31 de janeiro de 2016

Revisão de textos é linguística aplicada

A revisão de textos científicos é linguística aplicada à produção acadêmica, artigos, teses e dissertações.

A revisão de textos tem experimentando grande evolução; ela já não pode ser considerada serviço temporário para professores, jornalistas, ou estudantes, mas se transformou em profissão que requer qualificação e treinamento especializados, bem como demanda dedicação integral e conhecimento atualizado de linguística e de organização e métodos de trabalho, controle e produtividade. 
Não se pode prescindir de bons revisores para teses e dissertações.
O texto moderno, quase sempre,
é produto de trabalho coletivo.
O revisor é parte do processo.
Quando se trata da revisão de textos acadêmicos – principalmente em se tratando de teses ou dissertações, sempre de grande responsabilidade para os autores, as instituições e os veículos em que são publicados – a revisão do texto assume função de enorme relevância e passa a requerer profissionais ainda mais destacados no ramo, profundos conhecedores dos gêneros textuais em que atuam e com alto grau de profissionalismo, capazes de cumprir prazos extremamente curtos com altíssimo grau de eficiência.
A revisão de textos, com tais mudanças e desdobrada em diversas especialidades, também se tornou um campo de pesquisa pertencente à área de conhecimento da linguística aplicada, campo do conhecimento que tem como finalidade conhecer e propor soluções para problemas linguísticos do mundo real.

Revisão de textos acadêmicos: cruzando as disciplinas 

Como dissemos, a revisão linguística não só tem experimentando uma evolução no mercado editorial, como também tem passado a ser tópico de pesquisa científica. As gramáticas existem há séculos como obras sobre o “dever ser” no uso da língua escrita ou falada e que todo autor deve conhecer e respeitar – gramáticas, manuais de estilo, dicionários de dúvidas, entre outros. Somente há cerca de trinta anos, com aumento exponencial na primeira década do século XXI, é que vêm surgindo publicações e estudos científicos sobre a revisão e seu profissional. A América do Norte e Europa foram pioneiras em produzindo e divulgar pesquisas nessa área do conhecimento, tendo em vista a força de suas respectivas indústrias editoriais e amplitude de seus universos acadêmicos. Tais pesquisas procuram investigar os problemas que a revisão enfrenta, visando torná-la mais profissional e dotá-la de melhor embasamento teórico, assim como se buscam procedimentos de intervenção e controle que agreguem qualidade ao serviço do revisor de textos, profissionalizando a atividade em parâmetros atuais. Existem especificidades para as revisões dos textos acadêmicos que são objeto de estudos focais que subsidiam de maneira significativa a qualidade da produção textual dos cientistas. As características, não só as inerentes à textualidade do gênero acadêmico, mas também as procedimentais que se aplicam a tais escritos, requerem conhecimentos e práticas estritamente inerentes. Logo, existe uma linguística aplicada especificamente à revisão de textos acadêmicos, mas também aplicável a sua produção e ao controle qualitativo e da produtividade. 
Podem-se destacar aspectos distintivos entre os diversos ramos da revisão de textos, agora também apropriados como objetos de estudo sobre as diferentes atuações do revisor, bem como pelas intercorrências linguísticas inerentes a cada gênero: 
  1. Revisão para a mídia eletrônica e comunicação social: vários pesquisadores têm analisado a incidência de erros na mídia de massa, rádio, televisão e publicidade, bem como a dinâmica de trabalho nesses contextos. 
  2. Revisão de traduções: aqui os problemas encontrados pelos pesquisadores têm a ver com a qualidade do texto na língua de destino, o que corre sob a responsabilidade não só do tradutor, mas igualmente do revisor. A consideração quanto a esse tipo de trabalho de revisão é que o revisor possua domínio da língua de origem e que esteja instrumentalizado com os recursos teóricos e o aparato tecnológico moderno de que a tradução dispõe. 
  3. Revisão de textos especializados: considerando que revisores  são formados, na maior parte das vezes, em cursos das carreiras humanísticas, seu trabalho se complica quando deve revisar obras nos campos da medicina, direito, física, química, entre outros, com terminologia alheia à de sua formação. 
  4. Revisões dos mais diversos gêneros: há textos poéticos, literários, normativos, acadêmicos e de tantos campos de conhecimento e referentes a tantas áreas de atuação quantos são os desempenhos das pessoas em sociedade. Não pode haver um revisor especialista em cada possibilidade dessas, nem um pesquisador que estude apenas cada gênero de texto ou cada domínio semântico, mas há revisores que atuam setorialmente e pesquisadores que se dedicam ao estudo dessa atuação e daqueles textos. 

Há ainda diferentes abordagens de revisão, diferentes rotinas, diferentes procedimentos, com variações decorrentes do gênero textual, dos critérios pessoais de cada revisor, das rotinas impostas por agências de revisão, ou mesmo em função de prazos e de recursos disponíveis; essas peculiaridades são também objeto de estudo e produzem conhecimento no campo da linguística aplicada à revisão de textos, vale dizer: são conhecimentos que devem ser do domínio dos revisores de nossos dias, para serem incorporados a suas rotinas e seu pensamento linguístico, bem como ao desempenho da função. Podemos destacar: 
  1. Estudos sobre eficiência da revisão em tela ou em papel: a questão já é um pouco antiga, praticamente superada; praticamente todos os revisores trabalham em tela, atualmente, mas há os que ainda se debruçam ocasionalmente sobre papel, ou os que são forçados a isso (revisores de provas de impressão, por exemplo); não se trata mais de discutir se o produto é melhor da revisão em tela ou papel, está bem claro que o ideal seria que ambos os suportes fossem trabalhados, mas a questão que se levanta é que suporte é mais propício às condições de cada serviço. 
  2. Há estudos sobre a polaridade da cor de fundo no texto (especialmente quando isso é corrigido em peças para impressão), sobre a legibilidade das fontes empregadas: na realidade, esses questões são inerentes à ergonomia visual, bem mais que à linguística propriamente, mas têm suas considerações em relação ao trabalho do revisor de textos sim, e interferem no produto final do trabalho. 
  3. Processamento da leitura pelos revisores: dado o trabalho delicado da revisão, investiga-se a velocidade de leitura e seus percursos pelo acompanhamento eletrônico dos movimentos dos olhos, comparando os caminhos percorridos pelo revisor àqueles do leitor comum, bem como se identificam, por esse processo, as estratégias de leitura empregadas quando detectado algum erro ou necessidade de interferência. Este problema de pesquisa é estreitamente vinculado à a ciência cognitiva. 
  4. Perfil do revisor de textos: este é o objeto de pesquisa mais desenvolvido por especialistas, sobretudo os americanos. Que tipo de pessoas se tornam revisores e que tipo de pessoas se tornam os revisores? Que implicações têm sobre a revisão o tipo de pessoa que desenvolve a atividade? 

Panorama atual da revisão texto 

A revisão de textos, cada vez mais, ser torna serviço especializado e profissional. Não só há revisores de estilo, de teses ou de publicações, também há os consultores linguísticos. A revisão convencional tendia a ser trabalho mais bem restrito, circunscrita para a revisão de textos já produzido (correção mesmo!) com referência ao cânone estabelecido pela gramática normativa da língua. A novidade é que, quando os revisores se tornam consultores linguísticos, assumem papel profissional de mais escopo (e responsabilidade), que não é limitado à tarefa anterior: o campo de atuação do revisor, que já estava diversificado, se torna ampliado, estende-se seu campo de ação a gerenciar (criar, controlar, monitor, otimizar...) o produtos textuais, o assessorar os autores em sua produção. 
A sofisticação da indústria editorial e a pesquisa desenvolvida durante estes anos têm alimentado o criação de cursos de formação profissional para revisores e editores. Tradicionalmente, os revisores eram pessoas oriundas das carreiras humanísticas, como letras, comunicação social, filosofia, precisamente por seu conhecimento de língua e discurso. No entanto, tal formação, geralmente, não ensina as habilidades ou as técnicas editoriais necessárias para que se tornem revisores – e a proficiência advinha com experiência no trabalho; atualmente, várias instituições têm cursos de graduação ou pós-graduação para suprir o mercado de revisores e editores especificamente qualificados. 
Muitos editores já têm adotado mecanismos mais sofisticados para a seleção de revisores,  para que eles atendam aos requisitos mínimos para exercer o ofício da revisão. Infelizmente, os autores que contratam revisores para si –  com destaque para os autores de teses e dissertações – desconhecem ou descartam as possibilidades de colaboração de um revisor profissional, ignorando que a revisão de hoje não pode mais ser feita por um pessoa que só sabe de gramática e ortografia. Nesse contexto, os autores selecionam, quase sempre, os revisores mais baratos, desconhecendo estarem contratando um serviço completamente obsoleto. 

Conclusões: a revisão de teses e dissertações 

A revisão de textos moderna, ou a assessoria à produção textual, bem como a editoração de textos em geral, desenvolveram-se absurdamente nas primeiras décadas deste século, mas a redação dos textos científicos, quase sempre, descarta essas inovações e progressos. O máximo da evolução que a maioria dos autores universitários incorporou à produção textual foi o uso primário dos programas de edição de textos, sequer sem conhecer-lhes a metade das funções. 
Sob a alegação de estar construindo conhecimento em alguma área, ou sob nenhuma alegação, boa parte dos autores desconhece ou descarta  os progressos significativos da linguística aplicada à revisão de textos.  Teses e dissertações continuam sendo escritas pelos mesmos processos redacionais de cinquenta anos passados e o serviço de revisão aplicado a elas continua obsoleto. Essa obsolescência, em muitos casos, é devida aos métodos antiquados de revisão em que muitos amadores são renitentes, quase sempre, é devida aos autores que continuam imaginando a revisão de textos como mera correção a posteriori. 
O difícil é, e continuará sendo, que os revisores transponham a barreira cognitiva entre si e seus clientes, mesmo no mundo acadêmico em que tanto se diz das vantagens da interdisciplinaridade, mas esse dizer permanece na categoria de discurso não alçado à prática.
Inspirado por Tavares, R.
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