Tipologia de revisões de textos

Revisão e preparação

Muitos revisores de textos, principalmente aqueles que trabalham para editoras, fazem a distinção entre revisão e preparação. De modo geral, nesse contexto, compreende-se revisão de texto como fazer as correções ortográficas e sintáticas no documento e, em alguns casos, aplicar-lhe as normas editoriais; a preparação do texto já é entendida como interferência mais densa, implicando cortes e inversões estruturais, modificações de critérios e tratamentos ao longo de todo o trabalho.
Observe-se que o limite entre a revisão e a preparação de texto nunca é muito bem definido. O que para uns é para ser feito na preparação, para outros se inclui na revisão.
Diversos processos são chamados
de revisão de textos. Há diferenças
importantes entre eles.
Nós não fazemos esse tipo de distinção. Entendemos a revisão de textos, idealmente, como todo o conjunto de interferências necessário à aproximação máxima do texto perfeito. Texto perfeito, para nós, não é apenas aquele sem erro, mas o que alcança a plenitude de sua função comunicativa. Claro que sabemos que o texto perfeito não existe, por uma série de fatores que estão entre os lapsos inerentes às pessoas (inclusive revisores) e até as divergentes concepções teóricas sobre todos os aspectos linguísticos. Mas a função do revisor é levar o texto o mais perto possível da desejada perfeição.
Assim, todo texto revisado por nós inclui a preparação, na medida em que ela for necessária, possível e requisitada pelo texto ou pelo cliente. Melhor dizendo, nossa revisão inclui todo tipo de interferência, sem alegar que esse ou aquele tipo de questão pertença ao universo da preparação.

Os autores devem estar atentos ao fato de muitos anunciam revisão a preços ínfimos, todavia, muitas vezes, aquele trabalho se limitará às mais superficiais questões de ortografia e sintaxe (correção do texto, revisão mecânica) – omitindo-se quanto a aspectos mais complexos da linguística textual. Cabe aos revisores profissionais chamar a atenção dos autores, seus clientes, desses fatos, promovendo a contínua conscientização da importância da revisão.
Já a formatação do texto é outra questão. Para nós, formatação é a composição gráfica, criação do leiaute, aplicação de normas para publicação, impressão, submissão ou depósito dos textos, principalmente as teses e dissertações, que constituem a maior parte de nosso mercado (na Keimelion). Formatação tem muito pouco a ver com a linguística. Como a formatação pode nos ser solicitada pelo cliente, ou o texto já chegar a nós formatado, esse serviço é orçado em separado, é executado segundo a demanda. A formatação inclui, por exemplo, aplicação das normas acadêmicas editoriais (ABNT, Vancouver, APA) ou qualquer outra indicada pelo cliente.
Revisão deve ser serviço completo: texto melhorado ao máximo. Formatação também é serviço profissional, editoração e normatização com excelência. Tudo estritamente dentro dos prazos e com total compromisso ético.
A revisão de textos e a intervenção sobre textos próprios (reescrita autoral) são momentos de reflexão sobre o texto, buscando aprimoramento nos aspectos linguísticos e textuais-discursivos, para que a finalidade comunicativa não seja prejudicada, ou melhor, para que a capacidade comunicativa seja desenvolvida, expandida. Trata-se de procedimento diferente de simplesmente apontar o certo e o errado, configurando-se a revisão de textos como oportunidade de o revisor propor as construções mais indicadas do ponto de vista dos sentidos e da comunicação que se queira alcançar.
Ao revisor cabe o papel de mediador, cabe promover explicações referentes aos eventos linguísticos demandados (revisão de textos), para o autor retornar ao texto e retomá-lo – em reflexão que permita a incorporação de sugestões envolvendo amplamente a produção do texto, como mídia (reescrita autoral), em confronto entre a gramática normativa e a linguagem como realidade social organizada, convencionada dinamicamente.
A revisão é construção interativa com a habilidade de produção de textos. O processo colaborativo da atividade baseia-se no pressuposto de que o conhecimento é mediado pelo par mais desenvolvido em habilidade específica, que serve de suporte temporário e ajustável, funcionando em zona sensível à reflexão, o que permite ao autor manter as estratégias comunicacionais de forma independente.
Além de observar que o texto é efeito de sua gênese, o que implica movimentos de idas e vindas, é interessante salientar que, em seu conjunto, ele é constituído por aspectos sociointerativos: conhecimento enciclopédico, capacidade de memorização, aparato inferencial, conhecimentos partilhados, normas sociais, propósitos comunicativos e funcionais. Assim, as categorias textuais abrangem aspectos sintáticos, semânticos e pragmáticos, pois o texto é visto como sequência de atos enunciativos, sempre voltado para o outro (público-alvo alterno, externo e exotípico) em contextos específicos. Somente na interação e mediação entre as pessoas envolvidas nas situações informais e formais de revisão de textos e reescrita autoral, a leitura, produção e reflexão dos aspectos que envolvem o texto, fazem com que esse objeto seja compreendido em sua “diversidade” e “heterogeneidade” de componentes.
A perspectiva sociodiscursiva salienta que o texto, objeto empírico, é um todo coerente, uma unidade comunicativa articulada a uma situação de ação destinada a ser compreendida e interpretada como tal pelos seus destinatários. Esse todo coerente é formado por mecanismos de textualização organizadores do conteúdo temático em movimentos de continuidade, ruptura ou de contraste que promovem a coerência temática. É formado, ainda, por mecanismos de conexão que marcam as grandes articulações da progressão temática, por meio dos chamados organizadores textuais que marcam as transições entre os discursos constitutivos de um texto, suas sequência e articulações. Os mecanismos de coesão marcam relações de dependência ou descontinuidade entre os constituintes internos à estrutura da frase. A coesão nominal se dá pela introdução de argumentos que se organizam por processos de retomada, na sequência do texto, pelos processos anafóricos, cuja função é dar efeito de estabilidade e continuidade. A coesão verbal se dá pela retomada entre séries de predicados (sintagmas verbais). Os verbos também contribuem para a evolução do conteúdo temático e, portanto, produzem efeitos de progressão.

Revisão resolutiva

A revisão de texto, revisão de textos, é atividade complexa em que a função do revisor é intervir no texto do autor com o objetivo de apontar lacunas e inadequações na tessitura desse objeto cultural. Ao revisar, o profissional precisa levar em consideração o gênero textual estabelecido na proposta, cujo enunciado necessita cumprir as condições de produção de textos: o que dizer (tema); a quem dizer (leitor); como dizer (gênero); por que dizer? (objetivo); onde será veiculado? (suporte). Dessa maneira, a revisão varia conforme o gênero textual. No que diz respeito à revisão de textos parece pertinente acolher os aspetos de gênero para decidir acerca da textualidade, antes de um exame ortográfico e gramatical. A inobservância desse princípio pode dar origem a textos “limpos” de agramaticalidades, mas a textos que não cumprem sua função.
Mas é possível afirmar que há maciça preferência dos revisores de língua materna (e certamente também das demais línguas) pela revisão resolutiva, caracterizada pela apresentação e solução dos problemas detectados nos textos. Trata-se da concepção de língua como código homogêneo e neutro em que se estabelece a perspectiva normativa que considera o texto do cliente apenas para correção de regras gramaticais, ou de pressão de tempo para execução do trabalho.
Revisão resolutiva consiste em eliminar todos os erros, reescrevendo palavras, frases e períodos inteiros. Nela, o revisor faz uma delicada operação que requer tempo e empenho, isto é, procura separar tudo o que no texto é aceitável, e interpretar as intenções do autor sobre trechos que exigem correção e, depois, reescrever tais partes fornecendo um texto depurado. Neste caso, o erro é eliminado pela solução que reflete a opinião do revisor.
Limita-se, assim, o processo reflexivo entre autor e revisor, pois aquele recebe todas as alterações como consumadas, eliminando-se a possibilidade de refletir conjuntamente sobre o texto, uma vez que o veredito já está dado; dessa forma, entende-se o texto como produto acabado e não como processo.
Revisão é um processo lento, dentro do qual se insere outro processo, o da chamada correção, que, por sua vez, também supõe e demanda etapas. Mas a realidade do mercado é que o fator tempo é premente, assim como os custos em que implica a revisão múltipla, interativa e cooperativa. 

Revisão monocrática

O termo revisão, apenas em sentido lato, refere-se a ambos o resultado das atividades do escritor e do revisor e os vários procedimentos que as lastreiam – ato ou efeito da ação empreendida. No modelo desenvolvido a partir da análise dos protocolos de produtores de textos de especialistas, o processo de revisão, inerente ao processo de escrita, consiste de dois subprocessos, revisão de textos primária (revisão de textos primária) e reescrita autoral, e pode podendo ser definido com base em duas estratégias. A primeira, a revisão controlada e intencional, surge numa altura exata e adequada dos trabalhos, enquanto a segunda ocorre em qualquer momento da atividade de produção Quais são os objetivos do escritor fazendo da autorrevisão atividade estratégica deliberada? A estratégia depende da especialização do escritor e, portanto, deve ser objeto de aprendizagem explícita para o novato.
Do ponto de vista conservador, e ainda segundo muitas práticas de mercado, a revisão é processo “monocrático”, constituída por juízos  e formados pelo revisor isoladamente, bem como pelas respectivas interferências decorrentes. Isso, em oposição à revisão colegiada, aquela em que o texto perpassa diversas pessoas, com funções específicas, ou apenas com função de repetir procedimentos por segurança. Das duas formas, existe interação; na primeira, apenas entre autor e revisor, na segunda, a interação é mais ampla, mas pode ocorrer de forma intermediada por um profissional representando a equipe de revisão junto ao autor.
Os autores têm visto a revisão como atividade autônoma, exclusivamente monocrática, e é novidade para elas a distinção entre “avaliação externa” (revisão) na superfície textual e “revisão interna” (quase reescrita autoral, em termos de profundidade alcançável) sobre o conteúdo semântico, bem como a possibilidade de que os dois estágios envolvam profissionais distintos. A releitura e reescrita autoral monocráticas são concebidas como avaliação da adequação do texto produzido à meta que o escritor tinha definido durante o processo de planejamento. Corrigir (editar) consiste na aplicação de regras de produção para resolver os problemas encontrados pelo escritor para adequar o produto às intenções comunicativas e suas realizações linguísticas.
As pesquisas têm tentado esclarecer não só os procedimentos de revisão monocrática, mas também estabelecer os momentos e etapas da revisão colaborativa. O modelo canônico descreve quatro operações de revisão monocrática: excluir, mover, substituir e reorganizar, aplicando-se a quatro graus de intervenção sobre o texto, independentes uns dos outros: a palavra, a sentença, a proposta, a ideia. Há critérios analíticos propostos com foco no contexto da revisão: o tempo de revisão, os fatores linguísticos da revisão, o tipo de correção e o objetivo da revisão. Leva-se em conta a distinção essencial entre a revisão de fundo e semântica, que altera o significado do texto, da revisão de superfície, que mantém o sentido pretendido. Considerem-se, de fato, revisão seis tipos de operações: adição, exclusão, substituição, permuta, reforço, distribuição. Essas operações ocorrem à superfície e no campo semântico: revisão de superfície, com alterações meramente formais ou sintáticas, ou na revisão na significação e semântica, alterando micro ou macro aspectos estruturais. Além disso, os dois níveis, às vezes, são trabalhados em paralelo. A aparente oposição entre revisão de superfície e semântica mostra, por exemplo, o estado de mudança da adição do adjetivo que, de acordo com seu viés semântico e sua carga emocional, produz também a revisão da superfície de foco ornamental e retórico, ou semântica: revisão pretendendo construir a coerência do texto. A adição de superfície pode levar o revisor a um reprocessamento semântico, originando um reforço da coerência textual e reforço das escrituras que podem ocorrer, por exemplo, por expansões de narrativa.
A revisão consiste em uma tarefa tripla: detecção, identificação e modificação da parte de texto considerada pelo escritor ou pelo revisor como passível de aperfeiçoamento. O escritor aplica-se para desenvolver o fraseio preciso e, portanto, a “refazer seu pensamento” a fim de clarificar. O procedimento de comparar, diagnosticar, operar (CDO) pressupõe a revisão do produto textual, mas não permite extrair o máximo de todos os tipos de textos, faltando o diagnóstico sobre os segmentos dos textos em revisão.
A reescrita autoral requer, por parte do escritor, a capacidade de volta ao texto original (TO), ao rascunho ou ao manuscrito dado por concluso. Essa capacidade de reagir (agir novamente!) é vinculada às habilidades do escritor para autorrevisão. Há duas fases de desenvolvimento da capacidade de mobilizar o processo de reescrita. Há processos limitados a correções de superfície sobre ortografia e pontuação e diversificação da gestão de processamento, quando o autor é capaz de tomar conta das palavras, da frase e todo o texto, com controle do gênero de linguagem e de todas as mais variáveis da pauta.
Assim, para autores iniciantes, a revisão do texto aparece, mais frequentemente, como resultado de correções formais da superfície, consequência de processo de baixo investimento cognitivo, quase sempre imaginada como uma interferência monocrática e superficial nos textos. A revisão semântica adapta o mais complexo e mais opaco, devido à necessidade de ter em conta as necessidades de esclarecimento do leitor, dificilmente ela é atividade mental reflexiva isolada. Eis porque as trocas iniciadas durante uma revisão colaborativa contribuam com o escritor menos experiente no desenvolvimento da capacidade de ampliação do foco para melhorar a qualidade do texto.