Estratégias de leitura na revisão de textos

Revisar um texto implica em leituras e releituras consecutivas, mas trata-se de uma leitura especial, feita por um especialista. A atividade de revisão implica em diversas estratégias de se abordar o texto.

A leitura não é uma habilidade passiva. A psicologia cognitiva tem mostrado que o processamento de um texto gera grande atividade mental em que o leitor decodifica a palavra escrita, infere significados do contexto, detecta as ideias principais e secundárias, tenta estabelecer a sequência lógica discursiva, recorre a seu conhecimento prévio sobre o tema tratado, entre outras muitas tarefas de compreensão.
As estratégias para revisão de tese e dissertação.
O linguista usa conscientemente
diversas estratégias ao revisar.
Ler é intencional; um leitor atento define critérios diferentes de leitura segundo a finalidade para a qual desenvolve a atividade. Portanto, há também a possibilidade de se ler um texto para revisá-lo. Isso é o que faz um revisor profissional, um linguista encarregado de estabelecer controle de qualidade e estilo de qualquer texto destinado a publicação – por qualquer meio. Na literatura sobre formas ideais de revisão são feitas alusões às competências que o profissional deve ter, especialmente os conhecimentos linguísticos de sua língua de trabalho; no entanto, pouco ou nada fala sobre as habilidades específicas de leitura que o profissional deve desenvolver, já que muitos problemas não são detectados no texto ou, no pior dos casos, novos ruídos são gerados como resultado de uma leitura equivocada.
Nesse sentido, vamos discutir o seguinte problema: como um revisor profissional deve ler? A resposta a essa pergunta passa por outras questões: quais são as estratégias empregadas para corrigir problemas detectados? E, na aplicação dessas estratégias, que tipos de soluções são adotadas para resolvê-los?
Partimos das estratégias de leitura e soluções que usam os revisores de textos acadêmicos, teses e dissertações, por ser o tipo de texto a que estamos focados. É oportuno identificar essas estratégias e tipos de solução empregadas pelos revisores para textos científicos em fase de defesa ou publicação.
A leitura direcionada à revisão de um texto tem quatro fases: i) leitura do parágrafo para a compreensão, ii) detecção de problemas, iii) solução de problemas e iv) reler o parágrafo para verificar o resultado da intervenção. Isso pode parecer óbvio, mas é bom que fique bem claro. 
Aqui vamos nos concentrar um pouco mais especificamente na terceira fase do processo de trabalho de revisão: a resolução de problemas, o núcleo do desempenho do revisor, no qual ele usa estratégias de pré-leitura e detecta os problemas no texto que corrige, facultando a adoção de soluções.

As competências do revisor

O revisor de textos deve cultivar e usar quatro competências: linguística, comunicativa, enciclopédica e editorial.
Competência linguística tem sido sempre uma condição sine qua non para o exercício da revisão. Trata-se de profundo conhecimento das regras ortográficos e gramaticais, especialmente da abordagem normativa – quando se trata de textos formais, como os acadêmicos. A competência linguística permite o desempenho correto do revisor. Competência linguística abrange todos os aspectos da área, fonético, morfológicos, sintáticos. O domínio linguístico amplo e profundo permite ao revisor produzir mentalmente combinações alternativas, permitindo localizar diversos tipos de problemas nos textos.
Informações não textuais (advindas da memória, e.g.) podem reduzir o número de alternativas que o cérebro deve considerar quando lemos. Se sabemos que uma oração reduzida requer vírgula prévia, pelo menos, nossas alternativas são reduzidas a cada ocorrência verbal nominal. Se sabemos que apenas uma gama limitada de termos técnicos pode se aplicar em determinado contexto, então, novamente, nossa incerteza é reduzida. Mesmo o conhecimento de que certas sequências de letras não ocorrem – por exemplo, o h inicial não será seguido por outras consoante em português – permite que o leitor a eliminar muitas alternativas vai ver muito mais em qualquer determinado momento.
Mas o conhecimento apenas gramatical da língua não é suficiente. Na competência comunicativa, o revisor deve considerar a variabilidade da língua, segundo o discurso e a finalidade do texto. Quanto a tal aspecto, o revisor deve lidar com três elementos distintos, mas imbricados: i) o idioleto do escritor, ii) o público-alvo e iii) o gênero textual ou literário. Além disso, revisor deve deduzir o plano do texto desde a primeira leitura, inferir a estrutura retórica. O problema aqui é que, quando os revisores estão trabalhando no texto de um cliente, eles têm acesso apenas indireto ao plano da obra, pelo próprio texto. Em muitos casos, a evidência no texto é bastante clara e o revisor por confiar na intenção original do escritor. Em alguns casos, no entanto, essa evidência não é clara e ocorre até de não haver nenhum roteiro balizando a textualidade.
Além disso, o revisor tem um recurso que permite a ele lidar com esses detalhes acima mencionados: aceitabilidade. Este é um conceito chave que nos permitimos incluir no âmbito da competência comunicativa de um revisor e significa que, mesmo se uma sentença é gramaticalmente correta, ela pode não ser aceitável para um revisor devido à estilística, discursiva, dialetal ou de outra forma. Por exemplo, em textos acadêmicos, é muito comum que um revisor considere inaceitáveis frases de linguagem coloquial ou do campo da oralidade, apesar de serem integrantes do vernáculo. O grau de aceitabilidade varia de revisor de revisor, segundo a experiência acadêmica e de trabalho do profissional. Às vezes, por exigências do autor ou da editora – eventualmente acatando um manual de edição, o revisor aceita ou adota determinado estilo de escrita que ele considera menos aceitável.
A competência enciclopédica, dita erudição, consiste da presciência que tem o revisor do objeto de que trata o texto em revisão e de todos os tópicos correlatos. Mais conhecimento permite que o revisor experiente veja mais no texto do que um revisor novato. O revisor deve possuir ampla cultura geral – ainda que saibamos e concordemos que não se define exatamente o que seja essa bagagem, pois ele vai revisar textos sobre os mais diversos assuntos. Isso não significa que deve ser um perito em geografia, saúde, arte, gastronomia, religião, astronomia, esportes, show business, direito, economia, psicologia, etc., mas conhecer os princípios básicos de cada um desses tópicos permitirá que o revisor, pelo menos, elabore suas dúvidas com alguma base material.
Uma estratégia básica de leitura que ativa o mecanismo de dúvida é a inferência, que permite deduzir o que deveria dizer o texto se não houver problemas nele. A inferência é um poderoso meio pelo qual as pessoas complementam as informações disponíveis, utilizando o conhecimento conceitual e linguístico e esquemas de que dispõem. Todos os leitores utilizam estratégias de inferência para alcançar o que não é explícito no texto, e é lícito aos autores contar com tal dispositivo por parte de seu leitor-alvo, resguardados os limites da plausibilidade. Mas os leitores também costumam inferir as coisas que mais tarde serão explícitas, em processo de antecipação que também é inerente à revisão. A inferência é usada na leitura para decidir sobre o antecedente de um pronome, sobre a relação entre os personagens, sobre as preferências do autor, entre outras coisas. A inferência pode ser usada para decidir o que o texto deveria dizer quando há um erro de impressão. Estratégias de inferência são usados para que os leitores se lembrem exatamente se determinado aspecto do texto era explícito ou implícito.
No entanto, como o propósito da leitura do revisor é detectar problemas para saná-los – ou minorá-los, o processo de inferência que permite diálogo entre conhecimento prévio e informações recebidas deve proceder de forma diferente. Embora pareça contraditório, o revisor não deve confiar em sua competência enciclopédica. De nada servem expressões como “pareceu-me, pensei, eu achava…” quando se trata de justificar uma interferência equivocada no texto por confiar cegamente na cultura geral. O dever do revisor é implementar um método que permita tirar proveito das dúvidas sobre a grafia de nomes próprios, datas, lugares, significado de certas palavras, entre outros, e isso requer que o hábito da consulta bibliográfica e à internet. Em síntese, os processos de inferência em um revisor devem servir de método que contribui para a canalização das dúvidas na resolução dos problemas subjacentes à edição do texto. Isso requer não confiar cem por cento na cultura geral e se reportar constantemente a fontes confiáveis de informação.
Finalmente, competência editorial é conhecer as características de cada uma das etapas da produção do livro ou qualquer outra publicação: original, provas e impressão; o mesmo vale para as teses e dissertações que têm um fluxograma de editoração distinto, passando pelo orientador, revisor, banca – antes de serem depositadas e, frequentemente, publicadas na mídia virtual. O revisor deve ser capaz de avaliar o grau de revisão que o texto exige em cada uma das suas etapas, grau que determinará a adoção de soluções para cada problema. Em outras palavras, às vezes um problema que pode ser corrigido com uma reescrita em fases iniciais do processo, na revisão de provas pode ser mais conveniente resolvê-lo apenas com pontuação.
Essas quatro competências descritas não agem separadamente, mas são inter-relacionadas durante a leitura da revisão. Enquanto a revisão com base em competências linguísticas, comunicativas e enciclopédicas pode ocorrer separadamente, existem problemas em que uma influencia a outra. Por exemplo, um erro na ortografia do nome próprio, cujo processamento está ligado à competência linguística, pode ter concorrência enciclopédica como um fator de detecção, além disso, decidir não demarcar determinados apostos entre vírgulas pode ser influência da motivação pela leitura (habilidades comunicativas e linguísticas).

Estratégias e soluções que o revisor emprega

Há cinco tipos de estratégias de leitura: revisão mecânica, reescrita, reflexão, pesquisa ou consulta de informações e estratégia de adiamento. Estas estratégias podem estimular diferentes tipos de soluções: imediata (sem modificação, correção, reescrever) e adiada (sem solução, sugestão para o autor, a solução provisória).
A revisão mecânica ocorre quando o revisor detecta um problema facilmente resolvível, quase sempre relacionado a gramática, ortografia, pontuação e não requer usar outras estratégias para resolvê-lo. Quando o revisor não é capaz de resolver um problema mecanicamente, utiliza outras estratégias. Reescrever algum esboço de leitura, quando o significado de uma frase ou parágrafo não é claro, a fim torná-lo compreensível. Com a reflexão, reler e reescrever são frequentemente combinados. Os revisores trabalham da seguinte forma: eles esboçam seus conhecimentos sobre o tópico em questão e decidem sobre a maneira apropriada de expressão para melhorar a clareza. Outra estratégia usada por revisores para resolver problemas imediatos é o cruzamento das informações internas do texto ou consulta ao autor. Ela procura resolver dúvidas de terminologia, ou questões temáticas e ainda tentar definir o segmento de forma mais explícita. Certamente, é o procedimento mais amplamente recomendados pela literatura especializada quanto à estratégia da revisão ideal; na verdade, todo revisor profissional tem várias ferramentas que permitem consultar informação: dicionários, manuais de estilo, gramática, enciclopédias, obras especializadas e, claro, internet. A procura de informações também pode ser aplicada diretamente ao autor ou outra pessoa (editor ou orientador acadêmico, por exemplo). Finalmente, a estratégia de adiar é outro recurso que o revisor tem durante o seu desempenho para verificar um texto. Cabe ao revisor usá-lo quando ele não possui o conhecimento necessário imediato para um problema e, portanto, demanda mais tempo para implementar uma solução definitiva.
As soluções que o revisor implementa para aperfeiçoar um texto são o resultado de um conjunto de decisões a partir das características do escrito e de suas habilidades linguísticas, comunicativas, enciclopédicos e editoriais; tudo isto, pela aplicação de diferentes estratégias para resolver os problemas do texto no momento da leitura.

Conclusões estratégicas

O uso de estratégias para resolver problemas de escrita e aplicando soluções dependem fundamentalmente de três fatores: i) as características particulares do texto que é revisado, ii) as competências do revisor e iii) seu próprio estilo de trabalho.
Além dos vários problemas da formulação que o revisor enfrenta, muitas estratégias e soluções implementadas são motivadas pelas características dos textos: adequação do gênero literário para a língua, estrutura do discurso e a consciência do público (leitores), necessidade de busca de informações ou dúvidas terminológicas; e identificação o plano da obra. Enquanto o tema do texto não parece influenciar a utilização de estratégias, notam-se diferenças nas soluções, mas a variação depende, em maior medida, do revisor que do tema em si.
A relação entre as competências do revisor e o uso de estratégias e soluções é muito estreita. No que se refere a implementação de soluções, observa-se que as motivações de comunicação influenciam em quase todos os casos; há uma preferência especial para adiar soluções quando a competência enciclopédica e competência linguística refletem mais na revisão resolutiva, de solução imediata. Adiar soluções em considerável proporção deixa claro que a passagem pelo texto (leitura revisional) será seguida de muitas outras releituras.
Finalmente, o estilo de trabalho de cada revisor também condiciona todas as soluções. Não é suficiente aprender a gramática da língua de trabalho. Então, para ser revisor de textos com êxito, é necessário dominar também aspectos comunicativos, enciclopédicos e editoriais, bem como ter consciência dos processos e estratégias disponíveis para o desempenho do ofício de revisar.
Inspirado em R. Tavares L.