuma dessas manifestações vai mudar nada no Cosmo (o firmamento ou o time de futebol).

Expurguem argumentos falaciosos das teses e dissertações

As origens ou a maior incidência de um evento não constituem explicação suficiente para transformar as ocorrências em decorrências. Há muitos equívocos dessa natureza nos textos, alguns acidentais, outros constituídos por vieses ideológicos e ha ainda os intencionais, mas todos deveriam ser, idealmente, banidos do texto científico. Primeiramente, caberia ao autor fugir de tais vícios lógicos, depois, seria papel dos orientadores. Mas mas não é assim que ocorre, tampouco cabe aos revisores depurar textos da ideologia de autores e orientadores.

16. Falácia por composição ou divisão

O autor deduz ou afirma que uma característica de parte de algo deve ser aplicada ao todo, ou a outras partes do mesmo. Ocorre sim que, quando algo é verdadeiro em parte, isso também se aplica ao todo, mas é crucial saber se existe evidência de que se trata desse caso.
Composição ocorre quando o autor conclui que uma propriedade das partes deve ser aplicada ao todo, divisão ocorre, no sentido inverso, quando o autor propõe que uma propriedade do todo é aplicada a cada parte.
Trata-se de um equívoco por erro de valoração, ou de tentativa de induzir erro com base em premissas que não determinam a conclusão. Nesse tipo de equívoco, o raciocínio do autor pode se tornar obliquo, de modo a presumir consistência e padrões onde eles não existem.
Exemplo: Os sistemas de cotas étnicas, em todas suas aplicações, derivam teste tipo de raciocínio. O pressuposto é que, em uma sociedade justa, as vagas nos parlamentos, cátedras, instituições deveriam ser distribuídas segundo os mesmos índices pelos quais as etnias estão disseminadas na população. Ocorre que nenhuma instituição é representação fractal da sociedade, pois existem interesses, motivações e capacidades diferentes que integram cada uma delas.

17. Falácia da exclusão do grupo (“escocês de verdade”)

O autor faz o que pode ser chamado de apelo à pureza como forma de rejeitar críticas relevantes ou falhas no seu argumento.
Nesta forma de argumentação falha, a crença de alguém é tornada infalsificável porque, independentemente de quão convincente seja a evidência apresentada, a pessoa simplesmente move a situação de modo que a evidência supostamente não se aplique a um suposto “verdadeiro” exemplo. Esse tipo de pós-racionalização é um modo de evitar críticas válidas ao argumento de alguém.

Raciocínio típico:

  • Nenhum escocês coloca açúcar em seu mingau.
  • Ora, eu tenho um amigo escocês que faz isso.
  • Ah, sim, mas nenhum escocês "de verdade" coloca.
Exemplo: O verdadeiro socialismo não poderia causar a opressão como é praticada em Cuba. Ah, mas aquele não é o verdadeiro socialismo, senão o que é possível face a opressão dos EUA.

18. Falácia genética

Sempre revise, sempre formate com profissional.
Origem não é prova suficiente.
O autor emite juízo ou explicação tendo por base elemento bom ou ruim segundo sua origem. O engodo consiste em aprovar, desaprovar explicar ou prever algo baseando-se unicamente em sua origem.
Esta falácia evita o argumento ao levar o foco às origens de algo ou alguém. É similar à falácia ad hominem no sentido de que ela usa percepções negativas já existentes para fazer com que o argumento de alguém pareça ruim, sem de fato dissecar a falta de mérito do argumento em si.
Exemplo: A corrupção e a burocracia nos governos brasileiros são decorrentes das falhas no sistema administrativo português instaurado por Dom Dinis (sexto rei de Portugal, 1279-1325). Ou: As aristocracias na política brasileira tiveram origem nas Capitanias Hereditárias.

Não usem argumentos falaciosos em ciência

As falácias são recorrentes em todo tipo de texto, em todo tipo de argumentação. Elas são tantas que precisamos mesmo nos policiar para não incorrer em nenhuma delas. Não devemos incorrer involuntariamente e seria altamente desejável que elas não fossem intencionais, principalmente no texto científico. O revisor da tese ou da dissertação deve ter sensibilidade para identificar as falácias involuntárias do autor e, infelizmente, passar ao largo das outras, pois a crítica a elas foge da competência dele no caso, cabe ao orientador tratar do assunto. 

19. Falácia do preto ou branco

O autor apresenta dois estados alternativos como sendo as únicas possibilidades, quando de fato existem outras. Essa falácia ficou um pouco fora de moda depois que os muitos tons de cinza ficaram conhecidos. Ela é conhecida como falso dilema, aparenta estar formando um argumento lógico, mas sob análise mais cuidadosa fica evidente que há mais possibilidades além das duas apresentadas. 
O raciocínio binário da falácia preto ou branco não leva em conta as diversas variáveis, condições e contextos em que existiriam mais do que as duas possibilidades apresentadas. Ele molda o argumento de forma enganosa e obscurece o debate racional e honesto.
Exemplo: Ou você concorda comigo, ou está contra mim.
O inverso dessa falácia é o meio-termo: o autor conclui ter havido um déficit de quinze bilhões, já o governo diz que o déficit é de dez bilhões e a oposição alega um déficit de 20 bilhões!

20. Falácia do círculo vicioso

O autor apresenta um argumento circular no qual a conclusão foi incluída na premissa. Este argumento logicamente incoerente geralmente surge em autores que têm posturas ideológicas bastante enraizadas e, por isso, consideram seus postulados verdades absolutas. É a tentativa de provar uma conclusão com base na retroalimentação, o efeito reforçando a causa.
Racionalizações circulares são ruins principalmente porque não são muito boas.
Exemplo: “Este argumento é perfeitamente válido, pois é coerente com a teoria marxista e os argumentos marxistas abonam todo meu raciocínio.”

21.  Apelo à natureza

O autor argumenta que algo, por ser natural, é válido, justificado, inevitável ou ideal. Mas só porque algo é natural, não significa que é bom. O crime, por exemplo, é bem natural, e mesmo assim a maioria de nós concorda que não é lá uma coisa muito legal de você sair fazendo por aí. A “naturalidade” não justifica nem explica nada.
Exemplo: Os alimentos naturais são muito melhores para a saúde – afirmativa que questionarei até quem me apresentem um alimento sobrenatural subsistente.

Tenha cuidado com argumentos falaciosos, os seus e os alheios 

Mais três falácias típicas, sempre a serem evitadas nos textos formais como as teses de doutorado. Essas falácias não completam a série dos recursos erísticos inadequados, mas vamos colocar fim à lista para tratar de outros assuntos. O leitor poderá se aprofundar pesquisando pelo tema; veja que há mais questões que não foram apontadas nesta listagem, mas poderiam estar. A lista segue grande: falácia do apelo à antiguidade, ou à novidade; apelo a preconceito; falácia do acidente, ou sua inversão; falácia da causa diminuta; falácia de deus nas lacunas; petição de princípio; e tantas outras.

22. Falácia anedótica ou fática

"Acredite, é fato!"
O autor usa experiência pessoal ou exemplo isolado em vez de argumento sólido ou prova convincente. Consiste em se alegar um fato, geralmente comum, como generalização abstrata. É bem mais fácil para as pessoas simplesmente acreditarem no testemunho de alguém que entender dados complexos e variações dentro do continuum.
Medidas quantitativas científicas são quase sempre mais precisas que percepções e experiências pessoais, mas a nossa inclinação é acreditar naquilo que nos é tangível, na palavra de alguém em quem confiamos, em vez de em uma realidade estatística mais “abstrata”.
Exemplo: O autor alega que nunca foi entrevistado pelo Instituto Pesquisa e questiona se o leitor terá sido, disso conclui que os resultados das preferências eleitorais não é válido. Ora, como qualquer pesquisa se faz por amostragem, maior é a possibilidade que alguém não tenha sido entrevistado, o que não invalida nenhum resultado alcançado.

23. Falácia do atirador texano

O autor escolhe muito bem um padrão ou grupo específico de dados que sirva para provar o seu argumento sem ser representativo do todo.
Esta falácia de “falsa causa” ganha seu nome partindo do exemplo de um atirador disparando aleatoriamente contra a parede de um galpão, e, na sequência, pintando um alvo ao redor da área com o maior número de buracos, fazendo parecer que ele tem ótima pontaria.
O texto do autor aponta grupos específicos de dados como esse aparecem naturalmente, e de maneira imprevisível, mas não necessariamente indicam que há uma relação causal.
Exemplos: O autor alega ter previsto determinada crise depois que ela tenha ocorrido. Comum e lamentável é a seleção de entrevistados com alta probabilidade de referendarem a hipótese postulada.

24. Falácia do pombo enxadrista

Consiste em o autor proclamar vitória, dando a entender que venceu o debate, sem ter conseguido realmente apresentar bons argumentos. É uma bravata contra as ideias contrárias. O nome refere-se a alegoria de que, se alguém for jogar xadrez com um pombo, a ave sobe no tabuleiro, derruba as peças, defeca, e voa arrulhando vitoriosa.
O conceito da falácia do pombo enxadrista foi criado na internet como uma ironia especialmente relacionada a debates sobre a questão "Criacionismo versus Teoria da Evolução" dos seres vivos, mas é expansível seu uso como comportamento em qualquer debate. É falácia típica de autor menos provido de referências e embasamento técnico-científico ou formalismo que, sem mais contra-argumentos, age com infantilidade.
O autor, quase reconhecendo sua fraqueza, quando fica sem argumentos, cai em falácias e começa a agredir verbalmente a posição contrária (propriamente a clássica falácia do argumentum ad hominem), mas sai cantando vitória (falácia da falsa proclamação de vitória) em seguida.

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