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Revisor de textos: entre a tradição gramatical e a fluidez textual

O grande público entende que revisão de textos seja uma atividade de modificação, correção em um texto já escrito que é realizada por terceiros; atualmente, ela é muito mais que isso.

O revisor de textos moderno precisa extrapolar os limites da tradição gramatical que geralmente composta três elementos: i) a “gramática tradicional”, o conjunto de ideais, ideologias, concepções, avaliações de língua que servirão de preceitos para a “gramática normativa”; ii) a “gramática normativa”, que regulamenta a gramática tradicional, isto é, dá-lhe uma materialidade verbal em forma de lei; e iii) os “comandos paragramaticais”, uma espécie de apêndice da gramática normativa e corresponderiam às noções veiculadas por revistas e jornais de ampla circulação e a sites diversos (repletos de matérias,  colunas, postagens sobre como falar e escrever “corretamente”).
Apesar do uso provisório da expressão “tradição gramatical” – a fim de possibilitar a referência a um mesmo tipo de fontes de consulta do revisor de textos, vale observar que o único motor da gramática normativa e dos comandos paragramaticais é a gramática tradicional.
Nunca o texto está pronto, mas jamais
o texto sem revisão deverá ser publicado.
A língua-padrão não pode ser coletada e descrita empiricamente pelos cientistas da linguagem. Daí decorre a acientificidade da gramática tradicional e, por extensão, da tradição gramatical, na medida em que tanto uma quanto a outra descrevem a língua-padrão.
Tanto no senso comum como, provavelmente, na maioria das situações práticas – mesmo dentro da academia, o revisor de textos seria concebido como um “inquisidor” responsável por fazer valer, incondicionalmente, os “preceitos” e as “leis” da tradição gramatical.
A rigor, palavra “revisão” deve ser utilizada no plural, uma vez que ela se refere às modificações realizadas em um texto. Tal concepção deve ser exercida do ponto de vista da atividade profissional da revisão, compreendendo as ações de interromper a progressão do texto, a fim de estabelecer um produto em ponto de ser consumido.
A revisão é vista como uma atividade de modificação em um texto já escrito que é realizada por terceiros. A revisão, independente de quem a realiza, em que contexto e com que objetivo, é uma etapa da produção de textos, porque o desvio – no sentido de assimetria – é constitutivo da linguagem e parte da função do revisor são os eventuais ajustes nestes desvios, ou sua assimilação consciente ao produto.
O simples fato de a língua ser usada, seja na modalidade oral, seja na escrita, implica que nenhum texto atenda a todas as disposições da tradição gramatical. Cabe notar que nem mesmo as obras literárias de cujos trechos a gramática tradicional extrai essas disposições escapam à força do uso real da língua, na medida em que essas mesmas obras apresentam ocorrências gramaticais divergentes das regras formuladas pela mesma lente que as tomou como corpus.
Ainda assim, a principal mudança de perspectiva por parte dos profissionais de revisão seria abandonar a concepção de revisor-inquisidor. Cabe ao revisor de textos, em vez disso, propor alterações necessárias à adequação dos textos às condições de produção/recepção desses textos. E tais alterações compreendem desde as escolhas tipográficas e ortográficas, passando pelas gramaticais e lexicais, até as estilísticas e discursivas. (Costa, Rodrigues e Pena)

Seis princípios que fundamentam a prática da revisão de textos:

  1. A revisão não deve ser ambígua. É imprescindível que o revisor interfira no texto de forma pontual, precisa e que oriente claramente o autor quanto ao que precisa ser mudado.
  2. As interferências devem ser controladas e visivelmente assinaladas, de modo a que o autor tenha controle direto sobre tudo que tenha sido alterado em seu trabalho.
  3. O autor deve ser estimulado a discutir com o revisor as intervenções sobra as quais tenha dúvida, para compreendê-las e decidir sobre elas. A reflexão sobre os usos da língua representa uma forma de análise linguística.
  4. Deve-se intervir o mínimo necessário em cada texto. A  autoestima linguística do autor é fundamental para que ele persevere em suas produções escritas. 
  5. O revisor deve estar predisposto a aceitar o texto do autor. Acolher as possibilidades de produção do autor significa compreender seu perfil e a função do texto. 
  6. A revisão deve ser adequada à necessidade do autor. De nada adianta corrigir todos os aspectos linguísticos e discursivos se o autor não compreende as interferências e nem as aceita.
Listas sêxtuplas ou múltiplas de quaisquer grandezas são apenas artifícios enunciativos; geralmente ficam incompletas e devem ser compreendidas como recurso didático. É o que ocorre aqui: há muito mais que esses seis pontos a se considerar, mas meia dúzia de ideias se fixam melhor que um sem número delas.

Teoria de Bryant para a revisão de textos: a fluidez textual

revisão de textos carece de estudos teóricos. Os poucos que são encontrados, muitas vezes, são derivados das teorias do letramento ou da teoria da tradução. Os fragmentos que se seguem são extratos da crítica de Manuel Portela a Bryant, John (2002). The Fluid Text: A Theory of Revision and Editing for Book and Screen. Ann Arbor: The University of Michigan Press. [ISBN 0-472-06815-6.]
John Bryant apresenta uma teoria integrada dos processos de revisão textual, identificando modos e códigos de revisão. O seu objectivo é construir uma síntese entre as teorias elaboradas no âmbito da crítica genética e da teoria do texto social, sem descurar a crítica textual intencionalista. Trata-se, no fundo, de propor instrumentos capazes de conceptualizar as várias formas de instabilidade textual de modo a poderem ser úteis na edição de textos significativamente multiformes. Para isso propõe o conceito de fluidez textual, isto é, a ideia segundo a qual todos os textos existem em mais do que uma versão e que essa alteridade não resulta apenas do processo transmissional, mas está já inscrita no próprio modo de produção literário. A natureza processual do ato criativo implica a multiplicação das manifestações materiais dos textos, seja em pré-publicação ou em pós-publicação. A fluidez textual é testemunho do processo criativo enquanto intencionalidade que se altera e se revê a si mesma, manifestação gráfica dos discursos da cultura e da linguagem que se produzem no sujeito. Bryant lê esse diferimento da obra em termos desconstrucionistas, isto é, como diferimento do sentido e do fechamento da própria obra enquanto tal.
A edição do texto fluído, isto é, a edição que permite tornar legível a fluidez que caracteriza a textualidade, tem levado a repensar as práticas de crítica e edição textual. Com efeito, muitos textos clássicos da história cultural existem enquanto textos múltiplos e em multiplicação continuada. Esta instabilidade material representa a inscrição da historicidade particular do seu modo de produção e de  circulação na própria obra, através das versões que a modificam e transformam. Existem nessa condição de textos múltiplos, por exemplo, obras como King Lear, The Prelude, Frankenstein, Leaves of Grass, os poemas de Emily Dickinson, Ulysses, ou Livro do Desassossego. Mas a lista é virtualmente expansível a todo o universo textual, intrinsecamente definido pela proliferação e pela variação. Uma das tentativas dos últimos anos de representar a fluidez textual encontra-se na edição electrónica, ou na combinação da edição eletrônica com a edição impressa. O que Bryant sugere é precisamente uma sinergia entre o potencial específico do códice impresso – obrigado, apesar de tudo, a oferecer uma leitura de um texto contínuo – e o potencial específico do computador e do ecrã eletrônico – que permitem representar materialmente uma infinidade de variantes textuais na virtualidade do seu modo de simulação gráfica.
Assim, enquanto o livro impresso apresentaria uma seleção crítica dos materiais que documentam as versões de si mesma que a obra contém, o arquivo eletrônico conteria todas as versões numa forma sempre atualizável, que tornaria possível representar a intrincada morfologia da flutuação textual no seu processo genético (isto é, de criação autoral) e no seu processo social (isto é, de reprodução e disseminação). Os elementos que Bryant define como componentes da edição do texto fluído centram-se sobretudo nas versões autorais ou resultantes de interações com o autor, aqui exemplificadas com a obra Typee de Herman Melville. No fundo, trata-se de reconfigurar gráfica e conceptualmente a relação entre texto principal e aparato crítico de anotação que permita apresentá-los perceptualmente e apreendê-los criticamente, na página impressa ou no ecrã. Bryant propõe quatro elementos como princípios da edição do texto fluído: a escolha de uma versão base; a marcação dos sítios de revisão; a marcação das sequências de revisão; e a narrativa de revisão elucidando a sequência, os agentes e os motivos de revisão.
Segundo Bryant, uma boa representação crítica da fluidez contribuiria para perceber a interpenetração dinâmica das intenções autorais e dos discursos e formações culturais na configuração das múltiplas versões textuais:
 «Uma obra literária é mais do que a soma dos seus textos; ela é as energias combinadas das forças individuais e sociais que através de processos de revisão autoral, editorial e cultural passam de uma versão para outra emergindo, de tempos a tempos, sob a forma de documentos para serem lidos por leitores.» (p. 112)

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