Obstáculos à revisão de textos

A revisão de textos enfrenta obstáculos que, se conhecidos, podem ser mais facilmente superados por todos os envolvidos na produção textual.

Os obstáculos à revisão do texto podem ser considerados sob a ótica de dois atores: o autor (individual ou equipe) e o revisor (igualmente, individual ou equipe), e existem obstáculos de natureza epistemológica, psicocognitivos, emocionais, práticos, temporais e materiais capazes de dificultar o processo.
A revisão é o subprocesso da escrita no qual o autor submete seu texto – ou projeto do texto – a terceiros para que sejam detectadas as deficiências, categorizados os problemas e propostas intervenções de aperfeiçoamento formal e comunicacional. Essa etapa da escrita, que infelizmente se desenvolve mais frequentemente quando o prazo do autor ou sua capacidade de continuar o trabalho se exaurem, destina-se a fazer texto tão complacente quanto possível aos padrões de gênero e forma ou torná-lo afeto a seus desideratos pragmáticos nos termos dos padrões sociais e linguísticos aceitos. Estamos nos referindo, portanto, à revisão de textos que também pode ser descrita como interferência em textos alternos. Vamos agora nos ater aos tipos de obstáculos que podem prejudicar a revisão.
Os obstáculos enfrentados pela revisão de textos podem ser superados.
Revisão de trabalhos longos,
como teses ou dissertações,
 têm obstáculos próprios.

Obstáculos epistemológicos

Os obstáculos epistemológicos são relacionados ao conhecimento ou às representações que os sujeitos possuem do processo revisional, sua concepção de revisão de textos ou a demanda e expectativas quanto ao serviço, e que dificultam a prática pela eleição de abordagens antiquadas ou insuficientes. Assim, alguns autores consideram a escrita como processo linear e solitário, em vez de etapas de envolvimento interativo entre intercessores; confundem a produção escrita com a produção oral, visto que é impossível, no caso desse discurso volátil, o aperfeiçoamento a posteriori do discurso proferido, exceto se ele estiver registrado graficamente. Outros consideram que o texto exista em sua totalidade antes de ser escrito, e surja como um ditado de dentro e concebido antes de sua transcrição e, portanto (!!), não requer revisão. Os textos que as pessoas leem não têm mais em si qualquer marca de revisão e reforçam-lhes a ideia de prescindibilidade das intervenções alternas. Não importa o motivo pela qual os autores tenham representação linear da escrita, continua a ser posto o fato de que o retorno sobre o texto contradiz tal representação: “Por que revisar, se eu já coloquei o que tinha em mente por escrito, e o que eu tinha em mente não mudou? Está tudo posto no texto.

Para que os autores submetam seus textos à revisão é necessária, por vezes, a redefinição para eles daquilo em que consiste a revisão, do que se procederá: está demonstrado que autores acadêmicos iniciantes não reescrevem estruturas maiores que a oração. Isso seria explicado, entre outras razões, pelo fato de que eles simplesmente não considerem que a revisão, de forma global, seja inerente e possa ser concomitante à tarefa de produzir o texto. Além disso, tais autores incipientes desconsideram que existem aspectos discursivos e textuais relacionados ao tipo de texto a ser produzido, e que os critérios tradicionais de sintaxe, pontuação e ortografia podem se estender na concepção da revisão que transcende a gramática visando a comunicabilidade.

Obstáculos pscicocognitivos

Os obstáculos pscicocognitivos que tramitam entre os sujeitos do processo de produção e editoração de textos são muitos. Primeiro, os autores produzem muitas vezes em sobrecarga cognitiva, o que os impede de ter visão global de sua produção e cria obstáculos à análise segmentada dos tópicos textuais; concretamente, é o que acontece mais quando o tema do ensaio é pouco conhecido ou pouco modelado e a matéria está sendo concomitantemente apreendida e redigida pelo escritor. Embora a falta de estratégias eficazes e estandardizadas de reescrita torne o texto susceptível a diversos problemas, os obstáculos estão provavelmente ligados a outros pontos mais sutis, como à dificuldade de coordenar na memória de trabalho todo o conhecimento e estratégias necessárias à tarefa. Escrever, de fato, principalmente em se tratando de texto não criativo – de maior sobrecarga cognitiva, implica uma série de remissões extratextuais à memória de trabalho, dentre as quais:
ter em mente a instrução sobre o texto a ser produzido, informação que guarda a forma a ser alcançada e determina a inserção canônica no gênero textual pretendido;
guardar distanciamento do texto, a fim de evitar considerar o texto proposto em vez de o texto real, considerando o resultado em relação ao projeto;
  • fazer a leitura crítica na qual cesse a cooperação como leitor, ou seja, passar a agir como “advogado do diabo” em relação ao texto, para detectar falhas, imperfeições;
  • identificar problemas simultaneamente nos diversos níveis da organização de texto, inclusive em aspectos gramaticais pelos quais a maioria dos autores não tramita: semântica e pragmática, por exemplos;
  • escolher as estratégias de superação dos problemas detectados: o autor pode ver um problema, mas não saber como corrigi-lo; pode intuir os problemas semânticos em seu texto, o que já é um desafio, mas raramente encontrará a solução adequada, os escritores iniciantes têm pouco conhecimento sintático e dificuldade em reescrever, parafrasear, reordenar o texto;
  • implementar efetivamente soluções apropriadas aos problemas detectados, segundo a estratégia eleita, sem introduzir novos problemas! É comum a “emenda ficar pior que o soneto”.

Em seguida, os revisores: como a revisão é baseada na leitura avaliativa do texto, os recursos de leitura são decisivos para que a operação seja bem-sucedida. O revisor se conecta ao texto no modo de “leitura revisional”, um tipo de abordagem que dispara diversos mecanismos específicos de análise e crítica que ultrapassam a mitigação de falhas ortográficas ou sintáticas. A leitura do revisor procura desconstruir o significado das partes e reconstruí-lo a partir do todo, o que é infindavelmente mais que detectar erros. O revisor vai fazer muito mais que o autor em seu próprio texto, porque, quando se lê o próprio texto, os conceitos que estão lá reativam a concepção que se tem na memória de trabalho; o autor, então, se esforça para distinguir o que ele realmente afirmou a partir do que ele desejava afirmar. Assim, o autor tem conhecimento que o leitor não tem e que ele mesmo, autor, usa para entender o texto durante a revisão. Principalmente quando o autor relê o que recém escreveu, as palavras e frases a que recorreu estão em camadas de memória muito recentes – e ressurgem como obstáculos à tarefa e aperfeiçoar o escrito, as diversas formulações intentadas de cada oração criam uma nuvem de informações que obstaculiza a identificação de lacunas ou de repetições, e daí por diante. Sempre, sempre cabe ressuscitar o bordão: “quem escreve não revisa”.
Também é possível que o autor leia o texto que ele imagina que escreveu e não o texto genuinamente escrito. De fato, já se observou que, em leitura de voz alta de seu texto, o escritor acrescenta frases ou palavras que não estão lá, mas que ele tinha que imaginar que estivessem, já que ele tinha planejado colocá-las. Em suma, a dificuldade da autorrevisão advém da dificuldade de neutralizar as informações privilegiadas detidas pelo escritor, a fim de construir uma representação do texto que não inclua esse conhecimento. Contrariamente, o revisor tem distanciamento do produto, tanto do ponto de vista do conhecimento objetivo, quanto do ponto de vista do distanciamento emocional, pois trabalha sem relações de afeto com o texto como obra, e sem contar com as reações de seu destinatário, agindo para detectar problemas textuais reais e para sugerir as correções ou dar cabo de problemas. Escrever também se trata de diálogo, comunicação com alguém, o que os autores tendem a esquecer tal fato – já os revisores são, de certa forma, intermediários bem mais atentos.
Além disso, devido à formação específica do revisor, com elevado teor de informações linguísticas, muitos recursos cognitivos necessários à leitura crítica não constituirão sobrecarga, desobrigando os recursos da memória imediata para a identificação direta de problemas; haverá mais capacidade cognitiva disponível para revisão, de acordo com a teoria da capacitância. Os autores que não detém lastro linguístico tão estruturado, portanto, têm, capacidade para corrigir erros de superfície (ortografia e pontuação, por exemplo): esse tipo de correção é menos dispendiosa cognitivamente, especialmente porque autores geralmente só leem frase por frase, o que os impede de captar o significado global – e as eventuais incoerências distantes – e, assim, avaliar o texto adequadamente para, em tese, melhorá-lo.
O fracasso na revisão global do texto também pode ser devido à estratégia de planejamento utilizada pelos autores: geralmente escrevem como registro de ideias ou fatos recuperados na memória (e anotações são uma forma de memória) ao invés de selecionar os dados e organizá-los de acordo com a situação de comunicação e a retórica que lhe for inerente; seria surpreendente se os autores pudessem, no momento da revisão, considerar a situação da comunicação como um constrangimento a ser respeitado.
Em suma, se os autores não conseguem apresentar a informação de acordo com os objetivos presumidos ou o destinatário potencial do texto, não são, portanto, capazes de corrigir a estrutura e as ideias de acordo com a situação da comunicação, limitando suas intervenções aos primeiros níveis de organização do texto. Os revisores têm em mente a proposta, o produto e o público-alvo, conhecendo a mídia e os cânones que lhe são inerentes.

Barreiras emocionais

Algumas barreiras emocionais também podem impedir o subprocesso de revisão – ou, quando menos, transtorná-lo: o autor está emocionalmente envolvido durante a escrita e pelo objeto de que ela trata, assim, o distanciamento exigido em relação ao texto no momento da revisão é complicado. A revisão implica em capacidade de questionar o que acaba de ser produzido, o que pode gerar insegurança – ainda mais em se tratando de um revisor desconhecido, o que é muito comum. Para submeter o texto, objeto de seu trabalho, o autor expõe suas fraquezas e inseguranças como escritor e como conhecedor do assunto do texto, é necessário, portanto, ter confiança na capacidade cognitiva, linguística e no profissionalismo do revisor, bem como na proficiência dele ao abordar os problemas identificados, e propor solução. Tudo isso está bem além das capacidades comuns dos autores, portanto, é necessário que ele se desprenda de seu texto; há sempre um cordão umbilical ligando o autor ao texto, vínculo que deve ser desfeito para que o profissional possa desempenhas tarefa de revisão. Cabe ao revisor romper os ligamentos entre autor e texto com o menor trauma possível, fazendo ver que a relação de desapropriação estará consumada de modo incontornável depois da publicação; portanto, é melhor admitir a intervenção do linguista para diminuir os riscos inerentes às falhas humanas na comunicação escrita. O apego dos autores ao texto também cria outro tipo de obstáculo a que reportaremos adiante: a questão do tempo.

Obstáculos criados pelo ensino da escrita

Muitos obstáculos são – infelizmente – engendrados pelo próprio ensinamento das letras. Em primeiro lugar, alguns autores foram treinados para a produção do texto como se ele fosse a representação gráfica de um conteúdo mental pré-existente ao registro escrito, como se bastasse colocar no papel fatos, descrições, e que existe a possibilidade de fazer isso de modo simples, impessoal, lógico e coerente, sem esforços complexos: trata-se de uma representação que é adotada por vários produtores de textos. Mas não é bem assim que ocorre. As representações emocionais e ideológicas serão transpostas consciente ou inconscientemente, mas estarão lá, registradas e identificáveis – e é menos doloroso ter consciência disso.
Também as falhas do letramento transpirarão do texto, expondo as lacunas e os déficits cognitivos do autor, e cabe ao revisor transpor essas barreiras sem construir novas: revisar não é ensinar ao autor e muito menos exibir habilidades linguísticas.
Os revisores, geralmente, só têm acesso ao texto quando o autor o dá por concluído – e tem sido muito lentamente que essa visão vai se exaurindo. Os professores não mostram aos alunos que não existem textos perfeitos, só valorizam o produto acabado, em detrimento do processo que leva a ele. A esse respeito, ressaltamos a importância de orientar os autores quanto ao papel da revisão: trata-se de um procedimento de aperfeiçoamento, de incremento qualitativo preferivelmente concomitante à redação. Nenhum texto é perfeito antes da revisão, nenhum texto emerge perfeito da revisão. A função do revisor é melhorar e, certamente, o texto bem revisado é muito melhor que o original concebido pelo escritor. Os autores são “treinados” para situações de escrita avaliativa em que os resultados não são guiados pela comunicabilidade, mas pela inserção em cânones de enunciação, os textos escritos para o letramento têm sua finalidade em si – o que é discrepante de todos os demais textos, cujo objetivo é informar algo a alguém. Assim, o apoio do revisor é necessário também porque os autores não são treinados para escrever para o público, mas para os professores do letramento!
Mais, alguns professores se concentram em aspectos formais da produção escrita dos alunos. O ensino tradicional do português se constrói dos elementos menores do texto ao maior (letra, sílaba, palavra, frase, texto) – e, centrado frequentemente nos elementos os menores, não avalia o significado e os significantes, nem não fornece estratégias para a execução concreta da escrita.
É mais fácil – ou mesmo mais seguro – submeter o texto a um revisor para que ele o considere sob o ponto específico da língua em sentido amplo que aprender porque cada aspecto é relevante ou como avaliar a eficácia da disposição de argumentos no texto. O tipo de leitura que é esperado dos revisores é difícil de executar para o autor, mesmo para o professor que vive confrontado com uma pilha de redações para serem corrigidas. Professor não revisa, corrige; revisor não corrige, revisa. Eliminar erros é menos complicado, é necessário, nas não é suficiente.
Vamos ser realistas: cabe ao revisor desempenhar um papel muito além das intervenções mecânicas nos textos, a revisão é decisiva no sucesso da comunicacional do texto e tem início (ou deveria ter) no projeto ou no rascunho da escritura. Nessa toada, cabe ao revisor:
  • convencer os escritores de que a produção escrita requer muitos retornos e revisões;
  • expandir a concepção de revisão que está incutida no público, fazendo ver que as intervenções devem exceder o limite da frase; não é simplesmente uma questão de “s” ou “z”;
  • apresentar um modelo de revisão eficaz e fornecer à clientela as ferramentas e as estratégias necessárias a sua aplicação;
  • incentivar, sempre que possível, a revisão interativa – por meio de consultas frequentes entre revisor e autor durante a escrita e a revisão;
  • manter o controle das alterações, das versões e das intervenções propostas, apresentando o relatório ao autor;
  • ler e reler muitas vezes, tomando muito tempo, para compensar os limites cognitivos materiais com os recursos linguísticos e midiáticos.

Impedimentos temporais

Outra questão que sempre se interpõe em relação ao serviço de revisão de textos, ou à revisão como parte da produção do texto é a questão do tempo. O tempo raramente é o necessário para que a revisão seja bem-feita. Esse aspeto atinge tanto o autor quanto o revisor e deriva de muitas das questões acima, só para mencionar duas: o estresse cognitivo por parte do autor ao fim de um projeto faz com que ele retenha o trabalho o máximo possível; também por insegurança e por conexões emocionais os autores “seguram” o texto; por outro lado, existem os prazos, muitas vezes fatais, estabelecidos por instituições e pela finalidade do texto. Sobra que o revisor não pode fazer um bom trabalho em pouco tempo, e resta que a revisão premida pelo cronograma nunca será tão boa quanto aquela que dispende o tempo necessário. Se tempo é dinheiro, na maioria das vezes, em revisão, tempo é qualidade.
Não existe revisão urgente. Existem revisores que aceitam trabalhos em cima da hora, mas o serviço ficará comprometido e o autor nunca ficará satisfeito com os resultados obtidos. É melhor adiar a entrega, negociar outro prazo, ou encurtar o trabalho autoral, para que o revisor disponha do tempo necessário e inclusive, para que possa haver boa interação autor-revisor.

Obstáculos práticos e materiais

Por fim, as questões materiais e práticas se apresentam como mais obstáculos a serem contornados. O primeiro ponto é a questão financeira: revisão é serviço de profissional altamente qualificado e, principalmente os melhores revisores, cobrarão pelo trabalho valores que podem se tornar bem elevados. Os autores têm que tomar consciência de que vão contratar um profissional de nível superior para um trabalho contínuo por alguns ou mesmo vários dias, e isso representa sim um ônus a ser enfrentado. É necessário que os autores ou as instituições se previnam financeiramente para enfrentar essa questão. É necessário haver reservas, principalmente quando se trata de um autor pessoa física, para fazer face ao preço da revisão. É melhor contratar um revisor experiente, tão melhor quanto mais importante e mesmo quanto mais bem-escrito estiver o trabalho: bons textos requerem excelentes revisores.
Outra questão prática é a disponibilidade do revisor para o serviço. Considere-se que os melhores revisores serão sempre os mais demandados; também é fato que, principalmente para textos acadêmicos, a demanda é maior em determinadas épocas do ano, de acordo com os calendários das instituições. Portanto, os autores devem ser estimulados a fazer contato com os revisores com bastante antecedência. Para contornar os obstáculos pragmáticos e financeiros a receita é a antecipação. É necessário ter ciência e consciência de que revisores precisam de tempo e custam dinheiro. É necessário que os revisores mantenham seus clientes ou clientes em potencial bem informados dessas questões e de todos os demais obstáculos a serem superados no processo de revisão.
Adaptado de Paradis.