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Revisão de textos em perspectiva multidisciplinar

Revisão de textos não é tarefa para professor de português; a formação dele é diferente daquela do revisor e as experiências profundamente distintas. Nada impede que uma pessoa tenha as duas qualificações e os dois ofícios, mas é preciso prestar atenção se é o caso.

O problema da monodisciplinaridade na definição do que seja revisão textual é a abordagem vinculada estritamente à tradição gramatical. A proposta mais moderna, no entanto, é que o estudo da atividade de revisão de textos deve ser realizado de modo multidisciplinar pela Linguística, pela Didática e pela Psicologia Cognitiva. Por essência, a revisão de textos é atividade multidisciplinar porque os pesquisadores que se debruçam sobre ela objetivam aprofundar conhecimentos sob diferentes perspectivas:

  1. a revisão realizada por diferentes escritores (alunos, autores, revisores);
  2. em contextos de produção variados (profissional, escolar);
  3. em diferentes modalidades (manuscrita, informatizada, tomadas de notas);
  4. em diferentes níveis de focalização (unidades frásticas isoladas, textos inteiros, obras literárias);
  5. em situações monogeradas (reescrita de um texto por seu autor, sob a base ou não do feedback de leitores) ou poligeradas (escrita colaborativa).
Dissertações e teses bem revisadas têm leitura mais acessível.
Nenhum revisor moderno pode mais pensar
a revisão adstrita à tradição gramatical.
Assumimos, aqui, que a revisão, independentemente de quem a realiza, em que contexto e com que objetivo, é uma etapa da produção de textos, porque o desvio – no sentido de assimetria – é constitutivo da linguagem. O simples fato de a língua ser usada, seja na modalidade oral, seja na escrita, implica que nenhum texto atenda a todas as disposições da tradição gramatical. Cabe notar que nem mesmo as obras literárias de cujos trechos a gramática tradicional extrai essas disposições escapam à força do uso real da língua, na medida em que essas mesmas obras apresentam ocorrências gramaticais divergentes das regras formuladas pela mesma lente que as tomou como corpus. Não há mais quem defenda que escrever é um processo de inspiração. Sabe-se hoje que os produtos textuais, tanto os mais elaborados quanto os menos elaborados, envolvem uma fase de pré-escritura e uma de pós-escritura.
Outro problema que consideramos necessário à reflexão aqui proposta diz respeito à formação do referido autor. Esse é um dos problemas da área de revisão textual, pois há profissionais de diversos ramos atuando com os mesmos fatos linguísticos. A diversidade de enfoques sempre é enriquecedora, ainda mais numa época em que se evidencia a necessidade de pensar o mundo multi-, inter- e transdisciplinarmente. Todavia há que se sistematizar essa situação, a fim de que as peculiaridades da atuação e formação do revisor não se percam entre olhares aleatórios sobre questões aleatórias.
É nossa esperança e nosso desejo que, construída tal metodologia de atuação e formação do revisor de textos com base nas descobertas da linguística, seja possível ao revisor-cientista, e não ao revisor-inquisidor, fazer pertinentes propostas de alterações tipográficas, ortográficas, gramaticais, lexicais e discursivas. Isso porque, se o revisor de textos estiver “cego” com o ideal de língua da tradição gramatical e preso ao nível da frase – sobretudo o da frase didaticamente descontextualizada, ele não terá condições de avaliar que, por exemplo, um anúncio publicitário de empresa de telefonia móvel destinado a adolescentes não exige a mesma formalidade que um artigo jurídico produzido por um Procurador de Justiça a ser publicado em periódico de instituição estatal.
Pelo contrário, o profissional deverá ser capaz de perceber que será cabível, por exemplo, a ocorrência de construções de tópico apenas na primeira situação de uso real da língua. Ainda assim, a principal mudança de perspectiva por parte dos profissionais de revisão é abandonar a concepção de revisor-inquisidor. Cabe ao revisor de textos, em vez disso, propor alterações necessárias à adequação dos textos às condições de produção e recepção desses textos. E tais alterações compreendem desde as escolhas tipográficas e ortográficas, passando pelas gramaticais e lexicais, até as estilísticas e discursivas.
Fragmentos adaptados de Costa, Rodrigues e Pena.
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