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Três questões linguísticas bem distintas

As inquietações dos linguistas são bem variadas, passam pelo emprego das locuções, pela concordância na voz passiva e pelos valores culturais da língua!

Aqui estão três pequenos textos de Ricardo Alves, nosso colaborador, quando ainda era estagiário conosco. Excelentes contribuições que voltamos a publicar, agora em conjunto. São três motes sempre presentes na atividade de revisão de textos.

O uso problemático de “na medida em que”

Nas revisões de textos, principalmente de teses e de dissertações, notamos com frequência o uso de “na medida em que” como locução conjuntiva, seja no sentido proporcional, no causal ou no condicional. A partir do uso dessa expressão, encontramos dois equívocos que são condenados pela norma culta, a de maior prestígio social: o primeiro diz respeito à forma dessa expressão e o segundo a seu uso com valor causal ou condicional.
O texto tem que permitir a comunicação sem ruídos.
A revisão de textos se ocupa
de aperfeiçoar a comunicação.
Ao pesquisarmos algumas gramáticas, tanto tradicionais, como Cunha (1983), e descritivas, como Bechara (2009), na verdade, encontramos a expressão “à medida que”. Acreditamos que o uso de “na medida em que” decorre de o falante de língua portuguesa reconhecer intuitivamente o “que” como pronome relativo, acrescentando, portanto, a preposição “em”. A esse fenômeno linguístico damos o nome de hipercorreção, uma correção que vai além do que realmente deve ser corrigido no texto. A palavra “que” em “à medida que” é vazia de sentido, não possuindo nenhum valor sintático – ela apenas faz parte de uma expressão já cristalizada.
O outro equívoco cometido por autores em seus textos é o de usar essa expressão com o sentido de causa ou de condição. “À medida que” é uma expressão que possui apenas o valor proporcional, os outros valores a ela atribuídos são condenados pelas gramáticas.


O erro de concordância nas estruturas passivas sintéticas: vende-se filhotes de Chow Chow

Na rua onde moro, encontrei em uma das casas uma placa que dizia: vende-se filhotes de Chow Chow. Fiquei o dia inteiro pensando nessa placa, mesmo que seja muito comum encontramos anúncios tais como aluga-se casas, vende-se automóveis. Pensei não apenas em explicar o porquê de essas orações estarem gramaticalmente erradas, mas também por que os falantes sempre cometem esse erro de concordância. Pois bem, segundo a tradição dos estudos da linguagem, há um grave erro de concordância nessas orações: o verbo alugar não concordar com o sujeito casas. Estruturas desse tipo são classificadas pela gramática tradicional como voz passiva sintética. Além de o pronome SE, na língua portuguesa, exercer diversas funções, como índice de indeterminação do sujeito, pronome reflexivo, parte integrante do verbo e parte expletiva, ele também é partícula apassivadora – como é o caso dessas estruturas que propus explicar neste texto.
            A forma correta, segundo a gramática, é vendem-se filhotes de Chow Chow, alugam-se casas, vendem-se automóveis. Há sujeitos nessas orações: filhotes […], casas, automóveis, que são classificados como sujeito passivo, uma vez que se tem um pronome SE partícula apassivadora. Esse pronome sempre receberá essa classificação quando for acompanhado por um verbo transitivo direto ou transitivo direto e indireto. Além dessa, há uma outra forma de descobrirmos se o SE é uma partícula apassivadora. Normalmente, é possível transformarmos as estruturas passivas sintéticas em passivas analíticas, como nos exemplo: as formas analíticas das orações citadas acima são filhotes de Chow Chow são vendidos, casas são alugadas, automóveis são vendidos. Se percebermos atentamente, veremos que os verbos dessas orações, como vender, são verbos transitivo direto (quem vende, vende alguma coisa – essa pergunta sempre nos ajuda a descobrir a transitividade do verbo) e que filhotes de Chow Chow é o sujeito passivo. Dessa forma, a concordância entre o verbo e o sujeito é necessária.
Mas será por que motivo os falantes de língua portuguesa erram com frequência estruturas como essas? Acredito que essa não concordância do sujeito com o verbo nas estruturas sintéticas se dá pelo fato de o falante não conseguir identificar como sujeito uma palavra que está depois do verbo, onde geralmente é o lugar de objeto. É possível também que ele associe o SE das passivas sintéticas com a SE índice de indeterminação do sujeito pelo fato de haver uma grande semelhança entre essas estruturas. No entanto, para não mais confundirmos essas estruturas, No índice de indeterminação, temos o verbo transitivo indireto, vejamos na oração: precisa-se de trabalhadores. O verbo não vai para o plural pois nesse caso trabalhadores não é o sujeito da oração, mas objeto indireto. Nessa frase, o sujeito é indeterminando, pois o SE exerce a função de indeterminá-lo.

Os valores de uma língua feridos por um Acordo

A língua, assim como a pátria, tem sua própria identidade, ela carrega a história, a cultura e os valores de um povo. E é por ter uma identidade que a língua possui suas complexidades que a fazem ser singular. Assim como toda língua, na portuguesa também encontramos particularidades, e uma das tantas diferenças dessa língua para as outras diz respeito ao tão polêmico sistema ortográfico, que são dois: um adotado por Portugal e por países africanos, o Português de Portugal, e outro pelo Brasil, o Português brasileiro. 
Em 1945, houve um Acordo Ortográfico para que se acabasse com essa duplicidade da língua portuguesa e unificasse sua escrita, mas apenas Portugal o adotou. Depois, só em 1990 que se voltou a comentar sobre esse assunto e se tentou, novamente, consolidar o Acordo, que nesse ano foi assinado apenas pelos países lusófonos. Essa tentativa de fazê-lo entrar em vigor tornou-se uma novela que até hoje, em 2013, assombra os países que têm o português como língua oficial. 
Fernando Pessoa
“Minha pátria é minha
língua portuguesa”
Por mais que estejamos vivenciando uma novela para que a reforma entre em vigor, para alguns, ela é necessária: o Acordo surgiu como forma de fortalecer a língua portuguesa e contribuir para a sua difusão nos textos escritos. No entanto, os mesmos que acreditam nesse fortalecimento alegam que a reforma ortográfica não mexe na língua. Ora, mas a ortografia está relacionada à língua. Há, portanto, um grande equívoco, pois unificar a ortografia é, de certa forma, mexer na língua – a grafia vai se formando a partir dos processos de formação da língua. Além disso, há também o equívoco de querer fortalecer o português unificando apenas a ortografia, ainda mais com uma reforma tão carente quanto esta, que contempla de forma pouco racional o uso da acentuação e do hífen. O português, tanto o escrito quanto o falado, por exemplo, entre os países Portugal e Brasil, difere de forma bem significativa, que ultrapassa a ortografia: há diversas palavras diferentes para se dizer uma mesma coisa.
Dessa forma, o Acordo Ortográfico não nos parece unificar a língua portuguesa, mas impedir que ela se desenvolva e se transforme naturalmente. E se ela evolui de forma natural, a implantação de um acordo completamente arbitrário será em vão. Há inúmeros problemas relacionados ao uso da língua que deveriam ganhar atenção, principalmente os que dizem respeito ao ensino da gramática em sala de aula, que pouco são discutidos e não possuem visibilidade nacional. O fato de a língua portuguesa ter dois sistemas ortográficos não deveria ser visto como um problema, mas como uma singularidade. Negar essa peculiaridade é ferir os valores da língua, do povo, da pátria, pois já dizia Pessoa, um famoso escritor lusófono: “Minha pátria é minha língua portuguesa”.
Textos de Ricardo Alves.

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