O estudo da revisão de texto: inter e pluridisciplinariedade

A revisão de textos era estudada como disciplina em si, hoje as abordagens são múltiplas assim com diversificados são os trabalhos sob essa denominação.

Em contexto de hiperespecialização e compartimentação dos territórios e objetos de estudo, a complementaridade das disciplinas é a vantagem de um destino virtual, o que pode ser chamado de “interdisciplinaridade cosmética”. Por que repensar a prática da revisão de textos com interdisciplinaridade? A proposta é considerar a complementaridade das disciplinas que contribuem para aprofundar o conhecimento sobre esta atividade, incluindo linguística, didática e psicologia cognitiva – a conclusão será uma abordagem multidisciplinar necessária.
Revisar uma tese ou dissertação requer uma gama de conhecimentos muito ampla.
Revisar textos requer ampla base
cognitiva e memória de trabalho
extremamente dinâmica.
A atividade de revisão está inerentemente condenada à abordagem multidisciplinar: pesquisadores envolvidos no estudo de produção e revisão de textos visam aprofundar o conhecimento de seu ofício em relação a diferentes escritores (crianças, adultos, novatos, especialistas, cientistas), em contextos de produção variada (profissional, acadêmica, experimental), de acordo com modalidades diferentes (escrevendo notas manuscritas, informatizadas, apontamentos, sucessivas alterações) em diferentes níveis de foco (revisão léxica ou de frases isoladas, textos, obras literárias). Em certa fase, as pesquisas eram conduzidas em um ambiente monodisciplinar: fosse o da psicologia cognitiva, das ciências da linguagem, do ensino ou letramento, raramente excedendo o quadro das disciplinas envolvidas. Cedo ficou claro que diferentes métodos analíticos complementares ou estudos envolvendo várias ferramentas alcançavam resultados mais abrangentes. Se a comunidade de psicólogos cognitivos lança mão da análise linguística como uma das ferramentas essenciais a seu trabalho, não poderia ser desconsiderado que a dimensão cognitiva da linguagem encontrou rapidamente lugar no campo das ciências da linguagem. A disputa sobre a definição do campo da linguagem não é pequena. Forçar um pouco os limites, para alguns, é essencialmente incorrer em disfunções que constituem erro; para outros, pelo contrário, a disfunção é a essência da linguagem.
A questão do trânsito da linguagem pelos mais diversos segmentos da cognição passou a ser observada e descrita com propostas mais abrangentes. Nessa perspectiva, a complementaridade das disciplinas pode ser abordada como contribuições teóricas e metodológicas e como ferramentas para a pesquisa e aplicação.
Do ponto de vista teórico, o trabalho realizado no âmbito de diferentes disciplinas mostra que o estudo sobre a atividade de revisão pode ser abordado sob três ângulos complementares:
  • O primeiro refere-se ao processo global pelo qual os textos são produzidos e modificados em situação natural (escola, empresa, instituição, em casa). Essa abordagem se concentra sobre a evolução das diferentes versões do texto (genética textual) como resultado das alterações feitas pelo autor (estudo dos tipos de operação da linguagem, através da análise, da ação, dos rascunhos de crianças em idade escolar; a análise foca o mecanismo de microtexto na revisão: nível das palavras, frases e sintaxe de um manuscrito do autor).
  • O segundo centra-se no estudo dos processos cognitivos da língua e, por vezes, os mecanismos que o revisor (ou o autor) um texto implementa individualmente no âmbito do processo de produção individual. De fato, alguns textos, tais como os textos técnicos processuais, têm a característica enganosa de objetividade para os leitores (nesse caso chamados “usuários”) porque eles procuram apresentar a execução da ação (são textos narrativos ou explicativos, ler para se divertir ou para adquirir conhecimento, para aprender a executar uma operação ou manejar um equipamento). Esse tipo de texto costuma ter fontes de feedback potencialmente utilizáveis pelo editor na revisão do texto e são particularmente adequados ao estudo da atividade de revisão, pois evoluem constantemente.
  • O terceiro incide sobre uma abordagem do desenvolvimento da produção textual para adquirir conhecimentos da atividade de revisão em si, para a construção do conhecimento sobre as habilidades aplicáveis à produção ou compreensão de texto feito por um mesmo nível de clientes.

Do ponto de vista metodológico, as análises da atividade de revisão podem ser agrupadas em duas famílias de acordo com se é (a) para analisar as características, a qualidade e a intencionalidade do registro escrito (métodos offline: recolha e análise linguística de corpus naturais ou extraídos de banco de dados, reconstrução de um projeto, a abordagem de um autor pela detecção de vestígios das sucessivas versões, ou (b) identificar as características temporais da implementação do processo de escrita (métodos on-line: recolha e análise cognitiva do tempo das paradas, tempos de reação ou mesmo a velocidades de escrita).

Operacionalidade dos estudos sobre revisão de textos

Em termos de ferramentas, a análise da atividade de revisão em contextos acadêmicos e profissionais, em relação os tipos de escrita exigido nesses ambientes (textos argumentativos ou textos processuais, por exemplo – teses e dissertações, frequentemente), pode melhorar a concepção e avaliação das situações de colaboração e sequências didáticas que visam facilitar a aprendizagem e o uso da revisão. Isto é, por exemplo, considerar como a implementação da revisão melhora a elaboração dos textos prescritivos ou informativos, em situações de revisão monocrática (texto revisado pelo seu autor – ou revisor isolado, com ou sem base em de feedbacks dos leitores) ou revisão colegiada (escrita colaborativa em rede). As características e os parâmetros dessas diferentes situações constituem valiosas recomendações para o projeto, por exemplo, de sequências didáticas ou métodos dedicados à aprendizagem ou a facilitação da revisão (para revisar, ajuda ter em conta os feedbacks dos usuários, o desenvolvimento de versões sucessivas).
Perante estes resultados diferentes e tendo em conta as características dos códigos de escrita, ou a metodologia utilizada, se afigura essencial para o conhecimento sobre a atividade de revisão colocar seu estudo na perspectiva multidisciplinar. Com efeito, em relação à leitura e atividades de produção oral, que são objeto de estudos há várias décadas, as pesquisas sobre as atividades de revisão são relativamente recentes. Alguns conhecimentos e dados ainda têm de ser recolhidos e integrados para descrever e explicar as práticas de avaliação de um revisor ou do autor ao reescrever. Colocadas as implicações da transição da abordagem monodisciplinar para a abordagem multidisciplinar, o objetivo agora passa a ser a abordagem não só de compartilhamento de trabalho de várias disciplinas, mas também a colaboração dessas disciplinas, para identificar como fator psicológico da atividade de revisão em diferentes scripts, em contextos de produção variada e de acordo com modalidades diferentes, e apresentar métodos para estudar essa atividade com aplicativos (ferramentas ou métodos) para assistir ou ensinar o processo de revisão. Nessa perspectiva, a colaboração da linguística, da psicologia cognitiva e da didática em torno de questões comuns e compartilhadas permitirá o avanço no conhecimento dos diversos mecanismos subjacentes à atividade de revisão. Antes de mais nada, graças ao avanço multidisciplinar no conhecimento do funcionamento da revisão, seremos mais capazes de desenvolver e estudar contextos e aperfeiçoar a atividade. Assim, parece que o desenvolvimento e a avaliação detalhada do impacto de métodos diferentes e vários ambientes operacionais e tecnológicos favorecendo a revisão não podem ser divorciados da compreensão prévia do funcionamento da aprendizagem da escrita.
O objetivo não é somente fornecer uma visão geral das pesquisas atuais sobre este tema, mas também apresentar o trabalho de diferentes disciplinas em abordagem monodisciplinar primeiro e, depois, multidisciplinar.
Primeiro, vamos definir a revisão de textos do ponto de vista da psicologia cognitiva. Sua contribuição tem origem na observação de que o conceito de “revisão” raramente é definido operacionalmente, e isso pode abranger conceitos por vezes muito diferentes. A psicologia cognitiva propõe esclarecer o conceito de revisão fazendo a síntese das definições disponíveis na literatura, fatos considerados inerentes à revisão em estudos empíricos, subprocessos identificados nos principais modelos do processo de revisão e métodos utilizados para estudar tais processos.

A perspectiva linguística da revisão de textos

Em perspectiva linguística e genética, discutem-se os níveis de revisão no manuscrito. A gênese do texto segue o processo de três etapas: primeiro um projeto, que constitui o primeiro movimento, a segunda fase já é uma revisão, que permite estruturar a primeira fase da escrita e, finalmente, formatação final do texto em seu resultado e correção de provas. Aqui se estão projetando mecanismos de revisão de questões linguísticas e estilísticas, revisão ao plano global do trabalho, mas também a revisão no nível da frase. Questionam-se também os conceitos de “intenção”, “projeto” e “meta” que são, frequentemente, o cerne da revisão em diversos tipos de textos.
Outra abordagem linguística apresenta abordagem de pesquisa diferente, baseada na análise da escrita em processamento, coletada em tempo real em classe ou em laboratório. A análise centra-se sobre as interações entre a conceituação e as operações de desenvolvimento de ortografia, ou seja, todas as correções ortográficas relacionadas às regras para a linguagem, bem como as correções específicas do processador de textos para os erros de digitação. Alguns elementos do corpus analisado sugerem correções de natureza gráfica, muito comuns entre escritores iniciante; às vezes, parece ter papel funcional a pausa (casos onde a progressão do texto fica estagnada, é interrompida por uma releitura com reescritura) ou estimulação das alterações semânticas (caso de correções sintáticas em um segmento de texto), seguido imediatamente por interferências no segmento. Isso leva o autor a se perguntar sobre os padrões das operações da escrita e de reescrever, bem como denota algumas especificidades do letramento.
De acordo com um método e um questionamento que pode ser complementar à abordagem anterior, estuda-se o papel desempenhado pela memória na detecção de erros para o principiante e o especialista. Apresenta-se a revisão como atividade que exige primeiro “detectar” um “erro” antes de fazer alterações. Diferenciam-se dois procedimentos da detecção: um algorítmico para o escritor novato e um procedimento automatizado para o escritor experiente, cada um com diferentes condicionantes de processamento de memória ao trabalhar. Os dois tipos de memória recorrente (algorítmica e automatizada) também podem ser observados entre os revisores em início de carreira, ou nos já experientes. A comparação entre sujeitos inexperientes e especialistas para uma situação de dupla tarefa (detecção de erros formais durante a execução de uma tarefa secundária, envolvendo um dos dois componentes da memória de trabalho, ou ambos), aponta os perfis diferenciados pela detecção de erro baseada no grau de especialização.

A perspectiva da psicologia cognitiva

Da perspectiva da psicologia cognitiva e da ergonomia para a leitura, os textos processuais oferecem suporte privilegiado de estudo da atividade de revisão e desenvolvimento de assistência adequada para os métodos revisionais. Constatando a inadequação desses documentos para os usuários, analisam-se as dificuldades que podem levar os editores responsáveis pelos textos a revisar o produto. As especificidades desses documentos (tais como sua função pragmática) introduzem incentivos que podem ser fornecidos para facilitar a atividade de revisão.
Também se aborda a questão da revisão dos textos de um duplo ponto de vista: o da psicologia cognitiva e inteligência artificial. Para tanto, usam-se as contribuições tecnológicas na resolução de problemas ligados ao know-how, à compreensão, à produção e a revisão linguística na abordagem narrativa – chegando-se, inclusive, ao limiar da inteligência artificial. Os formalismos de representação de conhecimento e raciocínio com base no contexto, os gráficos de categorização e contextuais podem ser usados para simular a revisão da produção de conhecimento.
A perspectiva do trabalho de revisão daqueles que lidam com a revisão de texto remotamente apresenta novos rumos para pesquisa e didática da produção e revisão de texto, inclusive em um contexto multilíngue. Após uma análise dos diferentes pontos de vista sobre a revisão, propõe-se a revisão dos trabalhos sobre os recursos tecnológicos para a produção e revisão de textos. Há novas oportunidades de pesquisa oferecidas pelos sistemas abertos, tendo em conta os contextos culturais e linguísticos, na revisão remota e produção colaborativa do conhecimento.
Os contextos de variabilidade nos métodos de revisão (e do estudo de revisão), por vezes, qualitativos ou quantitativos, usam compilações de dados em tempo real (on-line) ou a posteriori (off-line).
O estudo da revisão de textos (experimental ou sistêmico) deve ter a vista sobre os eventuais objetivos e restrições impostos ao destinatário (público-alvo) e os diferentes coeficientes de controle da situação.
O status é variado: pode ser um especialista ou um iniciante, tanto o autor quanto o revisor. Ou seu status pode ser o da revisão isolada, ou escrita “a quatro mãos” – praticada por alguns revisores em conjunto. O grau de automatização dos processos de trabalho coloca problemas ligados à atenção e aos recursos cognitivos no gerenciamento de memória.

A revisão de textos multidisciplinar

Com efeito, embora seja inegável que a revisão de textos tem função crítica, não há dúvidas de que ela pode se tornar questão vital, por exemplo: os textos processuais; por outro lado, para o texto literário, produzido pelo escritor perito, a função da revisão é mais sutil. Se o texto processual tende para unicidade, o texto literário tende à pluralidade de sentidos e vozes que fazem dele obra de arte. Em nenhum caso o escritor deixa de editar seu texto para melhorá-lo, com ou sem a colaboração de um revisor profissional: nós dizemos que não há modo de registo estilístico na textualidade que aponte para uma singularidade autoral absoluta.
Apontamos aqui novos horizontes de investigação do que pode chamado de “transferência de paradigmas” da revisão de textos. Em outras palavras: é o que pode levar à interdisciplinaridade como perspectiva mais ampla da revisão e do processo de escrita criativa ou tecnológica.