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Lugar-comum, vício comum

O que são os lugares-comuns? Por que devem ser evitados? É claro que eu não quero esses expressões empobrecendo minha tese.

Expressões pobres são dispensáveis em textos, principalmente devem ser evitadas no texto acadêmico: antes de mais nada, ao mesmo tempo, pelo contrário, por sua vez, por outro lado, via de regra, com direito a, até porque. O revisor de textos vai caçar sem piedade os lugares-comuns. São dispensados também modismos ou chavões que vulgarizam a escrita e a fala.
Uma tese ou dissertação bem formatada tem seu texto valorizado.
Lugares-comuns são caçados
pelos revisores nos textos
científicos como praga.

Houaiss: LUGAR-COMUM substantivo masculino 1 Retórica: Fonte geral de onde os oradores podem tirar argumentos e provas para qualquer assunto 2 Teologia: Conjunto de fontes hierarquicamente ordenadas e criticadas das quais se servem os teólogos para fundamentar os argumentos da doutrina católica 3 Derivação: Por extensão de sentido: ideia, frase, dito, sem originalidade; banalidade, chavão; 3.1 o que é do conhecimento de todos; coisa trivial.
Evite-se: a todo vapor; a toque de caixa; abrir/fechar com chave de ouro; aparar as arestas; ataque fulminante; atirar farpas; atuação impecável (irretocável, irrepreensível); avançada tecnologia; caixinha de surpresas; calorosa recepção; caloroso abraço; calorosos aplausos; carreira brilhante (meteórica); catapultar; chegar a um denominador comum; com direito a; com certeza; confortável mansão; conseqüências imprevisíveis; consternar profundamente; corações e mentes; coroar-se de êxito; correr por fora; dar retorno; debelar as chamas; detonar (deflagrar) um processo; dispensa apresentação; duras (pesadas) críticas; em nível de; enquanto [significando “na condição de”]; equipamento sofisticado; erro gritante; escoriações generalizadas; estrondoso (fulgurante, retumbante) sucesso; extrapolar; familiares inconsoláveis; fazer uma colocação; fez por merecer; fonte inesgotável; fortuna incalculável; gerar polêmica; importância vital; inflação galopante; inserido no contexto; líder carismático; literalmente tomado; luz no fim do túnel; monstruoso congestionamento; na vida real; no fundo do poço; o cardápio da reunião; óbvio ululante; pavoroso incêndio; perda irreparável; perfeita sintonia; preencher uma lacuna; prejuízos incalculáveis; quebrar o protocolo; requintes de crueldade; respirar aliviado; rota de colisão; ruído ensurdecedor; ser o azarão; sonora (estrepitosa) vaia; tirar uma resolução; trair-se pela emoção; trocar figurinhas; visivelmente emocionado; vitória esmagadora.
Devem-se cortar ou substituir essas expressões sempre que possível e evitar palavras que emprestem tom preciosista ou exagerado ao texto, como viatura, veículo, residência, mansão, esposa, colisão, falecer, óbito, magnata, miserável, sanitário, toalete. Convém dar preferência ao vocabulário coloquial onde couber, resguardados os termos técnicos: carro de polícia, carro, casa, mulher, batida, morrer, morte, empresário, pobre, banheiro. Cuidado ainda com expressões como: a pior crise da história do país. Ao longo dos anos, todas as crises políticas e econômicas têm sido assim classificadas.

Emprego inadequado de lugares-comuns

O emprego inadequado ou abusivo de tais expressões compromete tanto a construção de sentido do texto quanto a imagem do autor, principalmente no que se refere ao autor de um trabalho acadêmico, uma vez que se revela a ausência de originalidade e de domínio do repertório linguístico próprio ao tratamento do tema e, ainda, certa limitação no que se refere ao conhecimento do mundo acadêmico. Essas expressões coloquiais, tão comuns na mídia, quando utilizadas de forma original e contextualizada, podem ser muito úteis no processo de elaboração do texto, mas para isso é necessário tornar-se um escritor proficiente, capaz de manipular de maneira eficiente sutilezas semântico-estilísticas, como a ironia e a metáfora - e estarão reservadas, principalmente, a textos literários ou criativos. Para atingir esse grau de competência, no entanto, as habilidades linguísticas devem ser desenvolvidas por meio da leitura e da interpretação de textos cada vez mais complexos, dos mais variados gêneros discursivos, e com uma prática contínua de atividades tanto orais quanto escritas. De um modo geral, o revisor de textos vai suprimir os lugares-comuns que encontrar em trabalhos formais como são as teses e dissertações. (N. Guimarães)

Noção e etimologia de lugar-comum

Lugar-comum vem do latim locus comunis. Atualmente tem o sentido pejorativo de expressão trivial, banal, que se repete frequentemente. É utilizado muitas vezes como sinônimo de cliché, chavão, chapa, frase feita, estereótipo, slogan. 
Na retórica clássica, o conceito de lugar-comum possuía uma validade literária e discursiva que o uso moderno rejeita. No discurso retórico clássico, a associação de ideias (necessariamente já conhecidas pelo público, ou de outra forma a persuasão procurada seria inconsequente) permitiam orientar o interlocutor na compreensão (e convencimento) dos argumentos. O lugar-comum era, na verdade, uma figura fundamental da retórica e não se referia a qualquer vulgarização do discurso. Muito ainda se faz tal uso, mas já é considerado recurso ultrapassado e desaconselhado. Ainda se valoriza em alguns setores o lugar-comum no discurso, sobretudo pelo recurso a uma figura semelhante, o exemplum e o imago, recursos de apoio para ilustrar com exemplos significativos e consagrados pela tradição certas passagens mais expressivas dos sermões ou das orações públicas.
A originalidade, que é hoje o contraponto do lugar-comum, era a negação do valor de um discurso, cuja erudição era medida pela perspicácia e pela oportunidade das referências culturais e literárias aos modelos consagrados. 
Não há critério de distinção entre as terminologias modernas que são sino nimas de lugar-comum, e sabendo que todas partilham a exigência de repetição, falaríamos de lugar-comum em expressões como “homens de amanhã”, “não ter mãos a medir”, “primavera da vida” ou “meio caminho andado”.
Existe apenas um critério possível para avaliar a diferença entre lugar-comum, estereótipo, cliché, por um lado, e chavão, chapa, quatro, nariz de cera, por outro: os termos do primeiro agrupamento não depreciam com a mesma força o conteúdo repetido. O lugar-comum, o cliché e o estereótipo são uma espécie de metáfora morta. Por exemplo, a metáfora gasta pelo uso “cabelos de ouro”, que remonta pelo menos a Platão, torna-se um lugar-comum em escritores de todas as épocas e culturas, sendo muito recorrente em autores como Camões. A primeira condição para a definição de um lugar-comum, de um cliché ou de um estereótipo é, pois, o seu uso generalizado e repetido, mesmo em situações de estilização poética. Trata-se de situações que nos levam a considerar o discurso proferido como já visto ou gasto pelo uso. O cliché pode ser batido sem deixar de ser eficaz. Não se deve confundir banalidade com desgaste. Se fosse desgastado, o cliché perderia tanto a sua clientela como os seus inimigos, o que não é o caso. Ele não passa despercebido, pelo contrário, chama sempre a atenção sobre si. Distinguem-se duas funções para o cliché: 1) como elemento constitutivo da escritura do autor; 2) como objeto de expressão que de alguma forma é exterior à escritura do autor. Como se parte do princípio de que o cliché não se distingue do lugar-comum e do estereótipo, participando da sua natureza, o importante é perceber que a sua estilização na escritura de um autor é suficiente para evitar aquele atributo que mais associamos ao cliché: a banalidade. Esta também pode ser utilizada como forma de marcar a individualidade do discurso, por exemplo, quando o autor ficciona, poetiza ou representa a linguagem ou o estilo de outro autor ou de uma outra fonte conhecida antecipadamente para a construção dos diálogos de uma personagem. (C. Ceia)

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