21 de junho de 2016

Revisão textual e textualidade

A textualidade na revisão para dissertações e teses.

Uma das questões mais cruciais a serem aferidas na revisão de texto é a textualidade; embora os autores das teses e dissertações (e muitos revisores, infelizmente) estejam mais preocupados com ortografia e outros aspectos linguísticos mais superficiais.
Quanto mais os revisores investirem na análise estrutura do gênero textual e de sua sequência prototípica, bem como na atenção a ser dispensada aos aspectos pragmáticos e enunciativos exigidos para o uso do gênero em causa (o gênero texto acadêmico - tese), mais eles observarão o quanto os modelos canônicos interferiram nos processos da escrita, em particular, e interferirão no processo de revisão dos textos dos estudantes de mestrado e doutorado.
Formatação de tese é bem mais complexo que parece. Contrate um profissional e cuide só do conteúdo.
Formatação normatizada
considera a textualidade e
intertextualidade das teses.

A textualidade compreende modos que podem ser apresentados em três blocos:

  1. O primeiro corresponde a operações relacionadas à organização do conteúdo e ao ato de produção textual (conjunta, disjunta; implicada ou autônoma), resultando os três tipos de textualização básicos (“discurso em situação” – discurso interativo e relato interativo; “discurso teórico” e “narração”). Este modo de operações sobre os valores textuais produz formas discursivas para a apresentação do conteúdo: conjunção, quando a organização do conteúdo depende das coordenadas do mundo ordinário; e disjunção, pela organização do conteúdo com base em coordenadas de espaço e tempo. Assim, efetiva-se no âmbito da narração dos fatos.
  2. O segundo diz respeito às operações de planificação da macroestrutura semântica do texto que correspondem à estrutura sequencial dos conteúdos e à estruturação discursiva adequada a um modelo de linguagem (gênero textual - tese). O modo de operações sobre os valores textuais apresenta diferentes tipos de discurso encontrados nos variados gêneros textuais: A - discurso interativo, por exemplo, uma conversa informal; B - discurso teórico, por exemplo, um texto de caráter expositivo; C - relato interativo, presença apenas do enunciador, por exemplo, relato de experiência; D - narração: por exemplo, trecho de um procedimento.
  3. O terceiro modo traduz-se nas operações de constituição de estratégias discursivas, enunciativas e linguísticas que conduzem para as vozes e modalizações dos enunciados e para a conexão e coesão textuais. Destacam-se dois procedimentos: A - atenção para as diferentes vozes que se manifestam no texto, por exemplo: a voz do autor empírico ou teórico; B - as vozes sociais, vozes de outras pessoas ou de instituições humanas exteriores ao conteúdo temático e as vozes de outros sujeitos.

Os mecanismos de textualização estão relacionados à linearidade textual e correspondem à coerência sob o ângulo da progressão temática do texto. Por isso, marcam as grandes articulações hierárquicas, lógicas ou temporais, com três mecanismos de textualização: conexão, coesão nominal e coesão verbal.

A conexão funciona na demarcação das articulações do texto em diferentes níveis exercendo, assim, diferentes funções:

  1. Segmentação – articulações aplicáveis ao plano global do texto;
  2. Demarcação ou balizamento – marcação das transições entre os tipos de discurso e entre as Proposições de uma sequência textual prototípica ou genérica;
  3. Empacotamento – explicitação das modalidades de articulação das frases à estrutura que constitui um tipo de planificação.
  4. Ligação (justaposição, coordenação) ou encaixamento (subordinação) – articulação de duas ou mais frases para constituir uma só unidade.

Convém observar que as cadeias de referência que fazem as cadeias anafóricas podem assumir aspectos diversos, tais como:

  1. Identidade do conteúdo referencial é relacionada pela cadeia anafórica;
  2. Elementos de significação relacionados podem compartilhar apenas uma outra propriedade – às vezes vaga ou pode haver somente relações mais ou menos lógicas de associação, de inclusão, de contiguidade;
  3. O antecedente de uma cadeia anafórica nem sempre é constituído de uma forma nominal, haja vista que essa função é ocupada pela totalidade do texto;
  4. É possível que o antecedente não esteja explicitamente verbalizado no contexto, por estar disponível na memória discursiva do agente, podendo apenas ser inferido por esse contexto.

Os mecanismos de coesão verbal constituem mais um meio de efetivação da coerência temática, que é assinalada pela organização temporal ou hierárquica dos processos verbais (estados, acontecimentos ou ações), essencialmente os tempos do verbo, embora estes possam aparecer também em interação com advérbios e organizadores textuais.
Em dissertação ou tese, as três noções em destaque articulam-se, entre si, através das transições temporais – passagem de um tempo verbal a outro, dentro do texto. As operações de constituição de estratégias enunciativas e linguísticas para o estabelecimento da textualização do texto científico compõem o conjunto de operações que representam o conhecimento disponível em um organismo ativo para a efetivação das ações de linguagem, que são sintonizadas com os parâmetros do contexto social.

Revisão textual para tese ou dissertação

Mais textos e melhores ferramentas para os aperfeiçoar. Mais teses e mais dissertações para revisar. Mais velocidade e mais conhecimentos exigidos do revisor textual.
Com a popularização da internet, a partir dos anos 1990, a velocidade da informação e da produção de conhecimento se ampliou incomensuravelmente. Aumentou ainda mais a necessidade das correções textuais e revisões de textos em decorrência desse ciclo de acelerações na produção e transmissão de conhecimento. Também houve significativa ampliação da produção textual no meio acadêmico, notadamente no Brasil, onde quase todos os cursos de graduação passaram a requerer um TCC e ocorreu, ao mesmo tempo, uma explosão no número de mestrados e doutorados por toda parte, com o advento das respectivas teses e dissertações, bem como proliferaram os artigos, relatórios e mais textos científicos.
Todavia, muitos responsáveis por preparações de textos pensaram tímida e equivocadamente. Com a chegada da informática, muitos jornais e editoras reduziram ou eliminaram as equipes de revisores, trocaram-nas por corretores ortográficos automáticos – em detrimento evidente da qualidade de seus produtos. Os autores acadêmicos também incorreram, em muitos casos, no mesmo engodo: trocar a revisão profissional por uma verificação eletrônica. Tudo isso foi um equívoco, o nome já diz tudo: “corretores ortográficos”. A revisão de texto vai muito além disso. Nem por isso esses recursos eletrônicos deixam de ser úteis. Eles podem auxiliar, inclusive, os revisores textuais. Nós mesmos, como muitos outros revisores, recomendamos que a revisão eletrônica seja uma das fases da revisão. Inclusive, temos notado que as ferramentas de revisão eletrônica estão em contínuo aperfeiçoamento naquilo que são capazes de fazer, mas mantém as limitações de sempre: não são capazes de compreender nada além das regras objetivas da língua, nem alcançar as sutilezas e variações decorrentes do gênio autoral.
Corrigir textos impressos ou digitais, sem mostrar os erros aos redatores, não é adequado, mas não só os erros provenientes dos lapsos ortográficos ou de concordância, por exemplo devem ser apontados – qualquer interferência efetuada deve ser destacada, que seja ela de estilo, de ordenação lógica, de estrutura argumentativa, como exemplos. Ainda que corrigir textos não seja ensinar os autores escreverem textos bons para a circulação, os revisores devem mostrar-lhes onde estão errando, para evitar a ocorrência dos mesmos erros. E devem mostrar onde interferiram para que o juízo estético final seja do autor, bem como a interpretação autêntica das ambiguidades tenha curso. As ferramentas do Word são úteis para marcar o rastro da revisão por meio digital. As ferramentas eletrônicas de qualquer editor de textos – principalmente do Word, por ser o mais usado – praticamente eliminaram a possibilidade da revisão feita em papel, ultrapassando-a em qualidade, interatividade, velocidade e na possibilidade do trânsito eletrônico do serviço – o que é praticamente imprescindível no caso das teses e dissertações.
A revisão eletrônica (a dos softwares corretores ortográficos) permite, a um só tempo, a verificação rápida de uma série de quesitos que podem ser apresentados visualmente ao autor:
  • Destaca as alterações feitas no documento, incluindo inserções, exclusões e alterações de formatação ficam explícitas.
  • Insere balões ou marcas com as revisões feitas no documento. O revisor apresenta as revisões como balões à margem do documento ou diretamente no texto, com destaque de cor, texto taxado (excluído) ou sublinhado (inserido).
  • Permite opções de forma de exibição das alterações propostas no documento.
  • Escolhe-se o tipo de marcação a ser exibido no documento (inserção/exclusão, comentários, formatação... – nós optamos, em geral, por exibir todas as interferências.
  • Existe também a possibilidade, durante a revisão, de se exibir o painel de revisão com as interferências em janela separada.
  • Mais, as interferências de diferentes revisores, já que muitas vezes a revisão é feita em equipe, ficam assinaladas em cores diferentes, para facilitar a identificação do interventor.
  • A data e hora de cada interferência ficam registradas, de modo a manter o controle sobre o processo revisional em diversos aspectos.
  • A reversão de qualquer interferência é facilitada por controles específicos com essa finalidade.

Pelo que se vê, as ferramentas do Word são muito úteis, mas com a ação do revisor e para a maximizar a qualidade do procedimento humano – nunca para o substituir. Os recursos do software permitem aos revisores a interação com os autores, que, por sua vez, poderão ver as alterações e opinar sobre a qualidade da revisão ou fazer juízo reinterpretativo onde couber. Por tudo isso, é necessário que os revisores saibam lidar com as respectivas ferramentas eletrônicas, visando tornar suas interferências transparentes, colaborando para que os autores tenham domínio sobre as alterações realizadas no texto. Na verdade, é interessante que todos os profissionais saibam lidar com todos os tipos de ferramentas que possam auxiliá-los no desempenho de seu trabalho. Não é mais cabível fazer revisões limitando-se ao papel, é como renunciar à esferográfica dando preferência à pena.
Os corretores automáticos dizem aquilo que está armazenado no seu banco de dados ou analisam as construções de acordo com os algoritmos de que foram providos, mas é preciso o revisor analisar se as sugestões estão corretas ou adequadas. A tecnologia não pode resolver todos os problemas encontrados no texto. E se o autor cismar que o rio Araguaia nasce no sudoeste do estado do Amazonas? Quem irá socorrer o autor? Os corretores automáticos não analisarão se os textos estão coerentes ou não, se as informações estão certas. Os conhecimentos que eles têm da língua são restritos e, por isso, existem palavras que eles desconhecem, concordâncias com que eles não concordam, ironias e metáforas que jamais compreenderão. Eles nunca formularão juízos estéticos ou identificarão incoerências micro ou macro textuais.
Em se tratando dos revisores de textos, as ferramentas da linguagens são adquiridas por meio de interações com outras pessoas, são formadas gradualmente no interior de suas mentes, apenas ordenadas pelo treinamento formal e pela prática do ofício. Por meio de uma frase, o ser humano é capaz de formular várias outras e, quando desconhece alguma coisa, busca suportes em seus recursos de pesquisas. Diferentemente das ferramentas de revisão do Word, que só obedecem aos comandos e não têm evolução autônoma, o revisor de textos aprende e reaprende continuamente, inclusive sobre o conteúdo do texto que está revisando e a partir dele. Já o corretor eletrônico, menos que aprender, ele só pode ampliar sua base de dados e, quando o faz, é com subsídio do revisor. Em contrapartida, se os revisores linguísticos estiverem diante de textos que ultrapassarem seus conhecimentos de vocabulário, por exemplo, eles buscam a informação ou recursos que facilitarão seu trabalho, evoluindo com os textos e com a progressão do conhecimento.
Além de tudo que já foi dito, o revisor de textos, no caso específico das teses e dissertações, costuma oferecer também o serviço de normalização e diagramação do texto, a formatação, incluído aí o acatamento de uma série de regras e preceitos de que só quem está familiarizado com a produção acadêmica tem conta. Mas essa questão da formatação é matéria de outras postagens por aqui e ainda dará margem a mais considerações futuras, acompanhe.