Conceitos específicos de nossa revisão de textos

Conceitos não são rótulos ou nomes que damos às coisas, eles produzem uma orientação, uma nova direção para o pensamento. Assim, não podemos dizer que criar conceitos consiste apenas na invenção de uma nova palavra, mas sim na criação de uma nova forma de pensar.
Revisão de textos é procedimento altamente intelectualizado.
Cada revisor tem seus próprios
conceitos que serão afinados
com cada texto e autor.
Qualquer conceito é formado por uma multiplicidade de elementos,. com Com o conceito de revisão não é diferente. Considerando que aqui estamos trabalhando com os conceitos de multidisciplinaridade e multimodalidade, estamos pela senda da diversidade e, sempre, da complexidade.
Também estamos integrando neste complexo multiconceitual, na verdade um cipoal de termos, o conceito de multiescrita – um neologismo de origem inglesa (multi-script), uma junção do antepositivo multi-, cujo significado é o de algo numeroso, e escrita, cuja acepção, nesse, caso é de conjunto de signos que representa textualmente uma linguagem.
Para se apontar o início do problema, há a fronteira entre definição (que é estabelecer limites, fins) e conceituação (estabelecimento ou expressão da faculdade intelectiva e cognitiva; no plano mental, espiritual, ou racional). Em segundo lugar, no habitat do conceito – seu plano de imanência – é desenvolvida uma zona de vizinhança necessária com outros conceitos, estabelecendo uma relação de composição em rede: é o devir do conceito. Depois, cada conceito deve ser considerado pensado em relação ao ponto de coincidência, de condensação ou de acumulação de seus próprios componentes: os conceitos organizam-se ordenadamente de modo intensivo, fugindo das facilidades da compreensão, da tentação da extensão; por isso, o conceito é um ato de pensamento, um exercício estoico de incorporação ou apreensão de sentido. E mais, o conceito congrega em si o nível absoluto e relativo ao plano do qual se delimita e aos problemas que ele supõe resolver, o conceito opera sobre o plano a partir das condições que o problema em questão lhe impõe. Por último, nenhum conceito é discursivo, não é constituído por uma torrente de enunciados, apesar da presença de enunciações em sua forma expressiva, isso porque o conceito não encadeia proposições. Então, o conceito é a ferramenta de pensar, de dizer, de expressar, o instrumento de filosofar e de aprender e ensinar, estando esses dados presentes em seus três elementos: no plano de imanência e nos próprios conceitos.
Por exemplo, o conceito de “intercessores”, que é fundamental na démarche deleuziana, é que nos propicia relacionar revisão, ciência, filosofia e arte, criação de conceitos e invenção de imagens, pois a questão fundamental do pensamento em Deleuze é a criação: pensar é inventar o caminho habitual da vida, pensar é fazer o novo, é tornar novamente o pensamento possível, e, de nossa parte, revisar é pensar. Pensar é produzir ideias, revisar é repensar ideias. 
Todavia, estamos sedimentando este trabalho entre dois conceitos básicos de cuja interação decorre toda a prática da revisão de textos e em cujo eixo orbita nossa concepção teórica; estamos falando de intervenções nos textos (IT), mas – entendendo que o conceito não dá conta do que pretendemos abranger, dividimo-lo em interferências em textos alternos (revisão de textos) e em interferências em textos próprios (reescrita autoral), inclusive substituindo o termo intervenções por interferências pelos motivos já alegados. Sem essa dicotomia, não entendemos como analisar um processo que tem duas pernas como se uma só fossem. A revisão de textos e a reescrita autoral estão imbricadas no processo produtivo, mas são distintas como processos cognitivos, como processos criativos, como processos operacionais. Compartilhamos as preocupações em enveredar por uma senda conceitual distante da mais comum, mas entendemos neles a utilidade analítica e o serviço que têm prestado a nosso pensamento, dissociando as operações linguísticas e seus estudos dos matizes que o esvaziamento semântico da expressão revisão de textos tem sofrido. revisão de textos e reescrita autoral são revisões sim, e permanecem sendo, agora com bem mais rigor teórico.
Ao que parece, a compreensão de IT como interferência alterna sim, mas no contexto exclusivo das interferências terminativas ou cujos juízos posteriores ficam adstritos à equipe editorial. Claro que temos ciência de que, para horror dos autores, eles são mesmo alijados de seu texto quando os editores se apropriam da obra – fato em que somos solitários na abominação. Como nós compreendemos – e praticamos – processos de revisão amplamente interativas, com consulta concomitante e em tempo real aos autores, faz-se necessário para nós, em sede de campo teórico, distinguir os processos de IT alterna e autoral; portanto, revisão de textos e reescrita autoral. A suposição de que a IT venha a se incorporar a atividade de redação é o que postulamos e praticamos há quase duas décadas. De certo modo, as considerações desse autor fazem bem sentido no universo real da edição livresca a que ele se refere, muito mais real, diga-se de passagem, que nosso mundo ideal de quem trabalha fora desse campo e cujas experiências de relacionamento com os autores é muito mais notável e direta. Para nós, o autor é uma pessoa, e a pessoa mais importante na produção do texto – consideração bem diferente daquela dos editores, principalmente no Brasil para as quais os autores não passam de “rascunhadores” de obras a serem genialmente transformados em livro pelos fenômenos editoriais.

Interferência em textos próprios

A revisão é termo é por vezes utilizado para se referir à reescrita (intervenção em textos próprios – reescrita autoral) e vice-versa – equívoco que evitamos cuidadosamente. Embora não haja necessariamente alguma sobreposição – ou contraposição formal entre os termos, revisores geralmente se referem à revisão como seu ofício, e reescrita seria o trabalho do autor sobre seu próprio texto. Assim, revisão de textos e a reescrita do autor são fundamentalmente diferentes responsabilidades. Em contraste, revisores centram-se na análise de frase por frase do texto, para “limpar” e fazer tudo funcionar junto. O revisor é, geralmente, o último a opinar e vai trabalhar consultando o autor. A revisão de textos concentra-se intensamente em estilo, conteúdo, pontuação, gramática, legibilidade e consistência. A reescrita autoral se concentra em conteúdo, estética, opinião, confiabilidade, argumentos e conclusão.

Interferência em textos alternos

Trabalhamos com o conceito de alternidade no sentido do que se refere ao outro. Textos alternos são textos da segunda ou terceira pessoas. São textos de outrem, mas não há um bom adjetivo que expresse essa ideia mais de perto, sem alguma confusão com o sentido de alternância denotativo de alterno. Se estamos nos referindo a outrem, vamos nos deter em alguma reflexão sobre este outrem que produz textos e de sua relevância para a relação dialógica de IT.
O primeiro efeito da presença ou existência de outrem diz respeito à percepção dos objetos no espaço, à própria noção de perceber o outro alhures, fora da primeira pessoa singular ou plural. O texto de outrem não fui eu nem fomos nós que criamos. Outrem define as margens que contornam o objeto percebido por mim – e podem ser coisas, pessoas, ideias, textos – como um fundo do qual podem surgir outros objetos – também em sentido bem amplo. “Os objetos que não vejo ou as partes de um objeto que percebo, mas que não vejo no momento presente, são definidos como visíveis por outrem.” O fato de os objetos que não vejo serem vistos por outrem suaviza seu surgimento em meu campo perceptivo. Aqui já podemos fazer notar que o objeto a que estamos atentos é o texto. Também cabe notarmos que as noções de outrem são exclusivas e reciprocamente estabelecidas. O outrem para nós nos tem como outrem para si. Posto isso, se o outrem funciona como regulador “das transformações da forma e do fundo”, relativizando “o não-sabido, o não-percebido” ao introduzir “o signo do não percebido no que eu percebo, determinando-me a apreender o que não percebo como perceptível para outrem”, fica claro para nós a função nossa de revisores dos textos de outrem: é sermos para os autores o outrem o outrem que lhes transforme a forma e o fundo dos textos, fazendo-lhes a relativização dos sabido e do não sabido nos escritos, fazendo a relativização entre o não sabido e o sabido, a informação prévia e a informação deduzível da obra, vendo nos signos textuais o não percebido pelo autor, mas perceptível pelo revisor. Na ausência de outrem, na ausência do revisor, não há mais suavidade nas transições, há apenas uma oposição absoluta entre luz e obscuridade. Desse primeiro grupo de efeitos de outrem, deduzimos que outrem constitui o objeto em meu e em nosso campo perceptivo, sendo ainda um sujeito que nos percebe. A existência de outrem condiciona o funcionamento de minha percepção, mas que não se confunde com ela, é anterior a ela. A estrutura que outrem confere a minha percepção é justamente a estrutura do possível. Outrem exprime um mundo possível que tem uma realidade determinada, não é apenas uma abstração. O texto de outrem tem materialidade e abstração decorrentes da própria essência de outrem, a que estamos chamando alteridade. É preciso considerar, no entanto, que o mundo e os textos exprimidos por outrem não existem independentemente, fora da sua expressão. Não há relação necessária de semelhança ou de identidade entre o exprimido e sua expressão, mas relação de envolvimento, de implicação ou complicação, de imbricação.
Tal perspectiva distancia-se daquelas que procuram ver a revisão como atividade de adequação entre representações e percepções, envolvendo, portanto, a renovação do conceito de revisão de textos. Nesse sentido, o processo de IT não pode ser mais visto como conjunto de procedimentos conduzindo a um resultado previsto de antemão, em espaço e tempo determinados. Revisar, nesta perspectiva, torna-se aventura imprevisível porque deflagrada pelo contato com diferenças, com o que desestabiliza certezas, com o que provoca problemas novos, propondo soluções para eles que podem até vir a ser criativas.
É nesse ponto que a questão da alteridade imbrica na IT, pois a presença de uma natureza psíquica, em que o autor e o revisor possam reconhecer o em-si e o outro, permite direcionar a revisão e desenvolvê-la na prática, considerando uma espécie de intuição afetiva (Einfühlung) que nos coloca em relação ao que está além das manifestações textuais do outro, isto é, com a alma do outro. A partir de algumas reflexões fundamentais, instamos a consciência de certas categorias, da relação e da percepção empática (Einfühlung) e redirecionamos a prática da revisão de textos de forma diferenciada.

Intercessão em textos

Muitos dos conceitos que definem revisão o fazem a partir do conceito de revisor. O termo revisor e a expressão revisor de textos, bem consolidadas, expressam perfeitamente a arte e ofício de quem se dedica a revisar textos, interferir em textos alheios, excluindo muitos equívocos, constitui basicamente uma mononímia: ninguém que se proponha à malfadada messe da autorrevisão, nem em seus mais elevados devaneios, se julga um revisor. Esbarrando na tangente da tautologia, diremos que a intercessão nos textos é produzida pelos Intercessores, mas nos adiantaremos rapidamente a mencionar que estamos adotando um conceito deleuziano bem específico e conhecido. Simplificadamente, trata-se de todas as influências havidas sobre o produto textual e sobre os produtores somadas e conjugadas em um objeto cultural. Nesse sentido, os revisores se travestem de Intercessores e podemos, sem esforço, alegar que o produto em que resulta sua prática é também uma intercessão. Mas só neste sentido: o sentido em que existe um quê do revisor no texto, mesmo que não tenha havido nenhuma interferência material, ele terá prestado aquiescência à forma e conteúdo, endossando cabalmente o texto autoral.