Pular para o conteúdo principal

O processo de revisão de textos

Embora tenhamos notado aumento significativo dos profissionais de revisão de textos no mercado de trabalho, infelizmente, pouco se discute sobre o processo de revisão. 

Com o avanço da tecnologia, alguns autores acreditam que programas de computadores, como corretores ortográficos, substituem o revisor de textos. Facilitaria, pois, para qualquer autor, se pudesse confiar fielmente nas correções feitas pelo Word. Não deve! O trabalho de revisão de textos vai muito além de uma simples revisão linguística.
Todos os livros editados passam por revisão de textos.
A revisão de textos é um trabalho
técnico com profundo embasamento
científico.
No texto Revisão Textual: para além da revisão linguística, de Leandra Batista e de Sueli Coelho, encontramos informações esclarecedoras sobre o processo de revisão de textos, as quais reafirmam a tese de que esse trabalho ultrapassa a revisão linguística – que contempla as questões ortográficas e gramaticais. Além dessa revisão, de acordo com as autoras, outras também devem ser levadas em consideração, tais como a gráfica, a normalizadora e a temática.
Na revisão gráfica, o revisor é atento ao gênero e à textualidade do texto a ser revisado. Serão elas que nos mostrarão qual linguagem (coloquial ou formal) será mais adequada para o texto. Portanto, assim como Batista e Coelho, acreditamos ser essa a primeira etapa do processo de revisão, será a partir dela que o revisor dará continuidade ao seu trabalho.
Quanto à normalizadora, o profissional de revisão de textos adequa o texto às normas de publicação do local onde será circulado. Os meios de comunicação, tais como sites, jornais, revistas, entre outros, exigem normas específicas, o revisor precisa estar atento a elas para que o texto seja padronizado conforme as normas exigidas por esses meios.
Já na temática, o profissional de revisão de textos se preocupará com o interlocutor, a função, a situação e o conteúdo texto. As informações presentes no texto devem estar de acordo com o tema do tramalho e, como defendem Coelho e Leandra, devem ser consistentes em função da situação e do público-alvo, o interlocutor.
Depois de o texto passar por essas revisões, ser preparado e adequado, é que temos, finalmente, a revisão linguística. Acreditamos ser essa a última – mas não menos importante! – etapa desse processo. O revisor se preocupará com as questões ortográficas e gramaticais, tais como a regência nominal e verbal, concordância, grafia.
Considerando a importância de o texto a ser revisado passar por todas essas etapas de revisão (gráfica, normalizadora, temática e linguística), entendemos, dessa forma, o trabalho do revisor muito mais como um trabalho de adequação que de correção. Por isso, o processo de revisão de textos vai muito além da revisão gramatical e ortográfica, o que torna imprescindível a presença do profissional de revisão na elaboração de um texto. (Ricardo Alves, baseado em Coelho e Antunes.)

Revisão e estabelecimento de texto

O estabelecimento de um texto, tanto de um texto científico, tese, livro técnico, artigo, ou de um texto criativo, romance, poesia, se dá pela publicação depois da qual o autor se dá por satisfeito.
O estabelecimento do texto pode ser compreendido como alcance de sua versão publicável e, quando se processa por meio da revisão, é um trabalho que envolve ecdótica (ciência e a técnica que busca restituir a forma mais próxima possível do que seria a redação de um texto idealizada por seu autor, executando a sua edição definitiva), de hermenêutica (ciência ou técnica que tem por objeto a interpretação de textos) e de exegese (esclarecer ou interpretar minuciosamente um texto ou uma palavra).
É impossível, em princípio, estabelecer (e publicar) um texto que não possa ser totalmente compreendido pelo editor ou pelo leitor-alvo, ainda que alguns aspirem a uma como objetividade mecânica na operação ou ainda que esse grau de compreensão possa ser aprofundado por outrem. Dessa forma, a inteligência de um texto se logra pelo crivo:
  1. de todas as particularidades do texto, para que eventualmente qualquer uma dessas particularidades sirva de lição para qualquer outra do mesmo texto (coerência interna);
  2. de todas as particularidades e generalidades do contexto – no que, inclusive, a história, a erudição em geral, a geografia, a filologia, as ideias coetâneas, os ideais coetâneos, do autor, da sua geração, do país, da nação, do mundo, até o seu tempo, do passado, possam trazer suas luzes (coerência externa);
  3. dos textos alheios anteriores e contemporâneos do autor, na dupla operação (a) e (b) acima configuradas (coerência autoral);
  4. assim, na base do protótipo ou arquétipo, ou da edição de base, é factível alcançar máxima legibilidade com menor número de falhas materiais ou normativas.
A revisão de textos é uma atividade interdisciplinar de grande utilidade e indispensável para a atividade de editorial, que pode executá-la, inclusive, com imagem, som, movimento e interação com o leitor, através dos diversos recursos disponibilizados pela multimídia eletrônica (revisão de multimídia).
A revisão de textos é indispensável para a edição de textos científicos e pode ser realizada por filólogos, mas também pelos inúmeros revisores de outras formações que tanto têm contribuído para a divulgação de bons textos acadêmicos, como se pode exemplificar com o trabalho de Claudio Cezar Henriques sobre as Atas da Academia Brasileira de Letras, resultante de sua tese de concurso para Titular de Língua Portuguesa na UERJ (Silva, J. P).

A revisão do texto é a hora de aperfeiçoar

Textos de boa qualidade precisam passar por revisão moderna e interativa. Ortografia, sintaxe e coerência estão entre os pontos a serem abordados durante o processo revisional, mas haverá muito além disso a ser revisado.
Já se foi tempo em que revisar um texto significava apenas uma caça a erros ortográficos e de outros aspectos gramaticais nos textos dos autores feita pelo revisor. Sabemos hoje a importância de desenvolver a comunicabilidade do texto e refinar sua inserção no gênero textual pretendido; o processo de revisão se inclui aí. Por isso, ele também deve ser direcionado para os pontos que colaboram com os aspectos discursivos, como clareza e coerência na dissertação ou na narração; tudo sendo feito com a participação dos autores em processo cooperativo e interativo: nada mais de o autor dar o trabalho por concluído e o remeter ao revisor (para depois reclamar das interferências feitas).
É importante desconstruir o mito de que revisar é a etapa final da produção. Em sua tese de doutorado, Procesos de Revisión de Textos en Situación Didáctica de Intercambio entre Pares, a pesquisadora argentina Mirta Castedo ressalta que "os bons escritores não realizam as ações de planejar, escrever e revisar de maneira sucessiva, mas vão e voltam de uma a outra. Eles escrevem partes, releem e modificam, detectam expressões incompreensíveis e corrigem erros". O revisor, nesse sentido, é um par do autor, um colaborador privilegiado que terá acesso ao texto como leitor profissional que tem a possibilidade de discutir com o autor o produto (o texto) e propor aperfeiçoamentos.
Para que todos os procedimentos que visam o aprimoramento do texto possam ser feitos com competência e eficiência, é preciso trabalhar de forma interativa, integrando o autor ao revisor ou à equipe de revisores. No processo coletivo, a equipe envolvida deve se debruçar sobre um texto autoral e apontar o que precisa ser repensado, como palavras repetidas, termos incoerentes e mudanças na posição do narrador. É natural que, às vezes, o autor não identifique à primeira vista os problemas e as soluções satisfatórias. É papel do revisor propor alternativas e trazer à tona questões de fundo e de linguística às quais o autor não tenha atentado durante a redação.
Ao trabalhar em cooperação com o autor, o revisor propõe alterações baseadas em argumentação técnica, a fim de prover o autor de subsídios para tomar decisões comunicacionais ou estéticas. A revisão fica sempre mais proveitosa se a interação for dinâmica e paulatinamente direcionando o revisor segundos as preferências do autor e seu estilo.
O ato de revisar o produzido deveria permear, preferencialmente, todas as etapas da redação – o que nem sempre é possível. O que muda na atualidade é a abordagem do revisor e os conteúdos destacados. O processo tem de ser estendido, pois um escritor que sabe o que precisa ser alterado em seus textos ou de terceiros passa a ser um leitor mais exigente e passa a requerer revisores mais qualificados.

A revisão da tese proporciona texto mais articulado

Em quase todas as áreas de conhecimento, hoje em dia, se exige a produção de textos, quer na graduação, quer na pós. Em função disso, o número de textos acadêmicos produzidos é enorme. Mas não se pode dizer o mesmo, sempre, da qualidade dos textos elaborados – principalmente do ponto de vista linguístico, aspecto em que os problemas são mais graves na mesma proporção que a produção cresce.
É bastante comum encontrar erros (sejam de ortografia, digitação ou concordância) mesmo em teses e dissertações da área de Letras! Mas o mais comum é que se encontrem textos confusos e frases vazias em quaisquer áreas de que o texto seja proveniente. Por pressa conclusão do trabalho, muitos detalhes acabam passando despercebidos – inclusive a própria revisão do texto.
A revisão feita por profissionais pode tornar o texto mais interessante, mas ela, antes inclusive de tentar eliminar as falhas decorrentes de lapsos e das contínuas reelaborações do texto pelo autor e por seu orientador, procurará dar coerência interna e externa a cada informação, a cada dado apresentado.
Com o crescimento do número pós-graduações, a produção de literatura científica – artigos, teses e dissertações – também se expandiu vertiginosamente e é possível perceber textos que são defendidos ou publicados sem o devido tratamento, essa lacuna qualitativa diminui o interesse dos leitores, mesmo quando são daquele campo de conhecimento, e tende a tornar a leitura enfadonha, nem tanto por causa do assunto, mas em virtude de falhas estruturais apresentadas; felizmente esses aspectos negativos podem ser evitados pela revisão profissional.
A revisão de texto se faz sem alterar o estilo do autor ou o conteúdo. Nenhuma alteração é proposta sem que haja justificativa linguística precisa. Mas a revisão acadêmica visa, além das correções ortográfica e gramatical, garantir uma boa estrutura, clareza e coerência das ideias apresentadas. Além do mais, procura fazer o texto cativar o leitor.
Muitas vezes, o autor do texto tem uma ideia brilhante, seja para um artigo científico, seja uma dissertação ou tese. Mas ele pode ter dificuldade em expressar e estruturar essa ideia, fazendo com que ela perca em originalidade. A revisão acadêmica pode solucionar da melhor forma possível as questões de comunicabilidade textual com o aval do autor quando é feita de modo interativo.
Depois de tudo que foi colocado, é sempre bom frisar, a boa revisão acadêmica se preocupa com a estrutura e a clareza das ideias, mas não pode nunca interferir no estilo ou nas ideias do autor.

Postagens mais visitadas deste blog

Principais estilos de citações bibliográficas e referências

Formate sua tese ou dissertação na Keimelion Os estilos de citações são muitos, cada revista científica, cada programa de pós-graduação decide qual estilo vai adotar, como fazer as citações. Primeiramente, vale informar que "estilos científicos" não são estilos "literárias", mas a edição de estilos, ou seja, modos de apresentação de conteúdo estruturados, formas de escrever artigos científicos , apresentação, organização de conteúdo, formas fazer abreviações, anexos e fotos presentes nos textos e, além disso, formas de citações bibliográficas e de referências . Por isso as formas de citações dependem de cada estilo científico.  As normas são muitas para as referências, mas o princípio é sempre o mesmo: a transparência. Para trabalhar com estilos de citações, é melhor usar um gerenciador de bibliografias como Refworks, Zotero, EndNote, Reference Manager, BibText e outros similares. Mesmo o Word que todo mundo tem faz esse serviço. O que impressiona muito é que a qua

A seleção do título no artigo científico

Título de artigo pode ser pedra angular na carreira Um artigo científico cujo titulo foi bem escolhido tem mais leituras e mais citações! Poucos refletem sobre os títulos de seus artigos científicos e até mesmo sobre os das teses. O revisor do texto poderá oferecer alternativas, mas considere um pouco os princípios que apresentamos.  O título do artigo científico deve ser definido, se possível, com o menor número de palavras para descrever adequadamente seu conteúdo. Digamos que ele seja o "cartão de visita" do trabalho. A maioria das pessoas que acessam o artigo não o lê completamente, um dos motivos que desencadeiam essa situação é um título desinteressante que não reflita o conteúdo do artigo com precisão e clareza. O título é parte de um texto, e parte importante, sobre a qual é necessária alguma reflexão e para cuja elaboração existem técnicas. Nunca despreze a importância do título. Primeiramente, pense bem sobre o conteúdo de seu trabalho, identificando termos releva

Estrangeirismos e redação acadêmica

O que é estrangeirismo? Por que a implicância? Pode-se ou deve-se usar estrangeirismos em teses e dissertações ? Existe linguagem científica sem estrangeirismos? Onde encontrar as palavras em português? Estrangeirismo ou peregrinismo é o uso de palavra, expressão ou construção estrangeira que não tenha equivalente vernácula em nossa língua. É apontada nas gramáticas normativas como um vício de linguagem , mas há muito esta é apontada como uma visão simplista por diversos linguistas, como Marcos Bagno , da UnB , John Robert Schmitz , da UNICAMP e Carlos Alberto Faraco , da UFPR .   (Wikipédia) Talvez seja conseqüência de um conjunto de fatores o que leva os brasileiros a imaginar como místicas e esotéricas as palavras ordinárias usadas no inglês para dar nomes às coisas. Nesse conjunto, constato a presença do deslumbramento pelos falantes de inglês, da ignorância da língua portuguesa, da ignorância da língua inglesa, da ignorância da cultura estrangeira, da ignorância de etimol

Como escrever títulos atraentes em poucos passos: do artigo à tese

Como aumentar o número de leituras de seu artigo? Você gostaria que sua tese ou dissertação fosse muito lida e citada ao invés de ignorada? Claro, qualquer autor deseja isso! Acontece que, atualmente o número textos acadêmicos que encontramos em qualquer pesquisa é muito grande, enorme. A concorrência entre todos os autores, na busca pelo leitor, não tem tamanho. Claro que o mais importante sempre vai ser a qualidade do trabalho, e clareza das ideias e um texto bem limpo, mas o título tem que ser um ponto de destaque também! E existem técnicas para títulos atrativos , que fujam do enfadonho jargão acadêmico e que transmitam a mesma ideia com uma linguagem mais moderna e atraente; veja um exemplo de título à antiga – que eu jamais adotaria – para esta postagem: Questões de legibilidade, ergonomia visual e empatia em títulos de teses, dissertações e artigos acadêmicos: uma discussão propositiva de aplicação da técnica AIDA. Convenhamos, dá até preguiça de ler até o fim, mas você certame

Método científico ou experimental – a pesquisa e a redação

O método científico é a base da pesquisa. Nos tempos antigos o homem tentou explicar fenômenos naturais, mas tudo se atribuía à ação das divindades, ou à bruxaria e magia. Com Galileo Galilei (1564-1642), foi introduzido o método experimental ( método científico ): ele se baseia em uma primeira observação, seguida de um experimento, desenvolvido de forma controlada, para que nós possamos reproduzir o problema que se deseja investigar. O experimento visa validar ou refutar a hipótese de que o cientista formulou, que visa explicar os mecanismos de funcionamento de determinado evento. Revise seus textos na Keimelion: nossa experiência no ramo é desde o século passado! No primeiro caso (validação da hipótese) prossegue-se com a execução de grande número de experimentos, para que os resultados obtidos sejam confiáveis (análise estatística): os dados coletados são processados e em seguida, formula-se uma teoria: ela é usada, muitas vezes em conjunto com outras teorias para a formulação de um