O texto e seus cognatos

Precisão dicionarística

Espera-se de um revisor uma memória aguçada, um arquivo cerebral repleto de pastas e subpastas de termos e verbetes prontamente disponíveis para serem utilizados. O revisor deve conhecer todos os elementos textuais, seus usos e, também, saber distingui-los uns dos outros. Sim? Sim, claro! Um revisor diligente poupa tempo e, consequentemente, pode acabar faturando mais; no entanto, mesmo os profissionais mais atentos e aplicados tendem a parar diante de determinados obstáculos e recorrer a manuais ou mecanismos de busca online, a fim de sanar a intempérie. Tudo bem não saber tudo; contando que você saiba o que procurar e onde procurar.
O texto é uma árvore com galhos e raízes em todas as direções.
A palavra texto tem derivado
em muitas expressões de uso
dos linguistas e escritores.
Vamos conversar sobre alguns verbetes que podem causar confusão por causa do radical que compartilham: text. Será, em grande parte, uma conversa sobre terminologias, algumas suficientemente amplas a ponto de incluírem outras. Ressalto que nenhuma delas é dispensável, embora, muitas vezes, passem despercebidas devido ao trabalho intuitivo com que redatores, editores e revisores estão habituados. Ao fim, os termos apresentados no decorrer do texto (e alguns poucos não citados anteriormente) estarão dispostos em uma pequena compilação com seus significados.

Colcha de retalhos

A palavra “texto” tem origem no latim textus (MICHAELIS) que, por sua vez é derivada de outra palavra do latim, texere, que significa tecer. Assim, temos o texto como um conjunto de elementos que se entrelaçam e formam um todo. Muitos desses elementos são outros tipos de texto, o que me leva a pensá-los como algo semelhante à Matrioska – bonecas de origem russa que trazem uma equivalente a si, mas de tamanho reduzido, em seu interior e que, por sua vez, também contém outra boneca similar de menores proporções, e assim em diante, culminando em uma boneca minúscula. Contudo, os elementos textuais são mais dinâmicos, não se limitando somente ao interior do texto ao qual se referem, mas ocupando, também, espaços fora dele. Estamos falando sobre subtexto, hipertexto, paratexto, entre outros cognatos – frações de textos que constituem um manto maior.

Paratexto, pré-texto e pós-texto

O prefixo para- traz a ideia de “ao lado”. Assim, um paratexto é um fragmento marginal ao texto. Temos como definição de paratexto:
Reunião dos elementos verbais e/ou gráficos que acompanham o texto principal, servindo de intermédio entre a obra e o leitor; títulos, subtítulos, capas, prólogos são designações de paratextos. (DICIO)
E também:
Aquilo que rodeia ou acompanha marginalmente um texto e que tanto pode ser determinado pelo autor como pelo editor do texto original. (EDTL)
Assim, o paratexto seria o elemento textual que engloba a maior parte das outras frações do texto. Usando um exemplo anterior, o paratexto seria a Matrioska imediatamente inferior à boneca maior – já essa, neste caso, seria o texto em si.
O estudo de Gérard Genette sobre os paratextos é bem amplo, sendo que o autor possui dois trabalhos importantíssimos para a área e fundamentais em nossa discussão: Palimpsestes: La littérature au second degré, 1982 (traduzido como Palimpsestos: a literatura de segunda mão, 2010) e Seuils, 1987 (traduzido como Paratextos Editoriais, 2009). Do último, ressalto o trecho no qual Genette argumenta sobre a necessidade de outros elementos, verbais ou não, que estão além do texto e:
[...] o cercam e o prolongam, exatamente para apresenta-lo, no sentido habitual do verbo, mas também em seu sentido mais forte: para torná-lo presente [...] (GENETTE, 1987)
Desta forma, de acordo com Genette, é possível observar os paratextos como extensões intrínsecas ao texto, situando-o em determinado lugar, esclarecendo-o dentro do que é desejado, conectando-o a outros textos, etc. Genette (1987) ainda qualifica os paratextos dentro de dois grupos: o peritexto, que é fisicamente conectado ao texto, ou seja, está ligado à sua materialidade (capa, títulos, notas de rodapé, sumário, etc); e o epitexto: aquilo que é exterior ao texto, mas que ainda assim faz referência a ele (resenhas, citações em outros textos e, até mesmo, apresentações sobre o texto, como em PowerPoint, por exemplo). Este post pode ser considerado um epitexto dos textos de Genette.
Ainda dentro dos paratextos, destaco duas partes essenciais, principalmente aos trabalhos acadêmicos em geral: pré-texto e pós-texto. Esses são, como o nome sugere, os elementos que abrem e fecham um texto. O pré-texto é composto por identificação, dedicatória, agradecimento, epígrafe, sumário e resumo, dentre os quais alguns são considerados elementos opcionais. O pré-texto é a primeira impressão de um trabalho acadêmico, e a adequação de seus elementos reflete (principalmente o resumo), na maioria das vezes, a sua qualidade. Os elementos pós-textuais entram na confecção do trabalho de acordo com suas necessidades, exceto pelas referências, um item obrigatório nos trabalhos acadêmicos. Logo, é importante que o revisor se atente a esses elementos, adequando-os às normas de formatação exigidas.
Ressalto a importância de não se confundir o pré-texto com o pretexto. Enquanto o primeiro se classifica como um conjunto de elementos que compõem a parte introdutória do texto, o segundo é tido como a dissimulação da real intenção com que uma ação é realizada, uma desculpa para se fazer (ou não) algo. Com isso esclarecido, a semelhança morfológica entre as palavras deixa de ser um pretexto ao confundi-las.

Transtexto e suas camadas

Gérard Genette, ainda em seus estudos sobre os desdobramentos do texto em sua obra Palimpsestes: La littérature au second degré, de 1982, sugere, como termo geral para englobar tudo aquilo que se comunica, explicitamente ou implicitamente, com outros textos a transtextualidade. Assim, um transtexto seria todo aquele que se relaciona com um texto original, que Genette chama hipotexto. Dentro destas relações, destaco a hipertextualidade:
Entendo por hipertextualidade toda relação que une um texto B (que chamarei hipertexto) a um texto anterior A (que, naturalmente, chamarei hipotexto) do qual ele brota de uma forma que não é a do comentário. (GENETTE, 1982)
Ressalto que na citação anterior, Genette emprega “comentário” com o sentido de metatexto, ou seja, uma maneira de unir “um texto a outro texto do qual ele fala [...]“ (GENETTE, 1982). Assim, um metatexto se relaciona de maneira direta a outro texto, respondendo-o, mencionando-o (ou não) por meio de um texto crítico. Isso é facilmente observado em notas editoriais, edições comentadas de livros e, dentro dos mecanismos de revisão, como os comentários e sugestões do revisor dentro de um texto.
Isso esclarecido, levanto a questão: qual a aplicação da hipertextualidade no que se refere à revisão e edição de texto? Parece-me mais válido a tarefa de julgar o elo entre os textos B e A, ou seja, a ligação do hipertexto ao hipotexto, elucidando-a (ou sugerindo a elucidação) em outros elementos presentes no texto, como em notas. De toda forma, o hipertexto parece se relacionar de maneira mais íntima com o leitor, uma vez que a missão de encontrar o elo entre os textos recai sobre ele – isso quando o texto não é explicito em suas conexões hipertextuais.
Por outro lado, a intertextualidade dialoga mais claramente com o trabalho do revisor, muitas vezes dificultando esse trabalho, é preciso dizer. Dentro do que chamamos intertexto encontramos a citação, o plágio e a alusão:
Sua forma mais explícita e mais literal é a prática tradicional da citação (com aspas, com ou sem referência precisa); sua forma menos explícita e menos canônica é a do plágio (em Lautréaumont, por exemplo), que é um empréstimo não declarado, mas ainda literal; sua forma ainda menos explícita e menos literal é a alusão, isto é, um enunciado cuja compreensão plena supõe a percepção de uma relação entre ele e um outro (GENETTE, 1982)
A noção de intertextualidade de Julia Kristeva (Introdução a Semanálise, 1969) traz o intertexto como um diálogo dentro de um texto. Assim, chamamos intertexto uma simples epígrafe ou, até mesmo, uma imagem de uma tese, por exemplo, que visa ilustrar determinada passagem do texto.

Cotexto

O cotexto como uma forma linguística de se denotar intensivamente. É pelos cotextos que se estabelecem as relações entre os elementos do texto e atribuímos propriedades a esses elementos. O cotexto é o elemento de coesão interna pelo qual se aferem as significâncias pelos dados cogentes.
Os elementos cotextuais permitem que estabeleçamos a sequência de eventos diferente da sequência narrativa. Um evento sempre é alteração de estado, valor de atributos ou de relações. O cotexto (e contexto) dá uma panorâmica interessante do tratamento funcionalista do texto. Os revisores de plantão ficarão de cabelos em pé pelas liberdades de herança múltipla e do polimorfismo do conceito. Para um contraponto, há aspectos cotextuais e contextuais na estruturação do significado nos textos.
A conotação é utilizada para se fazer qualquer tipo de atribuição e relacionamento, sendo bastante difícil de se expressar formalmente, pois permite toda sorte de ligações. Com algumas poucas conotações mal-feitas, ninguém será capaz de entender o texto. Por isso, para um texto rigoroso, é um recurso difícil de ser utilizado. O aspecto intratextual do cotexto é, em geral, o mais evidente, mas o aspecto intertextual é que produz o contexto.
A quantidade e diversidade de definições, interpretações e usos do termo contexto, exige que se especifique claramente o uso que se faz dele. Assim, o primeiro aspecto do contexto é o "com texto" do contexto, isto é, o conjunto de definições, elementos e atributos encontráveis em outros textos.
Há autores que querem uma distinção léxica entre cotexto e contexto, fazendo um dentro do texto e outro fora do texto. Na pragmática, apesar de o contexto ser quase onipresente, os autores preferem apenas reconhecer que é uma das coisas mais difíceis de se definir.
As questões do contexto estão diretamente associadas às questões da referencialidade e da indexicalidade. Referencialidade quer dizer explicitamente se ter um ponteiro, e indexicalidade, se ter um índice. Assim contextualizar é criar ponteiros e índices que partem de cada elemento do texto para as definições, atributos e propriedades desse elemento que se encontram em outros textos, mesmo que tenhamos de criar esses textos especificamente com essa finalidade, para podermos evitarmos a armadilha da extratextualidade.
“Uma das funções mais importantes do cotexto é a criação de efeitos da intra e da intertextualidade, assegurando a produção de isotopias textuais e, deste modo, conferindo a um texto a unidade de sentido indispensável à constituição da obra literária como um todo.” (CEIA)

Subtexto e Contexto

O subtexto se caracteriza por informações implícitas dentro de um texto, ou seja, informações que se encontram em uma camada abaixo daquilo que é lido. Isso pode ser observado na própria estrutura da palavra: sub- é um prefixo que indica inferioridade (AURÉLIO). Desta maneira, o texto encobre o subtexto, colocando-o nas entrelinhas do que está escrito. Assim, um texto que se vale do subtexto leva o leitor a chegar a determinada conclusão ou ideia (na melhor das hipóteses uma vez que é impossível prever precisamente o efeito de um texto ou subtextos), diferentemente de um texto mais explicativo ou argumentativo, que oferece explicitamente uma conclusão ou ideia a quem o lê.
O contexto, por sua vez, se refere àquilo que é relevante para uma situação comunicativa. Assim, trazendo o contexto para a área da edição e revisão de textos, é possível alterar um texto (conteúdo, estrutura, formatação) de acordo com o seu propósito. Uma tese, por exemplo, deve seguir um padrão de formatação definido já que está inserida em determinado contexto: é um texto acadêmico e deve ser apresentado como tal. Da mesma maneira, um romance deverá ser revisado seguindo outros critérios e, no fim, apresentará diferentes elementos textuais em relação a outros textos.

Conclusão

O trabalho de revisão se dá com a adequação de um texto a um contexto, com o propósito de torná-lo mais claro, por meio de regras de normalização. Acredito que o conhecimento de todos esses conceitos apresentados possa auxiliar o processo de revisão, uma vez que saber o que está sendo revisado, qual o seu propósito e, principalmente, como aquilo se encaixa no texto é crucial na hora de julgar o que é ou não conveniente em um trabalho. Embora, muitas vezes, apresentem conceitos confusos e limites não muito bem esclarecidos (como os conceitos de metatexto, hipertexto e intertexto, por exemplo), a terminologia desses elementos pode ajudar em determinados momentos. Talvez a atenção aos prefixos dessas palavras seja uma forma (embora mais grosseira) eficaz de evitar possíveis confusões. Eis o compilado final:

  • Contexto: aquilo que é relevante para uma situação comunicativa.
  • Cotexto: unidade verbal que fixa a significação das outras formas linguísticas presentes no mesmo texto.
  • Epitexto: tipo de paratexto exterior ao espaço físico do texto, mas que se comunica com ele. (GENETTE, 1987)
  • Extratexto: texto de livro ou revista em página separada, geralmente com gravura impressa e de papel diferente. (Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico)
  • Fenotexto: forma de um texto que o seu autor considera definitiva. (Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico)
  • Genotexto: conjunto das fases (rascunhos, notas, etc.) que contribuem para a forma final de um texto. (Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico)
  • Hipertexto: texto derivado de outro texto preexistente. (GENETTE, 1982)
  • Hipotexto: texto do qual outro texto é derivado. (GENETTE, 1982)
  • Intertexto: texto que se relaciona co-presencialmente com um ou vários textos. (GENETTE, 1982)
  • Metatexto: texto que comenta sobre outro texto. (GENETTE, 1982)
  • Paratexto: reunião dos elementos verbais e/ou gráficos que acompanham o texto principal, servindo de intermédio entre a obra e o leitor. (DICIO)
  • Peritexto: tipo de paratexto restrito ao espaço físico do texto. (GENETTE, 1987)
  • Pós-texto: elementos que antecedem o texto; identificação, dedicatória, agradecimento, epígrafe, sumário e resumo.
  • Pré-texto: elementos que se pospõem ao texto; referências, glossário, anexos, resumo em língua estrangeira.
  • Pretexto: Razão que se alega para ocultar o verdadeiro motivo de uma ação ou omissão; alegação, desculpa. (MICHAELIS)
  • Subtexto: Conteúdo uma obra literária que não é anunciado de maneira expressa pelas personagens ou pelo autor. (MICHAELIS)
  • Transtexto: texto colocado em relação, manifesta ou secreta, com outros textos. (GENETTE, 1982)


REFERÊNCIAS
E-Dicionário de Termos Literários (EDTL), coord. de Carlos Ceia, ISBN: 989-20-0088-9. Disponível em , consultado em 30-04-2017
DICIO Disponível em: < https://www.dicio.com.br >. Acesso em: 30/04/2017
Dicionário Aurélio Disponível em . Acesso em 01/05/2017
Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico Disponível em: . Acesso em 01/05/2017
GENETTE, Gérard. Paratextos Editoriais. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009.
GENETTE, Gérard. Seuils. Paris: Seuil, 1987. 388 p
GENETTE, Gérard. Palimpsestes. La littérature au second degré. Paris: Seuil. 1982.
GENETTE, Gérard. Palimpsestos: a literatura de segunda mão. Belo Horizonte: Viva Voz, 2010.
KRISTEVA, Julia. Introdução à semanálise. 2.ed. Trad. Lucia Helena F. Ferraz. São Paulo: Perspectiva, 2005.