18 de abril de 2017

Intercessores na revisão de textos

Intercessor é o que ou aquele que intercede – medianeiro (mediador), no sentido literal estrito, o conceito de revisor é perfeitamente assimilável e compatível. O ponto de vista etimológico (latim: intercéssor, óris “o que faz oposição” – o antagonista), é completamente contrário ao conceito que temos de revisor – completo es-vaziamento semântico, paradoxal inversão de sentidos. Curiosamente, no sentido do catecismo católico, intercessores são os que intermedeiam favores; afastada a ideia de favorecimento gratuito, tal noção de intermediação também nos interessa.
Nenhuma obra tem um autor só. Incontáveis Intercessores influenciaram a criação.
Sob diversas óticas, os revisores
de textos podem ser vistos
como Intercessores.
O conceito de Intercessores, do qual haurimos as ideias que apresentaremos, é uma construção de Deleuze[1]  que, com alguma liberdade, aplicamos a nosso objeto. Como ele mesmo argumenta, os conceitos são movimentos que são constituí-dos a partir de encontros e problemas e são eles que forçam o pensamento a pensar. Ainda segundo Deleuze, filosofar é como passear com um saco e, ao encontrar alguma coisa que sirva, pegar: encontramos esse conceito, com muita utilidade nele para nossas reflexões, e estamos nos apropriando dele como nos convém. Os Intercessores de Deleuze, são os mobilizadores do pensamento – e aqui quem nos mobilizou foi ele mesmo – e a partir deles é que se criam problemas e, certamente as soluções ou novos problemas. Sem os Intercessores, segundo essa lógica, o pensamento não age, não inventa, não cria.

O essencial são os intercessores. A criação são os intercessores. Sem eles não há obra. Podem ser pessoas – para um filósofo, artistas ou cientistas; para um cientista, filósofos ou artista – mas também coisas, plantas, até animais, como em Castañeda. Fictícios ou reais, animados ou inanimados, é preciso fabricar seus próprios intercessores. É uma série. Se não formamos uma série, mesmo que completamente imaginária, estamos perdidos. Eu preciso dos meus intercessores para me exprimir, e eles jamais se exprimem sem mim: sempre se trabalha em vários, mesmo quando isso não se vê.[2] 
Nos vemos os revisores como intercessores, em mais de um sentido, inclusive o sentido de Deleuze, nas palavras acima, parafraseando, os revisores somos essenciais, não há obra sem revisores; não há artista, cientista ou filósofo sem revi-sores. Os autores precisam encontrar revisores reais, alternos, sem os quais correm o risco de não se exprimirem adequadamente.
Deleuze usa o conceito de Intercessores no plural, já que tal conceito se manifestar por componentes, por variações, heterogeneidade, multiplicidade e intensidade, como requer a operação conceitual. Os Intercessores configuram a orientação filosófica e metodológica da revisão de textos. Se o pensamento e a produção literária hoje em dia (em todos os gêneros) anda mal é porque, sob o nome de modernismo, há um retorno às abstrações, com muitos abandonos das formas.
O que demarca o envolvimento da revisão com outras áreas de conhecimento não é efetivamente suas interpretações criativas e ousadas, já que não função do revisor inovar, mas, como essas obras, que vão da literatura à biologia, por exemplo, podem liberar melhor novos conceitos e como esses conceitos podem se articular e serem apresentados. O que importa são as linhas que passam entre uma coisa e outra e, num devir, que as leve para outros modos expressivos e interpretativos.[3]
Nesse sentido, o plano de imanência deleuziano dialoga com diferentes pensamentos e em diferentes áreas (cinema, pintura, teatro, literatura, biologia, antropologia, matemática, geologia, linguística), e o que está em jogo é pensar o seu conceito de diferença, de adaptação, de transformação. Revisar, assim como pensar, é criar no próprio pensamento por vias de outras conexões, interações – ou re-estabelecer as conexões e interações que se perderam por lapsos, omissões, in-consistências. Assim, a leitura do revisor é sempre orientada, mas para isso ele pre-cisa metodologicamente de seus Intercessores – e, pela via da reciprocidade, os autores precisam das intercessões dos revisores.  Os revisores, por essa via, se tornam um conceito de ordem fundamental com que se pode pensar a diferença segundo Deleuze, ou a alteridade, segundo nossas postulações, e ainda a dialogia, se formos para Bakhtin; aliás, o próprio conceito de Intercessores já é a diferença que trabalha, porque cada encontro, cada intercessor faz cruzamento, prova aberturas, rasgos – cada revisor sinaliza nos cruzamentos, supre aberturas, preenche la-cunas e emenda rasgos – o que é a mesma direção, com sentido contrário. A heterogeneidade e as transmutações, por meio de encontros, configuradas pelos revisores como Intercessores, formam sínteses disjuntivas. Arriscamo-nos crer que é sempre a heterogeneidade do conceito de revisão que se estabelece como uma experiência radical no plano de imanência.[4]  Muito disso se inspira-se postulações de Bakhtin, que o linguista russo desenvolve não somente ao definir Dostoievski como o criador da “novela polifônica” – uma obra constituída por múltiplos sujeitos de enunciação que convivem mantendo suas disparidades e mesmo expondo-as na pluralidade de consciências autônomas de mundos correspondentes e ao buscar descrever o funcionamento dos enunciados de modo geral. Todo enunciado inserido na rede maior de enunciados, da qual cada enunciado é apenas um elo e sem a rede nenhum enunciado seria possível. Todo enunciado é, em diferentes graus e modos, contaminado por palavras, estruturas, orações, tons, discursos, registros, alteridades. Há sempre a presença diversos sujeitos no discurso daquele que seria o sujeito do enunciado, inclusive, em qualquer texto, o discurso do revisor.[5] 
Podemos tencionar a expressão texto-intervenção, inerente à revisão, na direção do que coincide com pesquisa-intercessão. Não se trata da proposição de uma nova nomenclatura, mas de adaptações e reinterpretações axiológicas, no sentido de explorarmos a concepção da revisão que intercede, que interfere no texto, discutindo o estatuto dos critérios de intercessão e interferência.
O problema está em localizarmo-nos no que se passa entre a produção e a revisão. Com isso, interessa pensar o processo deflagrado desde pontos originários da pesquisa e produção de textos, o que pode nos levar à crença de que cabe ao revisor promover transformações em seu objeto de trabalho. Nada mais presunçoso seria que partir da posição na qual um eu-revisor se afirma encharcado de poder, pretensioso de, pela posse de um saber linguístico, ser capaz de, ele mesmo, e a partir dele, fazer andar ou parar o mundo alheio.
O mundo anda por meios próprios. Move-se com e a despeito do autor e do revisor. Então, cabe, ao revisor, em exercício de profundo respeito, instalar-se em suas funções procurando, insistente e permanentemente, estabelecer nelas uma relação de não dominação. Tentar dominar o movimento do mundo ou a expressão autoral seria fatal, cessariam os processos, interromperia os fluxos da produção au-toral que vertem em incessante anseio de se afirmar.
Revisar-interceder consiste, então, em colocar-se entre. Mas não entre dois corpos individuados, senão entre corpos em individuação, em movimento de geração heterogenética. Implica em forjar um revisor-intercessor em lugar de reflexivo. Essa é a direção. Um revisor que cria e subsuma conceitos que, por sua vez, geram pensamento, engendram modos de compreensão do outro, resistem à captura ou à submissão.
Assim, revisar-interceder consiste em acionar uma máquina afeita à abertura de linhas fugidias, típicas de uma ciência nômade, em eterna reconstrução. Esse tipo de revisão consiste em embrenhar-se por entre os movimentos do campo textual e cognitivo, em recusa ao acesso das verdades e na busca pelo que as falseia.[6] 
O procedimento deleuziano de reivindicar literatos, escritores, poetas, músicos e artistas em geral, como intercessores de seu pensamento, nos libera, até onde podemos, para nos apropriarmos de seu conceito de intercessores a nosso modo.[7] 
Pesquisar-interceder, revisar-intervir converte-se, assim, em exercício de deslocamento de qualquer eventual resquício autoritário que pode acompanhar a expressão intervenção, pois o que as forças repressivas costumam fazer é, justamente, fazer falar e viver em determinada direção. Trata-se, em lugar disso, de acessar um terreno de impossibilidades, lugar em que nasce a criação e a interpretação.
A revisão-intercessão religa, assim, os pontos entre filosofia, ciência e arte. Imiscui criação de conceitos, de funções e de blocos de sensibilidade, sempre em trânsito e em processo de abertura de sentidos. Aí se dá a intervenção. Uma intervenção cujo caráter é muito mais intensivo que extensivo, é proativo e prolativo, relativo à produção de sentidos capazes de transgredir pelos caminhos de uma ciência da ordem na direção de uma ciência mais abrangente e menos abrasiva.
O processo de formulação da escrita-intervenção afirma o debate sobre as bases teórico-metodológicas da revisão participativa, bem como a análise da interferência coletiva na produção de micropolíticas de transformação social – se você achar que revisão pode mudar o mundo, ou a forma de ver o mundo.
[1] (Deleuze, 2010). [2] (Deleuze, 2010, p. 160). [3] Adaptado de (Brito, 2013). [4] (Vasconcellos, 2005). [5] (Brito, 2013). [6] (Malufe, 2012). [7] (Amador, Lazzarotto, & Santos, 2015)(Vasconcellos, 2005).