A revisão da produção verbal de procedimentos

A contribuição da revisão para a clareza, eficácia e eficiência de textos procedurais. 

A tarefa de produção verbal de textos procedimentais consiste em descrever a realização de determinada tarefa, ou em como resolver determinado problema. A expressão verbal, pelo autor ou para o leitor, do saber-fazer difere este de outros tipos de produções verbais: deve ser suficientemente informativo para orientar a realização de ações concretas em objetos. Segue-se que uma das atividades de revisão, específica da produção verbal de procedimentos, diz respeito à exatidão das informações de natureza processual (quesito 5). É o discurso suficientemente preciso para que as ações descritas sejam inequivocamente realizáveis, tanto nas ações (usar o mouse vs. clicar no mouse) quanto nos objetos a que essas ações se aplicam (no mouse vs. na tela).
A atividade de revisão é uma tarefa, por si,  ou solucionadora de problemas.
Este texto é precedido por:
Fundamentos para a revisão
de textos procedimentais
A precisão da informação é a principal distinção entre o texto sobre o conhecimento e o texto sobre o procedimento. A distinção entre o texto epistêmico e o texto pragmático refere-se à natureza das inferências a serem feitas pelo receptor. Os textos epistêmicos tratam de generalizações sobre o conhecimento, os textos pragmáticos são específicos em descrições ou instruções, aquelas que o receptor do texto poderá repetir em função da particularização, desde que concirnam exatamente a objetos com que atuar, ações que fazer e correspondente ordenação de objetos e ações. Assim a proposta de “voar” para cidade de Beijing em um texto epistêmico para crianças que vivem em Brasília significará possivelmente “você tem que se locomover para longe”. Num texto pragmático, a mesma proposta deve tornar possível saber como chegar a Beijing concretamente e, em vez daquilo, “voar” aqui significa “comprar um bilhete de avião”. Essa distinção (texto epistêmico/ texto pragmático) é encontrada com a oposição entre o conhecimento declarativo e o conhecimento processual, entre textos opinativos e textos procedimentais. O conhecimento declarativo incluiria, de acordo com essa distinção, as descrições dos objetos, seus estados e a relação entre os objetos e sua natureza, ao passo que o conhecimento processual incluiria as transformações de estados de objetos e os meios para obter as transformações.
No entanto, essa oposição entre dois tipos de conhecimento, textos e produções verbais parece incompleta: como poderíamos agir em objetos sem conhecê-los? Por outro lado, pode-se conhecer os objetos sem saber como agir sobre eles. Nessa proposta teórica, há alguma novidade em que o conhecimento processual inclui o conhecimento declarativo, ou o subsome: saber-fazer compreende as ações, mas também o conhecimento sobre objetos que justificam suas transformações geradas pelas ações. É a ação que permite categorizar os objetos e destacar as propriedades distintivas e relacionais dos sujeitos e objetos. Segue-se que o processo de revisão da expressão do saber fazer também diz respeito ao conhecimento: o que é necessário para o modo de fazer (quesito 6).
Presume-se que os textos processuais estejam entre os mais difíceis de produzir, corrigir e compreender. Essa dificuldade vem dos dois quesitos acima, que são: precisão de especificação (quesito 5) e a integração do conhecimento com o saber fazer (quesito 6). Primeiro, se a inferência geral é fácil porque é bastante inequívoca (por exemplo, é necessário voar: é necessário tomar um avião como meio de transporte), a inferência que consiste em especificar leva a considerar muitas possibilidades (por exemplo, é necessário tomar o avião: que avião tomar, entre todos os aviões, em que voo embarcar, entre todos os voos). Em segundo lugar, não é apenas uma questão de como os objetos são transformados e como os significados dos verbos de ação (por exemplo, voar, como viajar de avião), mas especialmente o que eles são (por exemplo, por que a aeronave funciona de modo a que seja possível a ela voar e voar nela).
Há ainda outro quesito complexo: o conhecimento da ação, que inclui o conhecimento exigido e suficientemente especificado para ser executável, incluindo o agendamento de ações. Vale dizer: não se trata apenas de que ações executar, mas especialmente da ordem em que devem ser implementadas. Pode-se pensar que a linearidade do texto e a do procedimento sejam susceptíveis de facilitar a produção, a revisão e a compreensão dos textos processuais. Não, não é assim. As tarefas têm estrutura hierárquica particular cuja linearidade é apenas um dos componentes (por exemplo, ir para o aeroporto e tomar o avião para ser transportado de um lugar para outro). A produção verbal do saber-fazer é assim específica: fornecer inequivocamente as ações a serem executadas, que responde à pergunta “como”, mas igualmente as justificações causal, que respondem à pergunta “por que”. Na árvore que resulta da decomposição da tarefa aos objetivos primários e secundários, a pergunta “como” fornece as submetas e a pergunta “por que” a finalidade superordenada: “como você escreve o texto?”: “eu escrevo o primeiro parágrafo, então o segundo, etc.”, “por que você escreve essa palavra?: “para escrever a sentença...” Questionar o “como” e o “porque” é também uma maneira de eliciar o saber fazer, maneira muito usada na ergonomia cognitiva. Perguntadas àquele que expressa o saber-fazer, essas questões permitem-lhe fornecer justificações, para que se torne consciente da eventual incompletude de sua verbalização, e, possivelmente, para reescrever o procedimento. Ao realizar a tarefa de escrever, as questões permitem considerar maneiras de fazer, para evocar outros procedimentos, e, possivelmente, para superar mal-entendidos e impasses.
É função do texto explicativo processual, e de sua revisão (ITP e ITA), fornecer simultaneamente “o como e o porquê” de forma integrada e, para tal, selecionar o procedimento adequado: por exemplo, para emitir um procedimento mais longo, porém mais acessível (quesito 7). Saber como produzir textos de procedimento explicativo é um conhecimento encontrado (presuntivamente) no instrutor ou professor, oriundo da experiência, que não é apenas a perícia do domínio (saber como resolver as tarefas do domínio), mas que é principalmente a perícia de sua expressão explicativa (isto é, para expressar “como e porquê” as tarefas são ou serão resolvidas).
Esses três quesitos de complexidade orientam a atividade de revisão por peritos em texto processual: o procedimento descrito é executável? (quesito 5), é explicativo? (quesito 6), é compreensível? (quesito 7). Existe um saber-fazer da revisão da produção verbal sobre textos procedurais que consiste em considerar estes três quesitos operativos.

Modelos para a revisão de textos procedimentais

A revisão de textos procedimentais deve ser adaptada aos modelos que descrevem processos e tarefas. Por exemplo, aqueles que são baseados em esquemas, cenários ou mesmo conhecimento geral, podem parecer ingênuos. Os modelos baseados no conhecimento próprio do domínio em causa permitirão inferir os procedimentos para a resolução de tarefas, por exemplo, quando se utilizam dispositivos técnicos. Há assim uma corrente inteira de pesquisa em modelos mentais a serem fornecidos aos autores de modo a que tenham a perícia para resolver a tarefa de transmitir informações sobre desempenhar tarefas, seja fornecendo modelos mentais suficientes para as tarefas, seja por analogia, ou metaforicamente. Nessa abordagem, a ênfase não é colocada sobre o procedimento (a sequência de ações a serem produzidas), mas sobre o conhecimento capaz de inferência.
Aqui estamos interessados na expressão do conhecimento diretamente utilizável pelo destinatário para atuar e resolver sua tarefa, isso é, a expressão dos procedimentos e a modelagem correspondente. O que constitui um procedimento? Um procedimento consiste em uma sequência de ações. Por exemplo, para “substituir uma lâmpada”, L1, é necessário a1: desligar a alimentação do circuito, a2: retirar a lâmpada defeituosa, a3: inserir um novo bulbo, a4: verificar se a nova lâmpada está funcionando. É suficiente? É assegurado que o executor desse procedimento vai saber como substituir uma lâmpada? Ele será capaz de verificar se a nova lâmpada está funcionando? Ele sabe o que isso significa? Ele sabe identificar uma lâmpada defeituosa? Ele sabe como desligar a energia do circuito? Ele sabe o que é um circuito? Se a corrente já estiver cortada, não é susceptível de ligar a energia de volta e, em seguida, estar em perigo?
A produção verbal de textos procedimentais, finalmente, chega à explicação: a produção verbal explica como fazer e por que motivo é necessário fazer assim. Nesse caso, a revisão da produção verbal do saber-fazer diz respeito ao aumento da natureza explicativa das propostas (quesito 8) explicando, entre outras coisas, as relações entre as propriedades funcionais e os pacientes (quesito 9). O que é um texto explicativo?

Formalismos de explicação do saber-fazer

O saber-fazer é o frequentemente representado na forma de desenhos, fotografias, gráficos, diagramas – fato indicador das dificuldades da verbalização, representação por palavras das ações pretendidas e de sua sequência espaço-temporal. Desenhos e fotos mostram a estrutura dos objetos e o andamento da tarefa; padrões funcionais demonstram como diferentes partes de um sistema interagem para produzir determinado resultado; os gráficos de estados compõem todos os estados possíveis da interação entre usuário e sistema; a realização da tarefa é um dos caminhos possíveis entre o estado inicial e o estado que corresponde à meta. Essas representações visuais extratextuais e paratextuais são relevantes para descrever várias causas, não captam, no entanto, os aspectos mais “cognitivos” da tarefa: a organização das submetas em objetivos superordenados e a distinção entre as próprias condições e as ações pretendidas ou requeridas. Aspectos que são a base das regras de produção na forma verbal “se..., então” – que determinam as condições em que as ações que podem ser formuladas em diferentes níveis de uma lista são encontradas, mas com dificuldades em representar a equivalência de procedimentos alternativos. Essa equivalência entre procedimentos é, entretanto, bem descrita nas estruturas do objetivo. No entanto, não se capturam todas as maneiras de fazê-lo, compondo as alternativas, uma propriedade que os gráficos contextuais têm. Eles representam as diferentes maneiras de executar uma tarefa com nós contextuais que correspondem às condições definidoras das alterações de contexto, uma maneira de descrever a realização das práticas que diferem do procedimento prescrito, padrão, pressuposto ou intuitivo.
Finalmente, podemos representar o saber-fazer na forma da rede das categorias de objetos envolvidos na tarefa, utilizando, por exemplo, as categorias definidas pelos fins que são aplicados a elas.

A explicação efetiva: exposição, categorização e implicação

Para a explicação processual, a produção eficiente de conhecimento inclui a exposição de objetos no domínio, sua categorização (a organização de objetos do ponto de vista da tarefa), a implicação (a relação entre categorias de objetos na tarefa e aqueles que justificam o procedimento) e o próprio procedimento. Nesse caso, o processo de revisão, em seguida, diz respeito à melhoria de cada componente (melhor expor, melhor categorizar, melhor envolver e melhor dizer como agir).
A modelagem da explicação do saber-fazer é, então, a verbalização do conhecimento formalizado em um dos modos de representação do conhecimento pretendido, contendo as regras do curso. O formalismo deve, no entanto, incluir os componentes da explicação, exposição, categorização e implicação. A exposição visa assegurar a partilha do conhecimento antes da explicação. Esse é o suposto conhecimento compartilhado, mas é melhor garantir a validade, no mínimo, para evitar mal-entendidos. A exposição do conhecimento para fins de partilha é orientada pela explicação processual a ser fornecida e deve ser utilizada para explicar. Para tanto, a exposição deve ser estruturada em categorias úteis e ideais. A categorização contextual, dependendo da tarefa, permite que as categorias de diferenciação indiquem as propriedades relevantes para a ação. A implicação torna possível justificar a ação sobre as categorias de objetos da tarefa, e suas transformações, por categorias mais gerais. É essa generalização categórica que permite tomar como exemplos outras subcategorias para fazer compreender por comparação, mas também por transferência analógica, processos baseados em categorização. O procedimento que é descrito (como?) é, então, justificado (por que fazê-lo assim?).
Para a exposição, a produção do discurso explicativo em torno de duas categorias de objetos seguido do formato que consistia primeiro em produzir (a) as propriedades gerais para ambas as categorias; (b) as propriedades de uma categoria; (c) aquelas da outra categoria; (d) as propriedades relacionais de “c” a “b”; (e) as propriedades relacionais de “b” a “c” (por exemplo, que distingue “b” de “c”). Esse padrão de exposição de categorização prevê uma ordem discursiva “abcde”, que pode estar incompleta: são 325 as maneiras de combinar “abcde”.
Mas isso não é o que é observado nos manuais de operação, por exemplo. Aqui está um exemplo comum de procedimento em um hipotético manual do usuário.
Definida a pasta de trabalho em que salvar o texto, clicar na aba de diálogo “arquivo” e “salvar como” ou “salvar uma cópia”:
  1. no menu seguinte, clique em “diretório” e, em seguida, selecione “subdiretórios” até a “pasta de trabalho”;
  2. na caixa tipos de arquivos, clique em documentos e selecione;
  3. identifique ou nomeie o arquivo a salvar;
  4. clique em “salvar”.
Nessa produção processual, os objetos não são apresentados (arquivos, documentos, arquivos) ou diferenciados (tipos de arquivos, tipos de documentos), de modo que as ações a serem empreendidas não sejam justificadas. Justificar as ações do ponto de vista das propriedades dos objetos a que as ações são aplicadas não é também um componente natural das produções verbais das pessoas.
5. Contribuição da resolução de problemas para o estudo da revisão de textos procedimentais
Saber-fazer é uma característica importante do comportamento humano, talvez das mais importantes. Transmitir o comportamento procedimental, como processos de raciocínio e conhecimento, são importantes componentes do saber-fazer, porque, colocando-nos em contato com o mundo físico, ensinar a fazer também nos coloca em contato com os perigos do mundo. Saber como dirigir um automóvel, como atravessar uma rua, como reparar um aparelho elétrico, como tomar um medicamento, mas também o saber profissional são as habilidades que têm de ser bem adquiridas e, para isso, bem transmitidas. Saber como transmitir o saber-fazer pode ser ainda mais importante. Para isso, a atividade de revisão de textos procedimentais é decisiva.
Ao aplicar-se à ergonomia cognitiva, a investigação sobre a resolução de problemas em textos procedimentais rapidamente mostrou que as dificuldades de utilização de dispositivos técnicos advêm de mal-entendidos de instruções procedimentais, colocando em oposição a lógica de operação e a lógica de uso. São essas as dificuldades encontradas na produção e na revisão das instruções de utilização.
A produção verbal do saber-fazer para transmitir inclui a antecipação ou a resolução de problemas cognitivos em que a atividade de revisão tem lugar importante. A tal respeito, o conhecimento científico sobre os tipos de tarefas e problemas e sobre os métodos de resolução de problemas fornece técnicas de investigação e quadros teóricos para o estudo da revisão da produção verbal de textos procedimentais. É desse ponto de vista que temos sido conduzidos a conceber os processos de revisão da produção verbal de transmissão de conhecimento e da produção de explicação. Dessa forma, arriscamos uma prescrição: o que pretende conter o texto processual da exposição categorizada serve de base para a implicação que justifica o procedimento previsto. No entanto, o que a abordagem de resolução de problemas também mostra é que as práticas divergem de prescrições, dependendo do contexto.
Os nove fundamentos para a revisão do texto processual podem já ser objeto de uma “lista de verificação” para os autores, professores, formadores, aprendizes, e para revisores, em termos de ITP e ITA, para a construção das declarações que proporcionam a transmissão de conhecimento.

Listando os quesitos apontados:

  1. checar a completude do procedimento descrito;
  2. conferir a relação de suficiência e eficiência dos meios indicados;
  3. selecionar do procedimento de revisão (identificar, adiar, interferir);
  4. analisar o planejamento hierárquico das tarefas;
  5. conferir a exatidão dos procedimentos descritos;
  6. avaliar a relação entre os objetos e as ações;
  7. questionar a acessibilidade das ações prescritas;
  8. propor o aumento da ação explicativa necessária;
  9. aferir a relação entre as ações, as propriedades funcionais e os sujeitos.