17 de julho de 2016

Estudando a revisão de textos acadêmicos

Os artigos científicos, as dissertações e as teses pertencem ao gênero acadêmico. A revisão desses textos tem sido objeto de estudos específicos que incluem a forma pela qual eles são produzidos. 

Abordagem cognitiva da revisão de textos

Nos últimos anos, a revisão de textos científicos tem atraído o interesse crescente da pesquisa acadêmica. Estudos experimentais recentes focados na revisão de textos científicos abordam o processo de produção do texto englobando a revisão como uma das fases do processo redacional, essas investigações abordam a redação acadêmica como processo e, portanto, também observável em suas fases constituintes. Têm sido feitas pesquisas qualitativas bem como sido empregados diferentes métodos e instrumentos quantitativos aplicáveis à produção e às diversas etapas da revisão dos textos universitários.
A Keimelion revisa principalmente textos científicos.
Os estudos acadêmicos sobre
revisão de textos interessam
aos revisores que se interessam
pelos textos acadêmicos.
Entre os métodos e ferramentas empregados para aos estudos da revisão de textos se incluem pensar os protocolos da operação (think-aloud protocols –observação de protocolos da atividade de revisão como verbalização de processos do pensamento), o monitoramento dos olhos (eye-tracking – gravação de movimentos oculares e sua duração, para entender o que capta a atenção do autor ou revisor e por quanto tempo o faz), o registro de acesso ao teclado (key-stroke logging – gravação dos toques o teclado para medir frequência, acesso a determinados comandos em particular, tempos de espera e reação), registro de tela (screen logging – gravando tudo o que acontece na tela, não só referente ao texto, também quanto ao local de trabalho, consultas on-line e off-line, recursos como dicionários, enciclopédias, internet, consultas cruzadas com autores e outros revisores). Tais recursos tecnológicos requerem programas sofisticados para as quantificações e tratamento estatístico refinado, pois geram volumosa quantidade de dados.

Embora diferentes na abordagem, na forma e na capacidade de levantamento de dados, esses instrumentos têm traços comuns quanto aos pressupostos investigativos: a abordagem cognitiva, que tem como objetivo entender o que acontece na cabeça do revisor e que processos mentais são ativados – bem como alcançam os passos precedentes, no pensamento o autor; essa abordagem pressupõe a capacidade de “medir” determinados comportamentos, atribuindo validade científica às observações e aos resultados obtidos. Por outro lado, precisamente por causa desses métodos invasivos e ferramentas tecnológicas, não se pode esquecer a artificialidade de situações experimentais e mesmo o limitado número de participantes em estudos ou o tamanho dos textos evolvidos.
Para superar o problema da artificialidade da situação experimental, para ampliar a representatividade da amostra de participantes e para enriquecer a qualidade de dados e informações disponíveis, é possível aplicar concomitantemente outros métodos de investigação, incluindo entrevistas, grupos focais e, não menos importante, os questionários. No caso específico da investigação sobre revisão de textos acadêmicos, o questionário à distância, destinado a vários grupos de entrevistados (revisores ou autores), pode ser ferramenta valiosa para extrapolação de dados qualitativos visando enriquecer e complementar o que for observado em estudos quantitativos e experimentais que, ao mesmo tempo, são menos invasivos e podem fornecer maior garantia de veracidade e autenticidade de suas respostas.
A pesquisa sobre a prática da revisão acadêmica resulta e responde à necessidade do profissional de revisão de textos, mas também atende à necessidade acadêmica e formativa: verificar a distância real entre o escopo teórico da revisão – como o autor deve entender o processo revisional – e a prática profissional, a fim de dissipar estereótipos e tabus que cercam esta fase essencial do processo de produção textual; concede-se aos revisores a oportunidade de falar de muitos aspectos de sua atividade, proporcionando-lhes a oportunidade para sair da invisibilidade a que os obriga a profissão, para também compartilhar ideias, dicas, estratégias e truques do ofício que podem ter grande importância para os autores de teses, dissertações e outros textos científicos como artigos e relatórios.

O que é revisão acadêmica

A comparação entre as definições pessoais de revisão fornecida por revisores confirma um fato que era de se esperar: proceder à revisão linguística de um trabalho científico é, à primeira vista, uma atividade de interpretação do produto. Por essa razão, os termos mais comuns utilizados pelos revisores para indicar as atividades de revisão são “controlar” e “verificar”, seguido de “corrigir” o texto original, termos que são, às vezes, usados como sinônimos.
Nas definições pessoais, sempre há contribuições generosamente estendidas, fornecendo orientações sobre o que percebem como principal objetivo da revisão. O primeiro item na ordem de maior recorrência dentre revisores modernos é a atenção para a linguagem e o fluxo de texto. A diferença entre as definições é interpretada à luz de uma ideia diferente do destinatário da revisão: se o revisor se foca, de fato, em atender critérios de qualidade, suas expectativas, suas ideias de revisão têm conexão com o texto original, com o autor e seu produto; outro foco do revisor direciona o trabalho a clientes a que o texto se destina, quer como intermediários – editores – quer como público alvo – os leitores. Os critérios de qualidade surgem, acima de tudo, para cumprir com os requisitos do cliente e expectativas editoriais e linguísticas do público-alvo. A posição intermediária do revisor, seu contínuo trabalho de mediação e negociação entre várias demandas do texto e dos atores (autores, editores e público) que interagem com ele confirma a importância atribuída à procura de equilíbrio entre texto original/ texto revisado/ texto editado.
Para clareza terminológica em torno do conceito de revisão, faz-se a análise transversal de definições e contribuições sobre o assunto, produzindo uma proposta de definição somativa. Essa definição compreenderá a coleta de dados e informações para o repertório lexical e enciclopédico, livros de referência e manuais de linguística, construindo uma conceituação compreensiva e recursiva de atividades multidimensionais que se integram na revisão acadêmica: revisão comparativa, corretiva, proativo, colaborativo, aprendendo e aprimorando. Raramente a revisão acadêmica se restringe à abordagem resolutiva e simplista: aquela que se limita e não acrescenta nem exclui nada.
Para sublinhar a riqueza das propostas de definição obtidas sobre revisão de textos em sentido lato, vejam algumas definições particularmente criativas e eficazes coletadas:
  • A revisão é a autocrítica de uma obra feita pelo colaborador externo. Sim, há aqui um rico paradoxo.
  • A revisão é o processo de acabamento do texto, comparável lapidação da rocha para produzir, não digo uma joia pelo pecado de imodéstia, mas uma bela pedra polida.
  • A revisão é o momento em que o texto se torna realmente um texto em português.

Já quanto à revisão de texto acadêmico, em sentido mais estrito, as definições se tornam menos criativas e mais focadas:
  • A revisão acadêmica é uma tradução para a língua formal. É o momento da última análise e correção da forma expressiva e linguística após o tempo suficiente para a reavaliação do conteúdo, alcançando a forma mais eficaz e satisfatória para o produto textual da pesquisa. Revisão acadêmica é, portanto, dizer o que já foi dito, em melhores palavras.
  • Revisar um texto científico consiste em interferir nele para atender às necessidades de correção gramatical, para sugerir cortes ou introspecções, melhorar a fluência, equilibrar jogos de palavras, adequar termos técnicos, uniformizar as construções e estabelecer os adequados elos de coesão.

A revisão acadêmica também depende das necessidades de cada texto e varia de procedimento segundo as especificações da demanda. Para a revisão acadêmica, valem alguns dos mesmos princípios que se aplicam à tradução ou à revisão literária, busca-se a suavidade, fluidez de leitura, mas, com certa neutralidade das construções ou, pelo menos, algum distanciamento e impessoalidade – na medida do possível. Em geral, o revisor de uma tese, dissertação ou artigo científico procura interferir minimamente, contribuindo mais na sintaxe que no léxico. A revisão acadêmica inclui sempre rastrear erros de interpretação, tradução, omissões, moldes, frases desajeitadas, cacofonias. A revisão é sempre uma operação cirúrgica nas palavras de um texto, para melhorar a construção de frases, o ritmo narrativo, coerência temporal e espacial, sempre respeitando o estilo do autor e o conteúdo proposto.
Revisar um texto científico é, antes de tudo, um ato de respeito para com o texto de origem. É um processo essencial que antecede a publicação (ou defesa) do texto porque sela a relação entre o texto e sua função. A boa revisão acadêmica dá suporte ao autor onde ele cometeu erros, descuidos, distorceu conceitos e significados, construiu mal as frases por falta de ferramentas adequadas ou simples fadiga e desatenção. A revisão dos textos universitários é uma confirmação sobre certas intuições linguísticas, formalidades e ritos acadêmicos. Se feita com imparcialidade e humildade, essa revisão especializada é o instrumento que melhor realça a interpretação do produto textual pelo seu leitor-alvo.
Algumas características da produção do texto científico são causas de problemas específicos desse tipo de texto: a longa duração de da redação, os contínuos cortes e recortes emendas e interferências externas que os textos recebem, as vozes consoantes ou dissonantes dos orientadores ou das equipes envolvidas nas pesquisas, o amadurecimento do autor durante a redação de uma tese longa… Tudo isso contribui para falhas específicas e lacunas nos textos. Tudo isso é do conhecimento do revisor especializado nesse tipo de texto e cada característica dessas é considerada nas investigações metacientíficas correspondentes.

Como se procede na revisão acadêmica

A revisão ideal se daria em duas etapas quanto ao suporte do texto. Uma etapa (constituída de muitas fases) na tela do computador e outra etapa, finalizante, no papel (muito rara atualmente – em virtude dos custos em que implica). A etapa feita na tela compreende a revisão primária: o controle mais formal e formalista, visa identificar saltos, correção de referências e textuais, elimina erros de tradução, diferenças estilísticas o longo do texto, além dos eventuais escorregões em gramática e ortografia. As leituras seguintes farão refinamentos, e são consecutivas e sucessivas, tantas quantas forem possíveis ou necessárias – nunca serão suficientes: sempre haverá o que aperfeiçoar, o que não há é tempo suficiente ou recursos para custear as infindáveis releituras. As primeiras revisões no arquivo eletrônico, as revisões finais no papel – para revisões muito “importantes”. A chamada revisão final não existe, propriamente não. Revisão final é apenas aquela que se faz ao termino do prazo estipulado ou ao fim do tempo contratado pelo orçamento estipulado.
O procedimento depende do que o cliente pede. Se não houver especificação, o ideal seria primeiro ler o texto todo, então, fazer uma leitura de linha por linha – em cada leitura, nunca deixar passar nada, nenhuma interferência sendo adiada. Obviamente, devido ao tempo e recursos disponíveis, isso nunca acontece, então o que se faz é ler sucessivamente o texto, sempre interferindo diretamente em questões que são recorrentes, para, em seguida, proceder à revisão em si, no que houver de especificidades.

Quem, onde e quando se faz a revisão

São particularmente uteis as contribuições teóricas e práticas de outros revisores, porque lê-los pode servir para desmontar o estereótipo do revisor que exerce atividade de censura, hipercorreção ou edição draconiana, avivadas em proporção direta aos anos de experiência, na crença de o revisor sênior é melhor e mais experiente que o autor, ou no engodo de que o serviço é tão melhor quanto maior o número de interferências sobre o texto.
Na verdade, qualquer um que ensine revisão terá experimentado que, para um jovem revisor ou aspirante a tal, se vendo na posição – mais autoritário ou superior – de “corrigir” o trabalho dos outros, significa muitas vezes aplicar esse direito em pesada e arbitrária distribuição de tinta vermelha, porque, muitas vezes, ainda é com falta de espírito crítico e analítico que avalia, mede e calibra a necessidade da cirurgia de revisão, ultrapassando o limite em que o revisor sênior sabe distinguir uma intervenção “possível” daquela “necessário”. Os alunos de revisão (ou aprendizes, estagiários) tendem a efetuar grande número de alterações e, eventualmente, conseguem reduzir qualidade do texto ao fazê-lo.
Provavelmente, agora há maior consciência dos muitos aspectos envolvidos na revisão acadêmica, e estou a falar em uma forma mais analítica de revisão, trata-se mesmo de uma abordagem metalinguística do ofício, mas isso não significa necessariamente que se perca a medida das interferências, trata-se mais “calibrar” o procedimento – já que sempre é possível fazer uma revisão mais ou menos invasiva.
A conscientização tem aumentado, bem como a velocidade na resolução de problemas (o advento da Internet e um conjunto de ferramentas informáticas tem ajudado). No que se refere ao número de intervenções, eu poderia dizer que é maior atualmente, mas, na verdade, também se aprende a respeitar mais as características do estilo do tradutor individual (se, claro, há).
Creio que os revisores mais maduros tenham a tendência a diminuir a quantidade das intervenções, antes de proceder, perguntando-se: é realmente necessário mudar aqui?
Deve-se notar que, quando os autores abdicam da auto-revisão, basicamente vinculam a qualidade final do texto aos revisores, parecendo ver na revisão a finalização do serviço e suporte não apenas ao texto, mas também em relação a outras figuras: o autor, o tradutor, o orientador, a banca, os pares e o editor, para confirmar mais uma vez o papel de mediação em curso e a negociação entre diferentes instâncias presentes na revisão acadêmica.
Entrando na substância das intervenções no texto, a comparação entre diversos textos destaca uma diferença marcada quanto aos erros de interpretação, os principais motivos da cirurgia de revisão. Isto confirma como olhar do revisor também é garantia de controle da interpretação, processo que, para o autor que formula a ideia do texto é muito mais difícil, se não impossível, ao voltar e revisitar essa mesma ideia mais tarde.
A revisão é um suporte para o autor, uma ajuda. O revisor é um mediador, ele sabe o que a banca ou a editora desejam e sabe como integrar o texto ao conteúdo, oferecendo ideias, corrigindo distrações e imperfeições mesmo quando não houver erros materiais. O revisor é quase um alter ego do autor, sua consciência. Sem ele, o autor pode errar, talvez sem perceber. O revisor ajuda o autor a ir melhor e mais profundamente na direção que ele escolheu, verificando a plausibilidade inerente ao texto e subtextos correspondentes. Infelizmente, em vez disso o revisor costuma descobrir que o cliente espera especialmente uma limpeza editorial (gramática, ortografia, padrões, repetições, legibilidade e/ou literalidade, quer dizer um tipo de função de guarda contra quaisquer “voos” do autor).
O revisor tem a função do dispositivo de teste: é o primeiro a ler o texto e deve identificar as questões latentes (ocasionais ou de fundo) e resolvê-las, seguindo as indicações da edição requerida e os dados que o próprio texto lança.
O revisor do texto científico se beneficia ao ter um texto completo a ser examinado, enquanto outros revisores trabalham apenas com fragmentos de obras, correndo o risco de perder algo nas suturas, na integralização dos textos. Para fazer uma metáfora fotográfica, o revisor acadêmico tem a visão das lentes zoom, alternando em o fogo de grande angular e as lentes de macro. Vê o conjunto e cada parte sem perder os múltiplos focos.

Algumas conclusões a serem revisadas

A pesquisa sobre revisão de textos acadêmicos destina-se a fotografar a realidade da revisão e, ao mesmo tempo, fazer um esboço do revisor a fim de coletar e apresentar dados que, até agora, nunca tinham sido trabalhados com metodologia de pesquisa quantitativa. Essas pesquisas metalinguísticas também proporcionam uma oportunidade aos revisores para dizer do seu trabalho em termos de procedimentos, propósitos, abordagens conceituais, problemas e truques do ofício. Isso lhes possibilita explorar, no meio acadêmico, a riqueza das informações obtidas, bem como no contexto profissional e educacional.
Deve ser lembrado, no entanto, como resulta da investigação do trabalho do revisor, que ele é altamente variável, e existem muitos revisores que se dedicam a outro trabalho em paralelo ao de revisão e que há muitos tipos de revisor que lidam com produtos considerados editoriais mas que, na verdade, não são publicados como livros (artigos para jornais e revistas audiovisuais, histórias em quadrinhos).
Espera-se que continue havendo pesquisa sobre a revisão de teses, dissertações e artigos científicos, como estímulo e incentivo a outros revisores, para que ultrapassem a barreira limitante da gramática normativa, contribuindo para a circulação de conhecimentos, habilidades e experiência que são a base de todo o progresso humano. Meu profundo obrigado a todos aqueles se dedicam à pesquisa acadêmica na área de nosso ofício, dedicando seu tempo valioso para a compilação exaustiva de dados e fornecendo avanços valiosos à profissão de revisar os escritos dos cientistas.
Adaptado de Scocchera.