24 de maio de 2017

Revisão de textos: princípios fundamentais

O trabalho de revisão de textos, esse feito por profissionais que se dedicam com exclusividade ao ofício, principalmente, mas também no caso daqueles que, por formação ou vocação pelas letras, se pautam por meia dúzia de princípios que, a nosso ver, são fundamentais no ramo. Quando se trata de revisão de qualquer texto longo e complexo, e.g., dissertação ou tese, a necessidade e a aplicação desses princípios são ainda de maior importância. Esses princípios devem andar juntos, como a base em que a revisão de textos de sustenta. Os princípios fundamentais da revisão de textos fornecem a base teórico-metodológica para o julgamento do revisor, ao mesmo tempo que os parâmetros o fazem sobre o aspecto empírico. Também foram propostos parâmetros concretos para orientar o trabalho do revisor, do que trataremos em outro tópico.

Princípio da alteridade

Revisar um texto não é exatamente um processo meramente intuitivo!
Conheça os princípios pelos
quais a boa revisão de textos
deve se pautar.
O revisor não pode ser o autor, isso não faz sentido. Dito de outro modo: ninguém está apto a revisar aquilo que escreveu! O autor revê, reescreve, atualiza, aperfeiçoa seu texto. Mas a atividade de revisão do texto, tal como nós a entendemos e praticamos, é aquela – necessariamente – feita por alguém que tenha estado distante da redação do texto em qualquer de suas etapas. É necessário que o revisor tenha distanciamento, que nunca tenha lidado com aquele assunto – ou aquela abordagem dele, se possível, para que ele possa se colocar na persona do leitor, tentando compreender as ideias sem outra influência que aquelas das palavras que se apresentam. Há profissionais de alfabetização ou de treinamento para redação que tratam a atenção que o autor, o aprendiz aqui, deve ter para com sua produção como revisão. Do nosso ponto de vista, não é boa essa terminologia; aqui caberia correção, leitura cruzada (quando se trata de colegas interagindo) e algo assim, pois o revisor de textos profissional é o leitor qualificado pelo domínio da língua. Revisar um texto é ter capacidade de interferir nele como quem vem de fora (alteridade!) e domina a mídia, o texto! Temos batido um pouco nessa tecla.

A alteridade no diálogo autor-revisor

envolve a capacidade de cada um oferecer referências claras e estáveis. Assim, não será possível revisar tentando ser igual ao autor, mas alguém-outro, frente a frente, com quem ele possa se relacionar visando obter a própria identidade autoral, a capacidade de ser idêntico a si mesmo. A partir dessa ideia, o revisor necessita de identificação reflexiva. A busca identitária pode ser caracterizada como o desejo básico, presente em todos, de resgatar a fundamental experiência afetiva (Einfuhlung) de identificação. Ao identificar-se com os outros, o revisor é mais um.

Princípio da mínima interferência

Uma regra de ouro, pela qual temos pautado nosso trabalho de revisão, é a que prescreve nos obrigarmos a poder explicar qualquer interferência feita no texto do cliente. Em geral, são feitas muitas interferências, muitas mesmo. Desde as mínimas questões de digitação até os mais graves lapsos de concordância ou falhas de argumentação. Mas cada uma dessas interferências do revisor no texto deve poder ser explicada e sua necessidade demonstrada ao autor que terá última palavra sobre tudo. Nada pode ser mudado no texto do cliente com base em explicações vagas, tais como “assim fica melhor”, ou isso é “mais adequado”. É necessária uma justificativa técnica a cada interferência: “a negativa requer próclise”, “oração intercalada requer vírgula”, “redução de partículas indefinidas aumenta a exatidão e confiança transmitida pelo texto”. É necessária a justificativa, mesmo se ela permanece subjacente ou se o revisor opera subconscientemente, em virtude de treinamento assimilado ou prática.

Princípio da preservação das faces

Aplicam-se na revisão os processos de constituição e negociação do sentido na interação e, consequentemente, as condutas sociais envolvidas. De acordo com este princípio, para que isso ocorra, os interlocutores, vale dizer, intercessores de toda sorte, utilizam estratégias por meio das quais se representam uns diante dos outros na conversação ou em qualquer sorte de dialogia, preservando suas faces, as quais constituem a imagem que cada indivíduo quer afirmar de si para si, e que dizem respeito às normas, convenções e valores estabelecidos pelos membros de uma comunidade. Os indivíduos têm uma face externa (positiva) – o modo como deseja ser visto por outros, que gostaria de ver preservada, e uma face interna (negativa) – seu território íntimo, que não quer ver invadido. Daí por que, dependendo da situação, os revisores optam por uma ou outra estratégia de preservação da face que pode ser percebida pela mudança de alinhamento entre ele e seu ouvinte ou enunciado, entre ele e o texto, ele e o autor. O revisor utiliza alguma estratégia para resguardar sua face como também para não ferir a face do seu interlocutor, o autor. Assim sendo, o uso de uma ou outra estratégia de preservação da face depende da situação – pessoal, profissional, social, familiar – em que a pessoa se encontra, que a leva a agir de determinado modo, uma vez que, em geral, na situação comunicativa, os participantes estão constantemente preocupados em se resguardar e não ferir a face do outro.

Princípio de polidez

Consiste na utilização de estratégias para se preservar as faces na interação entre revisor e autor. São duas as estratégias aplicáveis para a preservação das faces: umas positivas, outras negativas, já que as pessoas, no processo de interação, tentam preservar tanto a face positiva quanto a negativa. Na face negativa, preserva-se o território, a pessoa, assim como sua liberdade de ação e liberdade contra a imposição; na face positiva há um desejo de apreciação e de aprovação da própria imagem – em geral, essa face é projetada nos textos pelos autores. Para os autores, as estratégias de preservação são influenciadas por três fatores sociológicos: o poder do falante sobre o ouvinte, a distância social entre eles e o grau de imposição envolvido no ato de ameaça à face. Para os revisores, a direção é a mesma, porém o sentido é contrário. Trata-se de não ferir as suscetibilidades autorais maculando a imagem de si que o autor quer projetar.

Princípio da exotopia

Há ações que somente podemos “praticar em relação ao outro”, uma vez que elas “completam o outro justamente naqueles elementos em que ele não pode completar-se [...] sem perder a originalidade”. Complementando a ideia de alteridade, recorrente em Bakhtin e que, para nós, é essencial em revisão, para o autor dar acabamento na atividade de criação estética, quando trata dos gêneros criativos do discurso, há necessidade de outro olhar, o olhar do outro, exterior, que o completa, o qual pode ser visto em dois planos: o espacial, que é o do corpo, e o temporal, que se relaciona com a alma. Para tanto, impõe-se o princípio da exotopia, o distanciamento entre o autor e a personagem-herói ou obra; no que nos toca, o distanciamento entre a obra e o revisor. No plano espacial, essa posição de fora é aquela que chamamos alteridade, mas, nos planos cognitivo e sociocognitivo, ultrapassa as personas, e é referido como exotopia. Nessa posição fronteiriça entre os intercessores, o eu pode completar o outro empaticamente, procurando olhar o mundo alterno e externo da mesma forma axiológica que ele o vê, o eu deve se identificar com o outro (catarse), ver e conhecer aquilo que o outro está expressando, colocar-se no lugar do outro e, depois de retornar ao seu lugar, em continuum pendular, dar-lhe acabamento com seu excedente de visão em relação a ele, com o distanciamento permitido pela sua posição de fora, pois só desse modo o revisor pode contribuir.
Bakhtin faz uma reflexão acerca do significado formal que as fronteiras temporais possuem na construção do eu e do outro, na dimensão estética da criação literária (em sentido lato). Esse ativismo que vem de fora e visa ao mundo interior do outro, o qual pressupõe nova valorização da posição, de fora, da vida interior do outro, que vem de outro tempo (pelo menos, a posteriori), constitui a compreensão simpática, uma vez que é necessário aceitar o outro com seus valores.
Existe, portanto, necessidade de o revisor manter posição exotópica em relação ao autor no processo da revisão, pois isso pode ajudá-lo no papel de colaborador do autor no acabamento do texto. Na interação autor-revisor, as relações de poder podem acontecer de formas diferenciadas, não necessariamente simétricas. O revisor, de seu excedente cognitivo, aponta aspectos linguístico-discursivos que o autor muitas vezes não percebe, tanto por questões cognitivas, quanto por estar, como a maioria dos escreventes, preso ao texto, escrevendo como se fosse para si, sem o distanciamento necessário para ver problemas comunicacionais ou formais.
No cotidiano do revisor profissional, a posição de autoridade na interação com o autor é fundamental para subsidiar seu trabalho, para desfazer as leituras às vezes equivocadas, o que dá à interação importante função de possibilitar a superação dos obstáculos para a revisão bem-sucedida e, ulteriormente, à interpretação satisfatória pelo leitor-alvo. Isso implica trabalhar a linguagem nas mais diversas situações discursivas. Nessa perspectiva, o viés proposto pelo olhar bakhtiniano, é que, no processo interativo, não se trocam mensagens, mas se dialogizam axiologias.

Princípios funcionalistas

O propósito aqui é mostrar que princípios funcionalistas são altamente produtivos para o trabalho de revisão. Compreender o processo de articulação dos constituintes na organização textual e frástrica é necessário para a recuperação e a produção dos sentidos pretendidos. Por isso, o objetivo é mostrar que a desconsideração de regras internas de constituição linguísticas na elaboração de textos pode gerar efeitos de sentidos indesejáveis ou causar ruídos no processo comunicativo-discursivo.
As principais teses do funcionalismo têm aplicação na fonologia, podendo dizer-se que este domínio de estudos foi criado em oposição à fonética, com base na oposição saussureana entre língua e fala. A Escola de Praga destacou a função dos elementos linguísticos distinguindo a função “contrastiva” (relativa à diferença existente entre unidade) ou “paradigmática” (estabelecida entre entidades que pertencem ao mesmo paradigma) dos fonemas da função “demarcativa” e “expressiva”, e decompondo os fonemas nos seus traços constitutivos. Curiosamente, quase sempre se reporta à fonética e à fonologia como paralelos, descartada a complementaridade antagônica, extremamente relevante no contexto de revisão de textos.
A organização linguística é orientada pelo macro-princípio de funcionalidade linguística, segundo o qual, os aspectos sintático, semântico e pragmático estão integrados para satisfazer necessidades comunicativas e, por isso, para produzir efeitos de sentidos específicos. Um dos fenômenos que tornam esse princípio visível diz respeito à organização predicativa valencial (um modelo de análise da frase simples em que o elemento fundamental se relaciona a elementos estruturalmente dependentes que desempenham funções sintáticas), vale dizer: à capacidade que o verbo tem de abrir casas a sua volta para serem preenchidas no processo de constituição oracional, fenômeno estudado sob o rótulo de “teoria de valência”. A concepção de linguagem que orienta o pensamento funcionalista é a de que a língua se constitui na interação; “a verdadeira substância da língua é constituída pelo fenômeno social da interação verbal, realizada pela enunciação”. A linguagem é vista, então, como processo dinâmico, social e interacionalmente dependente. Sistema e uso são interdependentes. Assim, alguns postulados podem ser extraídos dessa visão, dentre os quais destacamos os seguintes:

  • O processo interativo atualiza movimentos de diferentes domínios de constituição linguística.
  • Os níveis sintático, semântico e pragmático estão integrados para satisfazer necessidades comunicativas e, por isso, as expressões linguísticas produzem efeitos de sentidos específicos, dependendo das intenções comunicativas dos usuários da língua.
  • Normas de organização sistêmica orientam a atualização linguística na fala e na escrita. O discurso é o espaço de harmonia entre as forças sociais e as forças linguísticas que estão na base da organização textual.

Revisão de textos tem seus princípios a serem seguidos.
Princípios fundamentais da revisão

Em plano mais geral, conclui-se que princípios funcionalistas têm aplicabilidade múltipla, não se restringindo à descrição e à análise de línguas naturais. Ainda, que qualquer trabalho orientado por concepção sócio-cognitivo-interacionista da linguagem reconhece a diversidade na realização da linguagem, a funcionalidade das expressões linguísticas e o fato de que a língua está a serviço das intenções comunicativas dos usuários, e mais, que é imprescindível considerar a organização do sistema linguístico a partir de princípios lógicos, cognitivos e culturais.
Nós entendemos a revisão de textos, segundo sua regularidade, como prática historicamente consolidada em determinados contextos institucionais específicos, e em outros nos quais ainda constitui novidade. Num caso ou noutro, a unidade de análise não será o texto sobre o qual incidem interferências, nem normas que balizem as interferências, mas alguma intersecção entre textos e normas. Por isso, cabe considerar a revisão em contexto dialógico eivado de interdiscursos. Quando faz uma interferência, o revisor vai (i) retomar as prescrições (dicionários, gramáticas, manuais editoriais, abonamentos de corpus, regras em geral); (ii) dirigir-se a interlocutores que terão acesso direto às interferências: autores, orientadores, colegas, diagramadores, supervisores; (iii) dirigir-se, ao habitar a autoria que está instituindo ao revisar, aos leitores finais, público-alvo do texto em questão. Estas são algumas das camadas dialógicas que compõem o trabalho de revisão de textos. Essa perspectiva traz à tona vozes antagônicas eventualmente obscuras, emergindo conflitos subjacentes à atividade do profissional ao confrontar normas.