Os subprocessos textuais de revisão

Conforme observado, poderiam ser aplicados critérios em cada um os subprocessos de revisão especificados: avaliação do texto, reconhecimento dos critérios utilizados na produção e remediação de violações dos correspondentes critérios.

Avaliar o texto – primeiro subprocesso

A avaliação, como a entendemos, é uma forma de leitura especializado visando a confrontação do texto (escrito ou prospectivo) segundo um conjunto interiorizado de critérios. O objetivo é fornecer uma delineação do desenvolvimento dos critérios pelos quais discurso escrito é julgado aceitável ou inaceitável. A literatura sugere uma progressão no uso de critérios de avaliação escrita, embora detalhes da progressão na aplicação destes critérios ainda permaneçam obscuros. A maioria dos critérios é inferida a partir de estudos de observação participante com pequenas amostras de revisores iniciantes. A implicação a partir dos resultados é que revisores avaliam adequadamente as questões objetivas, normativas e que usam critérios de interferência mecânica com eficácia, mas poucos ultrapassam essas questões. Revisores experientes alcançam a estrutura lógica do texto, as escolhas semânticas finas e as considerações semiológicas inerentes.
Este artigo é precedido por:
Revisão de textos processos e subprocessos
Enquanto isso, os revisores de experiência intermediária partem das considerações do menos experientes, transitam entre questões de gênero textual, adequação ao leitor e intencionalidades imanentes, mas não alcançam completamente as questões que definem o revisor experimentado. Pesquisa com os revisores mais velhos, paradoxalmente, apresentam uma imagem diferente, qual seja, um de um foco limitado e mais conservador quanto à revisão, adstrito a norma e ao antigo conceito dicotômico de acerto e erro. Há dados nesse sentido difusos em ampla literatura sobre a revisão de textos e são todos coincidentes com o senso comum a respeito.

Trabalhos observacionais sugerem que, para revisores iniciantes, o campo de preocupação na revisão geralmente se move de um foco estreito na convenção e informações positivas para um enfoque muito mais amplo, incluindo paulatinamente consideração da ação, tom, organização, sequência, audiência, terminando e detalhe. Trata-se de uma progressão que se caracteriza como desenvolvimento de juízos protocríticos a juízos críticos. Julgamentos protocríticos são baseados em reação à experiência descrita no texto e em elementos superficiais do texto, como a ortografia. Juízos críticos ocorrem quando os revisores percebem que a forma de expressão escrita é diferente no conteúdo e na experiência retratada.
A questão de “gostar” de uma construção – ou preferir outra, é análoga aos julgamentos protocríticos, fator fundamental na avaliação por revisores neófitos. Intimamente relacionada ao gosto, é a experiência de primeira mão das coisas descritas nos textos nos textos em análise. Parece haver paulatina preocupação com mudança na avaliação do foco no conteúdo por si em direção à preocupação com o modo de expressá-la. Posteriormente, a preocupação se dirige ao como texto como mídia a se ler e interpretar, depurando os diversos patamares de informação inerente e subjacente, desde o dado objetivo ao objeto subjetivo e como cada um faz sentido na trama textual. Mais tarde, surge o elemento artesanal, em que a avaliação parece tomar conta do revisor como um artesão que seleciona, organiza e revisa as ideias para realizar um propósito específico do autor em relação ao público-alvo.
Os revisores capazes da abordagem holística para os processos e subprocessos da revisão bem podem ser minoria. Haverá sempre a necessidade de clarificar os padrões observados e a natureza dos critérios avaliativos usados. Há também a necessidade de garantir que os critérios avaliativos não sejam simplesmente artefatos do tipo de escrita normalmente produzido em diferentes estádios de desenvolvimento do letramento do autor. As dimensões representadas no texto, às quais os revisores são sensíveis, são susceptíveis de constituir a base da “voz interior” para avaliação em função da maturidade do revisor em relação aos vários critérios usados na avaliação.

Reconhecer problemas no texto – segundo subprocesso

Para fins de avaliação do texto e de cada segmento, é suficiente que o revisor tenha consciência de que algo não está bem. Isso tem sido descrito como dissonância ou como ruído. O reconhecimento, por outro lado, envolve a especificação da natureza do problema.
É possível que um pretenso revisor esteja ciente de que exista dissonância, sem ser capaz de articular a natureza do problema. Dentre os vários processos cognitivos interagindo durante a avaliação e revisão, pode haver incompatibilidade entre a avaliação e a detecção de desempenho quanto à intervenção necessária. No entanto, a incompatibilidade não sugere necessariamente falha na avaliação. Diferentes pesquisas têm sugerido várias explicações. Um dos caminhos indica que os textos têm um plano formulado inadequadamente, sob a forma de objetivos limitados ou um conjunto restrito de critérios para a boa escrita, e o revisor não se apercebe integralmente do problema ou não é capaz de orientar o autor quanto à questão.
Outra explicação para a discrepância entre a avaliação e o desempenho passa por dificuldade em reconhecer a natureza do problema, por falta de conhecimento adequado. Revisores menos experientes não são capazes, por exemplo, de identificar se dada sentença ou recurso que eles teinham introduzido estava correto em relação ao conjunto de regras de edição impostas, se elas se mostram inadequadas para os tipos de estruturas complexas em questão. Consequentemente, eles se tornam suscetíveis a aplicar mal o que sabiam ou incorrer em hipercorreção ou degradado o texto. O erro eventual, muitas vezes, pode ser rastreado por regras equivocadas, mal interpretadas, incompletas ou inaplicáveis. As regras são inferências linguísticas das estruturas textuais, raramente são imposições legislativas como ocorre no caso de um acordo ortográfico internacional.
Uma terceira explicação para o fracasso em reconhecer a natureza de algum problema no texto é que o revisor pode ter representação inadequada do texto. Duas explicações têm sido avançadas a respeito de porque a representação é inadequada. Uma é que os limites de memória de curto prazo atuam como restrição na detecção de erros; outra é que a representação do texto pode ser afetada por outro texto a que o revisor tenha afeto. Pode ser que a representação inadequada do texto resulte de conhecimento privilegiado, tornando-se difícil para os revisores detectar determinadas falhas em textos de cujo conteúdo tenham conhecimento ou memória recente. Revisores detectam e erros mais facilmente em ensaios escritos por terceiros que nos textos próprios, pelos mesmos motivos que podem identificar menos problemas em um texto por contaminação com suas leituras recentes, caso não consigam “limpar a memória de trabalho”. Trata-se, em parte, do mesmo processo pelo qual o conhecimento dos textos por seus autores torna difícil para eles detectar falhas: saturação de imagens e de memórias recentes. O conhecimento prévio do texto, do conteúdo, manipula a memória de trabalho. Em média, revisores com nenhum conhecimento prévio do texto descobrem problemas de 50% a mais em texto do que aqueles com exposição anterior ao texto.
Outros fatores que podem inibir o reconhecimento de problemas no texto, por exemplo, partem de comentários dos autores para oferecer subsídios à revisão. Isso pode interferir no desenvolvimento autônomo do diagnóstico. Além disso, comentários dos autores costumam apontar generalidades e comandos abstratos, ao invés de indicadores específicos para estratégias de revisão. Os comentários também, muitas vezes, não alcançam o texto como todo, ou ocultam uma razão inerente para rever a estrutura ou o significado pontual.
Assim, conhecimentos apropriados, representação de texto e planos de feedback do revisor parecem influenciar o processo de reconhecimento. Diversos estudos têm sugerido que escritores e revisores neófitos são insuficientes em detectar erros no texto e que há uma aparente discrepância entre a avaliação do texto e especificação explícita de problemas reconhecida implicitamente.

Interferência no texto – terceiro subprocesso

Interferência refere-se à ação tomada para sanar problemas no texto estabelecido. A profundidade em que é reconhecido o problema pode afetar o tipo de remediação proposta. O reconhecimento impreciso do problema pode limitar as opções para propor alterações ao texto. Se, por exemplo, os revisores formulam juízos de avaliação estereotipada, sem compreender como eles se relacionam ao texto, então, é difícil para eles para elaborar uma estratégia eficaz para revisão. Um resultado do reconhecimento dessa natureza é deixar o texto inalterado. Muitos revisores não interferem em problemas que eles observam; por exemplo, por serem incapazes de propor alternativas de saneamento.
Outra ocorrência, quando um revisor tem o pressentimento que algo está errado, mas quando lhe falta o diagnóstico específico, é a reformulação, mais ou menos aleatoriamente. Muitas vezes, a tentativa de interferência consiste em reescrever ou propor uma alteração de palavra, uma paráfrase ou a apresentação das mesmas informações de forma ligeiramente diferente.
A especificação mais detalhada da natureza de um problema envolve categorizar o problema e focar as características textuais que são importantes no caso em tela. Tal processo demanda informações mais do que mera detecção e ainda contém uma estratégia implícita para interferência. A implicação é que um reconhecimento mais detalhado do problema levará a remediação mais bem-sucedida.
As alterações feitas ao texto têm efeito do ponto de vista das mudanças comportamentais observadas, interferindo no texto como produto e processo, do ponto de vista do efeito de tais mudanças na qualidade do texto. Os tipos de alteração feita ao texto parecem variar de acordo com o grau de desenvolvimento. Identificam-se quatro estágios da revisão:
  1. correção aleatória, em que os intercessores não releem ou reconsideram o que tenham escrito;
  2. refino, que inclui interferências mecânicas, correções ortográficas etc.;
  3. transição, na qual revisores apresentam características de ambas as fases anteriores, mas, ao contrário dos refinamentos, estão descontentes com resultados anteriores e;
  4. interferência, em que o escritor relê e interage com o projeto, o público interiorizado e a evolução do assunto.

Diferentes revisores, em cada um desses estágios, tendem a requerer diferentes níveis de flexibilidade de tempo e espaço, sugerindo que pode haver desenvolvimento cognitivo distinto em relação a fundamentos para a revisão de estilo.
As tentativas de descrever as intervenções no texto mais detalhadamente resultaram em várias descrições taxonômicas. Alguns revisores identificam linguisticamente cada operação como palavra, frase, parágrafo ou todo o texto; outros identificaram a cada operação como adicionar, excluir, substituir ou reorganizar. As conclusões baseadas nessas taxonomias diferentes sugerem que os revisores fazem mudanças no nível da palavra e da frase com ênfase mecânica. Alterações no nível do texto são ainda mais aparentes quando escritores e revisores peritos recebem um texto medíocre para revisar. Eles produzem elevada percentagem de alterações em todo o texto, concentrando-se na adição, consolidação e distribuição.
Descrições e categorizações de comportamento, tais como as descritas acima, são aspecto de muitas investigações correntes. Conforme observado anteriormente, remediar ou considerar outro aspecto diz respeito a seu efeito sobre a qualidade do texto.

Representação do texto pretendido

Quando os revisores trabalham em textos alternos (de terceiros), eles precisam considerar as várias facetas que compõem o texto pretendido. O texto pretendido é aquele que o autor desejaria ter produzido, mas não incluía o conteúdo completo relacionado à tarefa recuperada da memória; o texto revisado alcansará os objetivos do escritor; permeia as informações sobre o público, e inclui as representações do escritor.
As diversas facetas do texto pretendido envolvem o aspecto da proposição retórica, a saber, a elaboração dos objetivos do escritor em termos do que a peça escrita se destina a realizar e como o escritor quer ser percebido. Outro aspecto da situação retórica implica em considerar o público. Isso envolve inferir as características psicológicas e as necessidades do público-alvo fazendo o texto pretendido as consoar adequadamente com elas. A importância da capacidade de construir tal representação é sublinhada pelo fato de que as tarefas cognitivas da revisão encapsulam a capacidade mnemônica de trabalho como prenunciadoras significativas da capacidade de remediação. Além disso, há indícios de que, com a maturação, os revisores venham sendo cada vez mais capazes de considerar as necessidades do público-alvo na avaliação, pelo menos em termos de estilo ou tom apropriado, reconhecendo as deficiências relativas a tais necessidades nos escritos e propondo sanear os problemas.
Finalmente, o conceito de texto pretendido também incorpora o conjunto de critérios para uma boa escrita que o escritor subsome. Há limitação acentuada no emprego de critérios para a efetiva escrita no caso autores em primeiras produções. A representação internalizada e os critérios para a boa escrita podem existir em diversos níveis. Os autores menos experientes parecem ter critérios para a boa escrita no nível gráfico, o nível da língua literal, o que significa que a representação é essencialmente aquela das palavras ou das frases individuais. Eles não parecem considerar se o registro em que eles representam é apropriado para o significado pretendido ou se ele representa o que significa. Tais autores certamente não parecem representar uma estrutura idealizada. Nem parecem capazes, espontaneamente, de construir uma representação diferenciada em que, inicialmente, as características do público e as necessidades psicológicas sejam elaboradas e, em seguida, sejam casados com a apropriada trama textual e suas manifestações em termos de conteúdo, estilo, tom e, talvez, estrutura.
Assim, a eventual dificuldade de revisar de forma construtiva pode originar-se da inadequação na representação do texto pretendido em termos de alternativas a porções consideradas inadequadas, dos objetivos do escritor, das características do público e de critérios internalizados para uma boa escrita.