8 de março de 2016

Tendências linguísticas atuais que dão nos nervos

Existem modas e modismos em língua; nós, revisores de textos, somos muito atentos a esses fenômenos ocasionais no idioma; em alguns casos, os aceitamos, noutros, sugerimos modificações.

Quanto a tais tendências, que costumam não passar de modismos, todo revisor de textos tem suas idiossincrasias (ou manias mesmo), mas, em algumas delas, nós somos unânimes. Para cada gênero textual, cabem algumas considerações que não cabem, necessariamente, a todo tipo de escrito: no texto estritamente formal, como as teses e dissertações, quase nunca cabem as novidades da língua.
Nesta postagem, vão algumas observações de nosso colega Percival de Carvalho que revisa (ou coloca vírgulas - como ele mesmo diz) na Agência W3. Obrigado a ele por nos emprestar suas observações e sua experiência com textos.

Passamos a dialogar com Percival:
Os autores recebem influência de tudo que ouvem e veem.
Os textos que produzimos
recebem as influências de
todo tipo de mídia.


– Passou-se a usar, sempre que possível, o sufixo diminutivo “-zinho”, evitando-se a todo custo a forma “-inho”. Agora é “cadernozinho”, não “caderninho”; é “tabelazinha”, não “tabelinha”; é “talcozinho” (“tal cuzinho”?), não “talquinho”.
Caso encontremos esse tipo de construção em textos formais, para o qual não haja alguma justificativa plausível, optamos por sugerir a forma mais curta ou eufônica (que soe melhor).
– Depois de quase todos os mais castiços e modelares escritores de língua portuguesa usarem a torto e a direito as contrações “num” e “dum” (com as variantes flexionais: “numa”, “duma”, “dumas”, etc.), em algum ponto indetectado da nossa história, elas se tornaram feias, desleixadas, muito coloquiais, execráveis. Agora, cidadãos de bom gosto, educação e formação empregam obrigatoriamente as formas não contraídas (“em um”, “de um”).
Na Keimelion, procuramos sempre sugerir uma redação moderna e fluente aos textos de nossos clientes, com coerência nas construções entre os diversos segmentos equivalentes do mesmo texto – a regra de ouro é a uniformidade, segundo a construção preferida pelo autor.
– “Colocar” veio a suplantar os verbos “pôr”, “botar”, “posicionar”, “situar”, “entornar”/”verter”, “atear”, “pousar”/”deitar”, “inserir”, “encostar”, “encaixar”, “observar”, “vestir”/”calçar”, “dispor”, “estabelecer”, etc. (Essa é manjada, mas não menos irritante.)
Quanto mais preciso o verbo empregado, mais forte e mais crível a frase; muitas vezes recomendamos a nossos clientes troca de verbos mas genéricos por outros que expressem com mais exatidão o sentido da frase.
– Tudo agora acontece de “alguma forma”, nada mais acontece de “alguma maneira” ou de “algum modo”, muito menos de “algum jeito”.
Em muitos casos, a variação de expressões enriquece o texto, tornando-o mais palatável; em outros casos, cabe procurar o termo mais específico, que melhor expresse a ideia.
– O simpático “só” e o elegante “somente” vêm entrando em extinção. O austero “apenas” impera.
– Não há mais lugares, só locais. Digo, apenas locais.
– O fatodequeísmo. Já ninguém comenta, considera ou mesmo imagina que algo aconteceu, e sim o fato de que esse algo aconteceu (o que é triste não é que a padaria faliu, mas o fato de que a padaria faliu).
– Agora é feio e inaceitável usar a palavra “coisa”. A palavra “situação” fica mais de bom-tom. Ou ainda com um belo ornamento: “tipo de situação”. 
Exemplo: “A corrupção é um tipo de situação que eu acho lamentável”.
– Uma tendência curiosa de algumas pessoas levam-nas a concordar o verbo com o termo mais próximo. O núcleo do sujeito, deixado para trás pelos termos acessórios que seguem, ficam melancolicamente esquecidos. As ocorrências desse tipo peculiar de concordância sempre me assustam, pois atracar-se lascivamente sempre com a palavra mais imediata pode ser considerada uma espécie de promiscuidade sintática. Como alguém pode sequer pensar essas frases são um mistério para mim.


Já-já

Uma pequena crônica em que um revisor aborda duas moças corrigindo-as.
A revisão linguística está sempre presente no cotidiano do revisor de textos.
O advérbio de tempo “já” tem, entre outros, os significados de “imediatamente” e de “daqui a pouco”. O problema é que o segundo corre o risco de passar pelo primeiro. Talvez para escapar desse perigo tenha surgido o unívoco, o inconfundível “já-já”.
— E aí? Já ‘tá mandando?
— Vou mandar já.
— Já? Então manda. Já!
— Não foi esse “já”. Foi “já” de “á-já”.
— Bom... Já-já eu volto.
Não muito tempo depois...
— E aí?
— Já-já.
— Ó só: aquele “já” já virou “já-já”; agora, se esse “já-já” não virar “já”, já-já já era.

Inauguro aqui a hashtag “‪#‎desculparevisar‬”

Exemplo:
MEU AMIGO: Putz, cara, tô trabalhando num projeto destinado a fracassar.
EU: O verbo “destinar”, quando em referência a projetos, costuma aludir à finalidade propriamente dita do empreendimento. Aí fica parecendo que o objetivo é o fracasso. Uma redação mais clara seria “projeto fadado a fracassar”. #desculparevisar
Por extensão de sentido, pode também ser usada em refutações de natureza mais prosaica. Exemplos: “fala direito comigo porra #desculparevisar” / “num fala merda fdp #desculparevisar”.

– Cultivo a desconfiança de que as pessoas que usam ponto-final em lugar do ponto de interrogação sejam, talvez inconscientemente, ardilosas: elas perguntam afirmando. Às vezes, na W3, recebo e-mails assim:
“Oi Percival, você pode revisar o texto anexo até o almoço. Tks.”
... e entendo que a pessoa afirmou, determinou minha possibilidade e dever de cumprir o prazo estabelecido e que, tendo dado o assunto por encerrado, não aguarda confirmação.

– Escrevo a um redator da minha agência sugerindo substituir “XXX EDITION” por “EDIÇÃO XXX”, já que o produto só terá consumidores brasileiros. O redator explica, com toda civilidade e polidez, que não dá porque a marca combina mais com “edition”, além de ser difícil o cliente topar mudar a esta altura. Minha resposta:
“Naturalmente eu já sabia de antemão que a reivindicação nacionalista não seria atendida. O propósito de todas as minhas batalhas travadas aqui em prol da língua pátria ante a invasão estrangeira não é que a guerra termine já, mas somente que o redator ouça ecoar, no fundo lôbrego da sua consciência, a voz da resistência.”
O prazer de bancar o vernaculista grandiloquente numa agência de publicidade não tem preço.

Uma anedota de revisor


Recebi para revisar: “Boa, Neide! É assim que se faz uma grande especialista”.
Colei no redator e lhe disse que o “se” não só era desnecessário como desviava o sentido do texto; expliquei que “uma grande especialista” era sujeito ativo posposto ao verbo, e não sujeito passivo nem objeto direto; esclareci que a especialista não era feita, e sim fazia; lembrei que a nossa personagem Neide não fazia (criava?, treinava?) uma grande especialista, mas somente demonstrava ser ela própria uma grande especialista; aventei que ele provavelmente havia tido em mente a frase feita “É assim que se faz” e decalcado esse dito numa estrutura sintática em que o pronome “se” já não cabia.
O redator crispou os lábios, insatisfeito. Soa estranho sem o “se”, disse.
Resolvi abandonar a exposição gramatical e ir buscar no manancial lírico-literário da lusofonia um exemplo análogo que espelhasse e justificasse a correção solicitada. É útil, e além do mais cai bem, apoiar alterações de revisão em exemplos cuidadosamente pinçados da fina flor do idioma, saídos da pena dos mais modelares e consagrados dentre nossos escritores.
Preciso, aqui, lembrar que eu trabalho numa agência publicitária. De maneira que a letra musical que vim a encontrar no Google me pareceu servir como uma citação idônea, digna e bastante satisfatória: “Um homem apaixonado”, do cantor e compositor sertanejo Daniel.
“Você se prende, treme, chora e o tempo todo 'tá grudado
É assim que faz um homem apaixonado”
Apresentei a prova ao redator, e foi tiro e queda. Fulgurou nos olhos do meu colega uma súbita luz de compreensão trazida pelos sentimentais e convincentes versos de Daniel.
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