As operações e a medicina da revisão de texto

A revisão do texto sempre foi uma das questões problemáticas nos processos relativos à escrita. A as operações da revisão têm um certo peso sobre o produto final e, se não tiverem, não se justificam suas interferências no escrito.

Pode-se comparar o revisor ao médico, o paciente é o texto; teses e dissertações são nossos clientes.

Para o autor, o papel do revisor de textos é aferir regras, que ele supõe que sejam positivas, quando o escrito estiver “pronto”. Para o revisor tradicional, a revisão de um texto escrito é tanto um hábito mental quanto a aplicação de um conjunto de técnicas reais: os anos de escola devem (ou deveriam) ensinar as bases linguísticas necessárias à produção e edição, escrever ou revisar um texto, simultaneamente. As operações ligadas à revisão de texto moderna são processos conjuntos aos da redação, incluindo etapas de aferição, controle e evolução, mas não é assim que se processa, na prática – e o prejuízo é substancial em relação à qualidade que o produto poderia apresentar.
Há diversas analogias entre a atuação do médico e do revisor de textos.
O revisor de textos cuida da saúde dos
escrito quase como médico.
O revisor deve estar constantemente vigilante para atingir seu propósito em relação à escrita feita, mas seria preferível que ele atuasse durante a escrita. Todavia, os autores continuam preferindo fazer tudo e depois deixar as emendas ao revisor. Assim, parece fácil: é melhor o revisor percorrer uma lista de checagem para manter as diversas questões da língua sob controle e, depois, devolver o material perfeito – e com o mínimo de interferências mecânicas pontuais. Os autores pretendem do revisor uma ação resolutiva sobre o texto, a posteriori, e bastante conservadora – além de urgentíssima! Quem produz uma tese, escreve e reescreve algumas dezenas (ou centenas) de páginas ao longo de vários meses, muda e desmuda o texto incontáveis vezes e, em seguida, pretende que o revisor dê unidade, credibilidade, coesão e precisão a tudo aquilo de um dia para o outro. Esse é o peso que o autor joga sobre o revisor acadêmico, e espera que ele dê conta.

O “peso” da revisão na qualidade do texto científico

A revisão do texto é uma das etapas mais importantes do processo de escrita, tanto para o escritor inexperiente quanto para o veterano. Sim, ela é uma etapa do processo, ou deveria ser, não um conjunto de remendos a serem aplicados ao produto acabado. Sem a revisão, por exemplo, certamente ficariam muito prejudicadas algumas obras-primas da literatura mundial. Nós não teríamos as obras de Jorge Amado se não fosse Zélia Gatai – para ficar num caso nacional lapidar.
A revisão é trabalho feito por leituras e releituras, com pesquisa lexical incessante, contínuas modificações, ajustes e meticulosa análise com um propósito fundamental: fazer texto compreensível ao público-alvo, eliminando os traços marcadamente regionais que comprometem a compreensão universal… Esses são apenas alguns exemplos da atribuição do revisor que se poderia facilmente estender a outros.
Qualquer um que tenha experiência de escrita vai concordar com a ideia de que a revisão do texto escrito também é uma das etapas mais difíceis do processo de escrita. O “peso” da revisão é este: por um lado, ele deriva de sua importância na construção de um produto final de qualidade; outro lado é o peso do esforço imposto pela urgência que, muitas vezes, leva o revisor a ir além dos horários habituais de trabalho para entregar cada versão da obra; por último, e paradoxalmente, o maior peso da revisão é que sua ação visa tornar o texto mais “leve” – considerando, com isso, que a revisão torna o escrito mais fácil de ser lido, exigindo menos esforço e resultando em melhor interpretação pelo leitor final.

As operações da revisão de texto

A leitura é um dos passos básicos para o processo de revisão do texto. Na verdade, talvez seja mais exato dizer que constitui a conditio sine qua non. Sem ler e reler continuamente não se pode revisar um texto. Mas a revisão é um conjunto de procedimentos muito complexo e repleto de etapas e dificuldades para que a tarefa seja desempenhada eficazmente. Cada revisão, por exemplo, envolve várias etapas envolvendo o conteúdo (consistência), a organização do conteúdo (coesão) e o extenso terreno da linguística (a ortografia, a pontuação, com o envolvimento da sintaxe, concordâncias, estruturas morfológicas, escolhas lexicais e muito mais).
Além dessa complexidade, no entanto, é possível localizar outras fases que abrem portas para analogias. Chamamos estas fases de operações: a primeira é a detecção de problemas, realizada pela análise do texto a partir de cuidadosa releitura (exame); a segunda é a identificação das causas originárias dos problemas (diagnósticos); a terceira é a solução (interferência). A analogia é no campo da medicina: o que fazemos com o texto durante a revisão é como acontece quando vamos ao médico, porque temos um transtorno. Primeiro, o médico nos examina (faz uma análise aprofundada e encontra os problemas), em seguida, emite um diagnóstico (atribui um nome para o problema) e, em seguida, prescreve uma cura (que fornece uma estratégia para resolver o problema).
O revisor de textos como médico
Prosseguindo nessa comparação, o autor recorre ao “revisor-médico”, quando seu texto está pronto e deseja algum remédio para os problemas da “saúde textual”. O equívoco é maios ou menos equivalente ao das pessoas que não procuram os profissionais de saúde preventivamente, que não fazem o acompanhamento da gestação do texto com um “revisor-obstetra”, por exemplo, para, depois do “parto” (o texto concluído) correm ao pronto atendimento: como se houvesse revisores plantonistas para socorrer uma tese enorme em regime de trabalho contínuo, da noite para o dia. Mesmo a revisão resolutiva a posteriori requer tempo e tempo que não pode ser cortado ou compactado se prejuízo qualitativo. Revisores precisam de tempo: assim como o antibiótico precisa de tempo para controlar uma infecção.

A clínica da revisão de texto

As empresas de revisão de textos, pela mesma metáfora médica, podem ser comparadas a clínicas; tanto para o pronto atendimento ao texto que não teve acompanhamento profissional em sua produção quanto para socorro ou mesmo “internação” para tratamento. Quando o autor remete sua dissertação, por exemplo para a revisão, ela fica “internada” sob tratamento de um revisor ou de uma equipe deles. A maioria das empresas ou dos revisores só devolve o texto ao autor depois de todo revisado – como se não houvesse possibilidade de visitas ou acompanhamento durante o tratamento. A melhor revisão de textos, principalmente quando se trata de tese ou dissertação, permite o acompanhamento contínuo do trabalho, como visitas ao doente internado, possibilitando a aferição de critérios e conferindo maior tranquilidade ao autor, livre da ansiedade pelo andamento do trabalho e ciente dos procedimentos em curso.

O revisor especialista e o generalista

Há revisores especialistas e revisores generalistas, ainda como médicos. Uns revisam tradução, outros revisam publicidade, outros trabalham com literatura ou textos técnicos. Nada impede que os campos de atuação sejam superpostos, mas cada um tem mais trânsito em alguns tipos (gêneros) de texto. Há também revisores com maior prática em textos de determinada área de conhecimento. O importante é que o revisor profissional saberá se julgar em relação ao texto que está sendo submetido a ele, assim como o médico reconhece o problema de saúde que está fora de sua especialidade e encaminha a outro profissional.

Diagnóstico e invenção linguística

As três operações do processo de revisão (exame, diagnóstico, interferência) são igualmente importantes para o sucesso da revisão. Elas estão também intimamente relacionadas entre si: apenas o exame cuidadoso e detalhado pode levar a identificar os elementos necessários para um bom diagnóstico e a prescrição resultante de intervenção adequadas. A tarefa do revisor de textos será definir a cena de atuação, porque os métodos de trabalho aproveitam ao máximo todas as potencialidades do profissional: os hábitos mentais que ele desenvolveu e sua bagagem de conhecimentos linguísticos adquiridos. É absolutamente essencial que o processo tenha direção e foco no texto como produto e na linguagem escrita como mídia. Além disso, os autores devem entender a utilidade do trabalho do revisor; que ele seja convidado a colaborar desde o início da redação, ampliando sua utilidade e a utilidade dos outros, para aqueles que consultam e aqueles que recebem o serviço como destinatários finais, os leitores, o público-alvo. Dessa forma, o autor será capaz de reduzir (mas não eliminar) os problemas da estrutura central do texto que fica quase calcificada quando o texto já está concluído – possibilitando pouca possibilidade de intervenção, principalmente em tempo reduzido. Do ponto de vista linguístico, a vantagem da revisão associada (em ciclos de feedback entre autor e revisor) reside principalmente no fato de que, trabalhando sobre o mesmo texto, produzido em concomitância de operações de criação e controle, minoram os problemas de fundo ou emergentes mais corriqueiros. Além disso, a discussão, favorece diagnóstico e valoriza a intervenção, reduzindo os traumas de autoria. Os momentos de comparação e discussão tornam-se o processo do qual o reflexo metalinguístico se favorece. A revisão deixa um momento para integrar a invenção (as escolhas linguísticas), superando primeiro a insistência da criatividade resultante em erros, o que um revisor qualificado deve ser capaz de aproveitar interferindo no plano de trabalho. É aqui que o revisor deve intervir para conter a exuberância e o entusiasmo do autor, lembrando-lhes a importância de fornecer informações úteis e não apenas texto pelo texto.

Cuidados do revisor: a importância da calibragem das intervenções

As intervenções propostas pelo revisor são o recurso decisivo para uma intervenção gradual, para resolver os problemas mais óbvios primeiro e então lidar com todos os outros, em uma série de tratamentos de intensidade progressiva (por exemplo, a partir da soletração, chegar a um léxico de tempo, ou sintaxe, mais tarde, e assim por diante). Há diversos graus de intervenção – ou propostas interventivas – que podem ser identificados no trabalho do revisor; algumas intervenções são mecânicas e resolutivas (e.g. colocar uma letra que falte em um vocábulo conhecido), outras são propostas ou solicitações de esclarecimentos ou clareamento de ideias que se requerem dos autores.

Operações de revisão não são cirurgias

Concluindo, revisão não é uma cirurgia para amputar segmentos indesejáveis ou suturar frases desconexas – embora essas intervenções sejam inerentes ao serviço. A saúde do texto é tão mais satisfatória quando nele houver ciência e consciência dos processos criativo, composicional e normativo direcionados os três em benefício da comunicação.