Estratégias para revisão de textos técnicos e científicos

Existem dois quesitos necessários a textos técnicos e científicos: clareza e concisão. Mas ambos vivem em  conflito entre si e é papel do revisor intervir para solucionar as questões que sobrevêm.

O problema de linguagem, o problema da qualidade da redação, às vezes, é considerado secundário pelas empresas que produzem manuais ou pelos pesquisadores que elaboram teses e dissertações. Apesar de essa percepção retrógrada e reducionista ser cada vez menos comum, a questão permanece crucial porque a eficácia e a adequação da comunicação por textos afetam o relacionamento com o cliente ou a imagem de um cientista. Um manual ou um relatório claro, assim como uma tese ou dissertação com argumentação pertinente, melhora a imagem de quem produziu o texto, enquanto um texto de difícil leitura ou mal compreendido pode afetar negativamente sobre a imagem e sobre os resultados pretendidos.
Texto é uma rede de informações bem estabelecidas.
Todos os procedimentos ou
intervenções têm estratégia,
revisão de texto também!
O revisor, portanto, é chamado para melhorar a qualidade do texto que lhe é apresentado. Mas definir exatamente o que constitui a qualidade no campo da técnica escrita não é fácil porque, enquanto alguns aspectos linguísticos, como legibilidade, são objetivos e mensuráveis, outros elementos exigem avaliações complexas e parcialmente subjetivas, dependendo de processos cognitivos individuais. Avaliação da qualidade de uma tese ou um relatório põe em causa não só a extensão léxica e coesão sintática: o texto deve, principalmente, tornar mais fácil de entender e representar a realidade extralinguística (o objeto e o propósito do texto). Das variações da ideia de qualidade vem a necessidade de considerar, na revisão e produção textual em geral, tanto o aspecto linguístico estritamente falando, questões de semânticas e pragmáticas.
O revisor é confrontado permanentemente com problemas de natureza técnica, comercial e comunicacional simultaneamente, e deverá sopesar a relação do tempo disponível, a contenção necessária do custo e a qualidade do serviço.

Enquanto o autor é pressionado por custos da consultoria linguística, a insuficiência de comunicação de um texto torna-se evidente, normalmente, em situações críticas, por exemplo, quando um produto textual é rejeitado pelo editor ou pela banca por falta de qualidade. Isso deveria ser razão suficiente para não se subestimar o problema da qualidade da redação, e não se relegar o serviço de revisão privilegiando custo em detrimento da qualidade. A qualidade dos textos sempre afeta a imagem de uma empresa ou do seu autor, mesmo quando essas dinâmicas da produção textual não são evidentes. Assim, é essencial que os autores e as empresas invistam na qualidade dos textos que produzem eventualmente ou de forma continuada e que o façam sem considerações exclusivamente monetárias, mas contextualizando o investimento em assessoria textual com base na visão mais ampla da situação de comunicação e compreendendo o texto segundo critérios modernos e eficientes.
Inspirado por Magrini.

Por que o revisor de textos técnico-científicos tem que se preocupar com a linguagem, ou o estilo de escrever?

A escrita técnico-científica deve ser, sobretudo, breve, enxuta. Em qualquer tópico, o que importa é a qualidade da informação, mais que a forma como ela é apresentada. A questão da qualidade da apresentação surge quando o autor vai compartilhar informações com outras pessoas. Ser especialista em determinado assunto não significa ser capaz de saber como divulgar igualmente bem o que se tem sobre o tema. Escrever um relatório de laboratório, uma tese ou dissertação, elaborar um pedido de financiamento ou de bolsa, redigir um artigo que se deseja submeter a uma revista são apenas alguns exemplos de atividades em que a qualidade da apresentação pode afetar a recepção que será reservada ao conteúdo. A comunicação é uma disciplina em si mesma, razão pela qual a redação de um texto pode ser mais difícil que o esperado.
Além disso, independentemente do conteúdo, o texto técnico-científico apresenta aspectos peculiares:
  • É um texto híbrido, no qual as palavras coexistem com fórmulas, figuras e tabelas;
  • O texto técnico-científico é por vezes escrito com várias mãos, ao longo de vários meses;
  • Quem escreve este tipo de texto interage frequentemente com duas ou mais línguas de trabalho do(s) autor(es).

Estes três aspectos tornam necessário adquirir habilidades de escrita e estratégias de textualização que raramente são ensinadas na escolaridade básica e média, mas são indispensáveis para o aluno de um curso de graduação ou pós-graduação técnico-científica
A atenção do leitor é preciosa, mas é muito fácil perdê-la: os textos longos e monótonos devem ser evitados, dando variedade visual para a página com o uso de títulos, legendas, parágrafos, listas, tabelas. Abrandar o ritmo das informações ajuda de fato a compreensão: se a frase é curta, o leitor absorve mais lentamente, tendo tempo para assimilar, comparar, aprender. O ritmo de um texto é dado, em grande parte, pela variedade do comprimento das frases. O leitor deve ter a sensação de passar naturalmente da sentença em sentença. Devem ser feitas com cuidado as passagens entre uma frase a outra. Frases longas devem ser perfeitas em relação à suavidade, clareza e fluência. As palavras de conexão (no entanto, ainda, mas, da mesma forma, de qualquer maneira, então, assim, de fato, portanto) são os elementos de colagem de frases, são o que faz de um conjunto de frases um discurso coerente e convincente. Mesmo assim, devem ser usadas com parcimônia e precisão.
Os pontos de maior impacto no leitor são o início e o fim de uma frase e um período: primeiro vêm os conceitos mais importantes. Cada parágrafo final deve fechar o segmento sem se arrastar muito, mas sem deixar nada em suspenso. Por exemplo: para facilitar a leitura, é melhor evitar a negação dupla para fazer uma declaração positiva.
lei da proximidade deve ser sempre observada, isso é, deve-se manter a sequência sintática mais simples: verbo e complemento (objeto), o nome e seu adjetivo, a preposição e seu objeto. A regra de se evitar palavras repetidas vale também para preposições conjunções.
O número de exemplos incluídos no texto pode fazer a diferença: um exemplo explica, dois exemplos complicam, três exemplos são um inventário! Os parênteses devem ser usados o mínimo possível, porque eles dão a sensação de conter algo menos importante. Também evitar excessos de citações (literais ou paráfrases), eliminar as notas de rodapé sempre que possível: se a informação for necessária, vem no texto; se for desnecessária, deve ser suprimida.

Dando uma estrutura ao texto

A estrutura do texto técnico-científico, o gênero que revisamos mais frequentemente (tese, relatório técnico, atas de reunião, artigos), é bem constante, algumas indicações a serem observadas serão sempre válidas. A capa e a folha de rosto devem sempre apontar claramente ao autor do texto, o título do trabalho e as informações adicionais relacionadas ao escopo em que o documento foi escrito. Por exemplo, um relatório técnico sobre uma visita técnica a uma fazenda vai informar: autor, título, curso,  data de visita e nome de professor. Essa informação pode estar no topo da primeira página para textos curtos, duas a três páginas. Para textos mais longos, capa e folha de rosto. É necessário numerar as páginas do documento. Se o texto for de comprimento médio ou muito articulado em tópicos, é útil para inserir também um sumário. Normalmente, o o sumário é colocado imediatamente antes da introdução; ele é a última das páginas de pré-texto; um índice geral ao fim do texto pode ser útil, ou até mais de um: antroponímico ou toponímico, por exemplo, antes dos anexos, pode ser útil. O índice enumera todos os títulos e subtítulos dos capítulos e, para cada tópico, o número da página correspondente; nos textos muito ricos de figuras e tabelas, cabe um índice das ilustrações, mas é facultativo.
As diferentes partes que compõem o texto (índice, introdução, parte geral, resultados, conclusões, bibliografia, anexos) devem ser imediatamente identificáveis, graças ao uso de diferentes tamanhos de caracteres e pela organização do texto. Com Microsoft Word (ou editores equivalentes) é recomendável usar as ferramentas de estrutura hierárquica de tópicos para texto: isso simplifica muito a formatação uniforme do texto, e também a inserção do índice.

A revisão final do trabalho

Uma vez que o autor tenha terminado a escrita, o trabalho não está terminado. Ninguém escreve bem sobre pressão (é lenda que isso seja possível), o primeiro rascunho jamais será um texto perfeito; na maioria dos casos você não tem sequer um bom texto. A revisão é parte integrante do processo de escrita e precisamos reservar tempo e atenção a ela. Reescrita e revisão de um texto não significam apenas corrigir a ortografia e eliminar os erros ortográficos; revisar, acima de tudo, é repensar as ideias iniciais, a organização do texto, refletir sobre o que foi escrito, talvez reescrever algumas partes. Isto é ainda mais importante se o texto tiver sido escrito por várias pessoas e, depois, foram reunidas as várias peças: nesse caso, é impensável não fazer uma revisão muito completa e profunda do texto para a uniformização dos critérios e do estilo. Concluído o texto, o ideal seria esquecê-lo e deixá-lo descansar por pelo menos por umas duas semanas.
A melhor estratégia do revisor para aperfeiçoar o texto, além da eliminação dos erros ortografia, e sintaxe, é se colocar na posição do leitor: o revisor tem que reler tudo com o máximo espírito crítico, tentando dar resposta a cada pergunta que o texto suscite, sem negligenciar absolutamente nenhum aspecto, especialmente argumentos que não convencem.
Quando o revisor está prestes a trabalhar o texto, é melhor o autor só intervir quando absolutamente necessário: não se pode fazer um bom trabalho de revisão com seu autor pressionando ou questionando, mesmo que sua participação no processo seja imprescindível, quem está no controle” agora é o linguista.
A simples re-leitura não é revisão. A revisão mais segura e efetiva é feita por terceiro: quem escreve não revisa, que revisa não escreve, essa seria a lei primeira da revisão. Se o autor relê prestando atenção ao conteúdo, facilmente escapam erros tipográficos. Se o autor relê pensando na ortografia, passam problemas de coerência.
É claro, não há nenhuma estratégia de revisão que seja completa, perfeita; a cada texto o revisor desenvolve a estratégia mais adequada, dentro dos parâmetros básios de contribuição para a textualidade e comunicabilidade. Apesar disso, aqui sugerimos uma estratégia para a revisão em camadas:
  1. Primeiro vem o controle do conteúdo e sua organização. Há omissões? Os períodos são consequentes, ou há rupturas entre um e o outro? As conclusões são convincentes? O tom está adequado? Na primeira fase, é melhor ler o documento do início ao fim, para formar a ideia de coerência global sem analisar todos os problemas (em vez disso, pode-se marcar o ponto a ser revisado em mais detalhes e voltar a ele ao terminar a leitura. Essa primeira leitura de revisão pode ser feita lentamente e em voz alta: o ritmo das frases tem grande importância, e muitas vezes alguns erros lógicos são mais óbvias para o ouvido do que para o olho.
  2. Controle da gramática e da pontuação. Atenção aos erros de pontuação, concordância verbo-nominal (sujeito-verbo, singular-plural, masculino-feminino... (especialmente em períodos complexos, com muitas orações). Correção de palavras estrangeiras. Com a menor dúvida, é consultado um bom dicionário.
  3. Melhoria do estilo. Quando o conteúdo estiver convincente e o texto não contiver mais erros, o revisor pode se dedicar ao estilo e aspectos formais: propriedades do idioma, palavras em relação ao contexto, eliminação de repetições problemáticas, suavidade do texto. Nessa fase da revisão, o revisor corta tudo o que puder ser suprimido, racionaliza o texto, remove todas as palavras desnecessárias e frases redundantes e simplifica as frases intercaladas. A cadeia de preposições devem ser racionalizada. Em geral, se se pode dizer a mesma coisa com menos palavras, deve ser escrito com menos palavras!
  4. Controle das fontes. É necessário verificar cuidadosamente as fontes: nada pode ser reproduzido sem mencionar o autor, nem pode haver referência bibliográfica que não esteja presente no texto. Também se vai verificar a uniformidade das aspas, caracteres especiais utilizados, abreviações, recuos, linhas e espaçamentos.
  5. Controle de qualidade final. Quando o documento parecer perfeito, faz-se um pente-fino! Que tipos de erros procurar? A introdução que cita algo que não existe; a legenda que já não reflete o conteúdo do gráfico; a imagem sem legenda ou fonte; os números de página; a concordância sumário-texto; cabeçalhos e rodapés; listas numeradas; concordância numérica das ilustrações e suas menções no texto; os pares de parênteses, aspas ou travessões.