Políticas de revisão de textos acadêmicos

As universidades têm diferentes políticas no que se refere à revisão de textos, principalmente em se tratando das teses e dissertações elaboradas por seus alunos de pós-graduação.

O que fazemos aqui é uma compilação e breve análise de tais políticas a partir do que depreendemos de nossa atividade como revisores de textos cujo foco têm sido os trabalhos científicos longos. Em quase duas décadas atendendo a pesquisadores de universidades de todas as regiões brasileiras e de diversas instituições fora do Brasil, temos podido acompanhar os problemas relativos à textualização dos resultados das pesquisas e das relações entre os escritores e seus orientadores acadêmicos. Também temos podido detectar os subsídios e as demandas dos mais diversos programas de pós-graduação referentes ao assunto em tela.

Instrumentalização para produção de textos

Sempre revise sua tese ou sua dissertação com um profissional antes de a submeter à banca!
A revisão do texto de uma tese por
um profissional qualificado não só
é procedimento lícito como é
totalmente recomendado.
As habilidades e o conhecimento técnico necessários à produção de teses e dissertações ultrapassam em muito aquelas requeridas para a produção de textos narrativos ou dissertativos curtos. Há uma série de aptidões instrumentais objetivas que devem ser transmitidas ou desenvolvidas – muitas das quais não são inatas; tais habilidades se estendem desde as questões objetivas, quanto aos conteúdos (os assuntos tratados nos textos), passando pelos aspectos metodológicos da construção do conhecimento, e incluindo a adaptação do autor ao gênero textual em que estiver produzindo: tese, dissertação, artigo, material didático ou de divulgação científica, entre outros. Esses aspectos, ainda que superficialmente, costumam ser supridos por diferentes formas de subsídios aos alunos, com diferentes graus de eficácia. Mas há questões antecedentes à formação que a universidade costuma embutir nas disciplinas de Metodologia Científica ou de Redação Acadêmica, e que são necessárias à produção de textos longos.
Para exemplificar, vou mencionar dois aspetos sempre relegados pelas IESs: primeiro, o uso profícuo de programas de editoração eletrônica (Word®, e.g.) é virtualmente desprezado, tido como conhecimento prévio ou como objeto alheio à formação do estudante; depois, a retórica clássica  – jamais mencionada (talvez, exceto nos cursos de Filosofia), como se a capacidade de argumentação elaborada fosse inerente às pessoas e o conhecimento de três mil anos do assunto já estivesse impregnado no DNA das pessoas.
Disso resulta, primeiro, que os estudantes (até mesmo os de doutorado) não sabem do Word mais que se ele fosse uma máquina de escrever moderna: não sabem usar o sistema de referenciamento, citações, indexação e outros incontáveis recursos do programa; quanto à retórica, por desconhecê-la, os textos resultam em compilação vã, em paráfrases (mal ou bem) concatenadas, mas raramente têm consciente estrutura argumentativa; o resultado é a grande ocorrência de falácias (deslizes lógicos) que os textos apresentam, muitas das quais totalmente involuntárias.
As universidades brasileiras não costumam apoiar adequadamente os estudantes, notadamente os de pós-graduação, no desenvolvimento das habilidades e conhecimentos necessários à produção de textos longos de modo a que ele seja capaz de ter sucesso na área escolhida. As pessoas se veem munidas apenas de seus “dotes naturais” de redatores e dos conhecimentos superficiais e empíricos dos recursos de TI mais básicos residentes em seus computadores. Não sei de nenhuma universidade que ofereça treinamento de habilidades avançadas sobre produção de textos longos aos estudantes de pós-graduação. Além disso, poucos estudantes têm acesso a apoio adicional pelo oferecimento de módulos e seminários por professores, orientadores ou pessoal especializado em linguística aplicada ou alguém conhecedor do uso avançado de editores de textos. Os alunos deveriam ser fortemente encorajados a tirar vantagem desses serviços, caso eles fossem oferecidos, visando elevar a qualidade trabalhos que serão submetidas à avaliação.
Paradoxalmente, as mesmas universidades que se omitem em oferecer aos alunos os subsídios necessários aos textos longos requerem neles, pelo menos formalmente, a qualidade textual o mais perto possível do ótimo!
Apesar dessa situação de descaso com muitos aspectos da produção de textos, felizmente, muitas universidades entendem que, no curso de produção de um trabalho escrito longo de alta qualidade, os alunos podem desejar receber apoio, assessoria e subsídios de terceiros antes de submeter o texto à avaliação. Como exemplos, muitos estudantes submetem seus escritos à revisão antes de os apresentar à instituição – e isso é completamente legítimo; o texto pode ser revisado pelos pares (colegas), por membros da família, provavelmente pelo orientador da dissertação ou da tese (no que lhe couber) e, finalmente por profissionais ou empresas de revisão. Claro que, em certa medida, um programa, como o Microsoft Word® pode ser considerado um apoio à produção do texto, principalmente quanto a questões simples de ortografia ou aspectos gramaticais elementares, desde que o programa tenha sido adequadamente configurado para fazer esses serviços. Todavia, ninguém mais se ilude (pelo menos esperamos que não) quanto às limitações dos corretores ortográficos residentes nos programas de editoração. Todos sabem que nada substitui um leitor atento, e nenhum leitor será mais atento que um revisor profissional adequadamente qualificado e experiente.
A política das universidades, em síntese, é exigir textos de alta qualidade, em todos os aspectos, mas sem subsidiar instrumentalmente sua produção. A política é aceitar e estimular a revisão do texto, mas não prevê a instrumentalização do aluno nem a contratação de assessoria qualificada externa. A política é pressupor habilidades inatas nos autores, o que resulta em prejuízos qualitativos literalmente imensuráveis.

Expectativa quanto aos trabalhos apresentados

A universidade espera que qualquer trabalho submetido à avaliação seja de autoria aluno. Qualquer assistência prestada por terceiros não deve comprometer essa expectativa ou a autenticidade do trabalho. Alunos que apresentem trabalhos para avaliação com participação externa na produção do conteúdo material dos textos que comprometa a autenticidade ou autoria do trabalho e que ultrapassem as limitações estabelecidas deveriam ser severamente reprimidos – o que nem sempre ocorre. Deveria ser responsabilidade do estudante informar seu revisor ou qualquer assessoria que ele contrate sobre os limites autorais impostos. Assim, o linguista, o estatístico, o ilustrador, o formatador, o tradutor e outros colaboradores podem ser profissionais cujos serviços se integrem em uma tese, mas o conteúdo material e formal tem que ser original do autor, único responsável perante a universidade pelo conteúdo apresentado. O autor que deverá verificar sua própria obra em todos os aspectos para garantir que esteja em consonância com a política e expectativas da universidade, do orientador e em relação a seus próprios padrões.
O estudante deve declarar se o trabalho foi revisado, indicar que o revisor agiu dentro das diretrizes estabelecidas na política de revisão da universidade e nomear quem foi o autor da revisão – atribuindo-lhe crédito como a qualquer outro colaborador.

Práticas aceitáveis dos revisores

É importante notar que, se um aluno opta por envolver um revisor profissional na elaboração da tese, a universidade considera (ou deveria considerar) esse exercício como parte da experiência de aprendizagem. Produção de texto requer a interferência de revisores em mais de um momento. Algo parecido com a revisão do texto, inicialmente, deve ser feito pelos próprios autor (preferimos chamar esse trabalho autoral de reescrita, por uma série de razões técnicas que já exploramos em outros textos) – consiste na identificação dos seus próprios erros e incoerências e é uma experiência de aprendizagem valiosa. De revisores externos não se esperam alterações substanciais ativas ou alterações em propostas, posicionamentos ou questionamentos existentes, assim como não se esperam criações materiais novas.
Em síntese, revisor não toca no conteúdo no trabalho; em vez disso, o revisor vai subsidiar o conteúdo proposto pelo autor pela identificação de erros (de toda natureza), por sugestões relacionadas ao texto como mídia – mas sem propor rumos ou sem indicar caminhos de criação ou análise. A universidade considera que o papel do revisor é mais próximo ao de um mentor que de um produtor de conteúdo ou o editor da obra.
Os revisores externos devem estar familiarizados com essa política acadêmica e concordar em operar dentro de tais expectativas. É responsabilidade do estudante junto à universidade garantir que o revisor está ciente da política acadêmica de que a revisão deve ser realizada por quem concorde em alinhar suas práticas de intervenção e colaboração com as condições detalhadas abaixo.
Qualquer universidade considera aceitável de revisores identificar e propor correções a:
  • erro tipográfico comum, erros ortográficos ou de pontuação;
  • erros de formatação e layout, inconsistências, tais como números de página, linha espaçamento, tamanho de fonte, cabeçalhos e rodapés;
  • erros gramaticais e sintáticos;
  • repetição de palavras e segmentos de texto ou omissões;
  • seções do texto onde o significado é ambíguo;
  • erros em referências internas ou bibliográficas (para consistência e normatização);
  • erros na rotulagem dos diagramas, gráficos e figuras.

A universidade não costuma considerar aceitável a prática de revisores alterarem o conteúdo existente – seja pela adição ou redução e, em particular, proíbe revisores de:
  • reescrever o conteúdo onde o significado é ambíguo;
  • adicionar conteúdo ao existente;
  • alterar o argumento ou falha lógica;
  • reorganizar ou reordenar frases interferindo na estrutura ou argumento;
  • implementar ou alterar um sistema de referência ou adicionar referências;
  • checar dados ou fatos, cálculos, fórmulas ou equações.

Exceções para os limites da revisão

Em algumas disciplinas, e para determinados aspectos da avaliação, pode não parecer apropriado que qualquer revisão ocorra, por exemplo, onde a gramática correta faça parte dos critérios de avaliação. Onde for inapropriado que os alunos tenham seu trabalho revisado, cumpre ao departamento informar os alunos dessa orientação. Mas isso é bem raro e, ainda que admitamos tal hipótese, não nos temos defrontado com nenhum caso concreto nesse sentido.
Além disso, as universidades consideram que haja certo número de exceções no que diz respeito às expectativas estabelecidas na seção anterior, como se segue:
Projeto, redação e orientação de tese ou dissertação
A intenção das universidades em relação aos projetos acadêmicos, seu desenvolvimento e sua resolução em forma de textos longos, não é proibir ou restringir as boas práticas de revisão ou substituir a orientação formal no que diz respeito elaboração da dissertação, da tese ou dos correspondentes artigos e relatórios parciais. Em tais casos, os revisores e mesmo os orientadores são vinculados por códigos de conduta e seu papel é apoiar os alunos na produção de conteúdo científico denso, relevante, coerente, consistente e que se traduzam em textos de elevada confiabilidade. Nota-se que os alunos e pesquisadores podem fazer isso melhor anotando ativamente as etapas e os resultados em rascunhos, destacando corrigindo neles erros que seriam inadmissíveis, proibidos em outros contextos, como os dos trabalhos a serem defendidos ou publicados. Tais notas constituirão o corpo do trabalho a que se dará a forma de texto, para fins de publicidade e registro consolidado. Alunos e orientadores devem se assegurar de que ambas as partes estão muito bem situadas em relação à profundidade com que cada revisão será realizada e com que frequência as revisões ocorrerão durante o processo de transformação das notas em uma tese.
Alunos portadores de deficiência
Alunos desabilitados cuja deficiência (temporária ou permanente) requeira apoio que exceda as limitações estabelecidas na política de revisão padrão devem informar o orientador o departamento sobre suas necessidades especiais. Independentemente da forma em que o suporte especial seja fornecido, o conteúdo dos trabalhos apresentados para avaliação deve ser exclusivamente do aluno.
Produção em colaboração
A universidade reconhece que diferentes programas e projetos exigem que os alunos trabalhem em estreita colaboração entre si ou com o orientador para produzir um trabalho de equipe. O conteúdo, no caso de trabalho cooperado, exigirá processos de elaboração e reelaboração de conteúdo por diferentes membros da equipe. Esse processo também pode ser parte fundamental da experiência de aprendizagem. Nesses casos, as equipes podem editar ativamente o conteúdo de estudantes dentro do grupo, embora espere-se que, coletivamente, o grupo esteja vinculado pelas expectativas estabelecidas na cooperação, mas que o trabalho individual seja destacado em produção textual independente.
Esta exceção só se aplica a esses trabalhos que são avaliados explicitamente como parte de pesquisa em grupo. Nenhuma forma de conluio deve ocorrer em relação à produção com atribuição individual e, quando detectado, tais casos podem ser sujeitos sanções administrativas ou mesmo penais.

Revisão como subsídio à aprendizagem

A disposição de ensinar e aprender é (ou deveria ser) onipresente em todos os departamentos, em cursos de graduação, pós-graduação, em pesquisa e na extensão acadêmica. A revisão e a formatação profissionais fornecerão a garantia da qualidade textual e do acatamento de normas acadêmicas, propiciando o alinhamento com os requisitos externos (extratextuais) e a preparação para a avaliação externa (de fora do grupo de trabalho). A revisão também fornece outra oportunidade de reflexão e aconselhamento externo sobre a melhor forma aperfeiçoar a qualidade do texto e a disposição de aprendizagem pelo público-alvo, bem como ressaltará o carácter distintivo da experiência do aluno-autor. Os serviços profissionais de revisores que apoiam a produção de textos subsidiam o ensino e a aprendizagem pelo aperfeiçoamento dos trabalhos escritos.