14 de abril de 2017

Prática e teoria da revisão de textos

Estamos preparando um livro teórico-prático sobre revisão de textos.

Nesta postagem, estamos apresentando tópicos de nosso trabalho que exploram o processo de revisão como integrante da edição do texto, explorando as considerações que devem permear as decisões do revisor durante seu trabalho. Os textos a seguir levam o leitor a refletir sobre o dinamismo da atividade de revisão, que caminha entre a precisão gramatico-linguística que o texto exige, e a maleabilidade necessária para preservar a essência e alteridade do que está sendo revisado.

Propedêutica da revisão de textos

Quando se tenta definir a revisão listando todas as tarefas da disciplina: melhorar a terminologia, clarear passagens, melhorar as construções, ajustar a carga emocional do texto original para a especificidade do leitor ou do gênero, garantir a coerência em diversos aspectos e diferentes níveis textuais, assegurar ortografia, gramática e registro, consistência de gênero, fica bem clara a distinção entre a correção e revisão e parece que o revisor é um pouco de tudo, geralmente sendo mais que o autor tem conhecimento que ele é.
Vamos lançar um livro bem grande sobre revisão de textos.
O grande livro teórico e prático
sobre revisão de textos vem aí!
Há autores que incluem todos os termos acima sob o mesmo nome de revisão monolíngue, que é a intervenção visando garantir a qualidade informativa e linguística (conteúdo e forma) do texto original ou apresentado como tal, distinguindo-a da revisão bilíngue, que é o de fazer o mesmo trabalho para os textos traduzidos.
A revisão do texto é a análise criteriosa do que está escrito para sanar eventuais erros (de digitação, ortografia, coerência…) e tornar o texto não só correto, mas também limpo, uniforme e mais agradável de ler.
Como outras práticas, o ato de revisão de textos autorais pode ser aceitável somente se está bem estabelecido que a revisão não seja resultado de julgamento intuitivo ou subjetivo pelo revisor.
Para nós, revisores, a satisfação do cliente é prova de sucesso da revisão que fazemos do texto, mas não é medida suficiente da qualidade do serviço.
Algo ser relido por quem o escreveu – depois de escrito e dado por concluído – bem como chato, pode revelar-se contraproducente, porque resulta em texto pouco fluente, truncado pelas informações que o autor tem na memória, as sombras do conhecimento, e as que foram apresentadas, impedindo de se ver mesmo o erro mais grave que está lá, debaixo do nariz do autor.
Destacam-se as diferenças entre a correção, a revisão e reescrita implementadas para garantir que a qualidade do texto se torne mais aceitável.
A revisão é uma limpeza muito profunda para dar rigor formal de um texto, mas também uma reordenação de ideias, palavras e dados – ou uma verificação acurada da ordem apresentada.
Muitos autores se referem a revisão no sentido amplo do termo: não se limitando a um ou outro corte e envolvendo textos originais.
Você já escreveu seu discurso, seu artigo, sua tese e expressou seu pensamento, suas ideias ou conceitos? Bem! A parte mais difícil está feita, mas o trabalho não está terminado – nem é você que deve modificar o texto de novo! Há agora um passo fundamental a ser dado: revisar. Mesmo que o texto tenha sido lido e relido, escrito e reescrito, tanto pelo autor quanto pelo orientador – e até mesmo por causa de tais múltiplas reescrituras e leituras que causam o saturamento das imagens das frases e o escritor passa a não ver mais os problemas existentes.
Embora pareça ser um conceito simples e claro, atingir excelência na revisão de textos não é fácil, assim como relacionar as características que deve possuir uma revisão de textos eficiente também não é simples.

Maiêutica da revisão de textos

Considerando o termo revisão, no sentido que ele tem para nós, implica “nova leitura, mais minuciosa, de um texto; novo exame” [Houaiss]; obviamente, a atividade está ligada à leitura, mas ela é “nova” no sentido em que o autor já leu seu texto (e o releu muitas vezes), nova no sentido em que ela representa novidade para o revisor; mas, além de nova, ela é mais minuciosa, essa leitura estará atenta a um sem-número de fatores aos quais o autor não dá atenção; estamos falando de um novo exame, em que cada letra, cada sílaba, cada som – bem como todos os conjuntos possíveis desses elementos, será reconsiderado clinicamente, no sentido da visão metódica, racional que será aplicada sobre todos os ângulos e em oposição (ou em conjunção) com a visão empírica que o autor e seus colaboradores e orientadores terão tido do texto.
O conjunto de intervenções efetuadas pelo revisor tem que estar perfeitamente contextualizado; tudo que for possível ou necessário deve ser discutido com o autor para ficar evidenciada sua significação, nenhuma interferência deve ser feita sem que, para ela, haja explicação linguística satisfatória; cada intervenção revisional deve estar ligada às práticas de linguagem: à escuta, à leitura e à produção de textos; a revisão deve também refletir os constantes avanços dos estudos linguísticos e estar sujeita ao processo contínuo de crítica.
Tudo fazemos no objetivo de não apenas atender a algumas normas formais, tais como a ortografia ou gramática, mas tendo em vista a função comunicacional do texto, seu aperfeiçoamento como suporte do conjunto de informações ordenado e hierarquizado, da melhor forma possível, para que a mensagem alcance o leitor com a maior clareza possível.
Em nosso caso, como trabalhamos focados na produção acadêmica, o texto está em registro formal, a norma é culta, estamos presos à ortografia oficial recém-modificada, bem como restritos à gramatica normatizada; assim com os textos acadêmicos devem ter a necessária coesão micro e macrotextual, devem ser tão isentos quanto possível e se revestirem de diversas outras características que constituem o jargão de cada campo de conhecimento.
Nós vivemos no país do “jeitinho” e muitos autores imaginam que, para revisar, basta “saber português” – então, contam com a ajuda daquela amiga que “dá aula de redação”... E o desastre se avizinha: quem não é profissional não tem disponibilidade integral para cada serviço com que se compromete, não conhece programas de editoração, não é capaz de implementar mecanismos de interação com o autor, não está afeto a diferentes jargões – nos casos dos textos científicos.
Não há muito consenso sobre essa terminologia, embora pareça que realmente “revisão de textos” seja a fórmula mais aceita para descrever o processo de reconsideração não autoral de um texto original. A chamada autorrevisão tem o problema de ser um entrave à redação: deixar fluir a escrita; é melhor para o texto que se escreva mais em quantidade e velocidade que parando muito, deve-se reler texto a intervalos maiores; isso é mais produtivo.
Em geral, os clientes precisam e esperam muito da revisão do texto, mas ainda não percebem o que pode fazer grande diferença: um revisor profissional.
O texto acadêmico tem características próprias, diferentes do texto literário ou jornalístico, por exemplo, portanto requer estrutura própria de apresentação das informações, dos argumentos e das conclusões obtidas; muitas vezes essa estrutura é formal, uma forma mesmo que limita a criatividade, e cumpre ao revisor, em tal caso, verificar se o texto ficou bem amarrado em tais parâmetros.
As pessoas que estão envolvidas na criação do texto, autor ou autores estão muito próximas dele, podem deixar passar lapsos por terem uma leitura já apressada, ou pior: podem não perceber as dificuldades que uma pessoa de fora teria em compreender as informações e argumentos.
Escrever é um processo de criação, no caso do texto acadêmico, a criação está comprometida com a apresentação de uma verdade suposta, de um conhecimento produzido ou de análises sobre conhecimentos anteriores – quando não for tudo isso.
O processo de revisão, como modernamente o compreendemos, pressupõe alteridade – o que quer dizer que é necessária outra pessoa, de fora do processo de criação do texto, para revisá-lo com isenção e distanciamento.

Hermenêutica da revisão de textos

Na escola da linguística tradicional, inclusive no que se refere à linguística aplicada à revisão de textos, antes da década de 1970, o estudo da produção escrita era focado no objeto final e não se havia tomado muito em consideração a maneira pela qual o autor produzia um texto escrito.
O texto não se restringe ao que se escreve, mas engloba diferentes formas de expressão – imagens, cores – que ajudarão a compor com a parte linguística. A revisão de texto é campo de pesquisa em plena revitalização, agora como atividade de volta ao texto, envolvida em todas as tarefas e em todas as fases, da produção à impressão.
Ao adotarmos a concepção de escrita como trabalho, não podemos isentar o importante papel do leitor qualificado, o revisor que, com o autor, vai construir em processo de co-produção, o sentido para o texto.
No contexto da produção textual atual, define-se a revisão como tudo o que é feito para atingir um objetivo no texto em algum momento, com certa finalidade e implicando algum custo.
Os enfoques psicogenéticos sobre a escrita e revisão de textos colocam em destaque os processos de produção, preparação e assimilação do texto como objeto cultural.
Estudar aspectos relativos à coerência textual é de grande relevância para a revisão de texto, já que a coerência assume papel preponderante nos processos de produção e compreensão de textos.
O processo de revisão é de ordem superior dentre as tarefas cognitivas (como a leitura ou escrita) com um problema muito significativo para resolver: o revisor deve ler com os olhos do autor e do leitor a que o texto se destina.
Entre as interferências mais comuns, pode-se mencionar: a defesa da consecutio temporum (corrigir a relação entre a oração principal verbos e cláusulas dependentes, sejam condicionais ou coordenadas); a criação de artifícios linguísticos que evitem as irritantes repetições de vocabulário em geral; atenção para o uso indevido de nomes, advérbios, predicados; a batalha contra a excessiva fragmentação das sentenças, causada pelos mal utilizados sinais de pontuação; o controle do uso de expressões e subordinação e passivação, para garantir a fluência e a comunicabilidade do texto; a identificação exclusiva do sujeito de uma sentença (evitando as ambiguidades); a remoção de efeitos indesejados de anacolutia e anfibologia, que podem confundir o leitor e estragar o prazer estético da obra.
No início, na verdade, um bom revisor deveria acrescentar ao controle formal da revisão uma análise mais completa do texto, para destacar as expressões infelizes ou particularmente “enroladas” e restaurar a correta destinação e a concatenação lógica necessária de proposições que formam um período.
Na verdade, os autores e revisores não interagiam para obter o atual desenvolvimento da forma e do conteúdo de um texto, mas se limitavam a corrigir erros recíprocos sem pensar nas estratégias dialógicas para compor o texto em regime cooperativo: a habilidade linguística do revisor limitava-se a proporcionar um texto “certo” sem se preocupar com os aspectos da produção que podem levar ao texto “melhor”.
Por que repensar a prática da revisão de textos com interdisciplinaridade? A proposta é considerar a complementaridade das disciplinas que contribuem para aprofundar o conhecimento sobre essa atividade, incluindo linguística, didática e psicologia cognitiva – a conclusão será uma abordagem multidisciplinar necessária.
A prática social tem várias orientações – econômica, política, cultural, ideológica – e a revisão de texto está presente em todas elas, uma vez que a ordem social que estrutura uma sociedade se estabelece a partir de um mercado complexo em que os textos são produzidos, distribuídos e consumidos.

Haliêutica e torêutica da revisão de textos

A evolução tecnológica que impactou as práticas da revisão textual trouxe de volta as antigas demandas feitas ao revisor: cultura geral e conhecimento de outras áreas para além da norma-padrão: a linguística textual e suas teorias de tipos e de gêneros cada vez mais inovadores e híbridos; a sociolinguística e seus estudos das variações linguísticas; as tecnologias da informação e suas possibilidades de comunicação virtual, rápida, híbrida, predominantemente imagética e de longo alcance; a Análise de Discurso Crítica (ADC) e a Teoria da Semiótica Social da Multimodalidade (TSSM).
A revisão de textos, como nós a compreendemos, é composta de diversas sequências de leituras e intervenções feitas no arquivo eletrônico do original e compreende a conferência de lista extensa de checagem que inclui: uso de pessoa gramatical, imperativos, tempos e modos verbais, elementos anafóricos e catafóricos, o papel de agente ou de paciente da ação verbal, coerência textual, concisão, estilo – para mencionar apenas alguns aspectos.
A revisão é o momento que demonstra a vitalidade do processo construtivo, uma vez que revisor (leitor) e escritor dialogam a respeito da obra para obter melhor compreensão, resultando no aperfeiçoamento do texto como mídia entre os sujeitos comunicantes.
No projeto acadêmico, quer seja um artigo científico ou a resenha de um livro, até as últimas teses da hierarquia acadêmica, o revisor interfere preferencialmente quando o texto todo está concluído, isso lhe dá mais flexibilidade em seu trabalho, otimiza o tempo e agrega qualidade pela uniformidade de critérios e pela compreensão da macroestrutura textual.
Descreveremos aqui o modelo ideal do processo de revisão, com um breve aceno para as características peculiares do texto técnico e científico, fazendo, em seguida, uma apresentação de classificações usadas para categorizar as revisões feitas nos textos acadêmicos e científicos, com base em vários tipos de revisão realizadas.
A principal razão para as dificuldades da revisão jurídica reside nos campos léxico e semântico, bem como na pragmática textual específica; não são problemas tão somente relativos aos termos, mas abarcam os conceitos, em particular aqueles conceitos que são próprios de alguns sistemas ou campos jurídicos, mas não de outros.
Os revisores também fazem uso de gramáticas, dicionários e têm o precioso auxílio da internet, onde é possível verificar questões de usos da língua mais dinâmicas que nas obras de consulta impressas; sempre que possível, faz-se consulta ao autor ou outra pessoa competente; a consulta ao dicionário é a mais constante, sobretudo quando surgem vocábulos desconhecidos.
As três operações do processo de revisão (exame, diagnóstico, interferência) são igualmente importantes para o sucesso da revisão. Elas estão também intimamente relacionadas entre si.
A revisão profissional e especializada do texto já é considerada tarefa essencial para assegurar a qualidade textual compatível aos serviços prestados pelas empresas tecnológicas ou seus produtos, bem como para garantir a qualidade das teses e dissertações, do ponto de vista da fluência e legibilidade, correspondendo a seu valor científico.
Sempre é bom lembrar que, nesse contexto da atividade de revisão de textos, quando nos referimos à revisão especializada, o revisor é especialista em um gênero de texto – não no conteúdo material que o texto apresenta.
Para o revisor tradicional, a revisão de um texto escrito é tanto um hábito mental quanto a aplicação de um conjunto de técnicas reais: os anos de escola devem (ou deveriam) ensinar as bases linguísticas necessárias à produção e edição, escrever ou revisar um texto, simultaneamente.
A necessidade da revisão, para trabalhos acadêmicos, é tão evidente que vamos nos limitar a apresentar o trabalho em si, no que precede a preparação dos textos para análise automática por ferramentas de análise linguística (etiquetador morfológico e analisador sintático).

Editoração de textos

A norma editorial, ao fim e ao cabo, é sempre a interpretação que a pessoa responsável pela edição do texto faz: quando se trata de uma tese, primeiro a norma tem que ser o que o orientador pensa que ela seja; depois, é necessário que o texto esteja de acordo com o que alguma bibliotecária deseja ver; por fim, é necessário que o volume esteja de acordo com a interpretação da pessoa encarregada de receber a tese em depósito!
De modo mais abrangente, a editoração, no mundo acadêmico das teses, dissertações e artigos, refere-se ao conjunto de operações necessárias para que um manuscrito (assim se diz, mesmo se é um documento escrito ao computador) esteja apto à publicação (em sentido lato: apresentado ao público), quer seja o depósito para a defesa, a submissão a um periódico, sua transformação em livro ou adaptação a quaisquer mídias: a editoração também se aplica aos textos que serão publicados em um CD-ROM, ou um site.
No entanto, essa ideia está muito longe da realidade e as empresas e instituições de ensino mais exigentes no que respeita à edição ou publicação de textos, como é o caso das universidades, não prescindem do trabalho de profissionais que, com alguma frequência, detectam lapsos ou discrepâncias que os próprios autores dos textos não detectam em sucessivas leituras.
A editoração de textos acadêmicos, notadamente a dos textos mais longos, envolve cuidadosa revisão e formatação do material antes de sua defesa e publicação, implicando em inúmeras alterações ou sugestões para aperfeiçoar o texto e sua apresentação gráfica.
O trabalho do revisor pode passar por diversas fases: a marcação técnica, durante a qual o revisor lê o documento original e inclui diversas indicações de teor gráfico e linguístico de forma a preparar o trabalho para a fotocomposição, a leitura das provas, na qual o texto composto é lido e comparado com o original, a contraprova, em que se verifica se as emendas decorrentes da leitura foram corretamente introduzidas, e a verificação da paginação.
Os padrões cobrem os estágios editoriais geralmente reconhecidos (formatação primária, revisão primária, formatação do texto, segunda leitura...) que começam quando o material está mais ou menos completo e terminam quando está pronto para publicação (defesa, submissão).
O objetivo aqui é listar as principais normas de procedimento – o conhecimento, habilidades e práticas mais comumente necessárias para editoração de textos acadêmicos e que são nossos referenciais.
Apontamos ainda que, além dos estilos canônicos, há diversos estilos correspondentes e específicos para incontáveis publicações (diferentes revistas científicas, sites e outras mídias), bem como estilos acadêmicos – notadamente para dissertações, teses e mesmo trabalhos de conclusão de curso que variam inclusive de um programa para outro dentro da mesma instituição.
Sempre ficamos impressionados com o fato de que normas editoriais acadêmicas, que se destinam a dar elegância ao texto, na maior parte dos trabalhos são apresentadas com desleixo, com um layout áspero e duro de ler, com a programação visual arcaica e simplória – sempre como obstáculos para obtenção de informação pelo leitor.
Esses profissionais de edição aqui são os revisores de textos e são eles que preparam, corrigem e verificam os textos que se destinam a publicação, em suporte físico ou eletrônico, e que tomam parte de um diversificado leque de trabalhos que podem ir desde a obra literária, até teses e dissertações, cada um com as suas particularidades e exigências.
A edição e a editoração são as fases de trabalho que não exigem “cultura”; editoração está ligada ao otium e edição ligada ao negotium – para fazer uma referência medieval.
Só para dar um exemplo, em um trabalho de pesquisa sociológica o “ator” não é aquele que representa um personagem, mas aquele que exerce um papel ativo em determinado contexto e isso deve ser dito quando o termo surge pela primeira vez.

É tanta matéria que estamos dividindo a apresentação em duas postagens, para não caber melhor aqui! Leia também sobre a outra parte da obra, clique aqui! Podem esperar: o livro é para este ano.