17 de abril de 2017

Interpretar e revisar textos

À primeira vista, parecem simples as questões entre a revisão de textos e a interpretação deles, mas há muito a ser pensado nesse trâmite.

Uma comparação das definições de “revisar texto” e “revisão de textos” seria útil; existem algumas diferenças, mas escolhemos “revisar”: parece menos frio, menos reificado que a “revisão”; mas também usamos “revisão”, sem muitos limites.[1]
Esta pequena reflexão e síntese é difícil, porque há uma série de critérios e, portanto, diferentes tipos possíveis de revisão e de interpretação – tanto de interpretação do que é revisão quanto do papel da interpretação na revisão; a reflexão é menos específica que as partes inerentes específicas, a reflexão é inespecífica, no que ela tem de genérico, por óbvio. Vou começar pelos significados que considero como periféricos (embora alguns deles, com a tecnologia, possam bem se tornar centrais, senão hegemônicos).
Sempre há componentes interpretativos no processo de revisão, não há como evitar
Existem componentes de interpretação dos
quais o revisor, mesmo se quiser,
não se dissocia.
Revisar é transformar um texto do estado original, a outro estado, equivalente em termos de objeto – mas aperfeiçoado na forma, fazendo-o pelas interferências de um ou mais agentes que têm papeis existentes, efetivos, contudo, reduzidos ou deslocados da interpretação, configurando:
(i) a transição de um texto original para outro (podendo se tratar de linguagem ou qualquer outra coisa), com significados idênticos (com transformação, tanto quanto requerido, de registro, voz, gênero, finalidade). Vemos que estamos aqui na acepção estrita da expressão, em que o significado de revisor como mero intermediário é muito limitado, ampliando-se na direção da universalidade pela chamada autonomia conceitual. Revisão simultânea e interpretação podem ser concomitantes, sem desvalorização. Aqui a revisão está residindo em um conceito de revisão autopoiética muito específico, como processo. Esse sentido é ligado à revisão com resultado ou consequência encontrados ou desejados processualmente.
Essa ideia de consequência-corolário pode evoluir quase para interpretação, por causa de algum tipo de síncope temporal – ambos os estados sendo conectados quase imediatamente. Do virtual para o realizado, pode-se dizer que se processa a revisão; há aqui certa possibilidade de homogeneidade, devido à modelagem das fases em processo único. A interpretação não parece ser parte do processo de revisão nessa direção, principalmente à medida em que se implementam recursos de tecnologia da informação, como inteligência artificial e processamento de língua natural como componentes.
(ii) interferência no sistema original: existem mecanismos de conversão mais complexos nessas revisões (com o papel de sofisticada máquina que não interpretará em sentido estrito, mas cujas interferências têm substrato). Assim, o evento (para sensibilizar o conceito) possui uma interioridade psicológica (sentimento), pela escolha do canal comportamental (expressão facial, gestos) alheio ao canal verbal, mas descrito por ele: “a palavra tornou-se desnecessária, todos os sentimentos traduzidos pelos olhos e pelo sorriso.” Mas também se pode interpretar verbalmente um gesto: “fez um gesto que poderia levar à fórmula mais educada de expressar esta ideia: como você gosta!”. O primeiro exemplo refere-se à revisão da interioridade pelo comportamento visível sozinho em depreciar, negligenciando a expressão verbal; a exemplo de outros, evoca um pouco um relatório da revisão do campo comportamental expresso em termos verbais (intersemioticidade seria melhor que a descrição pelo termo cunhado de): “canais”; aqui, há dois graus de intersemioticidade, mas ambos problematizam fortemente, com diferentes modos de presença para entidades em relação à revisão, para a primeira instância. Há um papel de interpretar o curso neste tipo de decodificação, outro evento comportamental de interioridade ou comportamento verbal (relação de imagem ou réplica) expresso; mas é um modo de interpretação inferencial, baseado em conexões adquiridas, automáticas, embora complexo, situado entre comportamento verbal e visual; permeado de interioridade e exterioridade; eivado de semitexto, subtexto, intertexto.

Transposição e intersemioticidade na revisão textual

Na transposição de um registro textual em outro (posto que um texto revisado não é mais o original, mas outro produto), nós temos sucessivas ideias de interferências mecânicas e outras derivadas das visões que resultam em revisão. Aqui, vamos do campo das ideias à língua, ao mesmo tempo que aparecem as fases de um processo de autoexpressão: não fica longe da crítica do discurso (em outro nível e com efeito diferente), que é um tipo de revisão dos pensamentos, das ideias em linguagem e discurso crítico dos “textos” como objetos. O papel de interpretação é importante, aqui também com fortes negociações, sem dúvida.
Há relativa heterogeneidade (de ideias e linguagem) e manifesta afiliação na transposição de uma forma de arte que existia em outra que se cria: a imagem é revisão real, o transporte da ideia de uma arte em outra, como o revisor para um livro escrito em uma língua e arte que ele toma como sua.
Portanto, há na revisão uma adaptação literária. O papel da interpretação aqui é claro: interpretação da fonte e forma e interpretação na conversão-transformação com base no destino. A homogeneidade da origem e destino das artes é sempre relativa.
Trata-se da conversão (como representação da revisão) da “realidade”: (i) como representação pelas artes gráficas e plásticas: em cada interpretação, uma pintura, uma revisão da natureza da língua original. Sob o pincel do revisor, que se destina a ser “intelectualmente” neutro, uma paisagem ou um rosto muda de intensidade. No entanto, essa intensidade vem da força que os autores infundem nas imagens que oferecem. (ii) como representação teatral: aqui abrimos parêntese para dialogar com a ideia de teatro filosófico e, no mundo das representações, correr o movimento do pensamento em direção à criação conceitual, sugerindo que a filosofia da criação, da produção, da revisão, deve inserir o movimento, as ligações, sob as quais os intercessores são puros personagens principais de tais deslocamentos e montagem, pois eles são os vetores da criação conceitual e da recriação; quando falamos em teatro, lidamos com a ideia de espaço cênico, o vazio desse espaço, também da forma pela qual ele é preenchido, configurado por signos, máscaras, por meio dos quais o texto desempenha um papel, ou papéis, como a cena atravessa pontos, tece malhas notáveis e a repetição vai sendo tramada, compreendendo a diferença. Nessa configuração, o texto se põe a tecer cenas, espaços cênicos, e experimenta forças, traços dinâmicos que se deslocam; ele também experimenta e expressa o corpo, a linguagem, os gestos, os olhares, antes do e ante o corpo textual organizado. Revisar em tal subsunção requer o cuidado com toda a potência do falsário que prolifera, caminha na superfície, visto que o jogo é a busca pela força, pela intensidade, fazendo surgir algo ainda que não existe, ou ressurgir algo que já existiu ou se pretendia que existisse.
Aqui o conceito de revisores como intercessores demonstra o quanto a revisão põe em cena as relações, os encontros com o filosófico e o não filosófico, fazendo com que o procedimento de roubo de conceitos faça torções, a fim de integrá-las às suas questões de interesse [2]. Não insistiremos na interpretação de grandes papéis, concebida como mediação plana (e não intermediária) aqui na (re)apresentação artística projetada como revisão em perspectiva genética complexa, apresentando interação artista-sujeito e objeto-revisor para (re)apresentam, o resultado final (revisão) como complexo de que vem do objeto (por intermédio dos sentidos, da memória de trabalho, das cognições ou dos sentidos) e assunto expresso em alguma forma de arte (maior em nossa opinião) que não pretende imitar ou aumentar, embora o objetivo seja igualmente o belo ou o sublime.

Revisão de texto no sentido estrito

Reformular em língua nativa (o texto objeto, que era original) no idioma de origem e destino sem alterar o significado, mas aperfeiçoando a significância. Desta vez, trata-se do revisar em uma linguagem compreendendo origem e destino como estados de um processo cuja revisão e interpretação são partes constituintes; a noção de código (já visto acima, com o computador como máquina de revisar) pode voltar: a revisão literal, ou palavra por palavra, é ideal onde as estruturas das duas instruções são paralelas. A modelagem aqui está relacionada a: revisar exatamente, fielmente, livremente, literalmente, palavra por palavra. Opõe-se livremente a outros advérbios que ainda podem expressar diferentes valores: literalmente e textualmente (!) parecem ser sinônimos e podem agrupar quem também deseja se aproximar de fielmente. Mas se pudermos destrinchar isso muito claramente, literalmente e textualmente não são o mesmo que exatamente ou fielmente: precisão e fidelidade em comparação a quê? Uma revisão literal pode ser infiel até certo ponto de vista. Aponte aqui o problema do texto, ao invés do sentido e assim a interpretação (ausente de decodificação ou de literalismo). Nesse caso, revisar se torna repetição diferente no mesmo idioma, sem qualquer transcendência; há um grande trabalho de reescrever muito pouco interpretativo, perdido na pequenez da mecanicidade. O autor insiste sobre o papel das normas (da gramática normativa!), mas não na linguagem do texto revisado e submetido a um sistema de normas sem relevar, por exemplo, a questão dos registros, dos gêneros, do papel do fundo, da semântica, das representações expressivas, das formas e estratégias de compensação para encontrar equivalência no tipo de semiose: colocando as regras da língua em contato com novos padrões; revisão ampliando o horizonte do pensável e o dizível; revisão como crítica à atividade e ao produto; revisão que revela o texto em si: de alguma forma, o texto parece incompleto, enquanto não é revisado. Gostaríamos de acrescentar: línguas morrem quando seus textos não são revisados; assim como a língua não está morta, enquanto seus textos são traduzidos e interpretados – em oposição à concepção de “língua morta” como a linguagem que não falamos mais, ou da linguagem que vai morrer, pois seus textos estão naufragando nos sargaços das violações dos padrões formais, ou nas inconformidades dos que não têm padrões. Provavelmente, existem graus entre a vida e a morte das línguas, tendo em conta os textos. Além de pontos importantes da epistemologia, um revisor encontra princípios teóricos e metodológicos interessantes e originais no ato da revisão.

Problema de síntese textual

Tomemos os comentários que seriam sintéticos descrevendo o significado da interpretação para revisão e crítica do discurso. Nesses termos, após relativizar e relacionar os dois pontos, eles constituem a rede, apesar do aspecto que não é uma crítica: trata-se de trazer para fora o significado desta digressão, como um curso em concurso, o que é um bom método.
A transposição, revisão como processo, é posta como fenômeno geral baseado em um problema geral: a conversão pode ser vista apenas em bom curso como passagem ou imagens, ou ser definida como a transformação, sem elaborar, de origem para destino. Ela deve permitir a interpretação que orienta a transposição e que está presente também no ponto textual de partida (a origem) e no ponto de chegada (o destino). Apesar de haver, também, os conceitos de origem e de destino bem discretivos.
Recomeçando com o alegado ao início, podemos considerar revisão (literária aqui) como criação? O dever e a tarefa de um escritor são aqueles de um revisor (com ênfase insistente para certos termos); embora possa soar como tal, essa opinião não é tão simplista, pois: (i) a simplificação do curso pode levar a uma variante moderna, também aos surrealistas ou à escrita automática, numa espécie de realismo transcendental: uma tradição que existe e também é reflexiva quanto a isso; (ii) falar sobre transposição também não é exato: o termo não é permitido para o fenômeno de transformação mais complexa que na criação de impressão para a expressão. Impressão para a expressão pode ser trabalhoso, mas a expressão também pode surgir espontaneamente, parecendo acontecer impressão – mas isso foi, provavelmente, a experiência limite, expressão da impressão: o par impressão-expressão é, provavelmente, como muitos outros, a relação de complexidade; e o que parece contar é a noção de ciclo (ou espiral, jamais a linha) para esse par impressão-expressão, absolutamente essencial e constitutiva criação vista como transformação e troca. A percepção do texto e a percepção do mundo dentro e fora conhecem o um (e) (n)o outro.
Desde a criação da revisão como concebida (no sentido desta proposta), onde podemos dar os passos para uma perspectiva genética complexa, ela pode ser vista como fenômeno complexo e contínuo. Continuidade que se opõe em áreas nas quais as soluções polissêmicas preveem significados separados. É evidente que a interpretação e a mediação desempenham aqui papel fundamental. Há muitos aspectos a considerar, incluindo a recursão, a tradição e a questão de intertextos. Nossa posição não é dizer que a revisão é metafórica: (i) em virtude da continuidade que se opõe à tensão e justificando o uso e o clássico funcionamento da metáfora; (ii) essa posição pode influenciar a outra maneira de interpretar e considerar a metáfora, mas vamos parar por aqui.
Retornando para o óbvio sentido de revisar, revisar é um enriquecimento – e a revisão é um enriquecimento – obviamente, propondo defender a diversidade extremamente ameaçada de línguas e culturas e suas produções.
[1] Ballabriga. [2] Brito.
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